Obra patrística
Prescrição contra os Hereges
Tertuliano · c. 160–225
Introductory. Heresies Must Exist, and Even Abound; They are a Probation to Faith.–Christ First Delivered the Faith. The Apostles Spread It; They Founded Churches as the Depositories Thereof. That Faith, Therefore, is Apostolic, Which Descended from the Apostles, Through Apostolic Churches.
Introdução. As heresias devem existir, e até abundar; elas são uma provação para a fé.
O carácter dos tempos em que vivemos é tal que nos exige até esta admoestação, que não devemos ficar espantados com as heresias (que abundam), nem a sua existência deve surpreender-nos, pois foi predito que elas viriam a acontecer; nem o facto de que elas subvertem a fé de alguns, pois a sua causa final é, ao proporcionar uma prova à fé, dar-lhe também a oportunidade de ser «aprovada». Infundado, portanto, e inconsiderado é o escândalo de muitos que se escandalizam pelo próprio facto de as heresias prevalecerem a tal ponto. Quão grande (poderia ter sido o seu escândalo) se elas não tivessem existido. Quando foi determinado que uma coisa deve por todos os meios ser, ela recebe a (causa final) pela qual tem o seu ser. Isto assegura o poder através do qual ela existe, de tal maneira que é impossível que ela não tenha existência.
Analogia entre febres e heresias. As heresias não devem causar admiração: sua força provém da fraqueza da fé dos homens. Não possuem a verdade.…
Tomando o caso semelhante da febre, que é destinada a um lugar entre todos os outros desfechos mortais e cruciantes (da vida) para destruir o homem: não nos surpreendemos nem que ela exista, pois aí está, nem que consuma o homem, pois esse é o propósito da sua existência. De maneira semelhante, com respeito às heresias, que são produzidas para o enfraquecimento e a extinção da fé, visto que sentimos um temor porque elas têm este poder, deveríamos primeiro temer o facto da sua existência; pois enquanto elas existem, têm o seu poder; e enquanto têm o seu poder, têm a sua existência. Mas ainda assim, a febre, como sendo um mal tanto na sua causa como no seu poder, como todos sabem, antes a detestamos do que admiramos, e o melhor que podemos nos guardamos dela, não tendo a sua extirpação em nosso poder. Alguns homens preferem, no entanto, admirar as heresias, que trazem consigo a morte eterna e o calor de um fogo mais forte, por possuírem este poder, em vez de evitar o seu poder quando têm os meios de escapar: mas as heresias não teriam poder, se (os homens) cessassem de admirar que elas têm tal poder. Pois ou acontece que, enquanto os homens admiram, caem numa armadilha, ou, porque estão enlaçados, acariciam a sua surpresa, como se as heresias fossem tão poderosas por causa de alguma verdade que lhes pertencesse. Seria sem dúvida uma coisa maravilhosa que o mal tivesse alguma força própria, não fora que as heresias são fortes naquelas pessoas que não são fortes na fé. Num combate de pugilistas e gladiadores, geralmente falando, não é porque um homem é forte que ele ganha a vitória, ou a perde porque não é forte, mas porque aquele que é vencido era um homem sem força; e, de facto, este mesmo conquistador, quando depois é pareado contra um homem realmente poderoso, retira-se na verdade cabisbaixo do combate. Exatamente da mesma maneira, as heresias derivam a força que têm das enfermidades dos indivíduos — não tendo força alguma sempre que encontram uma fé realmente poderosa.
Os fracos caem presa fácil da heresia, que tira forças da fraqueza geral da humanidade. Homens eminentes caíram da fé; Saul, Davi, Salomão. A constância de Cristo.
É costume, com efeito, em pessoas de caráter mais fraco, serem assim edificadas em confiança por certos indivíduos que são apanhados pela heresia, de modo a desabarem em ruína eles mesmos. Como acontece que esta mulher ou aquele homem, que eram os mais fiéis, os mais prudentes e os mais aprovados na Igreja, tenham passado para o outro lado? Quem faz tal pergunta não faz ele próprio outra coisa senão responder a ela, de forma que aqueles homens aos quais as heresias puderam perverter nunca deveriam ter sido estimados prudentes, ou fiéis, ou aprovados? Isto de novo é, suponho, coisa extraordinária, que aquele que foi aprovado depois caia? Saul, que era bom além de todos os outros, foi depois subvertido pela inveja. Davi, homem bom "segundo o coração do Senhor," é culpado depois de homicídio e adultério. Salomão, dotado pelo Senhor de toda graça e sabedoria, é levado à idolatria por mulheres. Pois somente ao Filho de Deus foi reservado perseverar até o fim sem pecado. Mas e se um bispo, se um diácono, se uma viúva, se uma virgem, se um doutor, se até um mártir, caiu da regra da fé, acaso as heresias por isso parecerão possuir a verdade? Provamos a fé pelas pessoas, ou as pessoas pela fé? Ninguém é sábio, ninguém é fiel, ninguém sobressai em dignidade, senão o cristão; e ninguém é cristão senão aquele que persevera até o fim. Vós, como homem, conheceis outro homem pela aparência exterior. Pensais como vedes. E vedes apenas até onde tendes olhos. Mas diz a Escritura: "os olhos do Senhor são elevados." "O homem vê a aparência exterior, mas Deus vê o coração." "O Senhor conhece os que são seus;" e "a planta que meu Pai celeste não plantou, ele a arranca;" e "os primeiros serão," como ele mostra, "últimos;" e ele traz "sua peneira na mão para limpar sua eira." Que a palha de uma fé inconstante voe embora tanto quanto quiser a cada sopro de tentação, tanto mais puro será aquele montão de trigo que será recolhido no celeiro do Senhor. Não tornaram certos dos discípulos costas ao próprio Senhor, quando se ofenderam? E contudo os demais não por isso pensaram que deviam afastar-se de segui-lo, mas porque sabiam que ele era o Verbo de Vida, e era vindo de Deus, permaneceram em sua companhia até o muito fim, depois que ele gentilmente lhes perguntou se também eles se iriam. É coisa relativamente pequena que certos homens, como Fígelo e Hermógenes e Fileto e Himeneu, desertassem seu apóstolo: o traidor de Cristo era ele próprio um dos apóstolos. Nos causa admiração ver suas igrejas abandonadas por alguns homens, embora as coisas que sofremos segundo o exemplo do próprio Cristo, nos mostrem ser cristãos. "Saíram de entre nós," diz São João, "mas não eram de nós. Se tivessem sido de nós, decerto teriam permanecido conosco."
Advertências contra a heresia que nos são dadas no Novo Testamento. Diversas passagens aduzidas. Essas implicam a possibilidade de cair em heresia.
Sejamos, porém, lembrados das palavras do Senhor e das epístolas dos Apóstolos; porque eles nos predisseram que haveria heresias e nos preveniram, com antecedência, que as evitássemos; e, assim como não nos alarmamos por existirem, assim não devemos admirar-nos de que possam fazer aquilo por que devem ser evitadas. O Senhor nos ensina que muitos “lobos devoradores virão com peles de ovelhas”. Ora, que são essas peles de ovelhas senão a superfície exterior da profissão cristã? Quem são os lobos devoradores senão aqueles sentidos e espíritos enganadores que se ocultam no interior para destruir o rebanho de Cristo? Quem são os falsos profetas senão enganosos predizentes do futuro? Quem são os falsos apóstolos senão os pregadores de um evangelho espúrio? Quem são também os anticristos, tanto agora como sempre, senão os homens que se rebelam contra Cristo? As heresias, no tempo presente, não menos dilacerarão a Igreja pela sua perversão da doutrina do que o anticristo a perseguirá naquele dia pela crueldade dos seus ataques; salvo que a perseguição faz mártires, mas a heresia, somente apóstatas. E, portanto, “é necessário que haja heresias, para que os que são aprovados se manifestem”, tanto os que permaneceram firmes sob a perseguição como os que não se desviaram do caminho para a heresia. Pois o Apóstolo não quer dizer que aqueles que trocam o seu credo pela heresia sejam considerados aprovados, embora eles interpretem contrariamente as suas palavras a seu favor, quando diz noutra passagem: “Examinai todas as coisas; retende o que é bom”; como se, depois de examinar todas as coisas erradas, não se pudesse, por erro, fazer uma escolha determinada de alguma coisa má.
A heresia, assim como o cisma e a dissensão, reprovada por São Paulo, que fala da necessidade das heresias, não como um bem, mas, pela vontade de Deus, provações salutares para…
Além disso, quando ele censura as dissensões e os cismas, que são indubitavelmente males, imediatamente acrescenta também as heresias. Ora, aquilo que ele junta a coisas más, ele confessa, sem dúvida, ser também um mal; e tanto maior, na verdade, porque nos diz que a sua crença nos seus cismas e dissensões se fundava no seu conhecimento de que “também deve haver heresias”. Pois ele nos mostra que foi devido à perspectiva do mal maior que ele prontamente acreditou na existência dos mais leves; e tão longe estava ele de acreditar, no que respeita a males (de tal espécie), que as heresias fossem boas, que o seu objetivo era prevenir-nos de que não devíamos admirar-nos com tentações de ainda pior cunho, visto que (disse ele) tendiam “a manifestar todos os que são aprovados”; por outras palavras, aqueles a quem não podiam perverter. Em suma, visto que toda a passagem aponta para a manutenção da unidade e a contenção das divisões, dado que as heresias separam os homens da unidade não menos do que os cismas e as dissensões, sem dúvida ele classifica as heresias sob a mesma cabeça de censura que também os cismas e as dissensões. E, ao fazê-lo, considera como “não aprovados” aqueles que caíram em heresias; especialmente quando com repreensões exorta os homens a apartarem-se delas, ensinando-lhes que devem “todos falar e pensar a mesma coisa”, o próprio objetivo que as heresias não permitem.
Os hereges são autocondenados. A heresia é vontade própria, ao passo que a fé é a submissão de nossa vontade à autoridade divina. A heresia de Apeles.
Neste ponto, porém, não nos demoramos mais, visto que é o mesmo Paulo que, na sua Epístola aos Gálatas, conta as “heresias” entre “as obras da carne”, e também intima a Tito que “o homem herege” deve ser “rejeitado depois da primeira admoestação”, com o fundamento de que “o tal é pervertido e peca, estando por si mesmo condenado”. Na verdade, em quase todas as epístolas, ao ordenar-nos (o dever) de evitar falsas doutrinas, ele condena severamente as heresias. Destas, os efeitos práticos são falsas doutrinas, chamadas em grego heresias, palavra usada no sentido daquela escolha que um homem faz, quer as ensine (a outros), quer as adote (para si). Por esta razão é que ele chama ao herege “por si mesmo condenado”, porque ele mesmo escolheu aquilo por que é condenado. Nós, porém, não nos é permitido acarinhar qualquer objeto segundo a nossa própria vontade, nem tão-pouco fazer escolha daquilo que outro introduziu do seu arbítrio particular. Nos apóstolos do Senhor possuímos a nossa autoridade; pois nem eles escolheram introduzir coisa alguma por si mesmos, mas fielmente entregaram às nações (da humanidade) a doutrina que receberam de Cristo. Se, portanto, ainda que “um anjo do céu” pregasse outro evangelho (que o deles), seria por nós chamado anátema. O Espírito Santo já então previra que haveria numa certa virgem (chamada) Filumena um anjo de engano, “transformado em anjo de luz”, por cujos milagres e ilusões foi Apeles levado (quando) introduziu a sua nova heresia.
A filosofia pagã, mãe das heresias. A conexão entre os desvios da fé cristã e os antigos sistemas da filosofia pagã.
Estas são “as doutrinas” dos homens e “dos demónios” produzidas para os ouvidos que coçam do espírito da sabedoria deste mundo: a isto chamou o Senhor “loucura”, e “escolheu as coisas loucas do mundo” para confundir a própria filosofia. Pois (a filosofia) é que é a matéria da sabedoria do mundo, a intérprete temerária da natureza e da dispensação de Deus. Na verdade, as próprias heresias são instigadas pela filosofia. Desta fonte vieram os Éons, e não sei que formas infinitas, e a trindade do homem no sistema de Valentim, que era da escola de Platão. Da mesma fonte veio o deus melhor de Marcião, com toda a sua tranquilidade; ele veio dos Estoicos. Também a opinião de que a alma morre é sustentada pelos Epicureus; enquanto a negação da restauração do corpo é tirada da escola agregada de todos os filósofos; também, quando a matéria é igualada a Deus, então tendes o ensino de Zenão; e quando se alega qualquer doutrina tocante a um deus de fogo, então Heráclito entra em cena. A mesma matéria é discutida vezes sem conta pelos hereges e pelos filósofos; os mesmos argumentos estão envolvidos. De onde vem o mal? Por que é permitido? Qual é a origem do homem? e de que maneira ele vem? Além da questão que Valentim muito recentemente propôs: “De onde vem Deus?” a qual ele resolve com a resposta: “Do entimema e do ectroma.” Infeliz Aristóteles! que inventou para estes homens a dialética, a arte de edificar e de derrubar; arte tão evasiva nas suas proposições, tão rebuscada nas suas conjecturas, tão áspera nos seus argumentos, tão produtora de contendas — embaraçosa até para si mesma, retratando tudo e realmente tratando de nada! Donde brotam essas “fábulas e genealogias intermináveis”, e “questões inúteis”, e “palavras que se alastram como gangrena”? De todas estas, quando o Apóstolo nos quer refrear, nomeia expressamente a filosofia como aquilo de que nos devemos guardar. Escrevendo aos Colossenses, diz: “Vede que ninguém vos engane pela filosofia e vãs subtilezas, segundo a tradição dos homens, e contrária à sabedoria do Espírito Santo.” Ele estivera em Atenas, e nos seus colóquios (com os seus filósofos) conhecera aquela sabedoria humana que pretende conhecer a verdade, enquanto apenas a corrompe, e ela mesma se divide nas suas múltiplas heresias, pela variedade das suas seitas mutuamente repugnantes. Que tem Atenas a ver com Jerusalém? Que concórdia há entre a Academia e a Igreja? Que entre hereges e cristãos? A nossa instrução vem do “pórtico de Salomão”, que ele mesmo ensinara que “o Senhor deve ser buscado na simplicidade do coração”. Fora com todas as tentativas de produzir um cristianismo matizado de composição Estóica, Platónica e Dialética! Não queremos curiosa disputação depois de possuir a Cristo Jesus, nem inquisição depois de gozar o evangelho! Com a nossa fé, não desejamos mais crença. Pois esta é a nossa fé principal, que não há nada que devamos crer além dela.