Obra patrística
Às Nações
Tertuliano · c. 160–225
The Hatred Felt by the Heathen Against the Christians is Unjust, Because Based on Culpable Ignorance.–The Absurd Cavil of the Ass's Head Disposed of.
O ódio sentido pelos pagãos contra os cristãos é injusto, porque se baseia na ignorância culpável.
Uma prova dessa vossa ignorância, que condena ao mesmo tempo que desculpa a vossa injustiça, logo se manifesta no fato de que todos aqueles que outrora compartilhavam da vossa ignorância e ódio (contra a religião cristã), assim que a conheceram, cessam o seu ódio quando deixam de ser ignorantes; mais ainda, eles mesmos se tornam o que haviam odiado, e passam a odiar o que outrora foram. Dia após dia, na verdade, vós suspirais pelo crescente número de cristãos. Vosso constante clamor é que o estado está sitiado (por nós); que os cristãos estão em vossos campos, em vossos acampamentos, em vossas ilhas. Lamentais como uma calamidade que cada sexo, toda idade — em suma, toda classe — esteja passando de vós para nós; contudo, nem mesmo depois disso vos aplicais a refletir se não há aqui algum bem oculto. Não vos permitis suspeitas que possam ser demasiado verdadeiras, nem gostais de aventuras que possam ser demasiado próximas do alvo. Este é o único caso em que a curiosidade humana se torna letárgica. Amai ignorar aquilo que outros homens se alegram por ter descoberto; antes preferis não saber, porque agora acarinhais vosso ódio como se estivésseis cientes de que, com o conhecimento, vosso ódio certamente chegaria ao fim. Contudo, se não houver justo motivo para o ódio, certamente será considerado o melhor caminho cessar a passada injustiça. Se, porém, uma causa realmente existiu, não haverá diminuição do ódio, que na verdade se acumulará tanto mais na consciência de sua justiça; a menos que, é verdade, vos envergonheis de abandonar vossos erros, ou vos pese de vos livrar da culpa. Sei muito bem com que resposta costumais encontrar o argumento de nosso rápido aumento. Dizeis que não se deve apressadamente considerar bom aquilo que converte grande número de pessoas e as atrai para seu lado. Sei como a mente é propensa a tomar maus caminhos. Quantos há que abandonam a vida virtuosa! Quantos buscam refúgio no oposto! Muitos, sem dúvida; sim, muitos, à medida que os últimos dias se aproximam. Mas uma comparação como esta falha em justiça de aplicação; pois todos concordam em pensar assim do malfeitor, de modo que nem mesmo os próprios culpados, que tomam o partido errado e se afastam da busca do bem para caminhos perversos, são ousados o bastante para defender o mal como bem. As coisas vis excitam seu medo, as ímpias sua vergonha. Em suma, anseiam pelo ocultamento, fogem da publicidade, tremem quando apanhados; quando acusados, negam; mesmo quando torturados, não confessam fácil ou invariavelmente (seu crime); de qualquer modo, lamentam quando são condenados. Repreendem-se a si mesmos por sua vida passada; sua mudança da inocência para uma má disposição atribuem até ao destino. Não podem dizer que não é uma coisa errada, portanto não admitirão que é ato seu. Quanto aos cristãos, porém, em que seu caso se assemelha a isso? Ninguém se envergonha; ninguém se arrepende, exceto de seus pecados passados. Se é apontado (por sua religião), gloria-se nisso; se arrastado a julgamento, não resiste; se acusado, não se defende. Quando interrogado, confessa; quando condenado, regozija-se. Que espécie de mal é este, em que a natureza do mal se detém?
Os pagãos perverteram o julgamento dos cristãos. Seriam mais coerentes se dispensassem toda forma de julgamento. Tertuliano insiste nisto com muita indignação.
Neste caso, vós na verdade conduzis os processos de modo contrário à forma habitual do procedimento judicial contra criminosos; pois, quando os réus são apresentados a julgamento, se negam a acusação, vós os pressionais pela confissão mediante tormentos. Quando, porém, os cristãos confessam sem coação, aplicais o tormento para induzi-los a negar. Que grande perversidade é esta, quando vos opondes à confissão e mudais o uso do tormento, compelindo o homem que reconhece francamente a acusação a esquivar-se dela, e aquele que não está disposto a negá-la? Vós, que presidis com o fim de extrair a verdade, exigis de nós tão-somente a mentira, para que declaremos não ser o que somos. Suponho que não quereis que sejamos maus, e por isso desejais ardentemente excluir-nos desse caráter. Certamente, vós submeteis outros ao cavalete e ao patíbulo para fazê-los negar aquilo de que têm fama de ser. Ora, quando eles negam (a acusação contra eles), não lhes dais crédito; mas, em nossa negação, instantaneamente nos credes. Se estais certos de que somos os mais perniciosos dos homens, por que, mesmo nos processos contra nós, somos tratados por vós de modo diferente dos outros ofensores? Não quero dizer que não façais caso algum de uma acusação ou de uma negação (pois não é vosso costume condenar homens levianamente sem uma denúncia e uma defesa); mas, para dar um exemplo, no julgamento de um assassino, o caso não se encerra de imediato, nem a investigação se satisfaz, com o fato de um homem confessar-se homicida. Por mais completa que seja sua confissão, vós não o credes facilmente; mas, além disso, investigais as circunstâncias acessórias — quantas vezes teria cometido homicídio; com que armas, em que lugar, com que espólio, cúmplices e instigadores após o fato (foi o crime perpetrado) — para que nada a respeito do criminoso escapasse à detecção, e que todos os meios estivessem à mão para se chegar a um veredito verdadeiro. Em nosso caso, ao contrário, a nós que credes réus de crimes mais atrozes e numerosos, formulais vossas acusações em termos mais breves e leves. Suponho que não vos importais de sobrecarregar com acusações aqueles de quem ardentemente desejais livrar-vos, ou então não considerais necessário investigar matérias que já vos são conhecidas. É, contudo, tanto mais perverso que nos forceis a negar acusações sobre as quais tendes a mais clara evidência. Mas, na verdade, quão mais coerente seria com vosso ódio contra nós dispensar todas as formas de processo judicial e esforçar-vos com todas as vossas forças não para nos instar a dizer “não”, e assim ter que absolver os objetos de vosso ódio; mas para confessar todos e cada um dos crimes imputados a nós, para que vossos ressentimentos fossem melhor saciados com uma acumulação de nossos castigos, quando se soubesse quantas daquelas ceias cada um de nós poderia ter celebrado, e quantos incestos teríamos cometido sob o manto da noite! Que digo? Visto que vossas pesquisas para extirpar nossa sociedade devem necessariamente ser feitas em larga escala, deveríeis estender vossa investigação contra nossos amigos e companheiros. Sejam trazidos à luz nossos infanticídios e os cozinheiros (de nossas horríveis refeições) — sim, e os próprios cães que ministram a nossas (incestuosas) núpcias; então o negócio (de nosso julgamento) seria sem falha. Até mesmo às multidões que acorrem aos espetáculos seria dado um sabor; pois com quanto maior avidez acorreriam ao teatro, quando alguém tivesse de lutar na arena que houvera devorado cem bebês! Pois, já que tais crimes horríveis e monstruosos são relatados de nós, deveriam, é claro, ser trazidos à luz, para que não parecessem incríveis, e a detestação pública de nós começasse a esfriar. Pois a maioria das pessoas é lenta em acreditar tais coisas, sentindo um horroroso asco ao supor que nossa natureza pudesse ter apetite pelo alimento das feras, quando ela excluiu estas de toda concubinagem com a raça humana.
A grande ofensa dos cristãos reside em seu próprio nome. O nome justificado.
Porquanto, vós, que noutros casos sois diligentíssimos e perseverantes em investigar acusações de muito menor importância, abandonais o vosso cuidado em causas como as nossas, tão horríveis e de tão excessivo pecado, que a impiedade é palavra demasiado branda para as descrever, recusando ouvir a confissão, que sempre deveria ser processo importante para os que conduzem juízos; e deixando de fazer inquirição cabal, que deveria ser empreendida por aqueles que demandam uma condenação, torna-se evidente que o crime imputado a nós não consiste em qualquer conduta pecaminosa, mas jaz inteiramente no nosso nome. Se, na verdade, quaisquer crimes reais fossem claramente alegáveis contra nós, os seus próprios nomes nos condenariam, se achados aplicáveis, de modo que sentenças distintas seriam pronunciadas contra nós desta maneira: Seja levado à execução aquele homicida, ou aquele criminoso incestuoso, ou o que quer que seja de que somos acusados, seja crucificado, ou lançado às feras. As vossas sentenças, contudo, importam apenas que alguém confessou ser cristão. Nenhum nome de crime está contra nós, senão o crime de um nome. Ora, isto, na verdade, não é nem mais nem menos do que todo o ódio que se sente contra nós. O nome é a causa: alguma força misteriosa, intensificada pela vossa ignorância, o assalta, de modo que não quereis saber com certeza aquilo que, com certeza, sabeis nada saber; e portanto, além disso, não acreditais em coisas que não são submetidas a prova, e, para que não sejam facilmente refutadas, recusais fazer inquirição, de modo que o nome odioso é punido sob a presunção de crimes reais. A fim de, portanto, que a questão seja retirada do nome ofensivo, somos compelidos a negá-lo; então, com a nossa negação, somos absolvidos, com inteira remissão do passado: já não somos homicidas, já não somos incestuosos, porque perdemos aquele nome. Mas, posto que este ponto é tratado em lugar próprio, dizei-nos claramente por que perseguis este nome até à extirpação? Que crime, que ofensa, que culpa há num nome? Pois sois barrados pela regra que vos tira o poder de alegar crimes de qualquer homem, que nenhuma ação judicial suscita, nenhuma acusação especifica, nenhuma sentença enumera. Em qualquer causa submetida ao juiz, inquirida contra o réu, por ele respondida ou negada, e citada do tribunal, reconheço uma acusação legal. Acerca, pois, do mérito de um nome, qualquer que seja a ofensa de que os nomes possam ser acusados, qualquer que seja a acusação a que as palavras possam estar sujeitas, eu, por minha parte, penso que nem mesmo uma queixa é devida a uma palavra ou a um nome, a menos que, na verdade, tenha som bárbaro, ou cheire a má sorte, ou seja imodesto, ou indecoroso para quem fala, ou desagradável para quem ouve. Estes crimes em meras palavras e nomes são como palavras e frases bárbaras, que têm o seu defeito, e o seu solecismo, e a sua absurdidade de figura. O nome cristão, contudo, quanto ao seu significado, traz o sentido de unção. Mesmo quando, por pronúncia defeituosa, nos chamais "Crestãos" (pois não estais certos sequer do som deste nome célebre), na verdade balbuciais o sentido de suavidade e bondade. Estais, portanto, a vilipendiar em homens inofensivos até mesmo o nome inofensivo que trazemos, que não é inconveniente para a língua, nem áspero para o ouvido, nem injurioso para ninguém, nem rude para a nossa pátria, sendo uma boa palavra grega, como muitas outras, e agradável no som e no sentido. Na verdade, na verdade, os nomes não são coisas que mereçam punição pela espada, ou pela cruz, ou pelas feras.