Obra patrística
Obras Apologéticas — A Grande Catequese
São Gregório de Nissa · c. 335–394
II–XX
Prólogo.
Os ministros que presidem o «mistério da piedade» necessitam de um método nas suas instruções, a fim de que a Igreja seja reabastecida pela adesão daqueles que devem ser salvos, mediante o ensino da palavra da Fé levado ao ouvido dos incrédulos. Não que o mesmo método de instrução seja adequado no caso de todos os que se aproximam da palavra. O catecismo deve ser adaptado às diversidades do seu culto religioso; tendo em vista, na verdade, o único fim e objetivo do método, mas não usando o mesmo processo de preparação em cada caso individual. O judaizante está preocupado com um conjunto de noções; aquele que é versado no Helenismo, com outras; enquanto o Anomeu e o maniqueu, com os seguidores de Marcião, Valentino e Basílides, e o restante da lista dos que se desviaram para a heresia, cada um deles estando prevenido com as suas noções peculiares, exigem uma controvérsia especial com as suas várias opiniões. O método de cura deve ser adaptado à forma da doença. Não curareis pelo mesmo meio o politeísmo do grego e a incredulidade do judeu quanto ao Deus Unigênito; nem, no que diz respeito aos que se desviaram para a heresia, derrubareis, com os mesmos argumentos em cada caso, as suas enganosas fábulas acerca das doutrinas da Fé. Ninguém poderia corrigir Sabélio com a mesma instrução que beneficiaria o Anomeu. A controvérsia com o maniqueu é inútil contra o judeu. É necessário, portanto, como disse, considerar as opiniões que as pessoas adotaram e moldar o vosso argumento de acordo com o erro em que cada uma caiu, avançando em cada discussão certos princípios e proposições razoáveis, para que, através do que é acordado de ambos os lados, a verdade possa ser finalmente trazida à luz. Quando, pois, se realiza uma discussão com um daqueles que favorecem as ideias gregas, seria bom fazer da averiguação disto o começo do raciocínio, isto é, se ele pressupõe a existência de um Deus, ou concorda com a visão ateísta. Se disser que não há Deus, então, pela consideração da hábil e sábia economia do Universo, será levado a reconhecer que existe um certo poder dominante manifestado através destes canais. Se, por outro lado, não tiver dúvida quanto à existência da Divindade, mas estiver inclinado a entreter a presunção de uma pluralidade de Deuses, então adotaremos contra ele alguma linha de raciocínio como esta: «pensa ele que a Divindade é perfeita ou defeituosa?» e se, como é provável, der testemunho da perfeição na natureza divina, então exigiremos que ele conceda uma perfeição em tudo o que é observável nessa divindade, a fim de que a Divindade não seja considerada uma mistura de opostos, defeito e perfeição. Mas, quer no que respeita ao poder, ou à concepção de bondade, ou à sabedoria e à imperecibilidade e à existência eterna, ou a qualquer outra noção além destas adequada à natureza da Divindade, que se encontre próxima do assunto da nossa contemplação, em tudo concordará que a perfeição é a ideia a ser entretida acerca da natureza divina, como sendo uma inferência justa destas premissas. Se isto, pois, nos é concedido, não seria difícil trazer estas noções dispersas de uma pluralidade de Deuses ao reconhecimento de uma unidade de Divindade. Pois se ele admite que a perfeição deve ser atribuída em todos os aspetos ao assunto diante de nós, embora haja uma pluralidade destas coisas perfeitas que são marcadas pelo mesmo caráter, ele deve ser obrigado, por uma necessidade lógica, ou a apontar a particularidade em cada uma destas coisas que não apresentam variação distintiva, mas se encontram sempre com as mesmas marcas, ou, se (não pode fazer isso, e) a mente não pode apreender nada nelas a título de particular, a abandonar a ideia de qualquer distinção. Pois se nem quanto a «mais e menos» alguém pode detetar uma diferença (porquanto a ideia de perfeição não a admite), nem quanto a «pior» e «melhor» (pois não pode entreter de modo algum uma noção de Divindade onde o termo «pior» não é eliminado), nem quanto a «antigo» e «moderno» (pois o que não existe eternamente é estranho à noção de Divindade), mas, pelo contrário, a ideia de Divindade é una e a mesma, não se descobrindo nenhuma peculiaridade em qualquer ponto por razão alguma, é uma necessidade absoluta que a enganosa fantasia de uma pluralidade de Deuses seja forçada ao reconhecimento de uma unidade de Divindade. Pois se a bondade, e a justiça, e a sabedoria, e o poder podem ser igualmente predicados dela, então também a imperecibilidade e a existência eterna, e toda a ideia ortodoxa seriam admitidas da mesma maneira. Assim como toda a diferença distintiva em qualquer aspeto que seja foi gradualmente removida, segue-se necessariamente que, juntamente com ela, uma pluralidade de Deuses foi removida da sua crença, trazendo a identidade geral a convicção para a Unidade.
Capítulo I
Mas, porque o nosso sistema de religião costuma observar uma distinção de pessoas na unidade da Natureza, para que o nosso argumento, na nossa contenda com os gregos, não desça ao nível do judaísmo, há necessidade novamente de uma declaração técnica distinta, a fim de corrigir todo o erro neste ponto.
Pois nem mesmo por aqueles que são alheios à nossa doutrina é a Divindade tida como sem Verbo. Ora, esta admissão deles capacitará inteiramente o nosso argumento a ser desenvolvido. Porque aquele que admite que Deus não é sem Verbo concordará que um ser que não é sem Verbo certamente possui o Verbo. Ora, deve observar-se que a palavra do homem é expressa pelo mesmo termo. Se, pois, ele disser que entende o que é o Verbo de Deus segundo a analogia das coisas entre nós, será assim levado a uma ideia mais elevada, sendo uma absoluta necessidade que ele creia que a palavra, assim como tudo o mais, corresponde à natureza. Embora, isto é, haja uma certa espécie de força, e vida, e sabedoria, observada no sujeito humano, contudo ninguém, pela similitude dos termos, suporia que a vida, ou o poder, ou a sabedoria, no caso de Deus, fossem de tal sorte, mas as significações de todos esses termos são rebaixadas para se conformarem ao padrão da nossa natureza. Porque, sendo a nossa natureza sujeita à corrupção e fraca, por isso é a nossa vida breve, a nossa força insubstancial, a nossa palavra instável. Mas naquela natureza transcendente, pela grandeza do sujeito contemplado, tudo o que se diz acerca dela é elevado juntamente com ela. Portanto, ainda que se faça menção do Verbo de Deus, não se pensará que Ele tem a sua realização na enunciação do que é falado, e que então se desvanece, como a nossa fala, no não-ser. Ao contrário, assim como a nossa natureza, sujeita como é a ter um fim, é dotada de fala que igualmente tem um fim, assim a natureza imperecível e sempre existente tem uma fala eterna e substancial. Se, pois, a lógica requer que ele admita esta eterna subsistência do Verbo de Deus, é absolutamente necessário admitir também que a subsistência desse Verbo consiste num estado vivo; porque é uma impiedade supor que o Verbo tenha uma subsistência sem alma, à maneira das pedras. Mas, se Ele subsiste, sendo, como é, algo com intelecto e sem corpo, então certamente vive, ao passo que, se for divorciado da vida, então certamente não subsiste; mas esta ideia de que o Verbo de Deus não subsiste já se mostrou ser blasfêmia. Por consequência, portanto, mostrou-se também que o Verbo deve ser considerado como em condição viva. E, visto que a natureza do Verbo se crê razoavelmente ser simples, e não exibe em si mesma duplicidade ou combinação alguma, ninguém contemplaria a existência do Verbo vivo como dependente de uma mera participação da vida, pois tal suposição, que é dizer que uma coisa está dentro de outra, não excluiria a ideia de composição; mas, uma vez admitida a simplicidade, somos compelidos a pensar que o Verbo tem uma vida independente, e não uma mera participação da vida. Se, pois, o Verbo, como vida, vive, certamente tem a faculdade de vontade, porque nenhuma criatura viva é desprovida de tal faculdade. Além disso, que tal vontade tem também capacidade de agir deve ser a conclusão de uma mente piedosa. Porque, se não admite esta potência, provais que existe o contrário. Mas não; a impotência está totalmente removida da nossa concepção da Divindade. Nada de incongruente se deve observar em conexão com a natureza divina, mas é absolutamente necessário admitir que o poder desse Verbo é tão grande quanto o propósito, para que não se encontre mistura, ou concorrência, de contradições numa existência que é incomposita, como seria o caso se, no mesmo propósito, detectássemos tanto a impotência quanto o poder, se, isto é, houvesse poder para fazer uma coisa, mas não poder para fazer outra. Também devemos supor que esta vontade, no seu poder de fazer todas as coisas, não terá tendência para nada que seja mau (porque o impulso para o mal é estranho à natureza divina), mas que tudo o que é bom, isto ela também deseja, e, desejando, é capaz de realizar, e, sendo capaz, não deixará de realizar; mas que levará todas as suas propostas de bem a um cumprimento efetivo. Ora, o mundo é bom, e todos os seus conteúdos veem-se ordenados sabiamente e com habilidade. Todos eles, portanto, são as obras do Verbo, d’Aquele que, enquanto vive e subsiste, por ser o Verbo de Deus, tem também vontade, porquanto vive; d’Aquele também que tem poder para efetuar o que quer, e que quer o que é absolutamente bom e sábio e tudo o mais que denota superioridade. Porquanto, enquanto se admite que o mundo é algo bom, e pelo que foi dito se mostrou que o mundo é obra do Verbo, que quer e é capaz de efetuar o bem, este Verbo é outro além d’Aquele de Quem é o Verbo. Pois isto, também, até certo ponto, é um termo de “relação”, na medida em que o Pai do Verbo deve necessariamente ser pensado juntamente com o Verbo, porque não seria Verbo se não fosse Verbo de alguém. Se, pois, a mente dos ouvintes, pelo sentido relativo do termo, faz uma distinção entre o Verbo e Aquele de Quem Ele procede, descobriremos que o mistério evangélico, na sua contenda com as concepções gregas, não correria perigo de coincidir com aqueles que preferem as crenças dos judeus. Mas ele igualmente escapará ao absurdo de qualquer das partes, reconhecendo tanto que o Verbo vivo de Deus é um ser eficaz e criador, o que o judeu se recusa a receber, como também que o próprio Verbo e Aquele de Quem Ele é não diferem na sua natureza. Como no nosso próprio caso dizemos que a palavra vem da mente, e não é inteiramente a mesma coisa que a mente, nem totalmente outra que ela (pois, por vir dela, é algo diferente, e não ela; contudo, por trazer a mente à evidência, já não pode ser considerada como algo diferente dela; e assim é, na sua essência, una com a mente, enquanto como sujeito é diferente); de modo semelhante, também, o Verbo de Deus, pela sua auto-subsistência, é distinto d’Aquele de Quem tem a sua subsistência; e contudo, exibindo em si mesmo aquelas qualidades que são reconhecidas em Deus, é o mesmo em natureza com Aquele que é reconhecível pelos mesmos sinais distintivos. Pois, quer se adote a bondade, ou o poder, ou a sabedoria, ou a existência eterna, ou a incapacidade para o vício, a morte e a corrupção, ou uma perfeição inteira, ou qualquer outra coisa do género, para marcar a concepção do Pai, por meio dos mesmos sinais encontrar-se-á o Verbo que d’Ele subsiste.
Capítulo II
Assim, pois, pela ascensão mística mais elevada desde as coisas que nos dizem respeito até aquela natureza transcendente, alcançamos o conhecimento do Verbo; pelo mesmo método seremos conduzidos à concepção do Espírito, observando em nossa própria natureza certas sombras e semelhanças do Seu inefável poder. Ora, em nós, o espírito (ou sopro) é a atração do ar, uma matéria distinta de nós mesmos, aspirada e expirada para o necessário sustento do corpo. Este, por ocasião de proferir a palavra, torna-se uma elocução que exprime em si mesma o significado da palavra. E, no caso da natureza divina, tem-se por ponto de nossa religião que há um Espírito de Deus, assim como se admite que há um Verbo de Deus, por causa da inconveniência de que o Verbo de Deus fosse deficiente em comparação com a nossa palavra, se, enquanto esta nossa palavra é contemplada em conexão com o espírito, aquele outro Verbo se acreditasse estar inteiramente desconexo do espírito. Não que seja um pensamento próprio ter-se acerca da Divindade que, à maneira do nosso sopro, algo estranho e externo flua para Deus e n’Ele se torne o Espírito; mas, quando pensamos no Verbo de Deus, não julgamos que o Verbo seja algo insubstancial, nem resultado de instrução, nem emissão de voz, nem que, após proferido, se desvaneça, nem que esteja sujeito a qualquer outra condição como as que se observam em nossa palavra, mas sim que é essencialmente subsistente em si mesmo, com uma faculdade de vontade sempre operante, onipotente. Igual doutrina recebemos acerca do Espírito de Deus: consideramo-Lo como Aquele que acompanha o Verbo e manifesta a Sua energia, e não como um mero eflúvio do sopro; porque, por tal concepção, a grandeza do poder divino seria diminuída e humilhada, isto é, se o Espírito que n’Ele está se supusesse semelhante ao nosso. Mas concebemo-Lo como um poder essencial, considerado como centrado em Sua própria pessoa, mas igualmente incapaz de ser separado seja de Deus, em Quem está, seja do Verbo de Deus, a Quem acompanha, como de se dissolver no nada; mas como sendo, à semelhança do Verbo de Deus, existente como pessoa, capaz de querer, automovido, eficaz, sempre escolhendo o bem, e para todo o Seu propósito tendo o Seu poder concomitante com a Sua vontade.