Obra patrística
Resposta ao Segundo Livro de Eunômio
São Gregório de Nissa · c. 335–394
Resposta ao segundo livro de Eunômio.
A primeira parte das minhas contendas contra Eunômio foi com o auxílio de Deus suficientemente estabelecida na obra precedente, como todos que quiserem poderão ver pelo que trabalhei, como naquela primeira parte o seu sofisma foi completamente exposto, e a sua falsidade não tem mais força alguma contra a verdade, senão no caso daqueles que mostram um ânimo muito desavergonhado contra ela. Mas visto que, como alguma cilada de salteador, ele reuniu uma segunda obra contra a ortodoxia, de novo com o auxílio de Deus a verdade toma em armas por meu intermédio contra o exército dos seus inimigos, comandando os meus argumentos como um general e dirigindo-os ao seu prazer contra o inimigo; seguindo cujos passos ousarei avançar corajosamente para a segunda parte das minhas contendas, nada intimidado pela disposição da falsidade, não obstante a sua exibição de inumeráveis argumentos. Pois fiel é Aquele que prometeu que "mil serão perseguidos por um", e que "dez mil serão postos em fuga por dois", sendo a vitória na batalha devida não ao número, mas à justiça. Porque assim como o corpulento Golias, quando brandiu contra os israelitas aquela lança ponderosa que lemos, não inspirou medo algum em seu adversário, ainda que fosse um pastor e inexperiente nas táticas da guerra, porém tendo-se com ele defrontado na luta perde a sua própria cabeça por uma inversão direta das suas expectativas, assim o nosso Golias, o campeão deste sistema estrangeiro, estendendo a sua blasfêmia contra seus oponentes como se sua mão estivesse sobre uma espada nua, e reluzindo entretanto com sofismas recém saídos da sua mó de afiar, não conseguiu nos inspirar, ainda que não sejamos soldados, medo algum da sua destreza, nem se achou livre para exultar na escassez de adversários; pelo contrário, encontrou em nós guerreiros improvisados do rebanho do Senhor, não adestrados na luta lógica, e não pensando que isto fosse detrimento algum, mas simplesmente arrojando contra ele o nosso argumento plano e rude da verdade. Já que então aquele pastor que está no relato, quando havia abatido o estrangeiro com sua funda, e quebrado seu elmo com a pedra, de sorte que se abriu sob a violência do golpe, não limitou seu valor ao simples olhar para o seu inimigo prostrado, mas correndo sobre ele, e privando-o de sua cabeça, volta levando-a como troféu ao seu povo, desfilando aquela cabeça jactanciosa através do exército de seus compatriotas; atentando para este exemplo cumpre-nos também avançar nada intimidados para a segunda parte dos nossos trabalhos, mas tanto quanto possível imitar a valentia de David, e, como ele, após o primeiro golpe plantar nosso pé sobre o inimigo prostrado, de sorte que o inimigo da verdade seja exibido tanto quanto possível como um tronco sem cabeça. Porque separado como está da verdadeira fé, ele é verdadeiramente muito mais decapitado que aquele filisteu. Pois visto que Cristo é a cabeça de todo homem, como diz o Apóstolo, e é apenas racional que só o crente seja assim denominado (porque Cristo, creio, não pode ser a cabeça também do incrédulo), segue-se que aquele que está separado da fé salvadora deve ser sem cabeça como Golias, estando separado da verdadeira cabeça por sua própria espada que ele havia afiado contra a verdade; qual cabeça não será nossa tarefa cortar, mas mostrar que está cortada.
E ninguém suponha que seja por soberba ou desejo de reputação humana que eu desça a esta guerra sem tréguas e implacável para combater o inimigo. Pois se me fosse permitido levar uma vida pacífica sem me imiscuir em coisa alguma, bem longe estaria de minha índole o transtorno voluntário de minha tranquilidade, provocando e suscitando por mim mesmo uma guerra contra mim. Mas agora que a cidade de Deus, a Igreja, se vê sitiada, e o grande muro da fé é abalado, ferido pelos engenhos que a cercam da heresia, e há não pequeno risco de a palavra do Senhor ser arrastada ao cativeiro por seu assalto diabólico, tendo por coisa terrível recusar-me a tomar parte no combate cristão, não me afastei para repouso, mas considerei o suor do trabalho mais honroso que a frouxidão do repouso, bem sabendo que, assim como todo homem, conforme diz o Apóstolo, há de receber seu próprio galardão segundo seu próprio trabalho, assim também há de receber, naturalmente, castigo pela negligência do trabalho proporcionado a suas forças. Portanto, sustentei o primeiro encontro na discussão com bom ânimo, lançando de meu alforje de pastor, isto é, do ensinamento da Igreja, meus argumentos naturais e não premeditados para a subversão desta blasfêmia, não tendo necessidade alguma dos recursos de argumentos de fontes profanas para me qualificar para o combate; e agora também não me abstenho da segunda parte do encontro, fixando minha esperança como o grande Davi naquele que "ensina minhas mãos para a guerra e meus dedos para o combate", se porventura a mão do escritor seja também em meu caso guiada pela potência Divina para a derrota destas opiniões heréticas, e meus dedos sirvam para o esmagamento de seu exército maligno dirigindo meu argumento com destreza e precisão contra o inimigo. Mas assim como nos conflitos humanos aqueles que sobressaem em valor e força, protegidos por sua armadura e tendo adquirido previamente a perícia militar pelo treino no enfrentamento do perigo, se colocam à frente de sua coluna, enfrentando o perigo pelos que estão atrás deles, enquanto o resto da companhia, ainda que servindo apenas para dar aparência de números, não deixa contudo de parecer, senão pelos seus escudos cerrados, concorrer para o bem comum, assim também nestes nossos conflitos esse nobre soldado de Cristo e veemente campeão contra os estrangeiros, o poderoso guerreiro espiritual Basílio—equipado como está com toda armadura descrita pelo Apóstolo, e protegido pelo escudo da fé, e sempre trazendo diante de si essa arma de defesa, a espada do espírito—combate na vanguarda do exército do Senhor por seu argumento elaborado contra esta heresia, vivo e resistindo e prevalecendo sobre o inimigo, enquanto nós, a plebe comum, abrigando-nos sob o escudo desse campeão da fé, não nos recusaremos a nenhum dos conflitos que estejam ao alcance de nosso poder, conforme nosso capitão nos conduza contra o inimigo. Sendo assim, ele, em sua refutação da opinião falsa e insustentável mantida por esta heresia, afirma que "ingênito" não pode ser predicado de Deus senão como mera noção ou concepção, da qual aduz provas apoiadas no senso comum e na evidência da Escritura, enquanto Eunômio, o autor da heresia, nem se conforma com seus enunciados nem é capaz de derrubá-los, mas em seu conflito com a verdade, quanto mais claramente brilha a luz da doutrina verdadeira, tanto mais, como criaturas noturnas, ele foge da luz, e, não podendo mais encontrar os esconderijos sofísticos aos quais está acostumado, ele erra ao acaso, e caindo no labirinto da falsidade gira em torno do mesmo lugar, quase todo seu segundo tratado sendo ocupado com este vão trifório—é bem conveniente portanto que nosso combate com os nossos adversários se trave no mesmo terreno em que nosso campeão por seu próprio tratado foi nosso guia.
Primeiramente, porém, julgamos conveniente percorrer brevemente nossas próprias opiniões doutrinárias e o desacordo de nosso adversário com elas, para que nossa análise das proposições em questão proceda metodicamente. Ora, o ponto principal da ortodoxia cristã é crer que o Deus Unigênito, que é a verdade e a verdadeira luz, e o poder de Deus e a vida, é verdadeiramente tudo aquilo que se diz ser, tanto sob outros aspectos quanto especialmente nisto, que é Deus e a verdade, isto é, Deus em verdade, sendo sempre o que é concebido ser e o que é chamado, que nunca em tempo algum não foi, nem jamais deixará de ser, cujo ser, tal qual ele é essencialmente, está além do alcance da curiosidade que tentaria compreendê-lo. Mas a nós, como diz a palavra da Sabedoria, faz-Se Ele conhecido que é "pela grandeza e beleza de suas criaturas proporcionalmente" às coisas que são conhecidas, concedendo-nos o dom da fé pelas operações de suas mãos, mas não a compreensão do que Ele é. Portanto, sendo tal a opinião prevalecente entre todos os cristãos, pelo menos entre aqueles que são verdadeiramente dignos desta denominação, isto é, aqueles que foram ensinados pela Lei a não adorar nada que não seja o próprio Deus, e por este mesmo ato de adoração confessam que o Unigênito é Deus em verdade, e não um deus falsamente assim chamado, surgiu esta praga mortal da Igreja, trazendo esterilidade às santas sementes da fé, defendendo, como o faz, os erros do judaísmo, e participando até certo ponto da impiedade dos gregos. Pois em sua ficção de um Deus criado defende o erro dos gregos, e em não aceitar o Filho sustém o dos judeus. Esta seita, portanto, que buscaria aniquilar a própria Divindade do Senhor e ensinar aos homens concebê-Lo como um ser criado, e não aquilo que o Pai é em essência e poder e dignidade, uma vez que estas ideias enevoadas nenhum apoio encontram quando expostas por todos os lados à luz da verdade, negligenciaram todos aqueles nomes fornecidos pela Escritura para a glorificação de Deus, e predicados igualmente do Pai e do Filho, e se entregaram à palavra "ingênito", um termo fabricado por eles mesmos para lançar desprezo sobre a grandeza do Deus Unigênito. Pois, enquanto a confissão ortodoxa nos ensina a crer no Deus Unigênito de tal sorte que todos os homens honrem o Filho assim como honram o Pai, estes homens, rejeitando os termos ortodoxos pelos quais a grandeza do Filho é significada como equiparada à dignidade do Pai, extraem daí os princípios e fundamentos de sua heresia com respeito à sua Divindade. Pois, como o Deus Unigênito, segundo a voz do Evangelho ensina, procede do Pai e é dele, falsificando esta doutrina por uma mudança de termos, servem-se deles para rasgar em pedaços a verdadeira fé. Pois, enquanto a verdade ensina que o Pai não é de causa pré-existente alguma, estes homens deram a tal opinião o nome de "ingeneração", e significam a substância do Unigênito do Pai pelo termo "geração", comparando então os dois termos "ingênito" e "gerado" como contraditórios um do outro, servem-se da oposição para enganar seus seguidores insensatos. Pois, para tornar a matéria mais clara por uma ilustração, as expressões Ele foi gerado e Ele não foi gerado são muito semelhantes a Ele está assentado e Ele não está assentado, e todas tais expressões semelhantes. Mas eles, forçando estas expressões para longe do significado natural dos termos, estão ávidos por colocar outro sentido sobre elas com vista à subversão da ortodoxia. Pois, enquanto, como foi dito, as palavras "está assentado" e "não está assentado" não são equivalentes em significado, sendo uma expressão contraditória da outra, fingem que esta contradição formal em expressão indica uma diferença essencial, atribuindo a geração ao Filho e a não-geração ao Pai como seus atributos essenciais.
Ora, assim como é impossível considerar o estar sentado ou o não estar sentado de um homem como a essência do homem (pois não se usaria a mesma definição para o estar sentado do homem como para o próprio homem), do mesmo modo, por analogia com o exemplo acima, a essência não-gerada é em sua ideia inerente algo inteiramente diferente daquilo que se exprime por "não ter sido gerado." Mas nossos adversários, com vista ao seu intento maligno, qual seja o de estabelecer sua negação da Divindade do Unigênito, não dizem que a essência do Pai é ingênita, mas, ao contrário, declaram que a ingeneração é Sua essência, a fim de que por esta distinção a respeito da geração estabeleçam, pela oposição verbal, uma diversidade de naturezas. Na direção da impiedade olham com dez mil olhos, mas no que toca à impraticabilidade de sua própria contenda são tão incapazes de visão quanto homens que deliberadamente fecham os olhos. Pois quem, senão aquele cujos olhos mentais estão totalmente cegos, pode deixar de discernir o caráter frouxo e insubstancial do princípio de sua doutrina, e que seu argumento em apoio à ingeneração como uma essência nada tem em que se apoiar? Pois desta maneira seu erro se estabeleceria.
Mas, conforme a melhor capacidade minha, levarei minha voz a refutar o argumento de nossos inimigos. Eles dizem que Deus é declarado ser sem geração, que a Divindade é por natureza simples, e aquilo que é simples não admite composição. Se, pois, Deus Que é declarado ser sem geração é por sua natureza sem composição, seu título de Ingênito deve pertencer à sua própria natureza, e essa natureza é idêntica com a ingeneração. Ao que respondemos que os termos incomposto e ingênito não são a mesma coisa, pois o primeiro representa a simplicidade do sujeito, o outro seu ser sem origem, e essas expressões não são conversíveis em significado, ainda que ambas sejam predicadas de um único sujeito. Mas da denominação de Ingênito fomos ensinados que Aquele Que assim é nomeado é sem origem, e da denominação de simples que é livre de toda mistura (ou composição), e estes termos não podem ser substituídos um pelo outro. Não há, portanto, necessidade de que, porque a Divindade seja por sua natureza simples, essa natureza deva ser chamada ingeneração; mas em que é indivisível e sem composição, é falado de como simples, enquanto em que não foi gerado, é falado de como ingênito.
Ora, se o termo não-gerado não significasse o ser sem origem, mas a ideia de simplicidade entrasse no significado de tal termo, e Ele fosse chamado não-gerado em seu sentido herético, meramente porque é simples e não-composto, e se os termos simples e não-gerado fossem o mesmo em significação, então também a simplicidade do Filho deveria ser equivalente com a não-gereção. Pois não negarão que Deus o Unigênito é por sua natureza simples, a menos que estejam preparados para negar que Ele é Deus. Por conseguinte, o termo simplicidade não terá em seu significado tal conexão com o ser não-gerado de modo que, pela razão de seu caráter não-composto, sua natureza devesse ser chamada não-gereção; ou atraem sobre si mesmos uma de duas alternativas absurdas, ou negando a Divindade do Unigênito, ou atribuindo-lhe também a não-gereção. Pois se Deus é simples, e o termo simplicidade é, segundo eles, idêntico com não-gerado, devem eles ou fazer que o Filho seja de natureza composta, por qual termo se entende que nem sequer é Deus, ou se permitem sua Divindade, e Deus (como tenho dito) é simples, então O fazem ao mesmo tempo ser não-gerado, se os termos simples e não-gerado são conversíveis. Mas para tornar meu pensamento mais claro recapitularei. Afirmamos que cada um destes termos tem seu próprio significado peculiar, e que o termo indivisível não pode ser traduzido por não-gerado, nem não-gerado por simples; mas por simples entendemos não-composto, e por não-gerado nos é ensinado a entender o que é sem origem.