Obra patrística
Contra os Pelagianos
São Jerônimo · c. 347–420
Livro I, Parágrafo 2
Livro I, Parágrafo 2
2. A. Ninguém duvida, Critóbulo, de que todas as coisas dependem do juízo Daquele que é Criador de tudo, e de que tudo quanto possuímos deve ser atribuído à Sua bondade. Mas gostaria de saber a respeito desta faculdade, que vós atribuís à graça de Deus, se a reputais como parte do dom concedido em nossa criação, ou se a supondes operante em nossas ações separadas, de forma que nos aproveitemos continuamente de seu auxílio; ou será porventura o caso de que, tendo sido uma vez por todas criados e dotados de livre arbítrio, façamos o que escolhemos por nossa própria escolha ou força? Pois sei que muito muitos de vosso partido referem todas as coisas à graça de Deus de tal maneira que entendem o poder da vontade ser um dom não de caráter particular, mas geral, isto é, um que é concedido não a cada momento separado, mas uma só vez na criação.
C. Não é como afirmais; mas sustento ambas as posições, que é pela graça de Deus que fomos criados tais como somos, e também que em nossas várias ações somos sustentados por Seu auxílio.
A. Estamos de acordo, pois, em que nas obras boas, além de nosso próprio poder de escolha, nos apoiamos na ajuda de Deus; nas obras más somos impelidos pelo demônio.
C. Precisamente assim; não há diferença de opinião neste ponto.
A. Erram, portanto, aqueles que nos despojam do auxílio de Deus em nossas ações separadas. O Salmista canta: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia o guarda;" e há passagens semelhantes. Mas estes homens procuram por interpretações perversas, ou antes ridículas, torcer suas palavras para um sentido diferente.
Livro I, Parágrafo 3
3. C. Sou obrigado a contradizer os outros quando tenho a minha própria resposta?
A. A vossa resposta com que efeito? Que eles têm razão, ou que estão enganados?
C. Que necessidade me compele a opor a minha opinião à dos outros homens?
A. Vós estais obrigado pelas regras da discussão, e pelo respeito à verdade. Não sabeis que toda assertiva ou afirma ou nega, e que o que é afirmado ou negado deve ser contado entre as coisas boas ou más? Vós deveis, portanto, admitir, e sem mérito vosso, que a proposição a que minha questão se refere é coisa boa ou má.
C. Se em ações particulares temos necessidade da ajuda de Deus, segue-se daí que não podemos fazer uma pena, ou consertá-la quando está feita? Não podemos formar as letras, calar-nos ou falar, assentar-nos, pôr-nos em pé, caminhar ou correr, comer ou jejuar, chorar ou rir, e assim por diante, sem a assistência de Deus?
A. Do meu ponto de vista é claramente impossível.
C. Como, pois, temos livre arbítrio, e como podemos guardar a graça de Deus para conosco, se não podemos fazer nem mesmo estas coisas sem Deus?
Livro I, Parágrafo 4
4. A. A concessão da graça do livre arbítrio não é tal que faça desaparecer o amparo de Deus nas ações particulares.
C. O auxílio de Deus não é tornado de nenhuma conta; porquanto as criaturas são preservadas pela graça do livre arbítrio uma vez por todas lhes dada. Pois se sem Deus, e se Ele não me assiste em cada ação, nada posso fazer. Nem pode Ele com justiça coroar-me por minhas boas obras, nem punir-me pelas más, mas em cada caso receberá o que é Seu, ou condenará aos assistentes que deu.
A. Dize-me, pois, claramente, por que desfazes a graça de Deus. Pois tudo quanto destruíres nas partes deves necessariamente negar no todo.
C. Não nego a graça quando afirmo que fui assim criado por Deus, que pela graça de Deus foi posto ao poder de minha escolha fazer uma coisa ou não a fazer.
A. Assim Deus dorme sobre nossas boas ações, uma vez dado o dom do livre arbítrio; e não necessitamos rogar-Lhe que nos assista em nossas ações separadas, pois depende de nossa própria escolha e vontade fazer uma coisa se o escolhermos, ou não a fazer se o não escolhermos.
Livro I, Parágrafo 5
5. C. Assim como no caso de outras criaturas, observam-se as condições da criação lícita; de modo que, uma vez concedido o poder do livre arbítrio, tudo foi deixado à nossa própria escolha.
A. Segue-se, como disse, que não devo pedir a assistência de Deus nos detalhes da conduta, porque considero que foi dada uma vez por todas.
C. Se Ele coopera comigo em tudo, o resultado já não é meu, mas dAquele que me assiste, ou melhor, que obra em mim e comigo; e tanto mais porque nada posso fazer sem Ele.
A. Não leste porventura: "que não é de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que se compadece"? Disto compreendemos que querer e correr é nosso, mas o levar a efeito o nosso querer e correr pertence à misericórdia de Deus, e é assim efetuado que, de uma parte, no querer e correr se conserva o livre arbítrio; e de outra, no consumar o nosso querer e correr, tudo é deixado ao poder de Deus. Certamente, devo agora aduzir o frequente testemunho da Escritura para mostrar que nos detalhes da conduta os santos imploram a ajuda de Deus, e em suas várias ações desejam tê-Lo por seu auxiliador e protetor. Percorre todo o Saltério, e todos os ditos dos santos, e encontrarás que suas ações nunca estão desacompanhadas de oração a Deus. E isto é prova evidente de que ou negas a graça que baniste das partes da vida; ou se concedes sua presença nas partes, concessão claramente muito contra tua vontade, deves ter-te unido aos pontos de vista daqueles de nós que preservamos o livre arbítrio para o homem, mas assim o limitamos que não negamos a assistência de Deus em cada ação.
Livro I, Parágrafo 6
6. C. Essa é uma conclusão sofística e mera ostentação de habilidade lógica. Ninguém pode despojar-me do poder do livre arbítrio; de outro modo, se Deus fosse verdadeiramente meu auxiliador no que faço, a recompensa não seria devida a mim, mas àquele que em mim obrou.
A. Faça o melhor uso de vosso livre arbítrio; armei vossa língua contra Deus, e nisto provai-vos livre, se quiserdes, para blasfemar. Mas para ir mais longe, não há dúvida quanto aos vossos sentimentos, e as ilusões de vossa profissão tornaram-se tão claras quanto o dia. Ora, voltemos ao ponto de partida de nossa discussão. Acabais de dizer que, concedida a assistência de Deus, o homem pode ser sem pecado se o escolher. Dizei-me, por favor, por quanto tempo? Por sempre, ou somente por pouco tempo?
C. Vossa pergunta é desnecessária. Se eu digo por pouco tempo, por sempre nem por isso deixará de estar implícito. Pois tudo aquilo que vós permitirdes por pouco tempo, haveis de admitir que pode durar por sempre.
A. Não compreendo bem vosso sentido.
C. Sois tão insensato que não reconheceis fatos manifestos?
Livro I, Parágrafo 7
7. A. Não me envergonho da minha ignorância. E ambas as partes devem estar bem de acordo sobre uma definição do assunto em disputa.
C. Mantenho isto: quem pode guardar-se do pecado um dia, pode fazê-lo outro dia; se pode em dois, pode em três; se em três, em trinta; e assim por diante por trezentos, ou três mil, ou pelo tempo que bem lhe aprouver.
A. Dize então de uma vez que um homem pode estar sem pecado para sempre, se o escolher. Podemos fazer tudo quanto nos agrada?
C. Certamente não, porque eu não posso fazer tudo quanto gostaria; mas tudo quanto digo é isto: que um homem pode estar sem pecado, se o escolher.
A. Sejas tão gentil de dizer-me isto: acreditas que sou homem ou besta?
C. Se eu tivesse alguma dúvida sobre se fosse homem ou besta, eu mesmo me confessaria como sendo a última.
A. Se então, como dizes, sou homem, como é que quando desejo e ardentemente anelo não pecar, eu transgrido?
C. Porque a tua escolha é imperfeita. Se realmente desejasses não pecar, realmente não pecarias.
A. Bem então, vós que me acusais de não ter um desejo real, estais livres do pecado porque tendes um desejo real?
C. Como se eu estivesse falando de mim mesmo, a quem confesso ser pecador, e não dos poucos excecionais, se alguns há, que resolveram não pecar.
Livro I, Parágrafo 8
A. Ainda assim, eu que pergunto, e vós que respondeis, ambos nos consideramos pecadores.
C. Mas somos capazes de não o sermos, se nos aprouver.
A. Disse que não desejava pecar, e sem dúvida vosso sentimento é o mesmo. Como é possível então que aquilo que ambos desejamos não possamos fazer?
C. Porque não desejamos perfeitamente.
A. Mostrai-me algum de nossos antepassados que tivesse uma vontade perfeita e o poder em perfeição.
C. Isso não é fácil. E quando digo que um homem pode estar sem pecado se o escolher, não pretendo que jamais tenha havido tais homens; apenas mantenho a possibilidade abstrata—se o escolher. Pois a possibilidade de ser é uma coisa, e é expressa em grego por τῇ δυνάμει (possibilidade); o ser é outra, cujo equivalente é τῇ ἐνεργείᾳ (atualidade). Posso ser médico; mas enquanto isso não sou. Posso ser artesão; mas ainda não aprendi ofício algum. Assim, tudo aquilo que sou capaz de ser, ainda que não o seja ainda, serei se o escolher.
Livro I, Parágrafo 9
9. A. Uma coisa é a arte, outra é aquilo que está acima da arte. A habilidade médica, a perícia artesanal e semelhantes encontram-se em muitas pessoas; mas estar sempre sem pecado é característica do poder divino somente. Portanto, ou me apresenta uma instância daqueles que foram para sempre sem pecado; ou, se não podes encontrar uma, confessa tua impotência, abandona a retórica bombástica, e não graceje os ouvidos dos tolos com este ser e possibilidade de ser vossos. Pois quem concederá que um homem possa fazer o que nenhum homem jamais foi capaz de fazer? Não aprendeste sequer os rudimentos da lógica. Pois se um homem é capaz, já não é incapaz. Ou concede que alguém foi capaz de fazer o que tu sustentas ter sido possível fazer; ou se ninguém teve este poder, és compelido, ainda que contra tua vontade, a manter esta posição, que ninguém é capaz de efetuar o que contudo professas ser possível. Este era o ponto em questão entre os poderosos lógicos Diodoro e Crisipo, em sua discussão sobre a possibilidade. Diodoro diz que somente pode acontecer aquilo que ou é verdadeiro ou será verdadeiro. E tudo quanto será, diz ele, deve necessariamente acontecer. Mas tudo quanto não será, não pode possivelmente acontecer. Crisipo, porém, diz que coisas que não serão poderiam acontecer; por exemplo, esta pérola poderia ser quebrada, ainda que nunca o seja. Aqueles, pois, que dizem que um homem pode estar sem pecado se escolher, não serão capazes de provar a verdade da asserção, a menos que mostrem que virá a acontecer. Mas visto que todo o futuro é incerto, e especialmente tais coisas que nunca ocorreram, é claro que dizem algo que será o qual não será. E o Eclesiastes apoia esta decisão: "Tudo quanto há de ser, já foi nos séculos antigos."
Livro I, Parágrafo 10
10. C. Rogo-vos que respondais a esta questão: porventura Deus deu mandamentos possíveis ou impossíveis?
A. Vejo aonde vos dirigis. Mas devo discutir isto mais adiante, para que não confundindo diferentes questões, deixemos nossos ouvintes em obscuridade. Confesso que Deus deu mandamentos possíveis, pois de outro modo Ele mesmo seria autor da injustiça, se exigisse o cumprimento daquilo que não pode de modo algum ser feito. Reservando isto para depois, terminai vosso argumento de que um homem pode ficar sem pecado, se o escolher. Ou dareis exemplos dessa capacidade, ou, se ninguém jamais teve tal poder, claramente confessareis que um homem não pode evitar sempre o pecado.
C. Já que vos apraz exigir de mim aquilo que não sou obrigado a dar, considerai o que nosso Senhor diz: "É mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus." E contudo ele disse que uma coisa poderia possivelmente acontecer, a qual nunca aconteceu. Pois nenhum camelo jamais passou pelo olho de uma agulha.
A. Espanto-me que um homem prudente ofereça prova que milita contra si mesmo. Pois a passagem em questão não fala de uma possibilidade, mas uma impossibilidade é comparada com outra. Assim como um camelo não pode passar pelo olho de uma agulha, assim também um rico não entrará no reino dos céus. Ou, se pudésseis mostrar que um rico entra no reino dos céus, segue-se também que um camelo passa pelo olho de uma agulha. Não deveis aludir a Abraão e outros homens ricos, de quem lemos no Testamento Antigo, que, ainda que fossem ricos, entraram no reino dos céus; pois, despendendo suas riquezas em obras boas, deixaram de ser ricos; sim, antes, na medida em que eram ricos, não para si mesmos, mas para outros, devem ser chamados despenseiros de Deus e não homens ricos. Mas devemos buscar a perfeição evangélica, segundo a qual há o mandamento: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo quanto tens, e dá aos pobres, e vem, segue-me."
Livro I, Parágrafo 11
11. C. Sois apanhado na vossa própria armadilha.
A. Como assim?
C. Citais a palavra do Senhor no sentido de que um homem pode ser perfeito. Pois quando Ele diz: "Se queres ser perfeito, vende tudo quanto tens, e dá aos pobres, e vem, segue-Me," mostra que um homem, se o escolher, e se fizer o que lhe é mandado, pode ser perfeito?
A. Desferistes-me um golpe tão terrível que fico quase atordoado. Porém as mesmas palavras que citais, "Se queres ser perfeito," foram ditas a um que não podia, ou antes não queria, e portanto não podia; mostrai-me agora, como prometestes, alguém que quisesse e pudesse.
C. Por que sou obrigado a produzir exemplos de perfeição, quando é claro pela palavra que o Salvador disse a um, e por um a todos, "Se queres ser perfeito" que é possível aos homens serem perfeitos?
A. Isso é mera evasão. Ainda permaneceis preso na lama. Pois, ou, se uma coisa é possível, ocorreu em algum tempo; ou, se nunca aconteceu, concedei que é impossível.