Padres e clássicosTertuliano, Contra os Valentinianos, Introductory. Tertullian Compares the Heresy to the Old Eleusinian Mysteries.  Both Systems Alike in Preferring Concealment of Error and Sin to Proclamation of Truth and Virtue.

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Obra patrística

Contra os Valentinianos

Tertuliano · c. 160–225

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Introductory. Tertullian Compares the Heresy to the Old Eleusinian Mysteries.  Both Systems Alike in Preferring Concealment of Error and Sin to Proclamation of Truth and Virtue.–The Demiurge Works Away at Creation, as the Drudge of His Mother Achamoth, in Ignorance All the While of the Nature of His Occupation.

Introdução. Tertuliano compara a heresia aos antigos mistérios eleusinos.…

Os valentinianos, que são sem dúvida um corpo muito grande de hereges — compreendendo tantos apóstatas da verdade, que têm propensão para fábulas e nenhuma disciplina para os dissuadir (disso) — não se importam com nada tanto quanto com obscurecer o que pregam, se é que (se pode dizer que) pregam aqueles que obscurecem a sua doutrina. A solicitude com que guardam a sua doutrina é uma solicitude que revela a sua culpa. A sua desgraça é proclamada na própria seriedade com que mantêm o seu sistema religioso. Ora, no caso daqueles mistérios de Elêusis, que são a própria heresia da superstição ateniense, é o seu segredo que é a sua desgraça. Por conseguinte, eles previamente cercam todo o acesso ao seu corpo com condições atormentadoras; e exigem uma longa iniciação antes de inscrever (os seus membros), até mesmo instrução durante cinco anos para os seus discípulos perfeitos, a fim de moldarem as suas opiniões por esta suspensão do pleno conhecimento, e aparentemente elevarem a dignidade dos seus mistérios na proporção do desejo por eles que previamente criaram. Segue-se então o dever do silêncio. Cuidadosamente é guardado aquilo que é tão longo a encontrar. Toda a divindade, porém, reside nos seus recessos secretos: ali são revelados finalmente todos os anseios dos perfeitamente iniciados, todo o mistério da língua selada, o símbolo da virilidade. Mas esta representação alegórica, sob o pretexto do nome venerável da natureza, obscurece um verdadeiro sacrilégio com a ajuda de um símbolo arbitrário, e por imagens vazias evita a reprovação da falsidade! De modo semelhante, os hereges que são agora objeto das nossas observações, os valentinianos, formaram as suas próprias dissipações eleusinas, consagradas por um profundo silêncio, não tendo nada de celestial nelas senão o seu mistério. Com a ajuda dos nomes, títulos e argumentos sagrados da verdadeira religião, fabricaram a mais vã e imunda ficção para o dócil gosto dos homens, a partir das sugestões abundantes da Sagrada Escritura, visto que das suas muitas fontes muitos erros podem emanar. Se lhes propuserdes perguntas sinceras e honestas, respondem-vos com olhar severo e sobrancelha franzida, e dizem: “O assunto é profundo.” Se os experimentardes com questões sutis, com as ambiguidades da sua língua dupla, afirmam uma comunhão de fé (convosco). Se lhes insinuardes que compreendeis as suas opiniões, insistem em nada saber eles mesmos. Se chegardes a um combate cerrado com eles, eles destroem a vossa própria esperança de uma vitória sobre eles por uma autoimolação. Nem mesmo aos seus próprios discípulos confiam um segredo antes de se certificarem deles. Eles têm a habilidade de persuadir os homens antes de os instruir; embora a verdade persuade ensinando, mas não ensina persuadindo primeiro.

Estes hereges rotulam os cristãos de pessoas simples. Aceita a acusação, e a simplicidade elogiada a partir das Escrituras.

Por esta razão somos por eles apodados de simples, e de ser apenas isso, sem ser também sábios; como se, na verdade, a sabedoria fosse obrigada a faltar na simplicidade, enquanto o Senhor as une a ambas: “Sede, pois, prudentes como as serpentes, e simples como as pombas.” Ora, se nós, por nossa parte, somos tidos por insensatos porque somos simples, segue-se então que eles não são simples porque são sábios? Muito perversos, porém, são aqueles que não são simples, assim como são muito insensatos aqueles que não são sábios. E, no entanto, (se tivesse que escolher) preferiria tomar a última condição como o menor defeito; visto que talvez seja melhor ter uma sabedoria que é deficiente em quantidade do que aquela que é má em qualidade — melhor estar em erro do que enganar. Além disso, a face do Senhor é pacientemente esperada por aqueles que “O buscam na simplicidade do coração”, como diz a própria Sabedoria — não de Valentim, mas — de Salomão. Depois, também, os infantes têm testemunhado de Cristo com o seu sangue. (Diríeis) que foram crianças as que gritaram “Crucifica-O”? Elas não eram crianças nem infantes; por outras palavras, não eram simples. O apóstolo, também, manda-nos “tornar-nos crianças novamente” para com Deus, “ser como crianças na malícia” pela nossa simplicidade, sendo contudo também “sábios nas nossas faculdades práticas”. Ao mesmo tempo, no que diz respeito à ordem do desenvolvimento na Sabedoria, admiti que ela flui da simplicidade. Em suma, “a pomba” serviu geralmente para figurar Cristo; “a serpente”, para O tentar. Uma, desde o princípio, foi a portadora da paz divina; a outra, desde o início, foi a espoliadora da imagem divina. Por conseguinte, a simplicidade sozinha será mais facilmente capaz de conhecer e declarar a Deus, ao passo que a sabedoria sozinha antes Lhe fará violência e O trairá.

A loucura desta heresia. Ela disseca e mutila a Divindade. Contrastada com a sabedoria simples da verdadeira religião. Expor os absurdos do sistema valentiniano é destruí-lo.

Que o serpentino se esconda, pois, quanto puder, e que retorça toda a sua sabedoria nos labirintos das suas obscuridades; que habite nas profundezas da terra; que se insinue nas fendas secretas; que desenrole o seu comprimento através das suas juntas sinuosas; que se arraste tortuosamente, ainda que não de uma só vez, besta que é e que foge da luz. Da nossa pomba, porém, quão simples é a própria morada! — sempre em lugares altos e abertos, e voltada para a luz! Como símbolo do Espírito Santo, ama o Oriente (radioso), essa figura de Cristo. Nada envergonha a verdade, exceto apenas estar oculta, porque ninguém se envergonhará de dar-lhe ouvidos. Ninguém se envergonhará de reconhecê-Lo como Deus, a quem a natureza já recomendou, a quem já percebe em todas as Suas obras — a Ele, na verdade, que é, por esta mesma razão, imperfeitamente conhecido, porque o homem não O pensou como único, porque O nomeou em pluralidade (de deuses) e O adorou sob outras formas. Contudo, induzir-se a si mesmo a passar desta multidão de divindades para outra turba, a remover-se de uma autoridade familiar para uma desconhecida, a arrancar-se do que é manifesto para o que está oculto, é ofender a fé já no próprio limiar. Ora, mesmo que sejas iniciado em toda a fábula, não te ocorrerá que ouviste algo muito semelhante da tua ama indulgente quando eras bebê, entre as cantigas de ninar que ela te cantava sobre as torres de Lâmia e os chifres do sol? Que qualquer homem, porém, se aproxime do assunto a partir de um conhecimento da fé que de outro modo aprendeu, tão logo encontre tantos nomes de Éons, tantos matrimônios, tantas descendências, tantas saídas, tantos desfechos, felicidades e infelicidades de uma Divindade dispersa e mutilada, hesitará esse homem em pronunciar imediatamente que estas são "as fábulas e genealogias intermináveis" que o Apóstolo inspirado, por antecipação, condenou, enquanto essas sementes de heresia já então brotavam? Merecidamente, portanto, devem ser considerados faltos de simplicidade, e apenas prudentes, aqueles que produzem tais fábulas não sem dificuldade e as defendem apenas indiretamente, que ao mesmo tempo não instruem completamente aqueles a quem ensinam. Isto, certamente, mostra a sua astúcia, se as suas lições são desonrosas; a sua falta de bondade, se são honrosas. Quanto a nós, porém, que somos o povo simples, sabemos tudo a respeito. Em suma, esta é a primeira arma com a qual estamos armados para o nosso encontro; ela desmascara e traz à vista todo o seu sistema depravado. E nisto temos o primeiro presságio da nossa vitória; porque mesmo meramente apontar aquilo que está oculto com tão grande dispêndio de artifício é destruí-lo.

A heresia que remonta a Valentino, homem hábil, mas inquieto. Muitos líderes cismáticos da escola são mencionados.…

Conhecemos, digo, mui plenamente a sua origem real, e estamos bem cientes de por que os chamamos Valentinianos, embora eles afetem repudiar o seu nome. Eles se apartaram, é verdade, do seu fundador, contudo a sua origem de modo algum está destruída; e, mesmo que porventura seja mudada, a própria mudança dá testemunho do fato. Valentino esperava tornar-se bispo, porque era homem capaz tanto em génio como em eloquência. Indignado, porém, que outro obtivesse a dignidade em razão de um direito que a confissão do martírio lhe dera, rompeu com a igreja da verdadeira fé. Tal como aqueles espíritos (inquietos) que, quando agitados pela ambição, geralmente se inflamam com o desejo de vingança, aplicou-se com todas as suas forças a exterminar a verdade; e, encontrando o fio de uma certa opinião antiga, traçou para si um caminho com a sutileza de uma serpente. Ptolomeu depois entrou no mesmo caminho, distinguindo os nomes e os números dos Éons em substâncias pessoais, as quais, contudo, manteve separadas de Deus. Valentino as incluíra na própria essência da Divindade, como sentidos e afetos do movimento. Diversos atalhos foram então abertos a partir daí, por Heracleão e Secundo e o mago Marcos. Teótimo trabalhou arduamente acerca "das imagens da lei". Valentino, porém, ainda não estava em lugar nenhum, e todavia os Valentinianos derivam o seu nome de Valentino. Axiônico, em Antioquia, é o único homem que na atualidade honra a memória de Valentino, guardando integralmente as suas regras. Mas esta heresia é permitida a moldar-se em tantas formas diversas quantas uma cortesã, que geralmente muda e ajusta o seu vestido cada dia. E por que não? Quando eles examinam aquela sua semente espiritual em cada homem desta maneira, sempre que dão com alguma novidade, logo chamam à sua presunção uma revelação, à sua própria engenhosidade perversa um dom espiritual; mas (negam toda) unidade, admitindo apenas a diversidade. E assim vemos claramente que, deixando de lado a sua habitual dissimulação, a maioria deles está num estado dividido, prontos a dizer (e isso sinceramente) de certos pontos da sua crença: "Isto não é assim"; e: "Eu tomo isto num sentido diferente"; e: "Não admito aquilo." Por esta variedade, na verdade, a inovação está estampada na própria face das suas regras; além do que, ela ostenta todas as características coloridas de conceitos ignorantes.

Muitos eminentes escritores cristãos refutaram cuidadosa e plenamente a heresia. Destes faz o autor os seus próprios guias.

O meu próprio caminho, porém, segue ao longo dos dogmas originais dos seus principais mestres, não com os líderes autoproclamados dos seus seguidores promíscuos. Nem se ouvirá dizer de nós de parte alguma que, por nossa própria mente, moldámos os nossos próprios materiais, uma vez que estes já foram produzidos, tanto no que se refere às opiniões como às suas refutações, em volumes cuidadosamente escritos, por tantos homens eminentemente santos e excelentes, não só aqueles que viveram antes de nós, mas também aqueles que foram contemporâneos dos próprios heresiarcas: por exemplo, Justino, filósofo e mártir; Milcíades, o sofista das igrejas; Ireneu, aquele inquisidor tão exato de todas as doutrinas; o nosso Próculo, modelo de casta velhice e de eloquência cristã. A todos estes seria meu desejo seguir de perto em toda obra de fé, como nesta em particular. Ora, se não há heresias senão aquelas que aqueles que as refutam se supõe terem fabricado, então o apóstolo que as predisse deve ter sido culpado de falsidade. Se, porém, há heresias, elas não podem ser outras senão aquelas que são objeto de discussão. Não se pode supor que nenhum escritor tenha tanto tempo disponível que fabrique materiais que já possui.

Embora escreva em latim, propõe reter os nomes gregos das emanações valentinianas da divindade. Não discutir a heresia, mas apenas expô-la.…

Para que, pois, ninguém seja cegado por tantos nomes estranhos, reunidos, ajustados ao bel-prazer e de significado duvidoso, pretendo nesta pequena obra, em que apenas nos comprometemos a expor este mistério (herético), explicar de que maneira devemos usá-los. Ora, traduzir alguns destes nomes do grego de modo a produzir um sentido igualmente óbvio da palavra não é de modo algum um processo fácil: no caso de alguns outros, os géneros não são adequados; enquanto outros, ainda, são mais familiarmente conhecidos na sua forma grega. Por isso, na maior parte dos casos, usaremos os nomes gregos; os seus significados serão vistos nas margens das páginas. Nem o grego ficará desacompanhado dos equivalentes latinos; apenas estes serão marcados em linhas acima, com o propósito de explicar os nomes pessoais, tornado necessário pelas ambiguidades de alguns deles que admitem algum significado diferente. Mas, embora tenha de adiar toda a discussão e contentar-me por ora com a mera exposição (da heresia), ainda assim, onde quer que alguma característica escandalosa pareça requerer uma castigação, deve ela ser atacada por todos os meios, ainda que apenas com um golpe de passagem. Considere o leitor isto como a escaramuça antes da batalha. Será minha intenção mostrar como ferir, em vez de infligir golpes profundos. Se em algum caso o riso for excitado, isto será tanto quanto o assunto merece. Há muitas coisas que merecem refutação de tal modo que não se gaste gravidade com elas. Assuntos vãos e tolos são enfrentados com especial aptidão pelo riso. Mesmo a verdade pode entregar-se ao ridículo, porque está jubilosa; pode brincar com os seus inimigos, porque é destemida. Apenas devemos tomar cuidado para que o seu riso não seja indecoroso, e assim ela mesma seja ridicularizada; mas onde quer que a sua alegria seja decente, ali é um dever entregar-se a ela. E assim, por fim, entro na minha tarefa.

Referência atual: Tertuliano, Contra os Valentinianos, Introductory. Tertullian Compares the Heresy to the Old Eleusinian Mysteries.  Both Systems Alike in Preferring Concealment of Error and Sin to Proclamation of Truth and Virtue.