Obra patrística
Apologia
Tertuliano · c. 160–225
Capítulo I–Capítulo XXI
Capítulo I
I. Apologia.
[Traduzido pelo Rev. S. Thelwall, Antigo Membro do Christ's College, Cantab.]
A Apologia.
Capítulo I.
Vós, Governantes do Império Romano, se, sentados para a administração da justiça em vosso alto tribunal, sob o olhar de todos os olhos, e ocupando ali quase a mais elevada posição no Estado, não podeis inquirir abertamente e examinar perante o mundo a verdade real acerca das acusações feitas contra os cristãos; se neste caso somente temeis ou vos envergonhais de exercer vossa autoridade fazendo inquirição pública com o cuidado que convém à justiça; se, finalmente, as extremas severidades infligidas a nosso povo em juízos privados recentemente impedem que nos seja permitido defender-nos perante vós, decerto não podeis proibir que a Verdade chegue a vossos ouvidos pelo caminho secreto de um livro silencioso. Ela não apela para vós acerca de sua condição, pois que isso não lhe causa admiração. Sabe que é apenas uma peregrina na terra, e que entre estranhos naturalmente encontra inimigos; e, mais que isso, que a sua origem, sua morada, sua esperança, sua recompensa, suas honras, estão no alto. Uma coisa, entretanto, ela ansiosamente deseja dos governantes terrestres — não ser condenada sem ser ouvida. Que dano pode causar às leis, supremas em seu domínio, que lhe concedam audiência? Sim, por essa parte, não será a sua supremacia absoluta mais conspicua ao condená-la, mesmo depois de haver ela apresentado sua defesa? Mas se, sem ser ouvida, é proferida sentença contra ela, além da odiosidade de um ato injusto, incorrereis na merecida suspeita de fazê-lo com alguma ideia de que é injusto, como não desejando ouvir o que talvez não possais ouvir e condenar. Isto vos apresentamos como o primeiro fundamento pelo qual urgimos que vosso ódio ao nome de cristão é injusto. E a própria razão que parece escusar esta injustiça (quero dizer, a ignorância) ao mesmo tempo a agrava e a convence. Pois o que há mais injusto do que odiar uma coisa da qual nada sabeis, ainda que ela mereça ser odiada? O ódio só é merecido quando se sabe que é merecido. Mas sem esse conhecimento, donde se justificará a sua justiça? Pois isto há de ser provado, não pelo mero fato de existir uma aversão, mas pelo conhecimento do assunto. Quando os homens, então, cedem a uma desafeição simplesmente porque ignoram totalmente a natureza da coisa desagradável, por que não poderia ser precisamente a própria espécie de coisa que não deveriam desgostar? Assim, sustentamos que eles são ignorantes enquanto nos odeiam, e nos odeiam injustamente enquanto persistem na ignorância, sendo uma coisa o resultado da outra, de qualquer modo que se considere. A prova de sua ignorância, ao mesmo tempo condenando e escusando sua injustiça, é esta: que aqueles que outrora odiavam o Cristianismo porque nada sabiam dele, tão logo chegam a conhecê-lo, todos depõem imediatamente a inimizade. De seus odiadores tornam-se seus discípulos. Simplesmente ao tomar conhecimento dele, começam agora a odiar o que antes eram, e a professar o que antes odiavam; e o seu número é tão grande quanto nos é imputado. O clamor é que o Estado está cheio de cristãos — que estão nos campos, nas cidadelas, nas ilhas: lamentam-se, como por alguma calamidade, que ambos os sexos, toda idade e condição, mesmo altas posições, estejam passando para a profissão da fé cristã; e, no entanto, por tudo isso, suas mentes não são despertadas para o pensamento de algum bem que deixaram de notar nela. Não permitem que qualquer suspeita mais verdadeira lhes cruze a mente; não têm desejo de fazer mais próxima experiência. Somente aqui a curiosidade da natureza humana adormece. Gostam de ser ignorantes, embora para outros o conhecimento tenha sido bem-aventurado. Anacharsis repreendia os rudes que ousavam criticar os cultos; quanto mais este julgar aqueles que sabem, por homens que são inteiramente ignorantes, teria ele denunciado! Porque já desgostam, não querem saber mais. Assim, pré-julgam que aquilo que ignoram é tal que, se viessem a conhecê-lo, já não poderia ser objeto de sua aversão; pois, se a inquirição nada acha digno de desagrado, certamente é próprio cessar uma injusta aversão, enquanto, se seu mau caráter se manifesta claramente, em vez de a detestação que se tem por ela ser assim diminuída, obtém-se uma razão mais forte para perseverar nessa detestação, até mesmo sob a autoridade da própria justiça. Mas, dirá alguém, uma coisa não é boa somente porque multidões a ela aderem; pois quantos têm a inclinação de sua natureza para o que quer que seja mau! quantos se desviam para caminhos de erro! É indubitável. Contudo, uma coisa que é completamente má, nem mesmo aqueles a quem ela arrasta ousam defendê-la como boa. A natureza lança um véu, seja de medo ou de vergonha, sobre todo o mal. Por exemplo, achais que os criminosos são ávidos de se ocultar, evitam aparecer em público, estão em trepidação quando são apanhados, negam sua culpa quando são acusados; mesmo quando são postos a tormento, não confessam fácil ou sempre; quando não há dúvida sobre sua condenação, se entristecem pelo que fizeram. Em suas meditações íntimas, admitem ter sido impelidos por disposições pecaminosas, mas lançam a culpa seja no destino, seja nos astros. Não querem reconhecer que a coisa é sua, porque reconhecem que é má. Mas o que há de semelhante nisto no caso do cristão? A única vergonha ou pesar que ele sente é por não ter sido cristão mais cedo. Se é apontado, gloria-se; se é acusado, não oferece defesa; interrogado, faz confissão voluntária; condenado, dá graças. Que espécie de coisa má é esta, que carece de todas as peculiaridades ordinárias do mal — medo, vergonha, subterfúgio, penitência, lamento? Como! é um crime aquele em que o criminoso se regozija? ser acusado do qual é seu ardente desejo, ser punido pelo qual é sua felicidade? Não podeis chamar-lhe loucura, vós que estais convictos de nada saberdes do assunto.
Capítulo III
Que havemos de pensar disto: que a maior parte dos homens tão cegamente bata a cabeça contra o ódio do nome cristão; que quando prestam favorável testemunho de alguém, mesclam com isso vitupério do nome que ele leva? "Um homem bom," diz um, "é Gaio Sejo, senão que é cristão." Assim outro: "Maravilho-me de que um homem sábio como Lúcio tenha subitamente-se tornado cristão." Ninguém pensa ser necessário considerar se porventura Gaio não é bom e Lúcio sábio por esta mesma razão de ser cristão; ou cristão pela razão de ser sábio e bom. Louvam o que conhecem, vituperam o que desconhecem, e mesclam seu conhecimento com sua ignorância; quando em eqüidade deveríeis antes julgar o desconhecido pelo conhecido, do que o conhecido pelo desconhecido. Outros, nos casos de pessoas que antes de tomarem o nome de cristão conheciam por dissolutos, vils e perversos, põem-lhes um estigma daquilo mesmo que louvam. Na cegueira de seu ódio, colidem contra seu próprio juízo aprovador! "Que mulher era ela! quão dissoluta! quão licenciosa! Que jovem era ele! quão libertino! quão lascivo!—tornaram-se cristãos!" Assim o nome odiado é dado a uma reforma de caráter. Alguns até comerciam seus confortos por esse ódio, contentes de suportarem injúria, se forem conservados livres em casa do objeto de sua amarga inimizade. A esposa, agora casta, o marido, agora já sem ciúmes, a expulsa de sua casa; o filho, agora obediente, o pai, que antes era tão paciente, o desherda; o servo, agora fiel, o senhor, outrora tão manso, o manda da sua presença; é grande ofensa para qualquer que seja reformado pelo nome detestado. A bondade tem menos valor do que o ódio aos cristãos. Pois bem, se há este desgosto do nome, que culpa podeis atribuir aos nomes? Que acusação podeis trazer contra meras denominações, senão que algo na palavra soa ou bárbaro, ou azarento, ou escarnecedor, ou obsceno? Mas Cristão, até onde ao significado da palavra concerne, é derivado da unção. Sim, e ainda quando vós o pronunciais erroneamente "Crestiano" (pois nem sequer conheceis acuradamente o nome que odiáis), provém da doçura e benignidade. Odiáis, portanto, no inocente, até um nome inocente. Mas o fundamento especial do desgosto à seita é que ela leva o nome de seu Fundador. Há algo de novo em que uma seita religiosa tome para seus seguidores uma designação de seu mestre? Não são os filósofos chamados pelos nomes dos fundadores de seus sistemas—Platônicos, Epicuristas, Pitagóricos? Não são os Estoicos e Acadêmicos assim chamados também pelos lugares em que se congregavam e se estabeleciam? e não são os médicos nomeados de Erasístrato, os gramáticos de Aristarco, e até os cozinheiros de Apício? E contudo o fato de levarem o nome, transmitido do instituidor original com tudo quanto ele instituiu, a ninguém ofende. Sem dúvida, se fosse provado que a seita é má, e assim também seu fundador mau, isso provaria que o nome é mau e merece nossa aversão, no tocante ao caráter tanto da seita como de seu autor. Antes, portanto, de abraçardes um desgosto ao nome, vos cumpria considerar a seita no autor, ou o autor na seita. Mas agora, sem exame algum e conhecimento de qualquer um deles, o mero nome é feito matéria de acusação, o mero nome é atacado, e um som só traz condenação sobre uma seita e seu autor ambos, enquanto de ambos sois ignorantes, porque têm tal e tal designação, não porque foram convictos de coisa alguma errada.
Capítulo VII
Monstros de maldade, somos acusados de celebrar um rito sagrado no qual matamos uma pequena criança e depois a comemos; no qual, após o festim, praticamos incesto, enquanto os cães—nossos alcoviteiros, verdadeiramente—derrubam as luzes e nos proporcionam a desonestidade da escuridão para nossos desejos ímpios. Isto é o que continuamente nos é imputado, e contudo não vos dais pena alguma em indagar a verdade daquilo de que há tanto tempo somos acusados. Ou trazei, pois, a matéria à luz do dia se o credes, ou não lhe deis crédito por nunca haverdes inquirido acerca disso. Pela vossa duplicidade, estamos habilitados a vos estabelecer que não há realidade naquilo que não ousais investigar. Impondes ao executor, no caso dos cristãos, um dever inteiramente contrário à investigação: não é para vos fazer confessar o que fazem, mas para vos fazer negar o que são. Datamos a origem de nossa religião, como já mencionamos, do reinado de Tibério. A verdade e o ódio da verdade vêm ao nosso mundo juntamente. Assim que a verdade aparece, é considerada como inimiga. Tem tantos inimigos quantos são os estranhos a ela: os Judeus, como era de se esperar, por espírito de rivalidade; os soldados, por desejo de extorquir dinheiro; nossos próprios domésticos, pela sua natureza. Somos diariamente cercados por inimigos, somos diariamente traídos; somos muitas vezes surpreendidos em nossas reuniões e congregações. Quem porventura topou com um infante chorando, segundo a história comum? Quem guardou para o juiz, exatamente como o encontrou, as bocas sangrentas dos Ciclopes e Sereias? Quem encontrou traço algum de impureza em suas esposas? Onde está o homem que, quando tivesse descoberto tais atrocidades, as encobrisse; ou, no ato de arrastar os culpados perante o juiz, fosse subornado ao silêncio? Se sempre guardamos nossos segredos, quando foram nossos procedimentos tornados conhecidos do mundo? Não, por quem poderiam ser tornados conhecidos? Não, certamente, pelos próprios culpados; mesmo pela simples ideia da coisa, a fidelidade do silêncio sendo sempre devida aos mistérios. Os Samotrácios e os Elêusios nenhuma revelação fazem—quanto mais se guardará silêncio a respeito daqueles que, em seu desvelamento, hão de trazer castigo do homem de uma vez, enquanto a ira divina se guarda para o futuro? Se, pois, os cristãos não são eles mesmos os publicadores de seu crime, segue-se, naturalmente, que deve ser por estrangeiros. E donde têm eles seu conhecimento, quando é também costume universal nas iniciações religiosas manter os profanos afastados, e tomar cuidado com testemunhas, senão porque aqueles que são tão maus têm menos temor que seus vizinhos? Todos sabem que sorte de coisa é a rumor. É um dos vossos ditos que "entre todos os males, nenhum voa tão depressa quanto a rumor." Por que a rumor é coisa tão má? É porque é veloz? É porque carrega informação? Ou é porque é no mais alto grau mendaz?—uma coisa que, nem mesmo quando nos traz alguma verdade, sem mancha de falsidade, sem deter, ou acrescentar, ou mudar do fato simples? Não; mais ainda, é a própria lei de seu ser continuar somente enquanto mente, e viver apenas enquanto não há prova; pois quando a prova é dada, ela cessa de existir; e, tendo feito seu trabalho de meramente espalhar um boato, entrega um fato, e desde então é considerada um fato, e chamada um fato. E então ninguém diz, por exemplo, "Dizem que ocorreu em Roma," ou, "Há rumor de que ele obteve uma província," mas, "Ele obteve uma província," e, "Ocorreu em Roma." A rumor, a própria designação da incerteza, não tem lugar quando uma coisa é certa. Algum senão um tolo coloca sua confiança nela? Pois um homem sábio nunca crê no duvidoso. Todos sabem, porém zealosamente seja espalhado, sobre quem quer que repouso de afirmação, que alguma vez ou outra de alguma fonte única tem sua origem. Daí deve rastejar para línguas propagadoras e ouvidos; e uma pequena mancha seminal assim obscurece o resto todo da história, que ninguém pode determinar se os lábios, de onde primeiro saiu, plantaram a semente da falsidade, como frequentemente acontece, por espírito de oposição, ou de julgamento suspeitoso, ou de um deleite confirmado, aliás, no caso de alguns, inato, em mentir. É bem que o tempo leve tudo à luz, como vossos provérbios e ditos testificam, por uma provisão da Natureza, que assim designou as coisas que nada por longo tempo fica oculto, ainda que a rumor não o haja disseminado. É justo, pois, assim como deveria ser, que a fama por tão longo período tenha sido sozinha ciente dos crimes dos cristãos. Esta é a testemunha que trazeis contra nós—uma que nunca foi capaz de provar a acusação que alguma vez enviou, e por fim pela mera continuação fez em opinião fixa no mundo; de sorte que confidentemente apelo à própria Natureza, sempre verdadeira, contra aqueles que sem fundamento sustentam que tais coisas devem ser acreditadas.