Padres e clássicosSão João Crisóstomo, Homilias sobre a Segunda Carta aos Coríntios, Homilia I

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Obra patrística

Homilias sobre a Segunda Carta aos Coríntios

São João Crisóstomo · c. 347–407

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Homilia I

Homilias de Santo João Crisóstomo, arcebispo de constantinopla, sobre a segunda epístola de Santo Paulo apóstolo aos coríntios.

Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e Timóteo nosso irmão, à Igreja de Deus, que está em Corinto, com todos os santos que estão em toda a Acaia: graça a vós e paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação; que nos consola em toda nossa aflição, para que possamos consolar aos que se encontram em alguma aflição pela consolação com que nós mesmos somos consolados de Deus.

Convém inquirir, primeiro, por que à primeira Epístola acrescenta uma segunda: e qual pode ser a sua razão para assim começar com as misericórdias e consolação de Deus.

Por que pois acrescenta ele uma segunda Epístola? Visto que na primeira havia dito: "Irei a vós, e conhecerei não a palavra dos que estão inchados, mas o poder;" (1 Cor. iv. 19.) e de novo para o fim havia prometido o mesmo em termos mais suaves, assim: "Irei a vós quando houver passado por Macedônia; pois passo por Macedônia; e pode ser que permaneça, ou até inverne convosco;" (1 Cor. xvi. 5, 6.) todavia agora após um longo intervalo, não veio; mas continuava ainda demorando e tardando, ainda que o tempo designado houvesse passado; o Espírito o detendo em outros assuntos de muito maior necessidade que estes. Por esta razão teve necessidade de escrever uma segunda Epístola, de que não teria necessidade se apenas um pouco houvera prolongado seu tempo.

Mas não somente por esta razão, mas também porque foram emendados pelos acontecimentos passados; pois aquele que havia cometido fornicação, a quem antes aplaudiam e se vangloriavam, o separaram e cortaram completamente. E isto ele mostra onde diz: "Mas se alguém causou tristeza, não me causou tristeza somente a mim, mas em parte (para não vos oprimir demasiadamente) a vós todos. Bastante é para tal pessoa este castigo que foi infligido pela multidão." (2 Cor. ii. 5, 6.) E conforme ele prossegue, alude novamente à mesma coisa quando diz: "Pois eis que esta tristeza segundo Deus, que cuidado vos operou! Que defesa de vós mesmos! Que indignação! Que temor! Que saudade! Que zelo! Que vingança! Em tudo vos mostrastes puros nesta matéria." (2 Cor. vii. 11.)

Além disso, a coleta que ele mandou fazer, recolheram com muito ardor. Por esta razão também diz: "Pois conheço vossa prontidão, da qual me glorio por vós perante os macedônios, que Acaia está preparada há um ano." (2 Cor. ix. 2.) E Tito também, a quem enviou, receberam com toda benevolência, como ele mostra quando diz novamente: "Suas entranhas vos amam muito mais, lembrando-se da obediência de vós todos, como o recebestes com temor e tremor." (2 Cor. vii. 15.) Por todas estas razões escreve a segunda Epístola. Pois era conveniente que, assim como quando estavam em falta os repreendesse, assim na sua emenda os aprovasse e louvasse. Por isto a Epístola não é muito severa em tudo, mas somente em poucas partes no fim. Pois havia também entre eles judeus que se julgavam muito, e acusavam Paulo de ser vaidoso e indigno de consideração; donde também aquele discurso deles: "Suas cartas são graves e fortes, mas a sua presença corporal é fraca, e sua palavra frágil." (2 Cor. x. 10.) Querendo dizer por isto, quando está presente parece sem valor (pois isto é o significado de "sua presença corporal é fraca"), mas quando está ausente se gloria muito no que escreve (pois tal é o significado de "suas cartas são graves"). Além disso, para aumentar seu próprio crédito estes homens faziam aparência de nada receber, ao que ele também alude onde diz: "que naquilo em que se gloriam, sejam achados como nós." (2 Cor. xi. 12.) E além disso, possuindo também o poder da linguagem, eram logo muito exaltados. Por isto também ele se chama "rude na fala" (2 Cor. xi. 6.), mostrando que não se envergonha disto; nem julga o contrário grande aquisição alguma. Vendo portanto que era provável que por estes homens alguns fossem seduzidos, depois de louvar o que havia de reto em sua conduta, e abater seu vaidoso orgulho nas coisas do judaísmo, em que fora de tempo eram contenciosos em observá-las, administra uma repreensão suave também sobre este assunto.

Tal então, para falar sumariamente e de passagem, me parece ser o argumento desta Epístola. Resta considerar a introdução, e dizer por que depois de sua saudação acostumada começa, como faz, pelas misericórdias de Deus. Mas primeiro, é necessário falar do próprio começo, e inquirir por que associa aqui Timóteo a si mesmo. Pois ele diz: "Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e Timóteo nosso irmão." Na primeira Epístola prometeu que o enviaria; e os instruiu, dizendo: "Ora, se Timóteo for, vede que esteja entre vós sem temor." (1 Cor. xvi. 10.) Como então é que o associa aqui no começo a si mesmo? Depois que havia estado entre eles, conforme àquela promessa de seu mestre: "Enviei-vos a Timóteo, que vos recordará meus caminhos que são em Cristo" (1 Cor. iv. 17.), e tudo havia ordenado, regressou a Paulo; que ao enviá-lo havia dito: "Acompanhai-o em paz para que chegue a mim, pois o espero com os irmãos." (1 Cor. xvi. 11.)

Posto que Timóteo foi restituído a seu mestre, e depois de haver com ele posto em ordem as coisas na Ásia (pois diz ele: "Ficarei em Éfeso até Pentecostes," 1 Cor. xvi. 8.), havia atravessado novamente para a Macedônia; Paulo não sem razão o associa doravante como permanecendo consigo. Pois então escrevia da Ásia, mas agora da Macedônia. Além disso, ao associá-lo assim, de uma vez ganha para ele maior respeito, e mostra sua própria humildade excessiva: porque Timóteo era muito inferior a si mesmo, todavia o amor traz todas as coisas para junto. Donde também ele por toda parte o faz igual a si; uma vez dizendo, "como um filho serve a um pai, assim ele servia comigo;" (Filip. ii. 22.) outra vez, "porque ele trabalha na obra do Senhor, como também eu;" (1 Cor. xvi. 10.) e aqui, até o chama de "irmão;" tornando-o por todos estes meios objeto de respeito aos coríntios, entre os quais havia estado, como disse, e dado prova de seu mérito.

"À Igreja de Deus que está em Corinto."

Novamente ele os chama "a Igreja," para conduzi-los e ligá-los todos juntos num único corpo. Porque não podia ser uma Igreja, enquanto aqueles dentro dela estivessem divididos e permanecessem apartados. "Com todos os santos que estão em toda a Acaia." Ao assim saudar a todos por toda a Epístola dirigida aos coríntios, honraria de uma vez estes, e reuniria toda a nação. Mas os chama "santos," implicando assim que se alguém for uma pessoa impura, não tem parte nesta saudação. Mas por que, escrevendo à cidade mãe, ele se dirige a todos por meio dela, visto que não faz assim por toda parte? Por exemplo, na sua Epístola aos tessalonicenses não se dirigiu também aos macedônios; e da mesma maneira naquela aos efésios não inclui toda a Ásia; nem aquela aos romanos foi escrita também para os que habitam na Itália. Mas nesta Epístola assim o faz; e naquela aos gálatas. Pois também ali não escreve a uma cidade, ou a duas, ou três, mas a todos que estão espalhados por todas as partes, dizendo: "Paulo apóstolo, (não de homens nem por homem, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas da Galácia. Graça a vós e paz." (Gal. i. 1–3.) Aos hebreus também escreve uma Epístola a todos coletivamente; não os distinguindo em suas várias cidades. Que razão pode haver, pois, para isto? Porque, como penso, neste caso todos estavam envolvidos num único desordenamento comum, por isso também ele se lhes dirige em comum, como necessitando de um único remédio comum. Pois os gálatas todos estavam infectados. Assim também os hebreus, e assim creio que estes (aqueus) também.

[3.] Assim pois, tendo reunido toda a nação em uma só, e saudado-a com sua saudação acostumada, pois diz ele: "Graça a vós e paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo:" (2 Cor. i. 2.) ouvi como aptamente ao propósito em mão ele começa: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação." (ver. 3.) Perguntais vós, como isto é aptamente ao propósito em mão? Respondo-vos: Muitíssimo; pois observai, estavam grandemente perturbados e angustiados que o Apóstolo não tivesse vindo a eles, e isto, ainda que tivesse prometido, mas houvesse gasto todo o tempo na Macedônia; preferindo, como parecia, outros a eles mesmos. Dispondo-se pois a encontrar este sentimento contra si, declara a causa de sua ausência; não porém declarando-a diretamente, assim: "Bem sei, verdadeiramente prometi vir, mas já que fui impedido pelas aflições, perdoai-me, nem me julgueis culpado de alguma sorte de desprezo ou negligência para convosco:" mas de outra maneira reveste o assunto de uma só vez com maior dignidade e confiabilidade, e lhe dá grandeza pela natureza da consolação, de sorte que depois disso nem ao menos perguntassem vós a razão de sua demora. Assim como se alguém, tendo prometido vir àquele a quem desejava, enfim chegasse depois de perigos inumeráveis, dissesse: "Glória a ti, ó Deus, por me deixares ver a vista tão desejada de seu amado rosto! Bendito sejas, ó Deus, de que perigos me livraste!" pois tal doxologia é uma resposta àquele que se preparava para reclamar, e não o deixa nem ao menos queixar-se da demora; pois aquele que está agradecendo a Deus pela libertação de tão grandes calamidades, não pode por vergonha ser arrastado ao tribunal, e mandar-se justifique de qualquer lentidão. Donde Paulo assim começa: "Bendito seja o Deus das misericórdias," implicando pelas mesmas palavras que havia sido tanto conduzido para dentro de quanto libertado de poderosos perigos. Pois como Davi também não se dirige a Deus em toda parte de uma só maneira ou com os mesmos títulos; mas quando está sobre batalha e vitória: "Amar-te-ei," diz ele, "ó Senhor minha força; o Senhor é meu escudo:" quando novamente sobre libertação da aflição e das trevas que o envolviam: "O Senhor é minha luz e minha salvação;" (Sal. xxvii. 1.) e conforme a ocasião imediata sugere, o nomeia ora de sua misericórdia, ora de sua justiça, ora de seu justo juízo:—de modo semelhante Paulo também aqui no princípio o descreve por sua misericórdia, chamando-o "o Deus das misericórdias," isto é, "Aquele que me mostrou tão grandes misericórdias que me trouxe acima desde as próprias portas da morte."

E assim ter misericórdia é o atributo peculiar e excelente de Deus, e o mais inerente em sua natureza; donde o chama ele "o Deus das misericórdias."

E observai, rogo-vos, nisto também a humildade de Paulo. Pois embora estivesse em perigo por causa do Evangelho que pregava; ainda assim não diz ele que fora salvo por seu mérito, mas pelas misericórdias de Deus. Mas isto ele depois declara mais claramente, e agora vai dizendo: "Que nos consola em toda aflição." (2 Cor. i. 4.) Não diz ele: "Que não nos sofre entrar em aflição:" mas: "Que nos consola na aflição." Pois isto de uma só vez declara o poder de Deus; e aumenta a paciência dos afligidos. Pois diz ele: "A tribulação produz paciência." (Rom. v. 3.) E assim também o profeta: "Tu me dilataste quando estava em angústia." (Sal. iv. 1.) Não diz ele: "Não me sofresse cair em aflição," nem tampouco: "Rapidamente removesses minha aflição," mas, enquanto persevera: "Tu me dilataste:" (Dan. iii. 21. &c.) isto é: "concedeste-me muita liberdade e refrigério." O que verdadeiramente também sucedeu no caso dos três meninos, pois nem os impediu de serem lançados na chama, nem quando assim lançados a extinguiu, mas enquanto o forno ardia concedeu-lhes liberdade. E tal é sempre o modo de Deus proceder; como Paulo também implica quando diz: "Que nos consola em toda aflição."

Mas ele ensina algo mais nessas palavras: Que é que perguntais? A saber, que Deus não faz isto uma vez, nem duas, mas sem intermissão. Pois não conforta ele numa ocasião e noutro tempo não, mas sempre e constantemente. Pelo qual diz: "Aquele que conforta," não "Aquele que confortou," e "em toda aflição," não "nesta ou naquela," mas "em toda."

"Para que possamos confortar aqueles que estão em qualquer aflição, pelo conforto com que nós mesmos somos confortados de Deus." Não vedes como ele se antecipa na sua defesa, sugerindo ao ouvinte a ideia de uma grande aflição? E nisto também se manifesta de novo a sua modéstia, pois não diz que por seus próprios méritos foi mostrada essa misericórdia, mas por causa daqueles que necessitam de sua assistência; "pois," diz ele, "para isso nos confortou, a fim de que pudéssemos confortar uns aos outros." E por isso também manifesta a excelência dos Apóstolos, mostrando que, tendo sido confortado e respirado um pouco, ele não repousa tranquilamente como nós, mas prossegue seu caminho para ungir, para fortalecer, para despertar outros. Alguns, porém, entendem isto como o sentido do Apóstolo. "Nosso consolo é também o de outros:" mas minha opinião é que nesta introdução ele também está censurando os falsos Apóstolos, aqueles vãos jactadores que se assentavam em casa e viviam em luxúria; mas isto veladamente e, por assim dizer, incidentalmente, sendo o objeto principal desculpar o seu atraso. "Pois," diria ele, "se para isso fomos confortados, a fim de que pudéssemos confortar também a outros, não nos censureis por não termos vindo; pois nisto foi todo o nosso tempo gasto, em prevenir contra as conspirações, a violência, os terrores que nos assaltavam."

"Pois assim como os sofrimentos de Cristo abundam em nós, assim também nosso consolo abunda por Cristo." Não para desanimar os discípulos com um relato agravado de seus sofrimentos; declara, pelo contrário, que grande e superabundante era também a consolação, e levanta seus corações não só por isso, mas também lembrando-os de Cristo e chamando aos sofrimentos "Seus," e antes da consolação deriva um conforto dos próprios sofrimentos. Pois que alegria posso eu ter tão grande quanto ser participante com Cristo e por sua causa sofrer estas coisas? Que consolação pode ser igual a esta? Mas não só dessa fonte levanta ele os espíritos dos aflitos, mas também de outra. Perguntais qual outra? Na medida em que diz "abundam:" pois não diz "Como os sofrimentos de Cristo estão em nós," mas como "abundam," declarando assim que não sofrem somente seus sofrimentos, mas até mais do que estes. Pois, diz ele, "não sofríamos tudo quanto Ele sofreu; mas ainda mais," considerai, "Cristo foi rejeitado, perseguido, açoitado, morreu," mas nós, diz ele, "mais do que tudo isto," o que seria por si mesmo consolo suficiente. Agora ninguém condene este discurso de audácia; pois ele em outro lugar diz: "Agora me alegro nos meus sofrimentos, e cumpro na minha carne o que falta das aflições de Cristo." Nem aqui nem ali porém é de audácia ou de qualquer presunção.

Referência atual: São João Crisóstomo, Homilias sobre a Segunda Carta aos Coríntios, Homilia I