Padres e clássicosTertuliano, Contra Hermógenes, The Opinions of Hermogenes, by the Prescriptive Rule of Antiquity Shown to Be Heretical. Not Derived from Christianity, But from Heathen Philosophy. Some of the Tenets Mentioned.

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Obra patrística

Contra Hermógenes

Tertuliano · c. 160–225

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The Opinions of Hermogenes, by the Prescriptive Rule of Antiquity Shown to Be Heretical. Not Derived from Christianity, But from Heathen Philosophy. Some of the Tenets Mentioned.–Meaning of the Phrase--In the Beginning. Tertullian Connects It with the Wisdom of God, and Elicits from It the Truth that the Creation Was Not Out of Pre-Existent Matter.

As opiniões de Hermógenes, pela regra prescritiva da antiguidade, demonstradas heréticas. Não derivadas do cristianismo, mas da filosofia pagã. Algumas das doutrinas mencionadas.

Costumamos, para encurtar o argumento, estabelecer a regra contra os hereges da tardia data da sua origem. Pois, na medida em que, pela nossa regra, se dá prioridade à verdade, a qual também profetizou que haveria heresias, nessa mesma medida devem todas as opiniões posteriores ser pré-julgadas como heresias, sendo tais quais foram, pela regra mais antiga da verdade, preditas como (um dia) havendo de acontecer. Ora, a doutrina de Hermógenes tem esta mancha de novidade. Ele é, em suma, um homem que vive no mundo no tempo presente; por sua própria natureza um herege, e turbulento além disso, que confunde loquacidade com eloquência, e supõe a impudência ser firmeza, e julga ser dever de uma boa consciência falar mal de indivíduos. Além disso, despreza a lei de Deus na sua pintura, mantendo casamentos repetidos, alega a lei de Deus em defesa da luxúria, e ainda a despreza quanto à sua arte. Falsifica por um duplo processo—com o seu cautério e a sua pena. É um adúltero completo, tanto doutrinal como carnalmente, pois está, na verdade, infectado com o contágio dos vossos cavalos de matrimónio, e também falhou em apegar-se à regra da fé tanto quanto o próprio Hermógenes do Apóstolo. Contudo, não importa o homem, quando é a sua doutrina que questiono. Ele não parece reconhecer outro Cristo como Senhor, embora O tenha de modo diferente; mas por esta diferença na sua fé ele verdadeiramente faz d'Ele outro ser—não, tira d'Ele tudo o que é Deus, pois não quer que Ele tenha feito todas as coisas do nada. Pois, desviando-se dos cristãos para os filósofos, da Igreja para a Academia e o Pórtico, aprendeu ali dos Estoicos a colocar a Matéria (ao mesmo nível) com o Senhor, como se também ela tivesse existido sempre, tanto ingénita e incriada, não tendo princípio nem fim, a partir da qual, segundo ele, o Senhor depois criou todas as coisas.

Hermógenes, após uma perversa indução a partir de meras suposições heréticas, conclui que Deus criou todas as coisas a partir da matéria pré-existente.

O nosso péssimo pintor coloriu esta sua primeira sombra absolutamente sem nenhuma luz, com argumentos tais como estes: começa por estabelecer a premissa de que o Senhor fez todas as coisas ou de Si mesmo, ou do nada, ou de alguma coisa; a fim de que, depois de ter mostrado que era impossível tê-las feito ou de Si mesmo ou do nada, pudesse então afirmar a proposição restante de que as fez de alguma coisa, e portanto que essa alguma coisa era a Matéria. Ele não poderia ter feito todas as coisas, diz ele, de Si mesmo; porque todas as coisas que o Senhor fez de Si mesmo teriam sido partes de Si mesmo; mas Ele não é dissolúvel em partes, porque, sendo o Senhor, é indivisível, e imutável, e sempre o mesmo. Além disso, se tivesse feito alguma coisa de Si mesmo, essa coisa teria sido algo de Si mesmo. Tudo, porém, tanto o que foi feito como o que Ele fez, deve ser considerado imperfeito, porque foi feito de uma parte, e Ele o fez de uma parte; ou se, novamente, foi um todo o que Ele fez, Ele que é um Todo, deve nesse caso ter sido ao mesmo tempo um todo e, contudo, não um todo; porque convinha que Ele fosse um todo para Se produzir a Si mesmo, e contudo não um todo para ser produzido de Si mesmo. Mas esta é uma posição dificílima. Pois se Ele existia, não podia ser feito, pois já existia; se, porém, não existia, não podia fazer, porque era um não-ente. Ele sustenta, além disso, que Aquele que sempre existe não vem à existência, mas existe para todo o sempre. Conclui, portanto, que nada fez de Si mesmo, visto que nunca passou a uma condição tal que tornasse possível fazer alguma coisa de Si mesmo. De igual modo, sustenta que não poderia ter feito todas as coisas do nada — assim: define o Senhor como um ser que é bom, não, muito bom, que deve querer fazer as coisas tão boas e excelentes como Ele mesmo é; na verdade, era impossível para Ele querer ou fazer alguma coisa que não fosse boa, não, muito boa em si mesma. Portanto, todas as coisas deveriam ter sido feitas boas e excelentes por Ele, segundo a Sua própria condição. A experiência mostra, porém, que até coisas que são más foram feitas por Ele: não, claro, da Sua própria vontade e prazer; porque, se fosse da Sua própria vontade e prazer, Ele certamente não teria feito nada impróprio ou indigno de Si mesmo. Aquilo, portanto, que Ele não fez da Sua própria vontade deve ser entendido como tendo sido feito por defeito de alguma coisa, e isso é da Matéria, sem dúvida.

Um argumento de Hermógenes. A resposta: enquanto Deus é um título eternamente aplicável ao Ser Divino, Senhor e Pai são apenas denominações relativas, não eternamente aplicáveis.…

Acrescenta ainda outro ponto: que, assim como Deus sempre foi Deus, nunca houve tempo em que Deus não fosse também Senhor. Mas de modo algum era possível que Ele fosse considerado sempre Senhor, da mesma maneira que sempre fora Deus, se não houvera sempre, na eternidade anterior, algo de que Ele pudesse ser considerado eternamente Senhor. Conclui, pois, que Deus sempre teve a Matéria coexistente Consigo como seu Senhor. Ora, este seu tecido eu vou desfazer apressadamente. Estive disposto a expô-lo formalmente até aqui, para informação daqueles que não conhecem o assunto, para que saibam que os seus outros argumentos também precisam apenas de ser compreendidos para serem refutados. Afirmamos, então, que o nome de Deus existiu sempre Consigo mesmo e em Si mesmo — mas não eternamente assim o Senhor. Porque a condição de um não é a mesma que a do outro. Deus é a designação da própria substância, isto é, da Divindade; mas Senhor é (o nome) não da substância, mas do poder. Sustento que a substância existiu sempre com o seu próprio nome, que é Deus; o título Senhor foi depois acrescentado, como indicação, na verdade, de algo que sobrevém. Pois desde o momento em que começaram a existir aquelas coisas sobre as quais o poder de um Senhor havia de atuar, Deus, pela adição desse poder, tanto se tornou Senhor como recebeu o seu nome. Porque Deus é de igual modo Pai, e também é Juiz; mas não foi sempre Pai e Juiz, pelo simples facto de ter sido sempre Deus. Pois não poderia ter sido Pai antes do Filho, nem Juiz antes do pecado. Houve, porém, um tempo em que nem o pecado existia com Ele, nem o Filho; o primeiro dos quais havia de constituir o Senhor Juiz, e o segundo Pai. Deste modo, Ele não era Senhor antes daquelas coisas de que havia de ser Senhor. Mas Ele apenas havia de tornar-Se Senhor em algum tempo futuro: assim como Se tornou Pai pelo Filho, e Juiz pelo pecado, assim também Se tornou Senhor por meio daquelas coisas que fizera, para que O servissem. Pareço-vos estar a tecer argumentos, Hermógenes? Quão habilmente nos auxilia a Escritura, quando aplica os dois títulos a Ele com distinção, e os revela cada um ao seu tempo próprio! Pois (o título) Deus, na verdade, que sempre Lhe pertenceu, ela o nomeia logo no princípio: "No princípio criou Deus o céu e a terra"; e enquanto continuava a fazer, uma após outra, aquelas coisas de que havia de ser Senhor, meramente menciona Deus. "E disse Deus", "e fez Deus", "e viu Deus"; mas em parte alguma encontramos ainda o Senhor. Quando, porém, completou toda a criação, e especialmente o próprio homem, que estava destinado a compreender a Sua soberania de modo particularmente próprio, então é designado Senhor. Então também a Escritura acrescentou o nome Senhor: "E o Senhor Deus tomou o homem que formara"; "E o Senhor Deus mandou a Adão". Desde então, Aquele que anteriormente era somente Deus, é o Senhor, desde o tempo em que teve algo de que pudesse ser Senhor. Pois para Si mesmo foi sempre Deus, mas para todas as coisas foi então Deus quando Se tornou também Senhor. Portanto, na medida em que (Hermógenes) suponha que a Matéria era eterna, com base em que o Senhor era eterno, nessa mesma medida será evidente que nada existia, porque é claro que o Senhor como tal nem sempre existiu. Agora, também eu pretendo, por minha parte, acrescentar uma observação em favor dos ignorantes, dos quais Hermógenes é um exemplo extremo, e na verdade revolver contra ele os seus próprios argumentos. Pois quando ele nega que a Matéria tenha nascido ou sido feita, descubro que, mesmo nestes termos, o título Senhor é inadequado a Deus em relação à Matéria, porque ela deve ter sido livre, quando, por não ter princípio, não tinha autor. O facto da sua existência passada não o devia a ninguém, de modo que pudesse ser sujeita a ninguém. Portanto, desde que Deus exerceu o Seu poder sobre ela, criando (todas as coisas) a partir da Matéria, embora ela sempre tivesse experimentado Deus como seu Senhor, a Matéria demonstra, contudo, que Deus não existia na relação de Senhor para com ela, embora durante todo o tempo Ele realmente o fosse.

Hermogenes confere à matéria atributos divinos, e assim faz dois deuses.

Neste ponto, então, começarei a tratar da Matéria, como (segundo Hermógenes) Deus a compara Consigo mesmo como igualmente ingénita, igualmente incriada, igualmente eterna, apresentada como sem princípio, sem fim. Pois que outra estimativa há de Deus senão a eternidade? Que outra condição tem a eternidade senão ter sempre existido e existir ainda para sempre em virtude do seu privilégio de não ter princípio nem fim? Ora, visto que esta é a propriedade de Deus, pertencerá a Deus somente, de quem é propriedade — claro está, por este motivo, que, se pode ser atribuída a qualquer outro ser, já não será propriedade de Deus, mas pertencerá, juntamente com Ele, também àquele ser a quem é atribuída. Pois "embora haja quem se chame deuses" em nome, "quer no céu, quer na terra, contudo para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas"; donde a maior razão para que, em nosso entender, o que é propriedade de Deus deva ser considerado como pertencente a Deus somente, e por que (como já disse) isso deve deixar de ser tal propriedade, quando é partilhada por outro ser. Ora, visto que Ele é Deus, deve necessariamente ser uma marca única desta qualidade que seja confinada a Um. De outro modo, o que será único e singular, se não é aquilo que não tem nada igual a si? O que será principal, se não é aquilo que está acima de todas as coisas, antes de todas as coisas, e de onde todas as coisas procedem? Possuindo estas coisas, Ele é Deus somente, e pela Sua só posse delas, Ele é Um. Se outro também partilhasse da posse, haveria então tantos deuses quantos os possuidores destes atributos de Deus. Hermógenes, portanto, introduz dois deuses: introduz a Matéria como igual a Deus. Deus, porém, deve ser Um, porque é Deus o que é supremo; mas nada mais pode ser supremo do que aquilo que é único; e não pode ser único aquilo que tem algo igual a si; e a Matéria será igual a Deus quando é tida como eterna.

Hermógenes graceja com seu próprio argumento, como se de certo modo o temesse. Depois de revestir a Matéria de qualidades divinas, procura torná-la de algum modo inferior a Deus.

Mas Deus é Deus, e a Matéria é Matéria. Como se uma mera diferença nos seus nomes impedisse a igualdade, quando se reivindica para elas uma identidade de condição! Conceda-se que a sua natureza é diferente; suponha-se também que a sua forma não é idêntica — que importa, contanto que o seu estado absoluto tenha um só modo? Deus é ingénito; a Matéria não é também ingénita? Deus sempre existe; a Matéria não existe também sempre? Ambos são sem princípio; ambos são sem fim; ambos são os autores do universo — tanto Aquele que o criou, como a Matéria de que o fez. Pois é impossível que a Matéria não seja considerada a autora de todas as coisas, quando o universo é composto dela. Que resposta dará ele? Dirá que a Matéria não é então comparável a Deus logo que tem algo pertencente a Deus; visto que, por não ter a totalidade (da divindade), não pode corresponder a toda a extensão da comparação? Mas que mais reservou ele para Deus, para que não pareça ter concedido à Matéria a plena medida da Divindade? Responde ele que, mesmo que esta seja a prerrogativa da Matéria, tanto a autoridade como a substância de Deus devem permanecer intactas, em virtude das quais Ele é considerado o único e primeiro Autor, bem como o Senhor de todas as coisas. A verdade, contudo, mantém a unidade de Deus de tal modo que insiste em que tudo o que pertence ao próprio Deus Lhe pertence somente a Ele. Pois assim Lhe pertencerá se Lhe pertencer somente a Ele; e, portanto, será impossível que outro deus seja admitido, quando não é permitido a nenhum outro ser possuir algo de Deus. Bem, então, dizeis vós, nós mesmos, a esse passo, nada possuímos de Deus. Mas na verdade possuímos, e continuaremos a possuir — só que é d'Ele que o recebemos, e não de nós mesmos. Pois nós seremos até deuses, se merecermos estar entre aqueles de quem Ele declarou: "Eu disse: Vós sois deuses", e "Deus está na congregação dos deuses". Mas isto vem da Sua própria graça, não de qualquer propriedade em nós, porque é Ele somente quem pode fazer deuses. A propriedade da Matéria, porém, ele faz ser aquilo que ela tem em comum com Deus. De outro modo, se ela recebesse de Deus a propriedade que pertence a Deus — quero dizer, o seu atributo de eternidade — poder-se-ia até supor que ela possui um atributo em comum com Deus e, contudo, ao mesmo tempo, não é Deus. Mas que inconsistência é esta: permitir ele que haja uma possessão conjunta de um atributo com Deus, e também querer que aquilo que ele não nega à Matéria seja, apesar de tudo, o privilégio exclusivo de Deus!

Referência atual: Tertuliano, Contra Hermógenes, The Opinions of Hermogenes, by the Prescriptive Rule of Antiquity Shown to Be Heretical. Not Derived from Christianity, But from Heathen Philosophy. Some of the Tenets Mentioned.