Obra patrística
Contra Práxeas
Tertuliano · c. 160–225
Satan's Wiles Against the Truth. How They Take the Form of the Praxean Heresy. Account of the Publication of This Heresy.–The Natural Invisibility of the Father, and the Visibility of the Son Witnessed in Many Passages of the Old Testament. Arguments of Their Distinctness, Thus Supplied.
As artimanhas de Satanás contra a verdade. Como assumem a forma da heresia praxeana. Relato da publicação dessa heresia.
De várias maneiras tem o diabo rivalizado e resistido à verdade. Ora, seu intento foi destruir a verdade defendendo-a. Ele sustenta que há um só Senhor, o Criador Onipotente do mundo, para que, a partir desta doutrina da unidade, fabrique uma heresia. Diz que o próprio Pai desceu à Virgem, que Ele mesmo nasceu dela, Ele mesmo padeceu, sim, Ele mesmo era Jesus Cristo. Aqui a antiga serpente caiu em contradição consigo mesma, visto que, quando tentou a Cristo após o batismo de João, aproximou-se d'Ele como “Filho de Deus”; sugerindo certamente que Deus tinha um Filho, até pelo testemunho das próprias Escrituras, das quais forjava naquele momento a sua tentação: “Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães.” Outra vez: “Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Mandará aos seus anjos acerca de ti” — referindo-se, sem dúvida, ao Pai — “e eles te susterão nas mãos, para que não tropeces com o teu pé em alguma pedra.” Ou talvez, afinal, estivesse apenas a acusar os Evangelhos de mentira, dizendo com efeito: “Fora com Mateus! fora com Lucas! Para que dar ouvidos às suas palavras? A despeito deles, declaro que foi o próprio Deus a quem me aproximei; foi o próprio Onipotente que tentei face a face; e não foi senão para o tentar que me aproximei d'Ele. Se, ao contrário, fosse apenas o Filho de Deus, muito provavelmente nunca teria condescendido em tratar com Ele.” Contudo, ele é mentiroso desde o princípio, e todo homem que instiga à sua maneira; como, por exemplo, Praxeas. Pois foi ele o primeiro a importar para Roma, vindo da Ásia, este tipo de perversidade herética, homem, por outro lado, de temperamento inquieto e, sobretudo, inflado com o orgulho da condição de confessor, simples e unicamente porque teve de suportar por um curto tempo o incômodo de uma prisão; ocasião em que, “ainda que entregasse o seu corpo para ser queimado, nada lhe aproveitaria”, não tendo o amor de Deus, cujos dons ele mesmo resistiu e destruiu. Pois, depois que o Bispo de Roma reconheceu os dons proféticos de Montano, Prisca e Maximila e, em consequência do reconhecimento, concedeu a sua paz às Igrejas da Ásia e da Frígia, ele, instando importunamente com falsas acusações contra os próprios profetas e suas igrejas e insistindo na autoridade dos antecessores do bispo na sé, compeliu-o a revogar a carta pacífica que havia emitido, bem como a desistir do seu propósito de reconhecer os referidos dons. Com isto, Praxeas prestou um duplo serviço ao diabo em Roma: expulsou a profecia e introduziu a heresia; pôs em fuga o Paráclito e crucificou o Pai. O joio de Praxeas tinha sido, além disso, semeado e produzido o seu fruto também aqui, enquanto muitos dormiam na sua simplicidade de doutrina; mas este joio parecia de fato ter sido arrancado, tendo sido descoberto e exposto por aquele de cujo ministério Deus se agradou usar. Na verdade, Praxeas tinha deliberadamente retomado a sua antiga (verdadeira) fé, ensinando-a após a sua renúncia ao erro; e existe a sua própria caligrafia como prova, que permanece entre os carnais, em cuja sociedade o fato então se deu; depois disso, nada mais se ouviu dele. Nós, de nossa parte, subsequentemente nos retiramos dos carnais por causa do nosso reconhecimento e manutenção do Paráclito. Mas o joio de Praxeas tinha então por toda parte sacudido a sua semente, a qual, jazendo oculta por algum tempo, com a sua vitalidade escondida sob uma máscara, irrompeu agora com nova vida. Mas será novamente arrancada, se o Senhor quiser, ainda agora; mas, se não agora, no dia em que todos os molhos de joio forem ajuntados e, juntamente com todo outro tropeço, forem queimados com fogo inextinguível.
A doutrina católica da Trindade e da unidade, às vezes chamada de economia divina, ou dispensação das relações pessoais da divindade.
No decurso do tempo, pois, o Pai por assim dizer nasceu, e o Pai padeceu, o próprio Deus, o Senhor Onipotente, a quem na sua pregação declaram ser Jesus Cristo. Nós, porém, como sempre fizemos (e mais especialmente desde que fomos melhor instruídos pelo Paráclito, que conduz os homens, na verdade, a toda a verdade), cremos que há um só Deus, mas sob a seguinte dispensação, ou οἰκονομία, como é chamada: que este único Deus tem também um Filho, seu Verbo, que procedeu d'Ele mesmo, por quem todas as coisas foram feitas, e sem quem nada foi feito. Cremos que Ele foi enviado pelo Pai à Virgem e que nasceu dela — sendo ao mesmo tempo Homem e Deus, o Filho do Homem e o Filho de Deus — e que foi chamado pelo nome de Jesus Cristo; cremos que Ele padeceu, morreu e foi sepultado, segundo as Escrituras, e que, depois de ter sido ressuscitado pelo Pai e levado de volta ao céu, está sentado à direita do Pai, e que virá para julgar os vivos e os mortos; o qual enviou também do céu, da parte do Pai, segundo a sua promessa, o Espírito Santo, o Paráclito, o santificador da fé daqueles que creem no Pai, e no Filho, e no Espírito Santo. Que esta regra de fé nos chegou desde o princípio do Evangelho, mesmo antes de qualquer dos hereges antigos, muito mais antes de Praxeas, um pretendente de ontem, será evidente tanto pela data tardia que marca todas as heresias, como também pelo caráter absolutamente novo do nosso novato Praxeas. Neste princípio também temos doravante de encontrar uma presunção de igual força contra todas as heresias quaisquer — que o que é primeiro é verdadeiro, ao passo que aquilo que é posterior na data é espúrio. Mas, mantendo esta regra prescritiva inviolada, deve-se ainda assim dar alguma oportunidade para rever (as afirmações dos hereges), tendo em vista a instrução e proteção de diversas pessoas; nem que seja para que não pareça que cada perversão da verdade é condenada sem exame e simplesmente prejulgada; especialmente no caso desta heresia, que supõe possuir a verdade pura, ao pensar que não se pode crer num único Deus de outra maneira senão dizendo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são a mesma Pessoa. Como se também deste modo um não fosse Tudo, no sentido de que Todos são de Um, por unidade (isto é) de substância; enquanto o mistério da dispensação é ainda guardado, o qual distribui a Unidade numa Trindade, colocando na sua ordem as três Pessoas — o Pai, o Filho e o Espírito Santo: três, todavia, não em condição, mas em grau; não em substância, mas em forma; não em poder, mas em aspecto; contudo, de uma só substância, e de uma só condição, e de um só poder, porquanto Ele é um só Deus, do qual estes graus e formas e aspectos são contados, sob o nome de Pai, e de Filho, e de Espírito Santo. Como eles são suscetíveis de número sem divisão, será mostrado no decurso do nosso tratado.
Vários temores e preconceitos populares. A doutrina da Trindade na Unidade resgatada desses equívocos.
Os simples, na verdade (não os chamarei de imprudentes e ignorantes, que sempre constituem a maioria dos fiéis), se assustam com a economia (dos Três em Um), pelo fato de que a própria regra de fé os afasta da pluralidade dos deuses do mundo para o único e verdadeiro Deus; não entendendo que, embora Ele seja o único Deus, deve ser crido com Sua própria οἰκονομία. Eles supõem que a ordem numérica e a distribuição da Trindade sejam uma divisão da Unidade; ao passo que a Unidade, que deriva a Trindade de si mesma, está tão longe de ser destruída que é, na verdade, sustentada por ela. Eles constantemente nos lançam contra que somos pregadores de dois deuses e três deuses, enquanto atribuem a si mesmos preeminentemente o crédito de serem adoradores do Deus único; como se a própria Unidade, com deduções irracionais, não produzisse heresia, e a Trindade, racionalmente considerada, não constituísse a verdade. Nós, dizem eles, mantemos a Monarquia (ou governo único de Deus). E assim, pelo menos quanto ao som, até mesmo os latinos (e também os ignorantes) pronunciam a palavra de tal maneira que se suporia que seu entendimento da μοναρχία (ou Monarquia) era tão completo quanto sua pronúncia do termo.
Pois bem, então os latinos se esforçam por pronunciar a μοναρχία (ou Monarquia), enquanto os gregos se recusam a entender a οἰκονομία, ou Dispensação (dos Três em Um). Quanto a mim, porém, se colhi algum conhecimento de qualquer das línguas, estou certo de que μοναρχία (ou Monarquia) não tem outro significado senão governo único e individual; mas, apesar disso, esta monarquia não impede, por ser o governo de um só, que aquele cujo governo é, ou de ter um filho, ou de ter-se tornado ele mesmo um filho para si, ou de ministrar sua própria monarquia por quaisquer agentes que queira. Mais ainda, sustento que nenhum domínio pertence tão somente a um, como próprio, nem é de tal modo singular, nem é de tal modo uma monarquia, que não seja também administrado através de outras pessoas estreitamente ligadas a ele, e que ele mesmo proveu como oficiais para si. Se, além disso, houver um filho pertencente àquele cuja é a monarquia, ela não se torna imediatamente dividida e deixa de ser uma monarquia, se o filho também for tomado como participante dela; mas é, quanto à sua origem, igualmente dele, por quem é comunicada ao filho; e sendo dele, é tanto uma monarquia (ou império único), pois é mantida unida por dois que são tão inseparáveis.
Portanto, visto que a Monarquia Divina também é administrada por tantas legiões e hostes de anjos, segundo está escrito: “Milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões estavam diante dele”; e visto que não cessou por esta circunstância de ser o governo de um só (de modo a não ser mais uma monarquia), por ser administrada por tantos milhares de potestades; como acontece que Deus deva ser considerado como sofrendo divisão e separação no Filho e no Espírito Santo, a quem são atribuídos o segundo e o terceiro lugares, e que estão tão intimamente unidos ao Pai em Sua substância, quando Ele não sofre tal (divisão e separação) na multidão de tantos anjos? Supondes verdadeiramente que Aqueles, que são naturalmente membros da própria substância do Pai, penhores de Seu amor, instrumentos de Seu poder, sim, Seu próprio poder e todo o sistema de Sua monarquia, são a derrubada e a destruição dela? Não pensais corretamente. Prefiro que vos exerciteis no significado da coisa em vez de no som da palavra. Agora, deveis entender que a derrubada de uma monarquia é isto: quando outro domínio, que tem uma estrutura e um estado peculiares a si (e é, portanto, rival), é introduzido sobre e além dela: quando, por exemplo, algum outro deus é introduzido em oposição ao Criador, como nas opiniões de Marcião; ou quando muitos deuses são introduzidos, segundo vossos Valentinos e vossos Pródicos. Então, isso equivale a uma derrubada da Monarquia, pois envolve a destruição do Criador.
A unidade da divindade e a supremacia e o governo único do ser divino. A monarquia não é de modo algum prejudicada pela doutrina católica.
Porém eu, que derivo o Filho de nenhuma outra fonte senão da substância do Pai, e O represento como nada fazendo sem a vontade do Pai, e como tendo recebido todo o poder do Pai, como poderia eu estar a destruir a Monarquia a partir da fé, quando a preservo no Filho exatamente como foi a Ele confiada pelo Pai? A mesma observação desejo fazer também formalmente com respeito ao terceiro grau na Divindade, porque creio que o Espírito procede de nenhuma outra fonte senão do Pai por meio do Filho. Cuidai, pois, que não sejais vós antes os que destruís a Monarquia, quando derrubais a disposição e economia dela, que foi constituída precisamente em tantos nomes quantos aprouve a Deus empregar. Mas ela permanece tão firme e estável no seu próprio estado, não obstante a introdução nela da Trindade, que o Filho na verdade tem de a restituir inteira ao Pai; assim como o Apóstolo diz na sua epístola acerca do próprio fim de todas as coisas: “Quando Ele tiver entregado o reino a Deus, ao Pai; porque Ele deve reinar até que haja posto todos os inimigos debaixo dos Seus pés”; seguindo, decerto, as palavras do Salmo: “Assenta-Te à Minha mão direita, até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés.” “Quando, porém, todas as coisas Lhe forem sujeitas (com exceção dAquele que Lhe sujeitou todas as coisas), então também o próprio Filho Se sujeitará Àquele que Lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.” Vemos, assim, que o Filho não é obstáculo à Monarquia, embora agora seja administrada pelo Filho; porque com o Filho ela ainda está no seu próprio estado, e com o seu próprio estado será restituída ao Pai pelo Filho. Ninguém, portanto, a prejudicará por admitir o Filho nela, visto que é certo que foi a Ele confiada pelo Pai, e que brevemente há de ser por Ele de novo entregue ao Pai. Ora, por esta passagem da epístola do inspirado Apóstolo já pudemos mostrar que o Pai e o Filho são duas Pessoas distintas, não só pela menção dos seus nomes distintos como Pai e Filho, mas também pelo fato de que Aquele que entregou o reino e Aquele a quem é entregue — e igualmente Aquele que sujeitou todas as coisas e Aquele a Quem foram sujeitadas — hão de necessariamente ser dois Seres diferentes.