Obra patrística
Vida de Malco, o Monge Cativo
São Jerônimo · c. 347–420
A Vida de Malchus, o Monge Cativo, Parágrafo 1
A Vida de Malchus, o Monge Cativo, Parágrafo 1
Os que têm de travar batalha naval preparavam-se para ela nos portos e em águas tranquilas, ajustando o leme, manejando os remos e tendo prontos os ganchos e ferros de abordagem. Dispunham os soldados nos conveses e os acostumavam a manter-se firmes com pé pousado e em terreno escorregadio; para que não se atemorizar com tudo isto quando viesse o verdadeiro combate, porque tivessem experiência dele na simulação. E assim também se dá comigo. Há muito tempo guardo silêncio, porque o silêncio me foi imposto por aquele a quem causo dor quando dele falo. Mas agora, dispondo-me a escrever história em escala mais ampla, desejo exercitar-me por meio desta pequena obra e, por assim dizer, limpar a ferrugem de minha língua. Porquanto tenho propósito (se Deus me conceder vida, e se meus censores enfim cessar de perseguir-me, agora que sou fugitivo e encerrado num mosteiro) de escrever uma história da Igreja de Cristo desde o advento de nosso Salvador até aos nossos dias, isto é, desde os apóstolos até à escória do tempo em que vivemos, e de mostrar por que meios e através de quais agentes recebeu seu nascimento, e como, à medida que se fortalecia, cresceu pela perseguição e foi coroada com o martírio; e depois, após alcançar os Imperadores cristãos, como aumentou em influência e em riqueza mas diminuiu em virtudes cristãs. Mas disto noutro lugar. Agora ao assunto presente.
A vida de Malco, o monge cativo, parágrafo 2
Marónia é uma pequena aldeia a cerca de trinta milhas para o oriente de Antioquia na Síria. Depois de haver tido muitos donos ou senhores, no tempo em que eu estava como jovem na Síria, veio a cair na posse de meu íntimo amigo, o Bispo Evágrio, cujo nome agora dou a fim de mostrar a fonte de minha informação. Pois bem, havia no lugar naquele tempo um homem velho de nome Malco, que poderíamos traduzir como "rei," sírio de raça e de fala, na verdade um verdadeiro filho daquela terra. Sua companheira era uma velha mui decadente que parecia estar à beira da morte, ambos tão zelosamente piedosos e tão assíduos frequentadores da Igreja, que poderiam ter sido tomados por Zacarias e Isabel no Evangelho, não fosse o fato de não haver João algum a ser visto. Com alguma curiosidade perguntei aos vizinhos qual era o vínculo entre eles; seria matrimônio, ou parentesco, ou o laço do Espírito? Todos com uma só voz responderam que eram pessoas santas, bem agradáveis a Deus, e me deram uma conta estranha deles. Desejando conhecer mais, comecei a interrogar o homem com muita veemência acerca da verdade do que ouvira, e aprendi como segue.