Obra patrística
Scorpiace
Tertuliano · c. 160–225
Capítulo I
VIII.
Escorpiace.
Antídoto para a Picada do Escorpião.
[Traduzido pelo Rev. S. Thelwall.]
Capítulo I.
A terra produz, como que por supuração, grande mal do escorpião diminuto. Os venenos são tantos quantas são as espécies dele, os desastres tantos quantas também são as variedades dele, as dores tantas quantas também são as cores dele. Nicandro escreve acerca dos escorpiões, e os descreve. E contudo ferir com a cauda—que cauda será tudo aquilo que se prolonga da parte derradeira do corpo, e açoita—é o único movimento que todos eles usam quando fazem um assalto. Pelo que aquela sucessão de nós no escorpião, que no interior é um delgado filamento envenenado, levantando-se com um salto em arco, aperta uma ferrão farpado no fim, à maneira de um engenho para lançar dardos. Do que também chamam, em seguida ao escorpião, o instrumento de guerra que, pelo ser puxado para trás, impele as setas. O ponto em seu caso é também um conduto de extrema fineza, para infligir a ferida; e onde penetra, derrama veneno. O tempo usual de perigo é a estação do verão: a ferocidade hasteia a vela quando o vento sopra do sul e do sudoeste. Entre os remédios, certas substâncias fornecidas pela natureza têm muito grande eficácia; a magia também se reveste de algumas ataduras; a arte de curar contraataca com lanceta e ventosa. Pois alguns, apressando-se, tomam também de antemão uma bebida protetora; mas o comércio sexual a drena, e ficam secos de novo. Temos fé como defesa, se não somos feridos pela desconfiança ela mesma também, ao fazer imediatamente o sinal e fazer adjurações, e ungir o calcanhar com a besta. Finalmente, muitas vezes ajudamos desta maneira até os gentios, visto que fomos dotados por Deus daquele poder que o apóstolo primeiro usou quando desprezou a mordida da víbora. Que, pois, oferece esta pena vossa, se a fé está segura pelo que tem de seu? Que esteja segura pelo que tem de seu também em outras ocasiões, quando é sujeita a escorpiões seus próprios. Estes também têm uma molestia diminuta, e são de diferentes sortes, e estão armados de um mesmo modo, e são movidos em um tempo determinado, e não outro senão um de calor ardente. Este entre os cristãos é um tempo de perseguição. Quando, portanto, a fé é grandemente agitada, e a Igreja abrasada, como representada pela sarça, então os gnósticos se desencadeiam, então os valentinianos rastejam para fora, então todos os opositores do martírio borbulham, sendo eles mesmos também ardentes para ferir, penetrar, matar. Pois, porque sabem que muitos são simples e também inexperientes, e fracos além do mais, que um número muito grande efetivamente são cristãos que se desviam com o vento e se conformam aos seus humores, percebem que nunca devem ser abordados mais do que quando o medo abriu as entradas à alma, especialmente quando alguma demonstração de ferocidade já ornou com uma coroa a fé dos mártires. Portanto, arrastando a cauda até aqui, aplicam-na primeiro aos sentimentos, ou açoitam com ela como que em espaço vazio. Pessoas inocentes sofrem tal suplício. De modo que possais supor que o orador é um irmão ou um gentio de melhor sorte. Uma seita molesta a ninguém assim tratada! Então penetram. Homens estão perecendo sem razão. Pois que estão perecendo, e sem razão, é a primeira inserção. Então agora ferem mortalmente. Mas as almas ingênuas não sabem o que está escrito, e que significado tem, onde e quando e diante de quem devemos confessar, ou devemos, senão que isto, morrer por Deus, é, visto que Ele me preserva, não apenas ingenuidade, mas loucura, não mais que insensatez. Se Ele me mata, como será seu dever me preservar? Uma vez por todas Cristo morreu por nós, uma vez por todas foi morto para que não fôssemos mortos. Se Ele exige o mesmo de mim em retorno, procura também salvação de minha morte pela violência? Ou Deus importuna pelo sangue dos homens, especialmente se recusa o dos touros e dos bodes? Certamente prefere o arrependimento do que a morte do pecador.
E como pode Ele desejar a morte daqueles que não são pecadores? Quem não será trespassado por estes, e talvez por outros artifícios sutis contendo venenos heréticos, seja para a dúvida se não para a destruição, seja para a irritação se não para a morte? Quanto a vós, portanto, fazei, se a fé está vigilante, que golpeeis no mesmo instante o escorpião com uma maldição, tanto quanto podeis, com vosso sandália, e deixai-o morrendo em sua própria estupefação. Mas se este glutir a ferida, impele o veneno para dentro, e o faz apressar-se para as entranhas; logo todos os sentidos anteriores se embotam, o sangue da mente congela-se, a carne do espírito definha, o ódio pelo nome cristão é acompanhado por um sentimento de amargura. Já também o entendimento busca para si um lugar onde possa vomitar; e assim, de uma vez por todas, a fraqueza com que foi ferido expira a fé ferida seja na heresia ou no paganismo. E agora o estado presente das coisas é tal, que nos encontramos no meio de um calor intenso, a própria Canícula da perseguição,—um estado originado sem dúvida pelo próprio cabeça-de-cão. De alguns cristãos o fogo, de outros a espada, de outros as bestas fizeram prova; outros estão perecendo de fome na prisão pelos martírios dos quais tiveram um gosto entretanto sendo submetidos aos paus e às garras além disso. Nós mesmos, tendo sido designados para a perseguição, somos como lebres sendo cercadas de longe; e os hereges vagueiam segundo seu costume. Portanto o estado dos tempos me impeliu a preparar pela minha pena, em oposição às pequenas bestas que perturbam nossa seita, nosso antídoto contra o veneno, para que eu possa assim efetuar curas. Vós que lerdes ao mesmo tempo bebereis. Nem é amargo o gole. Se as palavras do Senhor são mais doces do que o mel e os favos de mel, os sucos são desta fonte. Se a promessa de Deus transborda de leite e mel, os ingredientes que fazem esse gole têm o gosto disto. "Mas ai daqueles que transformam o doce em amargo, e a luz em trevas." Pois, de maneira semelhante, também aqueles que se opõem aos martírios, representando a salvação como destruição, transmutam o doce em amargo, bem como a luz em trevas; e assim, preferindo esta vida miserável àquela mais bem-aventurada, colocam o amargo no lugar do doce, bem como as trevas no lugar da luz.