Obra patrística
Que Cristo é Um
São Cirilo de Alexandria · c. 376–444
3–41
Que Cristo é um, por via de disputa com Hermias §2
A. Nunca haverá saciedade dos santos ensinamentos para aqueles que são verdadeiramente sãos de mente e que reuniram o conhecimento vivificante em seu entendimento. Porque está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. Pois o nutrimento da mente e o pão espiritual que sustenta o coração do homem, como se canta no livro dos Salmos, é a palavra que vem de Deus.
B. Bem dizeis.
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §3
Os sábios, pois, e eloquentes entre os gregos admiram a elegância do discurso, e a boa linguagem está entre os seus principais objetivos, e gloria-se em meros refinamentos de palavras e folgam com a pompa da linguagem; e os seus poetas têm por matéria a falsidade, trabalhada por proporções e medidas para o que é gracioso e harmonioso; mas da verdade pouco se importam, enfermos de escassez de doutrina reta e proveitosa, refiro-me acerca de Deus, que é por Natureza e verdadeiramente; antes, como diz o santíssimo Paulo: Tornaram-se vãos nos seus pensamentos, e o seu coração insensato se obscureceu; dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.
Verdade, verdadeiramente disse deles Deus pela voz de Isaías: Sabei que o seu coração é cinza, e são enganados.
Que Cristo é um, por via de disputa com Hermias §4
Isto basta para eles; mas aqueles que se tornaram inventores de heresias ímpias, profanas e apóstatas, e dilatam a sua boca desenfreada contra a glória divina e proferem coisas pervertidas, serão apanhados como tendo, por sua loucura, caído em acusações não menores do que as da insensatez dos gregos, ou talvez em acusações que até as superam. Porque melhor lhes fora não ter conhecido o caminho da verdade do que, conhecendo-o, retroceder do santo mandamento que lhes foi dado; pois já lhes sobreveio o verdadeiro provérbio: O cão tornou ao seu vômito, e a porca lavada ao lameiro. Porque repartiram entre si as acusações de blasfêmia contra Cristo e, como lobos ferozes e amargos, devastam os rebanhos pelos quais Cristo morreu, e despojam o que é Seu, multiplicando para si o que não é seu, como está escrito, e carregando pesadamente o seu jugo; dos quais se pode dizer com muita razão: Saíram de nós, mas não eram de nós.
B. Certamente.
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §5
A. A propósito disputa o nosso discurso acerca de tais coisas. Pois alguns, por falta de entendimento, rebaixam o Unigênito Verbo de Deus da Sua Suprema Excelência e o abaixam da Igualdade com Deus Pai, afirmando que Ele não é consubstancial, nem querem coroá-Lo com uma Identidade Exata e de Natureza; outros, seguindo quase que pelo mesmo caminho que estes e caindo no laço da morte e na fossa do Hades, desviam o mistério da economia com a carne do Unigênito e seguem uma loucura fraterna (por assim dizer) com os primeiros. Pois uns serão apanhados a arrastar, por assim dizer (quanto está em seu poder), desde as alturas da Sua Divindade o Verbo nascido de Deus Pai antes ainda de encarnar; os outros elegeram guerrear contra Ele encarnado, quase repreendendo (ousados que são!) a Sua graça piedosa, sustentando, por certo, que não aconselhou bem por Ele ter assumido a carne e as medidas da nossa humilhação, isto é, ter-Se feito homem e sido visto na terra e conversado com os homens, sendo embora Deus por Natureza e co-assentado com o Pai.
B. Bem dizes.
Que Cristo é um por via de disputa com Hermias §6
A. Clamará, pois, a Escritura divinamente inspirada contra a ignorância de ambos, propondo-nos a verdade e mostrando que fraca e de nenhum valor é a sua palavra, e estabelecendo na senda da Divindade os que se acostumaram a mirar com olho sutil e agudo do entendimento o Mistério dela. Mas quem serão os que de modo ímpio aviltam a tão augusta e inefável Economia do Salvador (pois, segundo parece, vos perturbais não pouco acerca desta mesma coisa), bem quisera perguntar-vos.
B. Testificais retamente, porque com ciúme tenho ciúmes do Senhor, e, ainda mais, pungido, estou transtornado, e sobremaneira. E temo, quando considero aonde irão parar as suas palavras. Pois adulteram a fé que nos foi entregue, servindo-se das invenções do dragão recém-surgido e derramando como veneno nas almas dos mais simples certas coisas frígidas e perversas, e cheias de infatuação.
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §7
Mas quem é este dragão recém-visto e quais as suas cavilações contra as doutrinas da Verdade, dizei a mim que pergunto. — O dragão recém-visto, este tortuoso e que tem a língua embriagada de veneno, que quase se despede da tradição dos iniciadores do mundo, antes de toda a Escritura inspirada por Deus, e que inova o que lhe parece bem e diz que a santa Virgem não é Mãe de Deus, mas mãe de Cristo e mãe de homem, introduzindo ainda outras coisas discordantes e insensatas sobre as retas e sinceras doutrinas da Igreja Católica.
Que Cristo é um, por via de disputa com Hermias §8
A. Dize (suponho), Nestório, porque entendo, mas não conheço, amigo, o teor exato de suas palavras: como diz que a santa Virgem não é Mãe de Deus?
B. Ela não deu à luz (diz ele) a Deus; pois o Verbo existia antes dela também, antes de toda idade e tempo, coeterno com Deus Pai.
Que Cristo é um, por via de disputa com Hermias §9
A. Negarão, pois, manifestamente também isto: que Emanuel é Deus; e debalde, ao que parece, interpreta o Evangelista o nome, dizendo: Que quer dizer, Deus está conosco; porque assim afirmou claramente Deus Pai pela voz do Profeta que assim havia de ser chamado Aquele que nasceu da santa Virgem segundo a carne, como Deus Encarnado.
B. Contudo, parece-lhes que não é assim; antes diriam que Deus está conosco quer dizer que Deus, ou o Verbo que procede de Deus, está conosco a modo de nos socorrer; porque Ele salvou todos os que estão debaixo do céu por meio daquele que nasceu de mulher.
Que Cristo é Um por via de disputa com Hermias §10
A. E não estava Ele (dize-me) também com Moisés, libertando Israel da terra dos egípcios e da tirania que ali havia, com mão forte e braço elevado, como está escrito? não O encontraremos depois disso também dizendo claramente a Josué: E assim como estive com Moisés, estarei também contigo?
B. Verdade.
Que Cristo é Um por via de disputa com Hermias §11
Por que então nenhum destes foi chamado Emanuel, mas o nome coube somente Àquele que foi maravilhosamente nascido segundo a carne de uma mulher nos últimos tempos do mundo?
Como então poderemos considerar que Deus nasceu de uma mulher? que o Verbo participou do Ser, nela e dela?
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §12
A. Fora tão frígido mau-conselho! Porque estas são palavras de quem vagueia, e de uma mente enferma com um desvio para o que não deve, pensar que o Ser Inefável do Unigênito se tenha tornado fruto da carne: Ele era, como Deus, Co-Eterno com o Pai que O gerou e Inefavelmente d'Ele gerado por Natureza. Mas aos que desejam saber claramente como e de que modo Ele apareceu em semelhança a nós e Se fez homem, o Divino Evangelista João o dará a conhecer, dizendo: E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós (e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai), cheio de graça e de verdade.
B. Mas se o Verbo Se fez (dizem eles) carne, já não permaneceu Verbo, mas deixou de ser o que era.
Que Cristo é Um, por via de disputa com Hermias §13
A. Na verdade, isto é prestidigitação e embuste e invenções de uma mente fora de si e nada mais. Pois eles (ao que parece) supõem que o Verbo Se fez indica, como por inevitável necessidade, mutação e mudança.
B. Sim (dizem), e além disso confirmam a sua afirmação, tirando provas da própria Escritura inspirada por Deus. Pois em alguma parte está escrito (diz ele) da mulher de Ló que ela SE FEZ uma coluna de sal, e além disso da vara de Moisés que ele a lançou por terra e ela SE FEZ uma serpente. Pois nestes casos ocorreu uma mudança de natureza.
Que Cristo é um, por via de disputa com Hermias §14
A. Portanto, quando alguns cantam: «E o Senhor SE FEZ para mim um refúgio», e, de novo, «Ó Senhor, Tu TE FIZESTE um refúgio para nós, de geração em geração», que dirão agora? Aquele que é louvado, deixando de ser Deus, passou por uma mudança a ser um refúgio, e removeu-Se por Natureza para algo outro do que era no princípio?
B. Como não é tal coisa incongruente e indigna d’Aquele que é por Natureza Deus? Pois, sendo por Natureza sem mutação, permanece certissimamente o que era e sempre é, ainda que se diga que foi feito refúgio para alguém.
Que Cristo é um, por via de disputa com Hermias §15
A. Disseste muito excelentemente, e mui corretamente. Logo, sendo trazida a menção de Deus, se por alguém se disser “Fez-se”, como não é suma ignorância e impiedade supor que isso significa mudança, e antes não se esforçar por concebê-lo de algum outro modo, e com sabedoria volver-se ao que mais especialmente convém e é congruente ao Deus Imutável?
B. Como então dizemos que o Verbo se fez carne, preservando-Lhe sempre a Imutabilidade e a Invariabilidade, como próprias e essencialmente inatas?
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §16
O sapientíssimo Paulo, despenseiro dos seus mistérios, sacerdote das pregações evangélicas, o tornará claro, dizendo: Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, existindo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na figura de homem, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz. Porque o seu Verbo Unigênito, embora Deus e da natureza de Deus, esplendor da glória e expressão da pessoa daquele que o gerou, fez-se homem, e não convertido em carne, nem sofrendo comistão, ou mistura, ou qualquer outra coisa semelhante, mas antes rebaixando-se a si mesmo ao aniquilamento, e, pelo gozo que lhe estava proposto, desprezando a afronta, e não desonrando a pobreza da natureza humana. Pois, como Deus, quis tornar a carne, que está sujeita à morte e ao pecado, superior a ambos, morte e pecado, e restaurá-la ao que era no princípio, fazendo-a sua própria, não (como alguns dizem) sem alma, mas animada de alma intelectual; contudo, não desdenhando percorrer o caminho a isto conveniente, diz-se que sofreu um nascimento como o nosso, permanecendo o que era. Porque nasceu, de modo admirável, segundo a carne, de uma mulher: pois de outra maneira não era possível que ele, sendo Deus por natureza, fosse visto pelos que estão na terra senão na semelhança de nós, o Impalpável e incorpóreo, mas que teve por bem fazer-se homem e, nele só, mostrar a nossa natureza ilustre nas dignidades da Divindade: porque ele, o mesmo, era simultaneamente Deus e homem, e na semelhança de homem, na medida em que com isto era também Deus, mas na figura de homem. Porque era Deus na aparência como nós, e na forma de servo, o Senhor, pois assim dizemos que ele se fez carne.
Portanto, afirmamos que a santa Virgem é também Mãe de Deus.
Que Cristo é um só por via de disputa com Hermias §17
B. Apraz-vos que, arranjando as suas palavras contra as vossas, façamos um exame mais sutil das concepções, ou simplesmente cederemos à vossa palavra de que o assunto foi bem apreendido?
A. Irrepreensível, segundo julgo, é tudo o que será dito por nós, sabiamente e com habilidade, e não repugnante às Escrituras inspiradas por Deus. Mas dizei vós também o que vos parecer bem: pois uma contradita gerará algo proveitoso.
Que Cristo é Um por via de disputa com Hermias §18
B. Escreve o divino Paulo (dizem) do Filho como tendo sido FEITO maldição e pecado: porque ele diz: Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; e outra vez: Cristo nos resgatou da maldição da lei, FEITO por nós maldição. Dizem que Ele não foi FEITO realmente maldição e pecado, mas a sagrada Escritura está indicando com isto algo mais: assim dizem que E o Verbo SE FEZ carne é concebido por nós.
A. E verdadeiramente, assim como ao dizer que Ele FOI FEITO maldição e pecado, assim também este que Ele SE FEZ carne introduz consigo e tem em seu horizonte a concepção do que se segue.
Que Cristo é um só por via de disputa com Hermias §19
B. Como dizeis vós? Pois quando alguém dEle diz: Aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós, e resgatou da maldição da Lei também os que estavam debaixo da Lei, feito por amor deles maldição, como duvidar que isto se deu nos tempos em que o Unigênito Se encarnou e Se fez homem?
A. Introduz, portanto, com a menção da Encarnação também as coisas que, por causa dela, são economicamente trazidas sobre Aquele que sofreu o voluntário esvaziamento, como são a fome e o cansaço. Pois, assim como não Se teria cansado Aquele de Quem é todo o poder, nem dEle se diria ter fome, sendo Ele mesmo o alimento e a vida de todos, se não tivesse feito Sua a carne, cuja natureza é ter fome e cansaço; assim também nunca teria sido contado entre os transgressores (pois assim dizemos que Ele foi feito pecado), nem teria sido feito maldição, sofrendo a cruz por amor de nós, se não tivesse sido feito carne, isto é, Se encarnado e feito homem, sofrendo geração semelhante à nossa à maneira humana, refiro-me àquela por meio da santa Virgem.
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §20
B. Assinto, pois julgais bem. A. É falta de entendimento também em outros aspectos pensar e dizer que o Verbo foi de tal modo FEITO carne como ELE FOI FEITO maldição e pecado.
Que Cristo é Um, em disputa com Hermias §21
B. Como dizeis? A. Não foi Ele amaldiçoado para desfazer a maldição, e não fez o Pai d'Ele pecado para que acabasse com o pecado?