Obra patrística
Contra Beron e Hélix
Santo Hipólito de Roma · c. 170–235
Fragmento I.
Pela vontade omnipotente de Deus todas as coisas são feitas, e as coisas que são feitas também são preservadas, sendo mantidas segundo os seus vários princípios em perfeita harmonia por Aquele que é, na sua natureza, o Deus omnipotente e fazedor de todas as coisas, permanecendo inalterável a sua vontade divina pela qual fez e move todas as coisas, sustentadas como são, cada uma delas, pelas suas próprias leis naturais. Pois o infinito não pode, de modo algum ou por qualquer razão, ser suscetível de movimento, visto que não tem nada para o qual e nada em torno do qual se mova. Porque, no caso daquilo que é na sua natureza infinito e, portanto, incapaz de ser movido, o movimento seria conversão. Por isso também o Verbo de Deus, feito verdadeiramente homem à nossa maneira, mas sem pecado, e agindo e sofrendo à maneira humana tais coisas sem pecado que são próprias da nossa natureza, e assumindo a circunscrição da carne da nossa natureza por nós, não sofreu nenhuma conversão naquele aspeto em que é uno com o Pai, não sendo feito em nenhum aspeto uno com a carne através do esvaziamento. Mas, como estava sem carne, permaneceu sem qualquer circunscrição. E através da carne obrou divinamente aquelas coisas que são próprias da divindade, mostrando-Se ter ambas essas naturezas em ambas as quais obrou, quero dizer, a divina e a humana, segundo aquela verdadeira e real e natural subsistência, (mostrando-Se assim) como sendo ao mesmo tempo e na realidade e sendo entendido como Deus infinito e homem finito, tendo a natureza de cada um em perfeição, com a mesma atividade, isto é, as mesmas propriedades naturais; donde sabemos que a sua distinção permanece sempre segundo a natureza de cada um, e sem conversão. Mas não é (isto é, a distinção entre divindade e humanidade), como alguns dizem, uma questão meramente comparativa (ou relativa), para que não falamos de modo injustificado de um maior e um menor naquele que é sempre o mesmo em Si mesmo. Pois comparações só podem ser instituídas entre objetos de natureza semelhante, e não entre objetos de natureza dessemelhante. Mas entre Deus, o Fazedor de todas as coisas, e aquilo que é feito, entre o infinito e o finito, entre a infinitude e a finitude, não pode haver nenhum tipo de comparação, visto que estes diferem entre si não apenas em comparação (ou relativamente), mas absolutamente em essência. E, contudo, ao mesmo tempo, foi efetuada uma certa união inexprimível e irrefragável dos dois numa só substância, que ultrapassa inteiramente o entendimento de tudo o que é feito. Pois o divino é exatamente o mesmo depois da encarnação que era antes da encarnação;