Padres e clássicosTertuliano, Obras — Tratados Ascéticos, II, 1

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Obra patrística

Obras — Tratados Ascéticos

Tertuliano · c. 160–225

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II, 1–III, 2, 2

O tempo muda as vestes das nações--e as fortunas.

I.

Sobre o Paládio.

[Traduzido pelo Rev. S. Thelwall.]

Capítulo I.—O Tempo Muda os Trajes das Nações—e as Suas Fortunas.

Homens de Cartago, sempre príncipes de África, enobrecidos por antigas memórias, abençoados com felicidades modernas, regozijo-me que os tempos sejam tão prósperos convosco que tenhais lazer para gastar e prazer para achar em criticar o traje. Estes são os "tempos de paz assobiante" e de abundância. Bênçãos chovem do império e do céu. Contudo, também vós outrora usáveis vossas vestes—vossas túnicas—de outra forma; e na verdade elas eram reputadas pela perícia da trama, e pela harmonia da cor, e pela devida proporção do tamanho, porquanto não eram nem prodigamente longas sobre as canelas, nem impudicamente escassas entre os joelhos, nem avaras para os braços, nem apertadas para as mãos, mas, sem serem ensombradas sequer por um cinto disposto a dividir as pregas, erguiam-se sobre os dorsos dos homens com simetria quadrangular. A veste do manto exteriormente—ela também quadrangular—lançada para trás sobre ambos os ombros, e ajustando-se estreitamente ao redor do pescoço na garra do fecho, costumava repousar sobre os ombros. A sua contraparte é agora a veste sacerdotal, sagrada a Esculápio, a quem agora chamais vosso. Assim também, na vossa imediata vizinhança, a Cidade irmã costumava vestir (os seus cidadãos); e onde quer que mais em África Tiro (se estabeleceu). Mas quando a urna da sorte mundana variou, e Deus favoreceu os Romanos, a Cidade irmã, na verdade, por sua própria escolha apressou-se a efetuar uma mudança; a fim de que, quando Cipião aportasse nos seus portos, ela já de antemão o tivesse saudado à maneira do traje, precoce na sua romanização. A vós, porém, após o benefício em que resultou o vosso prejuízo, como isentando-vos da infinidade da idade, não (depondo-vos) da vossa altura de eminência,—depois de Graco e seus agouros fétidos, depois de Lépido e seus gracejos rudes, depois de Pompeu e seus triplos altares, e César e suas longas demoras, quando Estatílio Tauro erigiu vossas muralhas, e Sêntio Saturnino pronunciou a solene forma da vossa inauguração,—enquanto a concórdia presta seu auxílio, a toga é oferecida. Ora! que circuito ela tomou! dos Pelasgos aos Lídios; dos Lídios aos Romanos: para que dos ombros do povo mais sublime descesse a abraçar os Cartagineses! Doravante, achando vossa túnica demasiado longa, suspendei-a num cinto divisório; e a redundância da vossa agora lisa toga sustentais ajuntando-a prega sobre prega; e, com qualquer outra veste que a condição social ou a dignidade ou a estação vos vista, o manto, ao menos, que costumava ser usado por todas as ordens e condições entre vós, vós não só o deslembrais, mas até escarneceis. Quanto a mim, não me maravilho (disso), diante de um testemunho mais antigo (do vosso olvido). Porque o carneiro—não aquele que Labério (chama)

“De chifre retorcido, pele lanosa, pedras arrastando”, mas sim uma máquina trave é, que faz serviço militar no derrubar muralhas—nunca antes por ninguém equilibrado, a temida Cartago,

“Agudíssima nos empreendimentos de guerra”, diz-se que foi a primeira de todas a tê-lo equipado para o trabalho oscilatório do ímpeto pendular; modelando o poder da sua máquina segundo o furor colérico do animal vingador da cabeça. Quando, porém, as fortunas da pátria estão no último suspiro, e o carneiro, agora tornado Romano, faz as suas façanhas de ousadia contra as muralhas que outrora foram suas, logo os Cartagineses ficaram estupefactos como diante de uma engenhosidade “nova” e “estranha”: “tanto pode a longa idade do tempo para mudar!” Assim, em suma, é que o manto também não é reconhecido.

A lei da mudança, ou mutação, universal.

Extraiamos agora nossa matéria de alguma outra fonte, para que a punicidade ou se envergonhe ou se lamente no meio dos Romanos. Mudar seu hábito é, a todo evento, a função declarada de toda a natureza. O próprio mundo (este que habitamos) entretanto a desempenha. Vê tu, Anaximandro, se pensas que há mais (mundos); vê tu, quem quer que (pense existir outro) em qualquer lugar na região dos Méropes, como Sileno tagarela nos ouvidos de Midas, aptos (como aqueles ouvidos são), deve-se admitir, até mesmo para fábulas ainda maiores. Na verdade, mesmo se Platão pensa que existe um do qual este nosso é a imagem, aquele também deve necessariamente sofrer mutação de modo semelhante; porquanto, se é um “mundo”, consistirá de diversas substâncias e ofícios, correspondentes à forma daquilo que aqui é o “mundo”; pois “mundo” não será se não for exatamente como o “mundo” é. As coisas que, na diversidade, tendem à unidade, são diversas por demutação. Em suma, são as suas vicissitudes que federam a discórdia de sua diversidade. Assim será pela mutação que todo “mundo” existirá, cuja estrutura corporativa é resultado de diversidades, e cuja temperação é resultado de vicissitudes. A todo evento, esta hospedaria nossa é versiforme — fato que é patente a olhos fechados, ou totalmente homéricos. O dia e a noite alternam-se em turno. O sol varia por estações anuais, a lua por fases mensais. As estrelas — distintas em sua confusão — ora caem, ora um tanto ressuscitam. O circuito do céu ora resplandece com serenidade, ora é sombrio com nuvens; ou então chuvas torrenciais se precipitam, e todos os projéteis (que com elas se misturam); em seguida (vem) um leve borrifo, e então novamente brilho. Assim também, o mar tem má reputação de honestidade; enquanto umas vezes as brisas o balançam igualmente, a tranquilidade lhe dá a aparência de probidade, a calma lhe dá a aparência de temperança; e então de repente agita-se inquieto com ondas montanhosas. Assim, também, se examinares a terra, amando vestir-se sazonalmente, quase estarias pronto a negar sua identidade, quando, lembrando seu verde, a vês amarela, e em breve a verás também alva. Do restante de seu adorno, também, o que há que não esteja sujeito a mutação intercambiante — as cristas mais altas de suas montanhas por decurso, as veias de suas fontes por desaparecimento, e os caminhos de suas correntes por formação aluvial? Houve um tempo em que todo o seu orbe, também, sofreu mutação, sendo submergido por todas as águas. Até hoje conchas marinhas e búzios de tritão peregrinam como estrangeiros nos montes, ansiosos por provar a Platão que até as alturas ondularam. Mas, também, ao refluir, seu orbe sofreu uma nova mutação formal; outra, porém a mesma. Mesmo agora sua forma sofre mutações locais, quando (algum) lugar é danificado; quando entre suas ilhas Delos já não é mais, Samos um monte de areia, e a Sibila (assim se prova) não mentirosa; quando no Atlântico (a ilha) que era igual em tamanho à Líbia ou Ásia é procurada em vão; quando outrora um lado da Itália, separado ao centro pelo choque trêmulo dos mares Adriático e Tirreno, deixa a Sicília como suas relíquias; quando aquele total arrebatamento de discisão, girando para trás os encontros contenciosos dos mares, investiu o mar com um novo vício, o vício não de vomitar naufrágios, mas de devorá-los! O continente também sofre por forças celestes ou inerentes. Olhai para a Palestina. Onde o rio Jordão é o árbitro dos limites, (eis) um vasto deserto, e uma região despojada, e terra infrutífera! E outrora (havia ali) cidades, e povos florescentes, e o solo produzia seus frutos. Depois, porque Deus é Juiz, a impiedade granjeou chuvas de fogo; o dia de Sodoma findou, e Gomorra já não é; e tudo é cinzas; e o mar vizinho, não menos que o solo, experimenta uma morte viva! Tal nuvem toldou a Etrúria, incendiando sua antiga Volsínia, para ensinar a Campânia (tanto mais pela erupção de sua Pompeia) a olhar expectante para seus próprios montes. Mas longe esteja (a repetição de tais catástrofes)! Oxalá que a Ásia, também, estivesse já sem causa de ansiedade acerca da voracidade do solo! Oxalá, também, que a África houvesse de uma vez tremido diante do abismo devorador, expiado pela absorção traiçoeira de um único acampamento! Muitos outros tais danos, além destes, têm feito inovações na forma de nosso orbe, e movido (lugares) particulares (nele). Mui grande também tem sido a licença das guerras. Mas é não menos enfadonho narrar detalhes tristes do que (narrar) as vicissitudes dos reinos, (e mostrar) quão frequentes têm sido suas mutações, desde Nino, progênie de Belo, em diante; se é que Nino foi o primeiro a ter um reino, como afirmam as antigas autoridades profanas. Além de seu tempo a pena não costuma (viajar), em geral, entre vós (pagãos). Dos Assírios, talvez, as histórias do “tempo registrado” começam a desdobrar-se.

Nós, porém, que somos leitores habituais das histórias divinas, somos senhores do assunto desde o nascimento do próprio universo. Mas prefiro, no tempo presente, detalhes alegres, porquanto as coisas alegres também estão sujeitas à mutação. Em suma, tudo o que o mar lavou, o céu queimou, a terra minou, a espada ceifou, reaparece em algum outro tempo pelo giro da compensação. Pois nos dias primitivos não apenas a terra, na maior parte de seu circuito, estava vazia e desabitada; mas se alguma raça particular se apossara de alguma parte, existia para si só. E assim, compreendendo afinal que todas as coisas se adoravam a si mesmas, (a terra) consultou para capinar e raspar sua cópia (de habitantes), em um lugar densamente aglomerados, noutro abandonando seus postos; para que dali (como que de enxertos e plantios) povos de povos, cidades de cidades, fossem plantadas por toda região de seu orbe. Transmigrações foram feitas pelos enxames de raças redundantes. A exuberância dos Citas fertiliza os Persas; os Fenícios jorram para a África; os Frígios dão à luz os Romanos; a semente dos Caldeus é levada para o Egito; subsequentemente, quando transferida de lá, torna-se a raça judaica. Assim também a posteridade de Hércules, de igual modo, prossegue a ocupar o Peloponeso para o proveito de Têmeno. Assim, ainda, os companheiros jônios de Neleu fornecem à Ásia novas cidades; assim, ainda, os Coríntios com Árquias fortificam Siracusa. Mas a antiguidade é já uma coisa vã (de referir), quando nossas próprias carreiras estão diante dos olhos. Quão grande porção de nosso orbe reformou a presente idade! Quantas cidades o triplo poder de nosso império existente ou produziu, ou aumentou, ou restaurou! Enquanto Deus favorece tantos Augustos unidos, quantas populações foram transferidas para outras localidades! quantos povos reduzidos! quantas ordens restauradas ao seu antigo esplendor! quantos bárbaros frustrados! Em verdade, nosso orbe é a admiravelmente cultivada propriedade deste império; todo acônito de hostilidade erradicado; e o cacto e a sarça da familiaridade secretamente astuta totalmente arrancados; e (o orbe) deleitoso além do pomar de Alcino e do roseiral de Midas. Louvando, portanto, nosso orbe em suas mutações, por que apontais o dedo de escárnio a um homem?

Referência atual: Tertuliano, Obras — Tratados Ascéticos, II, 1