Obra patrística
Contra Celso
Orígenes · c. 184–253
Livro I, Preface.–Livro I, Capítulo XIII
Prefácio.
Contra Celso.
Livro I.
Prefácio.
Prefácio, 1
1. Quando falsas testemunhas depunham contra nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Ele permaneceu em silêncio; e quando acusações infundadas eram movidas contra Ele, nenhuma resposta deu, crendo que toda a sua vida e conduta entre os judeus eram melhor refutação do que qualquer resposta ao falso testemunho, ou do que qualquer defesa formal contra as acusações. E não sei, meu piedoso Ambrósio, por que desejastes que eu escrevesse uma réplica às falsas acusações que Celso move contra os cristãos, e às suas acusações dirigidas contra a fé das Igrejas no seu tratado; como se os próprios fatos não fornecessem uma manifesta refutação, e a doutrina uma resposta melhor do que qualquer escrito, visto que ela tanto desfaz as falsas declarações, como não deixa às acusações qualquer crédito ou validade. Ora, quanto ao silêncio de nosso Senhor quando falsas testemunhas depunham contra Ele, basta por agora citar as palavras de Mateus, pois o testemunho de Marcos é no mesmo teor. E as palavras de Mateus são as seguintes: «E o sumo sacerdote e o conselho buscavam falso testemunho contra Jesus para o matar, mas não o acharam, embora muitos falsas testemunhas se apresentassem. Por fim, vieram duas falsas testemunhas e disseram: Este disse: Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias. E o sumo sacerdote, levantando-se, disse-lhe: Não respondes nada ao que estes testificam contra ti? Mas Jesus calava-se.» E que nenhuma resposta deu quando falsamente acusado, eis o que se segue: «E Jesus foi apresentado ao governador; e perguntou-lhe o governador, dizendo: És tu o Rei dos judeus? E Jesus disse-lhe: Tu o dizes. E sendo acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Então Pilatos disse-lhe: Não ouves quantas coisas testificam contra ti? E ele não lhe respondeu uma só palavra, de modo que o governador se maravilhou grandemente.»
Prefácio, 2
2. Era, na verdade, motivo de espanto até para homens de inteligência comum, que alguém acusado e assaltado por falso testemunho, mas que podia defender-se e mostrar que não era culpado de nenhuma das acusações (alegadas), e que poderia enumerar os feitos louváveis da sua própria vida e os seus milagres operados pelo poder divino, de modo a dar ao juiz oportunidade de proferir um juízo mais honroso a seu respeito, não o tivesse feito, mas houvesse desdenhado tal procedimento e, na nobreza da sua natureza, desprezado os seus acusadores. Que o juiz, sem qualquer hesitação, o teria posto em liberdade se Ele houvesse oferecido defesa, é claro pelo que se relata dele quando disse: «Qual dos dois quereis que vos solte? Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo?» e pelo que a Escritura acrescenta: «Porque sabia que por inveja o haviam entregue.» Jesus, porém, é em todo o tempo assaltado por falsas testemunhas e, enquanto a maldade permanece no mundo, está sempre exposto a acusações. E, contudo, ainda agora continua silencioso diante destas coisas e não dá resposta audível, mas coloca a sua defesa na vida dos seus genuínos discípulos, a qual é um testemunho eminente, que se eleva acima de todo falso testemunho, e refuta e derruba todas as acusações e cargas infundadas.
Prefácio, 3
3. Atrevo-me, pois, a dizer que esta «apologia» que me exigis que componha enfraquecerá de certo modo aquela defesa (do Cristianismo) que se baseia nos fatos, e aquele poder de Jesus que é manifesto aos que não são de todo desprovidos de percepção. Não obstante, para que não pareçamos relutantes em empreender a tarefa que nos impusestes, esforçamo-nos, segundo a nossa capacidade, por sugerir, a título de resposta a cada uma das afirmações avançadas por Celso, o que nos pareceu adequado para as refutar, embora os seus argumentos não tenham poder para abalar a fé de qualquer (verdadeiro) crente. E longe de nós que se encontre alguém que, depois de ter participado de tal amor de Deus como o que foi (manifestado) em Cristo Jesus, possa ser abalado no seu propósito pelos argumentos de Celso, ou de qualquer outro como ele. Pois Paulo, ao enumerar as inumeráveis causas que geralmente separam os homens do amor de Cristo e do amor de Deus em Cristo Jesus (às quais todas o amor que havia nele se sobrepujou), não incluiu o argumento entre os motivos de separação. Porque observai que ele diz, em primeiro lugar: «Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? (como está escrito: Por amor de ti somos mortos todo o dia; fomos considerados como ovelhas para o matadouro.) Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou.» E, em segundo lugar, ao estabelecer outra série de causas que naturalmente tendem a separar os que não estão firmemente arraigados na sua religião, diz: «Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o futuro, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.»
Prefácio, 4
4. Ora, na verdade, é próprio que nos sintamos exultantes porque as aflições, ou essas outras causas enumeradas por Paulo, não nos separam (de Cristo); mas não que Paulo e os outros apóstolos, e qualquer outro semelhante a eles, (nutram esse sentimento), porque estavam muito elevados acima de tais coisas quando disseram: «Em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou», o que é uma afirmação mais forte do que serem simplesmente «vencedores». Mas se é próprio que os apóstolos nutram um sentimento de exultação por não serem separados do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor, esse sentimento será por eles nutrido, porque nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem qualquer das coisas que se seguem os podem separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor. E, portanto, não felicito aquele crente em Cristo cuja fé pode ser abalada por Celso — que já não participa da vida comum dos homens, mas há muito partiu — ou por qualquer aparente plausibilidade de argumento. Pois não sei em que ordem colocar aquele que tem necessidade de argumentos escritos em livros em resposta às acusações de Celso contra os cristãos, para impedi-lo de ser abalado na sua fé e confirmá-lo nela. Contudo, visto que na multidão daqueles que são considerados crentes se podem encontrar pessoas tais que teriam a sua fé abalada e derrubada pelos escritos de Celso, mas que poderiam ser preservadas por uma réplica a eles de tal natureza que refutasse as suas afirmações e exibisse a verdade, julgamos conveniente ceder à vossa injunção e fornecer uma resposta ao tratado que nos enviastes, mas que não creio que alguém, ainda que pouco adiantado em filosofia, considere um «Discurso Verdadeiro», como Celso o intitulou.
Prefácio, 5
5. Paulo, na verdade, observando que há na filosofia grega certas coisas que não devem ser menosprezadas, que são plausíveis aos olhos da multidão, mas que representam a falsidade como verdade, diz a respeito delas: «Vede que ninguém vos despoje por meio da filosofia e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo.» E vendo que havia uma espécie de grandeza manifesta nas palavras da sabedoria do mundo, disse que as palavras dos filósofos eram «segundo os rudimentos do mundo». Nenhum homem de senso, porém, diria que as de Celso são «segundo os rudimentos do mundo». Ora, essas palavras, que continham algum elemento de engano, o apóstolo chamou de «vãs sutilezas», provavelmente para distingui-las de um engano que não fosse «vão»; e o profeta Jeremias, observando isso, ousou dizer a Deus: «Senhor, enganaste-me, e fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste.» Mas na linguagem de Celso não me parece haver engano algum, nem mesmo aquele que é «vão»; tal engano, isto é, como o que se encontra na linguagem daqueles que fundaram seitas filosóficas e que foram dotados de talento não comum para tais empreendimentos. E assim como ninguém diria que qualquer erro comum em demonstrações geométricas foi feito para enganar, nem o descreveria para exercício em tais matérias; assim aquelas opiniões que hão de ser chamadas de «vãs sutilezas» e «tradição dos homens» e «segundo os rudimentos do mundo» devem ter alguma semelhança com as opiniões daqueles que foram os fundadores de seitas filosóficas (se tais títulos lhes devem ser apropriadamente aplicados).
Prefácio, 6
6. Depois de prosseguir com esta obra até o lugar onde Celso introduz o judeu a discutir com Jesus, resolvi antepor este prefácio ao início (do tratado), a fim de que o leitor da nossa réplica a Celso nele tope primeiro e veja que este livro foi composto não para os que são crentes perfeitos, mas para os que estão ou completamente ignorantes da fé cristã, ou para aqueles que, como o apóstolo os chama, são «fracos na fé»; a respeito dos quais ele diz: «Acolhei ao que é fraco na fé.» E este prefácio deve ser a minha desculpa por começar a minha resposta a Celso de um modo e prossegui-la de outro. Porque a minha primeira intenção foi indicar as suas principais objeções, e depois brevemente as respostas que lhes eram dadas, e subsequentemente fazer um tratado sistemático de todo o discurso. Mas depois, as próprias circunstâncias me sugeriram que eu deveria economizar o meu tempo e que, satisfeito com o que já havia declarado no início, deveria na parte seguinte enfrentar de perto, segundo a minha capacidade, as acusações de Celso. Tenho, portanto, de pedir indulgência para as porções que seguem o prefácio, no início do livro. E se não fores impressionado pelos argumentos poderosos que se seguem, então, pedindo igual indulgência também com respeito a eles, remeto-te, se ainda desejas uma solução argumentativa das objeções de Celso, àqueles homens que são mais sábios do que eu, e que são capazes, por palavras e tratados, de derrubar as acusações que ele nos move. Mas melhor é o homem que, embora encontrando a obra de Celso, de nenhuma resposta precisa dela, mas despreza todo o seu conteúdo, visto que são desprezados, e com boa razão, por todo crente em Cristo, por meio do Espírito que nele habita.
Capítulo I
O primeiro ponto que Celso apresenta, no seu desejo de lançar descrédito sobre o Cristianismo, é que os cristãos formavam entre si associações secretas contra a lei, dizendo que “das associações, umas são públicas, e estas estão de acordo com as leis; outras, secretas, e mantidas em violação das leis.” E o seu propósito é trazer ao descrédito o que se denominam “ágape” dos cristãos, como se tivessem origem no perigo comum e fossem mais vinculantes do que quaisquer juramentos. Visto, pois, que ele tagarela acerca da lei pública, alegando que as associações dos cristãos a violam, temos de responder: se um homem se encontrasse entre os citas, cujas leis são ímpias, e, não tendo oportunidade de fugir, fosse compelido a viver entre eles, tal homem, por amor da lei da verdade, que os citas considerariam maldade, com boa razão formaria associações contrárias às suas leis com os que fossem de igual sentir consigo; assim, se a verdade há de decidir, as leis dos gentios relativas às imagens e a um politeísmo ateu são leis “citas”, ou mais ímpias ainda do que estas, se alguma há. Não é irracional, portanto, formar associações em oposição às leis existentes, se for por amor da verdade. Porque, assim como procederiam bem aqueles que entrassem numa associação secreta para matar um tirano que houvesse usurpado as liberdades de um estado, assim também os cristãos, quando tiranizados por aquele que se chama diabo e pela falsidade, formam ligas contrárias às leis do diabo, contra o seu poder, e para a salvação daqueles outros que logrem persuadir a revoltar-se contra um governo que é, por assim dizer, “cita” e despótico.
Capítulo II
Celso passa logo a dizer que o sistema de doutrina, a saber, o Judaísmo, sobre o qual o Cristianismo se apoia, era bárbaro na sua origem. E, com uma aparência de equidade, não censura o Cristianismo por sua origem entre bárbaros, mas dá a estes último o crédito por sua habilidade em descobrir (tais) doutrinas. A isto, contudo, acrescenta a afirmação de que os Gregos são mais hábeis do que quaisquer outros em julgar, estabelecer e reduzir à prática as descobertas das nações bárbaras. Ora, esta é a nossa resposta às suas alegações, e a nossa defesa das verdades contidas no Cristianismo: que se alguém, vindo do estudo das opiniões e usos gregos ao Evangelho, não só decidiria que as suas doutrinas são verdadeiras, mas também, pela prática, estabeleceria a sua verdade, e supriria o que parecesse faltar, do ponto de vista grego, à sua demonstração, e assim confirmaria a verdade do Cristianismo. Temos a dizer, além disso, que o Evangelho tem uma demonstração própria, mais divina do que qualquer outra estabelecida pela dialética grega. E a este método mais divino o Apóstolo chama "manifestação do Espírito e de poder": do "Espírito", por causa das profecias, que são suficientes para produzir fé em quem as lê, especialmente naquelas coisas que dizem respeito a Cristo; e de "poder", por causa dos sinais e maravilhas que devemos crer terem sido realizados, tanto por muitas outras razões, como também por esta: que vestígios deles ainda se conservam entre aqueles que regulam sua vida pelos preceitos do Evangelho.
Capítulo III
Depois disto, prosseguindo Celso a falar dos Cristãos, ensinando e praticando as suas doutrinas favoritas em segredo, e dizendo que eles fazem isto com algum propósito, visto que escapam da pena de morte que é iminente, compara os seus perigos com os que foram enfrentados por homens como Sócrates por amor da filosofia; e aqui ele poderia ter mencionado também Pitágoras, e outros filósofos. Mas a nossa resposta a isto é que, no caso de Sócrates, os Atenienses se arrependeram imediatamente depois; e nenhum sentimento de amargura permaneceu nos seus ânimos a seu respeito, como também aconteceu na história de Pitágoras. Os seguidores deste, na verdade, por um tempo considerável estabeleceram as suas escolas naquela parte da Itália chamada Magna Grécia; mas no caso dos Cristãos, o Senado Romano, e os príncipes da época, e a milícia, e o povo, e os parentes daqueles que se haviam convertido à fé, fizeram guerra à sua doutrina, e teriam impedido (o seu progresso), vencendo-a por uma confederação de natureza tão poderosa, se não tivesse, com a ajuda de Deus, escapado do perigo, e se elevado acima dele, de modo a (finalmente) derrotar o mundo inteiro na sua conspiração contra ela.