Padres e clássicosTertuliano, Cinco Livros contra Marcião, Introductory Notes.

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Obra patrística

Cinco Livros contra Marcião

Tertuliano · c. 160–225

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Introductory Notes.–Not Enough, as the Marcionites Pretend, that the Supreme God Should Rescue Man; He Must Also Have Created Him. The Existence of God Proved by His Creation, a Prior Consideration to His Character.

Notas Introdutórias.

II.

Os Cinco Livros Contra Marcião.

[Traduzidos pelo Dr. Holmes.]

Notas Introdutórias.

Dedicatória.

Ao Reverendíssimo Senhor Bispo de Chester.

Meu caro Senhor, Sinto-me grato por terdes-me permitido dedicar este volume a vós. É fruto de algum lazer laborioso de dois anos.  A toda homem sua ocupação concede alguns λείψανα χρόνου; e há trinta anos vós me ensinastes, em Oxford, como aproveitar estas oportunidades nos estudos aprazíveis da Ciência Bíblica e Teológica.  Por isso e por muitas outras gentilezas não posso deixar de ser grato a vós.

Mas, além deste motivo particular, tenho no vosso próprio curso passado um incentivo adicional para recorrer a vós nesta ocasião. Vós, até há pouco, presidistes aos estudos teológicos da nossa grande Universidade; e destes grande encorajamento à literatura patrística com a vossa excelente edição dos Padres Apostólicos. A quem poderia eu mais condignamente apresentar este humilde esforço para tornar mais geralmente conhecidos os grandes méritos de talvez a maior obra do primeiro dos Padres Latinos senão a vós?

Fico, com muito respeito, Meu caro Senhor, Mui fielmente vosso, Pedro Holmes.

Mannamead, Plymouth, Março de 1868.

Prefácio do Tradutor.

O leitor tem, neste volume, uma tradução (tentada pela primeira vez em inglês) da maior das obras existentes dos primeiros Padres Latinos.  Os escritos mais importantes de Tertuliano sempre foram altamente estimados na Igreja, embora, como era natural pelo seu caráter variado, por diferentes razões. Assim, os seus dois tratados mais conhecidos, A Apologia e A Prescrição contra os Hereges, têm dividido entre si há mais de dezesseis séculos a admiração de todos os leitores inteligentes,—um pela sua magistral defesa da religião cristã contra os seus perseguidores pagãos, e o outro pela sua lúcida vindicação da regra de fé da Igreja contra os seus assaltantes heréticos. A presente obra tem iguais direitos à apreciação do leitor, no que respeita àquelas qualidades de pensamento vigoroso, raciocínio cerrado, expressão concisa e propósito sério, vivificados por chiste cintilante e eloqüência apaixonada, que sempre asseguraram a Tertuliano, a despeito de muitos inconvenientes, a estima que se concede a um grande e favorito autor. Se estes livros contra Marcião têm recebido, como de fato se deve admitir que receberam, menos atenção do leitor comum do que o seu mérito intrínseco merece, a negligência se deve principalmente ao fato de que o caráter interessante do seu conteúdo é ocultado pela página de título usual, que aponta apenas para uma heresia suposta extinta e inaplicável, seja nos materiais da sua defesa ou confutação, a quaisquer circunstâncias modernas. Mas muitos tratados de grandes autores, que sobreviveram à sua ocasião literal, retêm um valor dos seus argumentos colaterais, que não é inferior ao efetuado pelo seu assunto primário. Tal é o caso com a obra que temos diante de nós. Se o marcionismo está, na letra, obsoleto, resta ainda o seu espírito na Igreja, que de mais de uma maneira desenvolve as suas antigas características. O que estas eram, o leitor em breve descobrirá neste volume; mas pode-se fazer referência mesmo aqui, de passagem, àquele propósito proeminente da heresia que deu a Tertuliano a sua oportunidade de provar a coerência essencial do Antigo e do Novo Testamentos, e de exibir tanto o seu grande conhecimento dos pormenores da Santa Escritura, como a sua fina inteligência da natureza progressiva da revelação de Deus como um todo. Isto constitui o encanto do presente volume, que quase se poderia designar como um Tratado sobre a Conexão entre as Escrituras Judaicas e Cristãs. Quão interessante este assunto é aos homens sérios da presente idade, prova-se pelo tratamento freqüente dele na nossa literatura religiosa. A fim de auxiliar o leitor a um uso mais eficaz deste volume, no que se refere à sua copiosidade de ilustração das Escrituras, foi elaborado um Índice completo das Passagens Bíblicas. Crê-se que outro resultado satisfatório acompanhará a leitura deste volume, na evidência que ele oferece da venerável catolicidade daquele sistema de verdade bíblica e dogmática que constitui a crença do que se chama o cristão “ortodoxo” dos dias de hoje. A ortodoxia tem sido impugnada ultimamente, como se tivesse sofrido muita deterioração na sua transmissão a nós; e uma escola avançada de pensadores tem exigido a sua reforma por uma manipulação que chamaram “livre manejo”. A tais leitores, então, que prezam o depósito do credo cristão que receberam, à luz da descrição de São Judas, como “a fé que uma vez foi entregue aos santos”, não pode deixar de ser satisfatório poder traçar em Tertuliano, escrevendo há mais de dezesseis séculos, os contornos das suas próprias convicções acarinhadas— mantidas por alguém que não pode ser acusado de uma obseqüiosidade demasiada à autoridade tradicional, e que ao mesmo tempo possuía honestidade, seriedade e inteligência bastantes para torná-lo uma testemunha insuspeita de fatos de tal natureza. O tradutor acrescentaria apenas que, em conformidade com o sábio cânone estabelecido pelos editores desta série, se esforçou sempre por apresentar ao leitor o sentido do autor em inglês legível, mantendo-se tão próximo quanto as regras idiomáticas permitiam ao sentido e mesmo ao estilo do original. Entre as muitas dificuldades bem conhecidas dos escritos de Tertuliano (e o seu Anti-Marcion não está isento de nenhuma destas dificuldades), o tradutor não pode esperar ter realizado o seu trabalho sem erros, pelos quais pediria a indulgência do leitor. Esforçou-se, contudo, por obviar ao inconveniente de uma tradução defeituosa, citando em notas de rodapé todas as palavras, frases e passagens que lhe pareceram difíceis. Acrescentou também as notas que pareceram necessárias para ilustrar o argumento do autor, ou para explicar quaisquer alusões obscuras. A tradução foi feita sempre a partir da edição de Oehler, com o auxílio do seu erudito Index Verborum. Fez-se uso também da edição de Semler, e da reimpressão variorum do Abade Migne, cujo principal resultado desta recensão foi convencer o tradutor da grande superioridade e excelência geral da edição de Oehler. Quando havia completado dois terços do seu trabalho, aconteceu-lhe encontrar a tradução francesa de Tertuliano pelo Sr. Denain, na série de Genoude, Les Pères de l’Eglise, publicada há cerca de vinte e cinco anos. Esta versão, que corre sempre em linguagem fluente, é muito desigual na sua relação com o original: ora tem a brevidade de um resumo, ora a plenitude de uma paráfrase. Muitas vezes perde o ponto do autor, e nunca conserva o seu estilo. O Abade Migne descreve-a corretamente: “Elegans potius quam fidissimus interpres, qui Africanæ loquelæ asperitatem splendenti ornavit sermone, egregiaque interdum et ad vivum expressa interpretatione recreavit.”

Prefácio. Razão para uma nova obra. O Ponto empresta seu caráter rude ao herege Marcião, natural daquela região. Sua heresia caracterizada numa breve invectiva.

II.

Os Cinco Livros contra Marcião.

Livro I.

Onde se descreve o deus de Marcião. Mostra-se que ele é completamente carente de todos os atributos do verdadeiro Deus.

Capítulo I.—Prefácio. Razão para uma nova obra. O Ponto comunica seu caráter rude ao herético Marcião, natural daquela região. Sua heresia caracterizada em uma breve invectiva.

Tudo quanto outrora empreendemos contra Marcião, desde o presente momento já não deve ser considerado. É uma obra nova que estamos a empreender em lugar da antiga. Meu primeiro opúsculo, como composto com demasiada pressa, foi posteriormente substituído por um tratado mais completo. Este último perdi, antes de estar completamente publicado, por fraude de uma pessoa que então era irmão, mas depois se tornou apóstata. Ele, por acaso, havia transcrito uma parte dele, cheia de erros, e depois a publicou. Surgiu assim a necessidade de uma obra corrigida; e a ocasião da nova edição induziu-me a fazer um acréscimo considerável ao tratado. Este presente texto, portanto, da minha obra—o qual é o terceiro como substituto do segundo, mas daqui em diante será considerado o primeiro em vez do terceiro—torna necessário um prefácio a esta edição do próprio tratado, a fim de que nenhum leitor fique perplexo, se acaso vier a deparar-se com as diversas formas dele que andam dispersas.

O Mar Euxino, como é chamado, é contraditório em sua natureza e enganoso em seu nome. Assim como não o consideraríeis hospitaleiro por sua situação, assim está ele separado das nossas águas mais civilizadas por certo estigma que se lhe apega ao bárbaro caráter. As mais ferozes nações o habitam, se é que se pode chamar habitação a uma vida passada em carroças. Não têm morada fixa; sua vida não possui germe de civilização; entregam-se aos seus desejos libidinosos sem refreio, e na maior parte das vezes nus. Além disso, quando satisfazem um secreto desejo, penduram suas aljavas nos jugos dos carros, para advertir o observador curioso e temerário. Assim, sem pejo, prostituem os seus instrumentos de guerra. Os corpos mortos de seus pais cortam com as ovelhas e os devoram em seus banquetes. Aqueles que não morreram de modo a servir de alimento a outros, são tidos por terem morrido de morte maldita. Suas mulheres não são pelo sexo abrandadas à modéstia. Descobrem o seio, do qual penduram os seus machados de guerra, e preferem a guerra ao matrimônio. Em seu clima também há a mesma rude natureza. O dia nunca é claro, o sol nunca é alegre; o céu é uniformemente nublado; todo o ano é invernoso; o único vento que sopra é o irado Norte. As águas só se derretem pelo fogo; seus rios não correm por causa do gelo; suas montanhas estão cobertas de montes de neve. Todas as coisas são entorpecidas, todas rijas de frio. Nada ali tem o ardor da vida, senão aquela ferocidade que forneceu às peças cênicas as suas histórias dos sacrifícios dos Táurios, e dos amores dos Cólquios, e dos tormentos do Cáucaso. Nada, porém, no Ponto é tão bárbaro e triste como o fato de que Marcião nasceu ali, mais torpe do que qualquer Cita, mais errante do que a vida em carroças do Sármata, mais desumano do que o Massageta, mais audaz do que uma Amazona, mais escuro do que a nuvem (do Ponto), mais frio do que seu inverno, mais frágil do que seu gelo, mais enganoso do que o Íster, mais escabroso do que o Cáucaso. Mais ainda, o verdadeiro Prometeu, Deus Todo-Poderoso, é despedaçado pelas blasfêmias de Marcião. Marcião é mais selvagem até do que as feras daquela bárbara região. Pois que castor foi jamais maior castrador do que aquele que aboliu o vínculo nupcial? Que rato pôntico teve jamais tais poderes roedores como aquele que roeu os Evangelhos em pedaços? Na verdade, ó Euxino, tu produziste um monstro mais crível para filósofos do que para cristãos. Pois o cínico Diógenes costumava andar com uma lanterna acesa ao meio-dia para encontrar um homem; ao passo que Marcião apagou a luz de sua fé e assim perdeu o Deus que havia encontrado. Seus discípulos não negarão que sua primeira fé ele teve juntamente conosco; uma carta sua prova isto; de modo que, para o futuro, um herege pode, pelo seu caso, ser designado como aquele que, abandonando o que era anterior, depois escolheu para si o que em tempos passados não existia. Pois, na medida em que o que foi entregue em tempos passados e desde o princípio for tido como verdade, nessa medida será considerado heresia o que é introduzido mais tarde. Mas outro breve tratado sustentará esta posição contra os hereges, os quais deveriam ser refutados mesmo sem consideração de suas doutrinas, com base no fato de que são heréticos pela novidade de suas opiniões. Agora, na medida em que alguma controvérsia deva ser admitida, começarei por ora (para que nosso princípio abreviado da novidade, invocado em todas as ocasiões em nosso auxílio, não seja imputado à falta de confiança) expondo a regra de crença de nosso adversário, a fim de que a ninguém escape qual será a nossa principal controvérsia.

Marcião, auxiliado por Cerdão, ensina uma dualidade de deuses; como ele construiu esta heresia de um Deus mau e de um Deus bom.

O herege do Ponto introduz dois Deuses, quais Simplégades gêmeas do seu próprio naufrágio: Um a quem era impossível negar, isto é, o nosso Criador; e outro que jamais poderá provar, isto é, o seu próprio deus. O infeliz homem colheu a primeira ideia da sua pretensão da simples passagem da palavra de nosso Senhor, que se refere a seres humanos e não divinos, na qual Ele dispõe daqueles exemplos da árvore boa e da árvore corrupta; como que «a árvore boa não pode dar maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos». O que significa que uma mente honesta e a boa fé não podem produzir más obras, assim como uma disposição má não pode produzir boas obras. Ora (como muitas outras pessoas hoje em dia, especialmente aquelas que têm uma proclividade herética), enquanto meditava morbidamente sobre a questão da origem do mal, sua percepção tornou-se embotada pela própria irregularidade das suas pesquisas; e quando encontrou o Criador declarando: «Eu sou o que crio o mal», visto que já havia concluído a partir de outros argumentos, que são satisfatórios para toda mente pervertida, que Deus é o autor do mal, aplicou então ao Criador a figura da árvore corrompida que dá maus frutos, isto é, o mal moral, e então presumiu que deveria haver outro deus, segundo a analogia da árvore boa que produz o seu bom fruto. Por conseguinte, encontrando em Cristo uma disposição diferente, por assim dizer — uma de benevolência simples e pura — diferente do Criador, argumentou prontamente que em seu Cristo havia sido revelada uma nova e estranha divindade; e então com um pouco de fermento levedou toda a massa da fé, aromatizando-a com a acidez da sua própria heresia.

Ele tinha, além disso, em um certo Cerdão um cúmplice desta blasfêmia — circunstância que lhes fez pensar mais prontamente que viam clarissimamente seus dois deuses, embora cegos; pois, na verdade, não haviam visto o único Deus com sanidade de fé. A homens de visão doentia, até uma só lâmpada parece múltipla. Um dos seus deuses, portanto, a quem era obrigado a reconhecer, ele destruiu difamando seus atributos na questão do mal; o outro, que tanto laborou para inventar, ele construiu, lançando seu fundamento no princípio do bem. Em que artigos ele arranjou essas naturezas, mostramos por nossas próprias refutações deles.

Referência atual: Tertuliano, Cinco Livros contra Marcião, Introductory Notes.