Obra patrística
Sobre a Fuga na Perseguição
Tertuliano · c. 160–225
Da fuga na perseguição.
1. Meu irmão Fábio, vós me perguntastes há pouco, porque algumas notícias vos foram comunicadas, se devemos ou não fugir na perseguição. Quanto a mim, tendo então feito algumas observações em sentido negativo acomodadas ao lugar e ao tempo, também, por causa da rudeza de alguns, levei comigo o assunto apenas meio tratado, tendo intenção de o expor agora mais plenamente pela minha pena; pois vossa pergunta me interessou nele, e o estado dos tempos já por si mesmo o havia imposto a mim. Como as perseguições em número crescente nos ameaçam, tanto mais somos chamados a dar séria consideração à questão de como a fé deve recebê-las, e o dever de cuidadosamente considerá-la vos diz respeito não menos, vós que sem dúvida, por não aceitardes o Consolador, o guia a toda a verdade, naturalmente vos opusestes a nós até agora também em relação a outras questões. Aplicámos pois também um tratamento metódico à vossa pergunta, como vemos que devemos primeiro chegar a uma decisão quanto ao modo como a coisa se apresenta a respeito da perseguição em si mesma, se nos vem de Deus ou do demônio, para que com menor dificuldade nos estabeleçamos em terreno firme quanto ao nosso dever de a ela nos opormos; pois de tudo o conhecimento é mais claro quando se sabe de quem tem sua origem. Basta com efeito estabelecer, como barreira a tudo mais, que nada acontece sem a vontade de Deus. Mas para que não nos desviemos do ponto que temos diante de nós, não daremos por esta enunciação ocasião de uma só vez aos outros debates, se alguém responder—Logo o mal e o pecado ambos são de Deus; o demônio portanto, e ainda nós mesmos, somos inteiramente livres. A questão em mãos é a perseguição. A respeito disto, deixai-me dizer por enquanto que nada acontece sem a vontade de Deus; na base de que a perseguição é especialmente digna de Deus, e, por assim dizer, necessária, para a aprovação, a saber, ou se o preferis, a rejeição de Seus servidores que se professam tais. Pois qual é o resultado da perseguição, que outro efeito sai dela, senão a aprovação e rejeição da fé, a respeito da qual o Senhor certamente peneirará Seu povo? A perseguição, por meio da qual um é declarado ou aprovado ou rejeitado, é precisamente o julgamento do Senhor. Mas o julgar propriamente pertence a Deus somente. Este é aquele ventilador que ainda agora limpa a eira do Senhor—a Igreja, quero dizer—peneirando a mistura de crentes, e separando o grão dos mártires da palha dos renegadores; e isto é também aquela escada de que Jacó sonha, na qual se veem alguns subindo a lugares mais altos, e outros descendo a mais baixos. Assim também, a perseguição pode ser considerada como um combate. Por quem é proclamado o conflito, senão por Aquele por quem a coroa e as recompensas são oferecidas? Vós encontrais na Revelação seu édito, apresentando as recompensas pelas quais Ele incita à vitória—aqueles sobretudo cuja é a distinção de vencerem na perseguição, em verdade competindo em sua luta vitoriosa não contra carne e sangue, mas contra espíritos de malvadez. Assim também, vereis que o adjudicamento do combate pertence ao mesmo glorioso, como árbitro, que nos chama ao prêmio. O grande unicamente na perseguição é a promoção da glória de Deus, enquanto Ele tenta e rejeita, impõe e remove. Mas o que diz respeito à glória de Deus certamente virá a passar pela Sua vontade. E quando é a confiança em Deus mais forte, senão quando há maior temor dEle, e quando a perseguição irrompe? A Igreja é tomada de temor. Então é a fé mais zelosa na preparação, e melhor disciplinada em jejuns, e assembleias, e orações, e humildade, em bondade fraterna e amor, em santidade e temperança. Não há lugar, com efeito, para nada senão temor e esperança. Assim pois por esta mesma coisa temos claramente provado que a perseguição, melhorando como faz os servidores de Deus, não pode ser imputada ao demônio.
Se, porque a injustiça não provém de Deus, mas do diabo, e a perseguição consiste em injustiça (pois que há de mais injusto que os bispos do verdadeiro Deus, que todos os sequazes da verdade, sejam tratados à maneira dos mais vais criminosos?), a perseguição, portanto, parece proceder do diabo, por quem é perpetrada a injustiça que constitui a perseguição, devemos saber, como vós nem tendes perseguição sem a injustiça do diabo, nem a prova da fé sem perseguição, que a injustiça necessária para a prova da fé não dá autoridade para a perseguição, mas fornece um instrumento; que, na verdade, com respeito à prova da fé, que é a razão da perseguição, a vontade de Deus vai primeiro, mas que, como instrumento da perseguição, que é o modo da prova, segue a injustiça do diabo. Pois em outros respeitos também, a injustiça, na proporção da inimizade que manifesta contra a justiça, oferece ocasião para atestações daquilo contra o qual é inimiga, para que assim a justiça seja aperfeiçoada na injustiça, como a força é aperfeiçoada na fraqueza. Porque as coisas fracas do mundo foram escolhidas por Deus para confundir as fortes, e as coisas loucas do mundo para confundir a sua sabedoria. Assim também a injustiça é empregada, para que a justiça seja aprovada pondo a injustiça em confusão. Portanto, visto que o serviço não é de livre arbítrio, mas de sujeição (porque a perseguição é a ordenação do Senhor para a prova da fé, mas seu ministério é a injustiça do diabo, fornecida para que a perseguição se realize), cremos que a perseguição se realiza, sem dúvida, pela agência do diabo, mas não pela originação do diabo. Satanás não estará livre para fazer coisa alguma contra os servos do Deus vivo se o Senhor não conceder licença, seja para que ele possa derrotar o próprio Satanás pela fé dos eleitos que se mostra vitoriosa na prova, seja para que diante do mundo mostre que os apóstatas para a causa do diabo foram realmente seus servos. Tendes o caso de Jó, a quem o diabo, se não tivesse recebido autoridade de Deus, não poderia ter visitado com tentação, nem mesmo, na verdade, em seus bens, se o Senhor não tivesse dito: "Eis que tudo quanto ele possui ponho à tua disposição; porém não estendas a mão contra ele mesmo." Enfim, nem sequer o teria estendido, se depois, a seu pedido, o Senhor não lhe tivesse concedido também esta permissão, dizendo: "Eis que o entrego a ti; somente poupa-lhe a vida." Da mesma forma ele pediu também no caso dos apóstolos uma oportunidade para tentá-los, tendo-a somente por permissão especial, visto que o Senhor no Evangelho diz a Pedro: "Eis que Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo; eu, porém, roguei por ti para que a tua fé não desfaleça;" isto é, para que ao diabo não fosse concedido o poder suficiente para pôr em perigo sua fé. Donde é manifesto que ambas as coisas pertencem a Deus, tanto o abalo da fé como o seu resguardo, quando ambos lhe são pedidos—o abalo pelo diabo, o resguardo pelo Filho. E certamente, quando ao Filho de Deus foi absolutamente confiada a proteção da fé, rogando-a ao Pai, de quem recebe todo o poder no céu e na terra, como inteiramente fora de questão é que o diabo tenha o assalto dela em seu próprio poder! Mas na oração que nos foi prescrita, quando dizemos ao nosso Pai: "Não nos induza em tentação" (ora, que tentação maior há que a perseguição?), reconhecemos que isto se realiza pela vontade daquele a quem rogamos nos isente disso. Pois isto é o que se segue: "Mas livra-nos do maligno," isto é, não nos induza em tentação entregando-nos ao maligno, pois então nos vemos livres do poder do diabo, quando não nos somos entregues a ele para sermos tentados. Nem a legião do diabo teria tido poder sobre o rebanho de porcos se não o tivesse recebido de Deus; tão longe estão de tê-lo sobre as ovelhas de Deus.
Posso dizer que até as cerdas do porco foram contadas por Deus naquela ocasião, para não falar dos cabelos dos santos homens. O diabo, é certo, parece realmente ter poder — neste caso verdadeiramente seu — sobre aqueles que não pertencem a Deus, sendo as nações uma vez por todas contadas por Deus como uma gota do balde, e como o pó da eira, e como a saliva da boca, e assim entregues ao diabo como, de certo modo, uma posse livre. Mas contra aqueles que pertencem à casa de Deus ele não pode fazer coisa alguma por direito próprio seu, porque os casos expostos na Escritura mostram quando — isto é, por que razões — ele pode tocá-los. Pois ou, com vista a que sejam aprovados, o poder da tentação lhe é concedido, desafiado ou desafiando, como nas instâncias já referidas, ou, para obter resultado oposto, o pecador lhe é entregue, como se fosse um executor a quem competisse infligir o castigo, como no caso de Saul. "E o Espírito do Senhor," diz a Escritura, "apartou-se de Saul, e um espírito maligno do Senhor o perturbava e o sufocava;" ou o desígnio é humilhar, como nos conta o apóstolo, que lhe foi dado um espinho, o mensageiro de Satanás, para o afligir; e nem este gênero de coisa é permitido no caso dos santos homens, senão para que ao mesmo tempo a força da perseverança seja aperfeiçoada na fraqueza. Pois o apóstolo também entregou Figelus e Hermógenes a Satanás, para que pela correção fossem ensinados a não blasfemarem. Vedes, pois, que o diabo recebe mais adequadamente o poder até dos servos de Deus;