Obra patrística
Sobre a Encarnação do Verbo
Santo Atanásio · c. 296–373
1–XXI
Introdutório.—O assunto deste tratado: a humilhação e a encarnação do Verbo. Pressupõe a doutrina da Criação, e esta pelo Verbo.…
Da Encarnação do Verbo.
§1. Introdutório.—O assunto deste tratado: a humilhação e encarnação do Verbo. Pressupõe a doutrina da Criação, e que pelo Verbo. O Pai salvou o mundo por Ele, por quem primeiro o fez.
Visto que no que precede expusemos—escolhendo alguns pontos dentre muitos—um suficiente relato do erro dos gentios acerca dos ídolos, e do culto dos ídolos, e como originalmente vieram a ser inventados; como, a saber, por maldade os homens para si mesmos urdiram o culto dos ídolos; e visto que pela graça de Deus notamos também algo da divindade do Verbo do Pai, e da Sua universal Providência e poder, e que o bom Pai por Ele ordena todas as coisas, e todas as coisas por Ele são movidas, e nEle são vivificadas: vinde agora, Macário (digno desse nome), e verdadeiro amante de Cristo, sigamos a fé da nossa religião, e exponhamos também o que diz respeito ao Verbo tornar-se Homem, e à Sua divina Aparição entre nós, a qual os judeus caluniam e os gregos escarnecem, mas nós adoramos; a fim de que, tanto mais pela aparente humilhação do Verbo, a vossa piedade para com Ele seja aumentada e multiplicada. 2. Pois quanto mais Ele é escarnecido entre os incrédulos, tanto mais testemunho dá da Sua própria Divindade; porquanto não somente Ele mesmo demonstra ser possível o que os homens julgam erroneamente, pensando impossível, mas o que os homens escarnecem como indecoroso, isto por Sua própria bondade Ele reveste de decoro, e o que os homens, na sua presunção de sabedoria, zombam como meramente humano, Ele por Seu próprio poder demonstra ser divino, subjugando as pretensões dos ídolos por Sua suposta humilhação—pela Cruz—e aqueles que zombam e não creem, invisivelmente conquistando para reconhecerem a Sua divindade e poder. 3. Mas para tratar deste assunto é necessário recordar o que foi dito anteriormente; a fim de que não deixeis de conhecer a causa do aparecimento corporal do Verbo do Pai, tão sublime e tão grande, nem penseis ser consequência da Sua própria natureza que o Salvador haja vestido um corpo; mas que, sendo incorpóreo por natureza, e Verbo desde o princípio, contudo pela benignidade e bondade do Seu próprio Pai nos foi manifestado num corpo humano para a nossa salvação. 4. É, pois, próprio para nós começarmos o tratamento deste assunto falando da criação do universo, e de Deus seu Arquiteto, para que assim seja devidamente percebido que a renovação da criação foi obra do mesmíssimo Verbo que a fez no princípio. Pois não parecerá dissonante que o Pai haja operado a sua salvação nAquele por cujo meio a fez.
Opiniões errôneas sobre a Criação rejeitadas. (1) Epicureia (geração fortuita). Mas a diversidade dos corpos e das partes argumenta um intelecto criador.…
§2. Opiniões errôneas sobre a Criação rejeitadas. (1) Epicureia (geração fortuita). Mas a diversidade de corpos e partes argumenta um intelecto criador. (2) Platónicos (matéria preexistente). Mas isso sujeita Deus a limitações humanas, fazendo d'Ele não um criador mas um mecânico. (3) Gnósticos (um Demiurgo alheio). Rejeitados pela Escritura.
Acerca da feitura do universo e da criação de todas as coisas, muitos tomaram diferentes pareceres, e cada homem estabeleceu a lei segundo o seu próprio agrado. Pois alguns dizem que todas as coisas vieram a ser por si mesmas, e ao acaso; como, por exemplo, os Epicureus, que nos afirmam, em seu desprezo de si mesmos, que a providência universal não existe, falando diretamente contra o fato óbvio e a experiência. 2. Porque se, como eles dizem, tudo teve o seu princípio por si mesmo, e independentemente de propósito, seguir-se-ia que tudo teria vindo ao puro ser, de modo a ser semelhante e não distinto. Pois seguir-se-ia em virtude da unidade do corpo que tudo deveria ser sol ou lua, e no caso dos homens seguir-se-ia que o todo deveria ser mão, ou olho, ou pé. Mas, como de fato é, assim não é. Pelo contrário, vemos uma distinção de sol, lua e terra; e ainda, no caso dos corpos humanos, de pé, mão e cabeça. Ora, tal arranjo separado como este não nos diz que eles vieram a ser por si mesmos, mas mostra que uma causa os precedeu; da qual causa é possível apreender também a Deus como o Fazedor e Ordenador de todas as coisas.
3. Mas outros, incluindo Platão, que tem tão grande reputação entre os Gregos, argumentam que Deus fez o mundo a partir de matéria preexistente e sem princípio. Pois Deus nada poderia ter feito se a matéria já não existisse; assim como a madeira deve existir à mão para o carpinteiro, para que ele possa trabalhar. 4. Mas, ao dizerem isto, não sabem que estão atribuindo fraqueza a Deus. Pois se Ele não é a causa da matéria, mas faz as coisas apenas de matéria preexistente, Ele se mostra fraco, por ser incapaz de produzir qualquer coisa que faz sem a matéria; assim como é sem dúvida fraqueza do carpinteiro não poder fazer o que é necessário sem a sua madeira. Pois, por hipótese, se a matéria não existisse, Deus nada teria feito. E como poderia Ele nesse caso ser chamado Fazedor e Artífice, se deve a sua capacidade de fazer a alguma outra fonte — a saber, à matéria? De modo que, se assim é, Deus será, segundo a sua teoria, apenas um Mecânico, e não um Criador a partir do nada; se, isto é, Ele trabalha sobre matéria existente, mas não é Ele mesmo a causa da matéria. Pois Ele não poderia em nenhum sentido ser chamado Criador a menos que seja Criador da matéria da qual as coisas criadas, por sua vez, foram feitas. 5. Mas os sectários imaginam para si um artífice diferente de todas as coisas, outro que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, em profunda cegueira até mesmo quanto às palavras que usam. 6. Porquanto o Senhor diz aos Judeus: «Não lestes que desde o princípio Aquele que os criou os fez macho e fêmea, e disse: Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne?» e então, referindo-se ao Criador, diz: «Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.» Como vêm estes homens a afirmar que a criação é independente do Pai? Ou se, nas palavras de João, que diz, sem exceção, «Todas as coisas foram feitas por Ele» e «sem Ele nada foi feito», como poderia o artífice ser outro, distinto do Pai de Cristo?
A verdadeira doutrina. A criação a partir do nada, pela munificência de Deus ao conceder o ser. O homem criado acima dos demais, mas incapaz de perseverar por si mesmo.…
§3. A verdadeira doutrina. Criação do nada, da munificência divina do ser. O homem criado acima de tudo o mais, mas incapaz de perseverança independente. Por isso o dom excepcional e sobrenatural de ser à Imagem de Deus, com a promessa de bem-aventurança condicionada à sua perseverança na graça.
Assim pois eles vãmente especulam. Mas o ensinamento piedoso e a fé segundo Cristo marca a sua linguagem insensata como impiidade. Pois sabe que não foi espontaneamente, porque a providência não está ausente; nem de matéria preexistente, porque Deus não é fraco; mas que do nada, e sem que tivesse qualquer existência anterior, Deus fez o universo existir por seu Verbo, conforme Ele diz primeiramente por Moisés: "No princípio Deus criou o céu e a terra;" secundamente, no livro muito edificante do Pastor: "Crê primeiramente que Deus é um, que criou e formou todas as coisas, e as fez existir do nada." 2. Ao qual também Paulo se refere quando diz: "Pela fé compreendemos que os mundos foram formados pela Palavra de Deus, de forma que o que se vê não foi feito do que aparece." 3. Porque Deus é bom, ou melhor, é essencialmente a fonte da bondade: nem poderia aquele que é bom ser avaro de coisa alguma: por isso, não negando existência a ninguém, Ele fez todas as coisas do nada por seu próprio Verbo, Jesus Cristo nosso Senhor. E entre estas, tendo tomado piedade especial, acima de tudo na terra, sobre a raça dos homens, e tendo percebido sua incapacidade, pela virtude da condição de sua origem, de permanecer no mesmo estado, Ele lhes deu um dom adicional, e não meramente criou o homem, como criou todas as criaturas irracionais da terra, mas os fez à sua própria imagem, dando-lhes uma porção até mesmo do poder de seu próprio Verbo; de forma que, tendo como que uma reflexão do Verbo, e sendo feitos racionais, pudessem poder permanecer sempre na bem-aventurança, vivendo a verdadeira vida que pertence aos santos no paraíso. 4. Mas sabendo mais uma vez como a vontade do homem poderia inclinar-se para um lado ou outro, antecipadamente Ele assegurou a graça que lhes foi dada por uma lei e pelo lugar onde os colocou. Pois os levou a seu próprio jardim, e lhes deu uma lei: de forma que, se guardassem a graça e permanecessem bons, pudessem ainda manter a vida no paraíso sem tristeza, dor ou preocupação, tendo além disso a promessa de incorruptibilidade no céu; mas que, se transgredissem e se desviassem, e se tornassem maus, pudessem saber que estavam incorrendo naquela corrupção na morte que era sua por natureza: não mais viverem no paraíso, mas expulsos dele desde então para morrer e permanecerem na morte e na corrupção. 5. Ora, isto é aquilo de que também a Sagrada Escritura nos adverte, dizendo na Pessoa de Deus: "De toda árvore que está no jardim, comendo comerás: mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; mas no dia em que comerdes, morrendo morrereis." Mas por "morrendo morrereis," que outra coisa poderia significar senão não apenas morrer, mas também permanecer para sempre na corrupção da morte?
Nossa criação e a Encarnação de Deus intimamente conectadas. Assim como pela Palavra o homem foi chamado da não-existência ao ser, e recebeu ainda a graça de uma vida divina,…
§4. A nossa criação e a Encarnação de Deus íntimamente conexas. Assim como pelo Verbo o homem foi chamado do não-ser à existência, e mais ainda recebeu a graça de uma vida divina, assim por aquela única falta que fez perder essa vida, incorreram de novo na corrupção, e encheu o mundo de inúmeros pecados e misérias.
Talvez vos admirais por que razão, tendo-nos proposto falar da Encarnação do Verbo, tratamos agora da origem do gênero humano. Mas isto também pertence propriamente ao fim do nosso tratado. 2. Porque, ao falar da aparição do Salvador entre nós, cumpre necessariamente falar também da origem dos homens, para que saibais que a razão da Sua descida foi por causa de nós, e que a nossa transgressão chamou a benignidade do Verbo, para que o Senhor se apressasse a socorrer-nos e aparecesse entre os homens. 3. Porque da Sua Encarnação fomos nós o objeto, e pela nossa salvação Ele obrou tão amorosamente que quis aparecer e nascer até mesmo num corpo humano. 4. Assim, pois, Deus fez o homem e quis que permanecesse na incorrupção; mas os homens, tendo desprezado e rejeitado a contemplação de Deus, e inventado e maquinado o mal para si (como se disse no tratado anterior), receberam a condenação da morte com que foram ameaçados; e desde então não permaneceram mais como foram feitos, mas iam-se corrompendo segundo os seus inventos; e a morte os dominava como rei. Porque a transgressão do mandamento os fazia tornar ao seu estado natural, de modo que, assim como tiveram o seu ser do nada, assim também, como era de esperar, com o tempo esperassem a corrupção até o nada. 5. Porque, se de um estado anterior de não-existência foram chamados à existência pela Presença e benignidade do Verbo, seguiu-se naturalmente que, quando os homens foram privados do conhecimento de Deus e tornaram ao que não é (porque o que é mau não é, mas o que é bom é), devessem, visto que derivam o seu ser de Deus, que É, ser eternamente privados até mesmo do ser; por outras palavras, que fossem desintegrados e permanecessem na morte e corrupção. 6. Porque o homem é por natureza mortal, enquanto é feito do que não é; mas em razão da sua semelhança com Aquele que é (e se ainda conservasse esta semelhança, guardando-O no seu conhecimento), ele deteria a sua corrupção natural e permaneceria incorrupto; como diz a Sabedoria: “O atender às Suas leis é a garantia da imortalidade”; mas, sendo incorrupto, viveria dali em diante como Deus, ao que suponho que a divina Escritura se refere quando diz: “Eu disse: sois deuses, e todos sois filhos do Altíssimo; mas vós morrereis como homens, e caireis como um dos príncipes.”
O gênero humano então se corrompia, a imagem de Deus se apagava, e a sua obra se arruinava.…
§6. A raça humana então se deteriorava, a imagem de Deus se apagava, e Sua obra estava arruinada. Ou, então, Deus deve renunciar à Sua palavra falada pela qual o homem havia incorrido em ruína; ou aquilo que havia participado do ser do Verbo deve retroceder novamente à destruição, caso em que o desígnio de Deus seria frustrado. Que fazer então? A bondade de Deus haveria de sofrer isto? Mas se assim fosse, por que o homem fora criado? Poderia ter sido fraqueza, e não bondade da parte de Deus.
Por esta causa, então, tendo a morte prevalecido sobre os homens, e a corrupção permanecendo sobre eles, a raça humana perecia; o homem racional feito à imagem de Deus desaparecia, e a obra das mãos de Deus estava em processo de dissolução. 2. Pois a morte, como disse acima, desde então obteve um domínio legal sobre nós, e era impossível escapar à lei, visto que havia sido estabelecida por Deus por causa da transgressão, e o resultado era na verdade ao mesmo tempo monstruoso e inconveniente. 3. Pois seria monstruoso, primeiramente, que Deus, tendo falado, se mostrasse falso — que, uma vez tendo decretado que o homem, se transgredisse o mandamento, morresse a morte, após a transgressão o homem não morresse, mas a palavra de Deus fosse quebrada. Pois Deus não seria verdadeiro, se, quando disse que morreríamos, o homem não morresse. 4. Além disso, seria inconveniente que criaturas outrora feitas racionais, e tendo participado do Verbo, fossem à ruína, e voltassem novamente ao não-ser pelo caminho da corrupção. 5. Pois não seria digno da bondade de Deus que as coisas que Ele fizera se deteriorassem, por causa do engano praticado sobre os homens pelo diabo. 6. Especialmente era inconveniente ao último grau que a obra das mãos de Deus entre os homens fosse aniquilada, seja por causa de sua própria negligência, seja por causa do engano dos espíritos malignos.
7. Assim, enquanto as criaturas racionais se deterioravam e tais obras estavam em curso de ruína, o que Deus em Sua bondade havia de fazer? Permitir que a corrupção prevalecesse contra elas e a morte as retivesse? E onde estava o proveito de terem sido feitas, desde o início? Pois melhor fora não terem sido feitas, do que uma vez feitas, serem deixadas ao abandono e à ruína. 8. Pois o abandono revela fraqueza, e não bondade da parte de Deus — se, isto é, Ele permite que Sua própria obra seja arruinada uma vez que a fez — mais do que se nunca tivesse feito o homem. 9. Pois se não os tivesse feito, ninguém poderia atribuir fraqueza; mas uma vez que os fez, e os criou do nada, seria monstruosíssimo que a obra fosse arruinada, e isso diante dos olhos do Criador. 10. Era, portanto, fora de questão deixar os homens à corrente da corrupção; porque isso seria inconveniente, e indigno da bondade de Deus.