Obra patrística
Resposta aos Judeus
Tertuliano · c. 160–225
Occasion of Writing. Relative Position of Jews and Gentiles Illustrated.–Of the Prophecies of the Birth and Achievements of Christ.
Ocasião de escrever. Posição relativa de judeus e gentios ilustrada.
VII.
Uma Resposta aos Judeus.
[Traduzido pelo Rev. S. Thelwall.]
Capítulo I.—Ocasião de Escrever. Posição Relativa de Judeus e Gentios Ilustrada.
Aconteceu muito recentemente que se realizou uma disputa entre um cristão e um prosélito judeu. Alternadamente, com contencioso debate, cada um prolongou o dia até a tarde. Pelo rumor oposto, além disso, de alguns partidários dos indivíduos, a verdade começou a ser ofuscada por uma espécie de nuvem. Foi, portanto, do nosso agrado que aquilo que, devido ao ruído confuso da disputa, não pôde ser totalmente elucidado ponto por ponto, fosse examinado mais cuidadosamente, e que a pena determinasse, para fins de leitura, as questões tratadas.
Pois a ocasião, na verdade, de reivindicar a graça divina mesmo para os gentios derivava uma aptidão preeminente deste fato: que o homem que se propunha a vindicar a Lei de Deus como sua era dos gentios, e não um judeu "da linhagem dos israelitas". Pois este fato — que os gentios são admissíveis à Lei de Deus — é suficiente para impedir que Israel se orgulhe da noção de que "os gentios são considerados como uma gota d'água de um balde", ou ainda como "pó de uma eira"; embora tenhamos o próprio Deus como fiador adequado e prometedor fiel, pois prometeu a Abraão que "em sua descendência seriam benditas todas as nações da terra"; e que do ventre de Rebeca "dois povos e duas nações estavam prestes a proceder" — decerto os dos judeus, isto é, de Israel; e os dos gentios, isto é, os nossos. Cada um, então, foi chamado povo e nação; para que, pela denominação nuncupativa, ninguém ousasse reivindicar para si o privilégio da graça. Pois Deus ordenou "dois povos e duas nações" como prestes a proceder do ventre de uma só mulher; nem a graça fez distinção na denominação nuncupativa, mas na ordem do nascimento; de modo que aquele que fosse prioridade ao proceder do ventre estivesse sujeito ao "menor", isto é, ao posterior. Pois assim falou Deus a Rebeca: "Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas; e um povo vencerá ao outro povo, e o maior servirá ao menor."
Assim sendo, visto que o povo ou nação dos judeus é anterior no tempo e "maior" pela graça do favor primário na Lei, enquanto o nosso é entendido como "menor" na idade dos tempos, por ter alcançado na última era do mundo o conhecimento da divina misericórdia: sem dúvida, pelo édito da divina palavra, o povo anterior e "maior" — isto é, o judeu — deve necessariamente servir ao "menor"; e o povo "menor" — isto é, o cristão — vencer o "maior". Pois, além disso, segundo os registros memoriais das divinas Escrituras, o povo dos judeus — isto é, o mais antigo — abandonou completamente a Deus e prestou serviço degradante aos ídolos, e, abandonando a Divindade, foi entregue às imagens; enquanto "o povo" disse a Aarão: "Faze-nos deuses que vão adiante de nós." E quando o ouro dos colares das mulheres e dos anéis dos homens foi totalmente fundido pelo fogo, e saiu uma cabeça semelhante a bezerro, a esta figuração Israel de comum acordo (abandonando a Deus) prestou honra, dizendo: "Estes são os deuses que nos tiraram da terra do Egito." Pois assim, nos tempos posteriores em que os reis os governavam, novamente, em conjunção com Jeroboão, adoraram bezerros de ouro e bosques, e se escravizaram a Baal. Donde se prova que sempre foram retratados, do volume das divinas Escrituras, como culpados do crime de idolatria; enquanto o nosso povo "menor" — isto é, posterior —, deixando os ídolos que antes servia escravamente, converteu-se ao mesmo Deus de quem Israel, como acima narramos, se tinha apartado. Pois assim o povo "menor" — isto é, posterior — venceu o "povo maior", ao alcançar a graça do favor divino, do qual Israel foi divorciado.
A Lei Anterior a Moisés.
Ponhamo-nos, pois, pé contra pé, e determinemos a soma e a substância da questão presente dentro de listas definidas.
Por que razão se há de crer que Deus, fundador do universo, Governador de todo o mundo, Formador da humanidade, Semeador das nações universais, haja dado uma lei por meio de Moisés a um só povo, e não se diga que a designou a todas as nações? Pois, a menos que a tivesse dado a todos, de modo algum teria habitualmente permitido que até prosélitos dentre as nações tivessem acesso a ela. Mas — como é congruente com a bondade de Deus e com a Sua equidade, como Formador da humanidade — Ele deu a todas as nações a mesma lei, a qual em tempos definidos e determinados ordenou que fosse observada, quando quis, e por quem quis, e como quis.
Porque no princípio do mundo deu ao próprio Adão e a Eva uma lei: que não comessem do fruto da árvore plantada no meio do paraíso; mas que, se fizessem o contrário, morreriam de morte. A qual lei lhes teria sido suficiente, se tivesse sido guardada.
Porque nesta lei dada a Adão reconhecemos em embrião todos os preceitos que depois brotaram quando dados por meio de Moisés; isto é: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma; Amarás o teu próximo como a ti mesmo; Não matarás; Não cometerás adultério; Não furtarás; Não dirás falso testemunho; Honra a teu pai e a tua mãe; e: Não cobiçarás o que é alheio.
Porque a lei primordial foi dada a Adão e Eva no paraíso, como o ventre de todos os preceitos de Deus.
Em suma, se tivessem amado o Senhor seu Deus, não teriam transgredido o Seu preceito; se tivessem amado habitualmente o seu próximo — isto é, a si mesmos — não teriam crido na persuasão da serpente, e assim não teriam cometido homicídio contra si mesmos, caindo da imortalidade, transgredindo o preceito de Deus; também do furto se teriam abstido, se não tivessem provado furtivamente do fruto da árvore, nem ansiosamente se ocultado debaixo de uma árvore para escapar à vista do Senhor seu Deus; nem se teriam feito parceiros do diabo que assevera a mentira, crendo nele que seriam “como Deus”; e assim não teriam ofendido a Deus também, como a seu Pai, que os formara do barro da terra, como do ventre de uma mãe; se não tivessem cobiçado o alheio, não teriam provado do fruto ilícito.
Portanto, nesta lei geral e primordial de Deus, cuja observância, no caso do fruto da árvore, Ele sancionara, reconhecemos encerrados todos os preceitos especialmente da Lei posterior, que germinaram quando revelados a seus tempos próprios. Porque a superindução subsequente de uma lei é obra do mesmo Ser que antes havia premissado um preceito; pois é da Sua alçada também subsequentemente instruir a quem antes resolvera formar criaturas justas. Pois que admiração se estende a disciplina quem a institui? se avança quem começa?
Em suma, antes da Lei de Moisés, escrita em tábuas de pedra, afirmo que houve uma lei não escrita, que era habitualmente entendida naturalmente, e pelos pais era habitualmente guardada. Pois donde foi Noé “achado justo”, se nele não precedera a justiça de uma lei natural? Donde foi Abraão reputado “amigo de Deus”, senão com base na equidade e justiça (na observância) de uma lei natural? Donde foi Melquisedeque chamado “sacerdote do Deus altíssimo”, se, antes do sacerdócio da lei levítica, não havia levitas que costumassem oferecer sacrifícios a Deus?
Pois assim, depois dos patriarcas acima mencionados, foi dada a Lei a Moisés, naquele tempo (bem conhecido) depois do seu êxodo do Egito, após o intervalo e espaço de quatrocentos anos. Na verdade, foi depois dos “quatrocentos e trinta anos” de Abraão que a Lei foi dada. Donde entendemos que a lei de Deus foi anterior até mesmo a Moisés, e não foi dada primeiro em Horebe, nem em Sinai e no deserto, mas era mais antiga; existindo primeiro no paraíso, subsequentemente reformada para os patriarcas, e assim novamente para os judeus, em períodos definidos: de modo que não devemos atender à Lei de Moisés como à lei primitiva, mas como a uma posterior, a qual em período definido Deus também propôs aos gentios e, depois de repetidamente prometer fazê-lo pelos profetas, a reformou para melhor; e preveniu que haveria de acontecer que, assim como “a lei foi dada por meio de Moisés” em tempo definido, assim se devia crer que fora temporariamente observada e guardada.
E não anulemos este poder que Deus tem, que reforma os preceitos da lei conforme as circunstâncias dos tempos, com vistas à salvação do homem.
Finalmente, aquele que sustenta que o sábado ainda deve ser observado como bálsamo de salvação, e a circuncisão ao oitavo dia por causa da ameaça de morte, ensine-nos que, no tempo passado, os justos guardaram o sábado ou praticaram a circuncisão, e assim foram feitos “amigos de Deus”. Pois se a circuncisão purga o homem, uma vez que Deus fez Adão incircunciso, por que não o circuncidou, mesmo depois do seu pecado, se a circuncisão purga? De todo modo, ao estabelecê-lo no paraíso, designou um incircunciso como colono do paraíso.
Portanto, uma vez que Deus criou Adão incircunciso e inobservante do sábado, consequentemente também a sua descendência, Abel, oferecendo-Lhe sacrifícios, incircunciso e inobservante do sábado, foi por Ele louvado; enquanto aceitou o que oferecia em simplicidade de coração, e reprovou o sacrifício de seu irmão Caim, que não repartia retamente o que oferecia.
Noé também, incircunciso — sim, e inobservante do sábado — Deus livrou do dilúvio.
Porque Enoque também, varão justíssimo, incircunciso e inobservante do sábado, Deus o trasladou deste mundo; o qual não provou primeiro a morte, a fim de que, sendo candidato à vida eterna, já nos mostrasse que também nós podemos, sem o fardo da lei de Moisés, agradar a Deus.
Melquisedeque também, “sacerdote do Deus altíssimo”, incircunciso e inobservante do sábado, foi escolhido para o sacerdócio de Deus.
Ló também, irmão de Abraão, prova que foi pelos méritos da justiça, sem observância da lei, que foi livrado da conflagração dos sodomitas.