Obra patrística
Homilias sobre Filipenses, Colossenses e Tessalonicenses
São João Crisóstomo · c. 347–407
III, 1–III, 3
Discurso introdutório.
HOMILIAS DO SANTO JOÃO CRISÓSTOMO, ARCEBISPO DE CONSTANTINOPLA, SOBRE A EPÍSTOLA DO BEM-AVENTURADO APÓSTOLO PAULO AOS FILIPENSES.
Discurso Introdutório.
Os Filipenses são de uma cidade da Macedônia, uma cidade que é colônia, como diz Lucas. Ali foi convertida aquela vendedora de púrpura, mulher de piedade e diligência extraordinárias. Ali o chefe da sinagoga creu. Ali Paulo foi açoitado com Silas. Ali os magistrados lhes pediram que se retirassem, e tiveram medo deles, e a pregação teve um começo ilustre. E ele próprio lhes testemunha muitas e grandes coisas, chamando-os sua coroa e dizendo que tinham padecido muito. Pois, como ele diz: "Porque vos foi concedido pela graça de Deus não só crer nEle, mas também padecer pela sua causa." (Fl 1,29.)
Mas quando lhes escreveu, acontecia que estava em cadeias. Por isso diz: "De sorte que as minhas cadeias se tornaram manifestas em Cristo em todo o pretório", chamando o palácio de Nero de pretório. Mas foi aprisionado e novamente solto, e isto mostrou a Timóteo, dizendo: "Na minha primeira defesa ninguém me assistiu, antes todos me desampararam; que isto não lhes seja imputado. Mas o Senhor comigo esteve e me confortou." (2Tm 4,16.) Ele fala das cadeias em que esteve antes daquela defesa. Que Timóteo não estava presente então é evidente: pois diz ele: "Na minha primeira defesa ninguém me assistiu"; e isto por escrito estava lhe fazendo conhecer. Não teria, pois, se já o soubesse, assim lhe escrito. Mas quando escreveu esta epístola, Timóteo estava com ele. E o mostra pelo que diz: "Mas espero no Senhor Jesus enviar-vos Timóteo em breve." (Fl 2,19.) E ainda: "Espero pois enviá-lo logo que vir como for o meu estado." Pois foi solto das suas cadeias e novamente aprisionado depois de ter ido ter com eles. Mas se diz: "Sim, e até me alegro e me regozijo convosco", não é como se isto fosse já acontecido, mas como quem diz: "e sempre que isto suceder me alegro", elevando-os da tristeza por causa das suas cadeias. Pois que não estava para morrer naquela ocasião é claro pelo que ele diz: "Mas tenho confiança no Senhor que também eu mesmo em breve vos visitarei." (Fl 2,24.)
E novamente: "Tendo esta confiança, sei que ficarei e permanecer-vos-ei com todos vós."
Discurso introdutório, 2
Mas os filipenses lhe tinham enviado Epafrodito, para levar-lhe dinheiro e para saber como ele estava, pois eram para com ele mui afetuosissimamente dispostos. E que o fizeram, ouça-se a ele mesmo dizendo: "Tenho tudo em abundância; estou repleto, havendo recebido de Epafrodito as coisas que vieram de vós." Ao mesmo tempo o enviaram para saber disto. E que o enviaram também para saber disto, o mostra logo no princípio da epístola, escrevendo a respeito de seus próprios assuntos e dizendo: "Mas quero que saibais que as coisas que me aconteceram redundaram muito mais no progresso do Evangelho." (Filip. i. 12.) E de novo: "Espero enviar-vos Timóteo brevemente, para que eu também fique de bom ânimo quando souber como estais." Este "eu também" é como se quisesse dizer "assim como vós, para perfeita certeza, enviastes a saber as coisas a meu respeito, assim 'eu também', para que fique de bom ânimo quando souber as coisas a vosso respeito." Pois que então também há muito tempo não enviavam (pois isto prova dizendo: "Agora enfim revivificastes o pensamento para comigo") (Filip. iv. 10.), e depois ouviram que ele estava em cadeias (Filip. ii. 26.); pois se ouviram acerca de Epafrodito que estava doente, sendo ele não tal pessoa tão notável como Paulo era, muito mais ouviram a respeito de Paulo, e era razão que se perturbassem; portanto, no princípio da epístola oferece-lhes muita consolação a respeito de suas cadeias, mostrando que não só não deviam estar perturbados, mas até se alegrar. Depois lhes dá conselhos acerca da unanimidade e humildade, ensinando-lhes que esta era sua maior segurança, e que assim poderiam facilmente vencer seus inimigos. Pois não é estar em cadeias o que é penoso para vossos mestres, mas seus discípulos não serem de um só sentimento. Porque o primeiro traz até proveito ao Evangelho, mas o segundo perturba.
Discurso introdutório, 3
Portanto, depois de os admoestações a serem de um mesmo sentimento, e mostrando que a unanimidade procede da humildade, e então lançando um dardo contra aqueles judeus que por toda parte corrompiam a doutrina sob aparência de cristianismo, e chamando-os "cães" e "obreiros maléficos" (Filip. iii. 2.), e dando admoestação para se afastarem deles, e ensinando a quem convém estar atento, e dissertando longamente sobre matérias morais, e trazendo-os à ordem, e reconduzindo-os a si mesmos, dizendo "O Senhor está próximo" (Filip. iv. 5.), faz menção também, com sua sabedoria costumeira, do que havia sido enviado, e então oferece-lhes consolação abundante. Porém ele parece estar, ao escrever, prestando-lhes honra especial, e nunca em lugar algum escreve coisa alguma de repreensão, o que é prova de sua virtude, em que não deram ocasião a seu mestre, e que ele lhes escreveu não do modo de censura, mas por inteiro do modo de exortação. E como disse também no início, esta cidade mostrou grande prontidão para a fé; de tal sorte que o próprio carcereiro, e vós sabeis que é ofício cheio de toda maldade, de repente, mediante um milagre, tanto correu para eles como foi batizado com toda sua casa. Pois o milagre que se realizou viu-o ele sozinho, mas o fruto que colheu não colheu sozinho, mas juntamente com sua esposa e toda sua casa. Não; até mesmo os magistrados que o açoitaram parecem ter feito isto mais por súbito impulso do que por maldade, tanto pelo fato de terem enviado logo para o deixar ir, como pelo fato de haverem ficado depois com medo. E ele lhes rende testemunho não somente em fé ou em perigos, mas também em bem-fazer, quando diz, "Que ainda no princípio do Evangelho, vós me enviastes uma e outra vez para minha necessidade" (Filip. iv. 15, 16.), quando ninguém mais assim fez; pois diz ele, "nenhuma Igreja teve comunicação comigo quanto a dar e receber"; e que seu repouso havia sido mais por falta de oportunidade do que por escolha, dizendo, "Não que não tivésseis cuidado de mim, mas vós carecíeis de oportunidade" (Filip. iv. 10.). Façamos também nós, conhecendo estas coisas, e tendo tantos exemplos, e o amor que ele lhes tinha—pois que o amava grandemente aparece em seu dizer, "Porque não tenho outro homem que tenha sentimento como o dele, que se preocupe verdadeiramente com vosso estado" (Filip. ii. 20.); e novamente, "Porque vós estais em meu coração, e em meus grilhões"—
Discurso introdutório, 4
Conheçamos também estas coisas e mostremo-nos dignos de tais exemplos, estando prontos a sofrer por Cristo. Mas agora já não há perseguição. Se pois não há outra coisa, imitemos o seu zelo na prática do bem, e não pensemos que, havendo dado uma ou duas vezes, cumprimos tudo. Porque devemos fazer isto durante toda a nossa vida. Não é uma só vez que temos de agradar a Deus, mas constantemente. O atleta que, depois de correr dez provas, deixa por fazer a que falta, perdeu tudo; e nós, se começamos com boas obras e depois desfaecemos, temos perdido tudo, temos arruinado tudo. Ouvi aquela admoestação proveitosa que diz: "Que a misericórdia e a verdade não se afastem de ti." (Prov 3,3.)
Não diz que o faças uma só vez, nem pela segunda, nem pela terceira, nem pela décima, nem pela centésima, mas continuamente: "que não se afastem de ti." E não disse: Não as abandones, mas "que não se afastem de ti," mostrando que delas temos necessidade, e não elas de nós; e ensinando-nos que devemos fazer todo o esforço para as conservarmos conosco. E "ata-as," diz ele, "ao teu pescoço." Porque assim como os filhos dos ricos têm um ornamento de ouro ao pescoço, e nunca o tiram, porque manifesta um sinal do seu alto nascimento, assim também nós devemos trazer sempre a misericórdia conosco, mostrando que somos filhos daquele que é compassivo, "que faz nascer o seu sol sobre os maus e sobre os bons" (Mt 5,45). "Mas os infiéis," dizeis vós, "não creem nisso." Eu vos digo então que eles crerão se nós praticarmos estas obras. Se veem que temos compaixão de todos e que estamos alistados sob Ele como nosso Mestre, conhecerão que é em imitação d'Ele que assim agimos. Porque "misericórdia," diz ele, "e verdade fiel." Bem disse "fiel." Porque Ele não quer que seja fruto de rapina ou fraude. Porque isto não seria "verdade"; isto não seria "fé." Porque o que rouba há de mentir e forswear-se. Tu pois não faças assim, diz ele, mas trata a misericórdia com verdade.
Revistamo-nos deste ornamento. Façamos uma corrente de ouro para nossa alma, digo, de misericórdia, enquanto aqui estamos. Pois se passar esta idade, não poderemos mais usá-la. E por quê? Ali não há pobres, Ali não há riquezas, não há mais necessidade. Enquanto somos crianças, não nos privemos deste ornamento. Pois assim como com as crianças, se se tornarem homens, estas coisas lhes são tiradas, e são elevadas a outro adorno; assim também acontece conosco. Não haverá mais esmola em dinheiro, mas outra e muito mais nobre. Não nos privemos, pois, disto!
Façamos nossa alma aparecer bela! Grande é a esmola, bela, e honrosa, grande é este dom, mas maior é a bondade. Se aprendermos a desprezar as riquezas, aprenderemos outras coisas além disto. Pois eis quantos bens procedem daqui! Aquele que dá esmola, como deve dar, aprende a desprezar a riqueza. Aquele que aprendeu a desprezar a riqueza cortou a raiz dos males. De modo que não faz um bem maior do que recebe, não meramente porque há uma devida recompensa e retribuição pela esmola, mas também porque sua alma se torna filosófica, e elevada, e rica. Aquele que dá esmola é instruído a não admirar as riquezas ou o ouro. E esta lição, uma vez fixada em seu espírito, adquiriu um grande passo para subir ao Céu, e cortou dez mil ocasiões de contenda, e discórdia, e inveja, e abatimento. Pois vós sabeis, também vós sabeis, que todas as coisas se fazem por causa das riquezas, e inumeráveis guerras se fazem pelas riquezas. Mas aquele que aprendeu a desprezá-las, colocou-se em um porto tranquilo, já não teme dano algum. Pois isto lhe ensinou a esmola. Já não deseja o que é de seu próximo; pois como desejaria, aquele que se priva do seu próprio e dá? Já não inveja o homem rico; pois como invejaria, aquele que está disposto a se tornar pobre? Ele clareia o olho de sua alma. E estas são coisas daqui. Mas no futuro, não se pode contar quais bênçãos ele há de alcançar. Não permanecerá de fora com as virgens néscias, mas entrará com aquelas que foram sábias, juntamente com o Esposo, tendo suas lâmpadas claras. E embora tenham suportado dificuldade em virgindade, aquele que nem sequer provou estas dificuldades será melhor do que elas. Tal é o poder da Misericórdia. Ela introduz seus filhinhos com muita confiança. Pois é conhecida pelos porteiros do Céu, que guardam as portas da Câmara da Noiva, e não apenas conhecida, mas reverenciada; e aqueles que ela conhece terem-lhe feito honra, ela os introduzirá com muita confiança, e ninguém se oporá, mas todos cederão lugar. Pois se ela trouxe Deus à terra, e o persuadiu a se fazer homem, muito mais será ela capaz de elevar um homem ao Céu; pois grande é seu poder. Se, pois, da misericórdia e da benevolência Deus se fez homem, e se persuadiu a se fazer servo, muito mais elevará Ele seus servos à sua própria casa. Amemo-la a ela, nela coloquemos nosso afeto, não um dia, nem dois, mas toda nossa vida, para que ela nos reconheça. Se ela nos reconhecer, o Senhor também nos reconhecerá. Se nos repudiar, o Senhor também nos repudiará, e dirá: "Não vos conheço." Mas que não seja nosso ouvir esta voz, mas aquela bem-aventurada, "Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo." (Mt 25,34.) O qual possamos todos alcançar, por sua graça e benevolência, em Cristo Jesus nosso Senhor, com quem ao Pai e ao Espírito Santo, seja glória, força, honra, agora e por sempre, e nos séculos dos séculos. Amém.