Obra patrística
Vida de Paulo, o Primeiro Eremita
São Jerônimo · c. 347–420
A Vida de Paulo, o primeiro eremita, Parágrafo 1
A Vida de Paulo, o primeiro eremita, Parágrafo 1
Tem sido assunto de discussão amplamente difundida e frequente qual monge foi o primeiro a dar exemplo notável da vida eremita. Pois alguns, recuando demasiado ao passado, encontraram um começo naqueles santos varões Elias e João, dos quais o primeiro parece ter sido mais que um monge e o segundo ter começado a profetizar antes do nascimento. Outros, cuja opinião é a comumente recebida, sustentam que Antônio foi o originador deste modo de vida, o qual parecer é em parte verdadeiro. Em parte digo, pois o fato não é tanto que ele precedesse aos demais quanto que todos derivaram dele o estímulo necessário. Mas é afirmado ainda nos dias presentes por Amata e Macário, dois discípulos de Antônio, sendo que o primeiro sepultou seu mestre, que um certo Paulo de Tebas foi o chefe do movimento, ainda que não o primeiro a levar este nome, e esta opinião também tem minha aprovação. Alguns, conforme lhes parece bem, divulgam histórias tais como esta—que era um homem vivendo numa caverna subterrânea com cabelos compridos até os pés, e inventam muitos relatos incríveis que seria inútil detalhar. Nem parece digna de refutação a opinião dos homens que mentem sem nenhum sentido de vergonha. Assim pois, dado que tanto escritores gregos quanto romanos transmitiram relatos cuidadosos de Antônio, determinei-me a escrever uma breve história dos primeiros e últimos dias de Paulo, mais porque a coisa foi deixada de lado do que pela confiança em minha própria capacidade. Qual foi sua vida no meio dos dias, e quais ciladas de Satanás ele experimentou, nenhum homem, pensa-se, ainda descobriu.
A vida de Paulo, o primeiro eremita, Parágrafo 2
Durante as perseguições de Décio e Valeriano, quando Cornélio em Roma e Cipriano em Cartago derramaram seu sangue no bemaventurado martírio, muitas igrejas no Egito e na Tebaida foram devastadas pela fúria da tempestade. Naquele tempo os cristãos frequentemente oravam para que fossem feridos pela espada pelo nome de Cristo. Mas o desejo do inimigo astuto era matar a alma, não o corpo; e isto fez buscando diligentemente por torturas lentas mas mortíferas. Nas palavras do próprio Cipriano que sofreu às suas mãos: aqueles que desejavam morrer não foram permitidos ser mortos. Damos dois exemplos, ambos como especialmente notáveis e para tornar melhor conhecida a crueldade do inimigo.
A Vida de Paulo, o primeiro eremita, Parágrafo 3
Um mártir, firme na fé, que se mantivera de pé como vencedor em meio aos potros e às chapas abrasadas, foi por ele ordenado que fosse ungido com mel e deitado sob um sol escaldante com as mãos atadas atrás das costas, para que aquele que já havia superado o calor da frigideira fosse vencido pelas picadas das moscas. Outro que estava na flor da juventude foi levado por seu comando a alguns jardins de deleite, e ali entre lírios brancos e rosas coradas, junto a um regato suavemente murmurante, enquanto acima o sussurro macio do vento brincava entre as folhas das árvores, foi deitado sobre um leito profundo de plumas luxuosas, ligado com grilhões de guirlandas doces para prevenir sua fuga. Quando todos se retiraram dele, uma meretriz de grande beleza se aproximou e começou com abraços voluptuosos a lançar seus braços ao redor de seu pescoço, e, o que é perverso até de relatar! a tocar sua pessoa, para que, uma vez despertados os desejos da carne, realizasse seu intento lascivo. O que fazer e para onde voltar-se, o soldado de Cristo não sabia. Invencível pelas torturas, estava sendo vencido pelo prazer. Afinal, com uma inspiração do céu, mordeu a ponta de sua língua e a cuspiu no rosto dela enquanto a beijava. Assim os sentimentos da luxúria foram subjugados pela dor intensa que se seguiu.