Obra patrística
Exortação à Castidade
Tertuliano · c. 160–225
Introdução. A virgindade classificada em três espécies diversas.
V.
Exortação à Castidade.
[Traduzido pelo Rev. S. Thelwall.]
Capítulo I.—Introdução. A Virgindade Classificada em Três Espécies Diversas.
Não duvido, irmão, que, após a permissão em paz de vossa esposa, vós, inteiramente aplicado à composição de vosso ânimo (para um reto estado), estejais seriamente pensando acerca do fim de vossa vida solitária, e, por certo, necessitais de conselho. Embora, em casos desta espécie, cada indivíduo deva coloquiar com a sua própria fé e consultar a sua força; contudo, porquanto, nesta (particular) espécie (de provação), a necessidade da carne (que geralmente é antagonista da fé no tribunal da mesma consciência interior, à qual aludi) põe a cogitação a mover-se, a fé necessita de conselho de fora, como um advogado, por assim dizer, para opor-se às necessidades da carne: necessidade esta que, na verdade, pode mui facilmente ser circunscrita, se a vontade, mais do que a indulgência de Deus, for considerada. Ninguém merece favor por valer-se da indulgência, mas por prestar pronta obediência à vontade (de seu senhor). A vontade de Deus é a nossa santificação, pois Ele quer que a Sua “imagem”—nós—nos tornemos igualmente Sua “semelhança”; para que sejamos “santos” assim como Ele mesmo é “santo”. Esse bem—a santificação, quero dizer—distribuo em várias espécies, para que em alguma dessas espécies sejamos achados. A primeira espécie é a virgindade desde o nascimento; a segunda, a virgindade desde o segundo nascimento, isto é, desde a fonte; a qual (segunda virgindade) ou no estado matrimonial conserva (o seu sujeito) puro por mútuo pacto, ou persevera na viuvez por escolha; um terceiro grau permanece, a monogamia, quando, após a interrupção de um matrimônio uma vez contraído, há daí em diante uma renúncia à união sexual. A primeira virgindade é (a virgindade) da felicidade, e consiste no total desconhecimento daquilo de que depois desejareis ser libertos; a segunda, da virtude, e consiste em desprezar aquilo cujo poder conheceis mui bem; a espécie restante, a de não mais casar após a dissolução do matrimônio pela morte, além de ser a glória da virtude, é (a glória) da moderação igualmente; pois moderação é não lamentar uma coisa que foi tirada, e tirada pelo Senhor Deus, sem cuja vontade nem uma folha desliza de uma árvore, nem um pardal de um ceitil cai na terra.
A culpa de nossos delitos não deve ser lançada sobre Deus. O único poder que cabe ao homem é o poder da vontade.
Que moderação, em suma, há naquela palavra: “O Senhor deu, o Senhor tirou; como pareceu (bem) ao Senhor, assim se fez!” E, por conseguinte, se renovamos núpcias que foram tiradas, sem dúvida lutamos contra a vontade de Deus, querendo ter de novo uma coisa que Ele não quis que tivéssemos. Pois, se Ele a quisesse, não a teria tirado; a menos que interpretemos isto também como sendo a vontade de Deus, como se Ele quisesse novamente que tivéssemos o que há pouco não queria. Não é próprio de uma fé boa e sólida referir todas as coisas à vontade de Deus de tal maneira; e que cada indivíduo se lisonjeie dizendo que “nada se faz sem a Sua permissão”, a ponto de nos fazer não entender que há algo em nosso próprio poder. Do contrário, todo pecado será escusado se persistirmos em contender que nada é feito por nós sem a vontade de Deus; e essa definição irá à destruição de toda a disciplina, (não), até do próprio Deus; se ou Ele produz por Sua própria vontade coisas que não quer, ou (se) não há nada que Deus não queira. Mas, assim como há algumas coisas que Ele proíbe, contra as quais denuncia até castigo eterno — pois, decerto, as coisas que Ele proíbe, e pelas quais também se ofende, Ele não as quer — assim também, ao contrário, o que Ele quer, ordena e estabelece como aceitável, e recompensa com o galardão da eternidade. E, assim, quando aprendemos de Seus preceitos cada (classe de ações), o que Ele não quer e o que Ele quer, temos ainda uma volição e um poder arbitral de eleger uma; assim como está escrito: “Eis que pus diante de ti o bem e o mal; porque comeste da árvore da ciência.” E, portanto, não devemos atribuir à conta da vontade do Senhor aquilo que jaz sujeito à nossa própria escolha; (na hipótese) de que Ele não quer, ou então (positivamente) não quer o bem, Ele que não quer o mal. Assim, é uma volição nossa quando queremos o mal, em antagonismo com a vontade de Deus, que quer o bem. Ademais, se perguntas de onde vem essa volição pela qual queremos algo em antagonismo com a vontade de Deus, direi: Tem sua origem em nós mesmos. E não farei a afirmação temerariamente — pois deveis corresponder à semente de que provieis — se é verdade, (como é), que o originador de nossa raça e de nosso pecado, Adão, quis o pecado que cometeu. Pois o diabo não lhe impôs a volição de pecar, mas subministrou matéria à volição. Por outro lado, a vontade de Deus tornara-se uma questão de obediência. De igual modo, vós também, se deixardes de obedecer a Deus, que vos treinou pondo diante de vós o preceito da ação livre, por meio da liberdade de vossa vontade, voluntariamente vos voltareis para a senda descendente de fazer o que Deus não quer; e assim pensais ter sido subvertidos pelo diabo; o qual, embora ele queira que queirais algo que Deus não quer, não obstante não vos faz querer, porquanto não reduziu aqueles nossos protoplastos à volição do pecado; não, nem (os reduziu) contra a vontade deles, ou em ignorância do que Deus não queria. Pois, decerto, Ele não queria que uma coisa fosse feita quando fez da morte a consequência destinada da sua comissão. Assim, a obra do diabo é uma só: fazer prova se vós quereis aquilo que depende de vós querer. Mas, quando haveis querido, segue-se que ele vos sujeita a si; não por ter forjado a volição em vós, mas por ter encontrado uma oportunidade favorável em vossa volição. Portanto, visto que a única coisa que está em nosso poder é a volição — e é nisto que a nossa mente para com Deus é posta à prova, se queremos as coisas que coincidem com a Sua vontade — profunda e ansiosamente deve a vontade de Deus ser ponderada repetidas vezes, digo, (para ver) o que, mesmo em secreto, Ele possa querer.