Obra patrística
Sobre o Espírito Santo
São Gregório de Nissa · c. 335–394
Sobre o Espírito Santo.
Sobre o Espírito Santo Contra os Seguidores de Macedônio Sem dúvida seria indigno responder aos enunciados que são tolos; parece-nos ser apontados nessa direção pelo sábio conselho de Salomão: "não responder ao tolo segundo a sua tolice." Mas existe o perigo de que, por nosso silêncio, o erro possa prevalecer sobre a verdade, e assim a úlcera apodrecida desta heresia invada-a e faça estragos na sã palavra da fé. Pareceu-me, portanto, que era imperioso responder, não na verdade segundo a tolice destes homens que oferecem objeções de tal natureza à nossa Religião, mas para a correção de suas ideias depravadas. Pois aquele conselho acima citado dos Provérbios nos dá, julgo eu, o sinal não para o silêncio, mas para a correção daqueles que estão manifestando algum ato de tolice; nossas respostas, ou seja, não devem correr no nível de suas concepções tolas, mas antes inverter aquelas vistas infundadas e enganosas sobre a doutrina.
Qual é pois a acusação que nos trazem? Acusam-nos de impiedade por entretemos concepções elevadas acerca do Espírito Santo. Tudo aquilo que nós, seguindo os ensinamentos dos Padres, confessamos a respeito do Espírito, eles o tomam num sentido próprio deles, e o tornam um instrumento contra nós, para denunciar-nos por impiedade. Nós confessamos, por exemplo, que o Espírito Santo é do mesmo grau que o Pai e o Filho, de sorte que não há diferença entre eles em coisa alguma que o pensamento possa considerar ou a palavra nomear, que a piedade possa atribuir a uma natureza divina. Confessamos que, exceto por ser contemplado com atributos peculiares quanto à Pessoa, o Espírito Santo é na verdade de Deus e de Cristo, segundo a Escritura; mas que, ainda que não seja confundido com o Pai por seu ser jamais originado, nem com o Filho por ser o Unigênito, e embora deva ser considerado separadamente em certas propriedades distintivas, tem em tudo o mais, como acabei de dizer, uma identidade exata com eles. Mas nossos adversários afirmam que Ele é estranho a qualquer comunhão vital com o Pai e o Filho; que, por razão de uma variação essencial, é inferior a eles e menor que eles em todo ponto; em poder, em glória, em dignidade, em fim em tudo quanto em palavra ou pensamento atribuímos à Divindade; que, em consequência, em sua glória Ele não tem parte, a igual honra com eles Ele não tem pretensão alguma; e que, quanto ao poder, Ele possui apenas o tanto dele que é suficiente para as atividades parciais que lhe são designadas; que com a força criadora Ele está inteiramente desconectado.
Tal é a concepção daquele que a possui; e a consequência lógica disso é que o Espírito não tem em Si nenhum daqueles sinais que a nossa devoção, em palavra ou pensamento, atribui a uma natureza divina. Que será pois o nosso caminho de argumentação? Nada responderemos de novo, nada de nossa invenção própria, ainda que nos desafiem a fazê-lo; recorreremos ao testemunho da Sagrada Escritura acerca do Espírito, donde aprendemos que o Espírito Santo é divino e deve ser assim chamado. Ora, se eles o concedem, e não contradizem as palavras da inspiração, então eles, com toda a sua veemência em querer contender conosco, devem nos dizer por que contêm com a gente em vez de contenderem com a Escritura. Nada dizemos diferente daquilo que a Escritura diz. — Mas em uma natureza divina, como tal, uma vez que nela tenhamos crido, não podemos reconhecer distinções sugeridas nem pelo ensinamento da Escritura nem pelo nosso senso comum; distinções, isto é, que dividissem aquela natureza divina e transcendente em si mesma por graus de intensidade e remissão, de modo que fosse alterada de si mesma por ser mais ou menos. Porque firmemente cremos que ela é simples, uniforme, não-composta, porque não vemos nela complicidade ou composição de dessemelhantes, por isso é que, uma vez que nossas mentes apreenderam a ideia da Divindade, aceitamos pela implicação daquele próprio nome a perfeição nela de toda coisa concebível que convém à Divindade. A Divindade, com efeito, exibe perfeição em toda linha em que o bem pode ser encontrado. Se ela falha e fica aquém da perfeição em qualquer ponto único, naquele ponto a concepção da Divindade será prejudicada, de modo que não possa, naquele ponto, ser ou ser chamada Divindade; pois como poderíamos aplicar esse nome a uma coisa que é imperfeita e deficiente, e que requer uma adição externa a si mesma?
Podemos confirmar nosso argumento com exemplos materiais. O fogo naturalmente imparte o sentido do calor àqueles que o tocam, com todas as suas partes componentes; uma parte não tem o calor mais intenso, a outra menos intenso; mas enquanto é fogo de alguma forma, exibe uma invariável unidade consigo mesmo em uma absoluta identidade completa de atividade; se em parte alguma ele se esfria, naquela parte não pode mais ser chamado fogo; pois, com a mudança de sua atividade geradora de calor para o inverso, seu nome também é mudado. O mesmo se dá com a água, com o ar, com todo elemento que subjaz ao universo; há uma e a mesma descrição do elemento, em cada caso, não admitindo ideias de excesso ou defeto; a água, por exemplo, não pode ser chamada mais ou menos água; enquanto mantém um padrão igual de umidade, enquanto isso o termo água será realizado por ela; mas uma vez que seja mudada na direção da qualidade oposta, o nome que deve ser aplicado a ela também deve ser mudado. A natureza cedente, flutuante, ágil do ar, também é vista em cada parte dele; enquanto o que é denso, pesado, gravitando para baixo, sai da connotação do próprio termo "ar". Assim a Divindade, enquanto possui perfeição em todas as propriedades que a devoção possa a ela atribuir, em virtude desta perfeição em tudo quanto é bom não nega seu nome; mas se qualquer uma daquelas coisas que contribuem para esta ideia de perfeição for subtraída dela, o nome de Divindade é falsificado naquele particular, e não se aplica mais ao sujeito. É igualmente impossível aplicar a uma substância seca o nome de água, àquilo cuja qualidade é um estado de frieza o nome de fogo, a coisas rígidas e duras o nome de ar, e chamar divina aquela coisa que não implica de uma vez a ideia de perfeição; ou melhor, a impossibilidade é maior neste último caso.
Se, portanto, o Espírito Santo é verdadeiramente, e não somente em nome, chamado Divino tanto pela Escritura quanto por nossos Padres, que fundamento resta àqueles que se opõem à glória do Espírito? Ele é Divino, e absolutamente bom, e Onipotente, e sábio, e glorioso, e eterno; Ele é tudo aquilo desta natureza que pode ser nomeado para elevar nossos pensamentos à grandeza do Seu ser. A unidade do sujeito destas propriedades testifica que Ele não as possui na medida apenas, como se pudéssemos imaginar que Ele fosse uma coisa em Sua própria substância, mas se tornasse outra pela presença das referidas qualidades. Essa condição é peculiar àqueles seres que receberam uma natureza composta; ao passo que o Espírito Santo é único e simples em todo respeito igualmente. Isto é admitido por todos; o homem que o nega não existe. Se, portanto, há uma única e simples definição do Seu ser, o bem que Ele possui não é um bem adquirido; mas, seja qual for o mais que Ele possa ser, Ele é Ele próprio a Bondade, e a Sabedoria, e o Poder, e a Santificação, e a Justiça, e a Eternidade, e a Imperecibilidade, e todo nome que é elevado, e que eleva acima de outros nomes. Que estado de espírito, portanto, leva estes homens, que não temem a sentença terrível pronunciada sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo, a manter que tal Ser não possui glória? Pois claramente apresentam essa afirmação: que não devemos crer que Ele deva ser glorificado; ainda que eu não saiba por que razão julgam ser conveniente não confessar a verdadeira natureza daquilo que é essencialmente glorioso.
Pois não lhes será útil a desculpa na sua auto-defesa de que Ele é entregue pelos nossos Senhor aos seus discípulos em terceiro lugar, e que portanto está afastado do nosso ideal de Divindade. Onde em cada caso a atividade no fazer o bem não mostra diminuição ou variação alguma, como é irrazoável supor que a ordem numérica seja sinal de alguma diminuição ou variação essencial! É como se um homem visse uma chama separada queimando em três tochas (e suponhamos que a terceira chama é causada pela daquela primeira transmitida à do meio, e então acendendo a tochas do fim), e mantivesse que o calor na primeira excedia aquele das outras; que aquele junto a ela mostrava uma variação dele na direção do menor; e que a terceira não pudesse ser chamada fogo, ainda que queimasse e brilhasse assim como o fogo, e fizesse tudo o que o fogo faz. Mas se realmente não há impedimento para que a terceira tocha seja fogo, ainda que tenha sido acesa de uma chama anterior, qual é a filosofia destes homens, que impiamente pensam poder fazer pouco da dignidade do Espírito Santo porque Ele é nomeado pelos lábios Divinos após o Pai e o Filho? Certamente, se há em nossas concepções da Substância do Espírito algo que fica aquém do ideal Divino, bem fazem em testemunhar que Ele não possui glória; mas se a alteza de Sua dignidade há de ser percebida em cada ponto, por que lhe recusam a confissão de Sua glória? Como se alguém, depois de descrever alguém como um homem, considerasse não ser seguro ir adiante e dizer dele igualmente que é racional, mortal, ou qualquer outra coisa que possa ser predicada de um homem, e assim cancelasse o que acabava de permitir; pois se não é racional, não é homem de forma alguma; mas se este último é concedido, como pode haver hesitação acerca das concepções já implicadas em "homem"? Assim, com respeito ao Espírito, se quando se O chama Divino se fala a verdade, tampouco quando se O define como digno de honra, como glorioso, bom, onipotente se mente; pois todas essas concepções são de uma vez admitidas com a ideia de Divindade. De sorte que devem aceitar uma de duas alternativas; ou não O chamar Divino de forma alguma, ou abster-se de subtrair de Sua Divindade qualquer uma daquelas concepções que são atribuíveis à Divindade.