Padres e clássicosTertuliano, Sobre a Modéstia, Capítulo I

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Obra patrística

Sobre a Modéstia

Tertuliano · c. 160–225

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Capítulo I–Of the Verdict of the Apostles, Assembled in Council, Upon the Subject of Adultery.

Capítulo I

VII.

Da Modéstia.

A modéstia, flor dos costumes, honra dos nossos corpos, graça dos sexos, integridade do sangue, garantia da nossa raça, fundamento da santidade, prenúncio de toda boa disposição; rara embora seja, e não facilmente aperfeiçoada, e escassamente alguma vez retida perpetuamente, contudo até certo ponto se demorará no mundo, se a natureza tiver lançado o fundamento preliminar dela, a disciplina persuadido a ela, o rigor censório refreado os seus excessos—na hipótese, isto é, de que toda qualidade mental boa é o resultado ou do nascimento, ou da instrução, ou da compulsão externa.

Mas como o poder vencedor das coisas más vai aumentando—o que é característico dos últimos tempos—as coisas boas já não são agora permitidas nem nascer, tão corrompidos estão os princípios seminais; nem ser instruídas, tão abandonados estão os estudos; nem ser impostas, tão desarmadas estão as leis. Na verdade, (a modéstia) de que agora começamos (a tratar) já está de tal modo obsoleta, que se crê ser modéstia não a abjuração, mas a moderação dos apetites; e é tido por bastante casto quem não foi demasiado casto. Mas veja a modéstia do mundo por si mesma, juntamente com o mundo mesmo: juntamente com a sua natureza inerente, se costumava originar-se no nascimento; o seu estudo, se na instrução; a sua servidão, se na compulsão: exceto que teria sido ainda mais infeliz se tivesse permanecido apenas para se mostrar infrutífera, por não ter sido na casa de Deus que as suas atividades foram exercidas. Preferiria nenhum bem a um bem vão: que aproveita existir aquilo cuja existência não aproveita? São as nossas próprias coisas boas cuja posição agora está a cair; é o sistema da modéstia cristã que está a ser abalado nos seus fundamentos—(a modéstia cristã), que deriva tudo do céu; a sua natureza, “pelo lavacro da regeneração”; a sua disciplina, por meio da pregação; o seu rigor censório, através dos juízos que cada Testamento exibe; e está sujeita a uma compulsão externa mais constante, proveniente do temor ou do desejo do fogo ou reino eterno.

Em oposição a esta (modéstia), não poderia eu ter dissimulado? Ouço que foi até publicado um édito, e peremptório. O Pontífice Máximo—isto é, o bispo dos bispos—publica um édito: “Remito, àqueles que cumpriram (as exigências d)a penitência, os pecados tanto de adultério como de fornicação.” Ó édito, sobre o qual não se pode inscrever: “Boa ação!” E onde será afixada esta liberalidade? No próprio lugar, suponho, nas próprias portas dos apetites sensuais, sob os próprios títulos dos apetites sensuais. Lá está o lugar para promulgar tal penitência, onde a própria delinquência há de assombrar. Lá está o lugar para ler o perdão, onde se fará entrada sob a esperança dele. Mas é na igreja que este (édito) é lido, e na igreja que é pronunciado; e (a igreja) é uma virgem! Longe, longe da esposa de Cristo esteja tal proclamação! Ela, a verdadeira, a modesta, a santa, estará livre da mancha até dos seus ouvidos. Ela não tem a quem fazer tal promessa; e se o tem, não a faz; pois até o templo terreno de Deus pôde antes ser chamado pelo Senhor “covil de ladrões” do que de adúlteros e fornicadores.

Também isto, portanto, será um artigo na minha acusação contra os Psíquicos; contra a comunhão de sentimentos também que eu mesmo anteriormente mantive com eles; para que eles mais me lancem isto em rosto como marca de inconstância. A repudiação da comunhão nunca é prenúncio de pecado. Como se não fosse mais fácil errar com a maioria, quando é na companhia dos poucos que a verdade é amada! Mas, contudo, uma inconstância proveitosa não será para mim uma desgraça mais do que eu desejaria que uma prejudicial fosse um ornamento. Não me envergonho de um erro que cessei de sustentar, porque me alegro de o ter cessado de sustentar, porque me reconheço melhor e mais modesto. Ninguém se envergonha do seu próprio melhoramento. Mesmo em Cristo, o conhecimento teve os seus estágios de crescimento; pelos quais estágios também o Apóstolo passou. “Quando era menino”, diz ele, “como menino falava, como menino entendia; mas quando me fiz homem, deixei (as coisas) que eram de menino”: tão verdadeiramente se desviou das suas primeiras opiniões; e não pecou tornando-se imitador não de tradições ancestrais, mas cristãs, desejando até a precisão daqueles que aconselhavam a retenção da circuncisão. E oxalá a mesma sorte acontecesse também àqueles que truncam a pura e verdadeira integridade da carne; amputando não a superfície extrema, mas a íntima imagem da própria modéstia, enquanto prometem perdão a adúlteros e fornicadores, contra a disciplina primária do Nome Cristão; disciplina a que o próprio paganismo dá tão enfático testemunho, que se esforça por punir essa disciplina nas pessoas das nossas mulheres antes por poluições da carne do que por torturas; desejando arrancar-lhes aquilo que elas têm por mais caro que a vida! Mas agora esta glória está sendo extinta, e isso por meio daqueles que deveriam com tanto mais constância recusar a concessão de qualquer perdão a poluições desta espécie, porquanto fazem do medo de sucumbir ao adultério e à fornicação a razão para casar quantas vezes lhes apraz—visto que “melhor é casar do que abrasar-se”. Sem dúvida é por amor da continência que a incontinência é necessária—o “abrasar-se” será extinto por “fogos!” Por que, então, concedem também indulgência, sob o nome de penitência, a crimes para os quais fornecem remédios pela sua lei de multinupcialismo? Pois os remédios serão vãos enquanto os crimes forem indulgidos, e os crimes permanecerão se os remédios forem vãos. E assim, de um modo ou de outro, eles brincam com solicitude e negligência; tomando precaução mais vã contra (crimes) aos quais dão quartel, e dando quartel absurdíssimo a (crimes) contra os quais tomam precaução: enquanto que ou a precaução não se deve tomar onde se dá quartel, ou o quartel não se deve dar onde se toma precaução; pois tomam precaução, como se não quisessem que algo fosse cometido; mas concedem indulgência, como se quisessem que fosse cometido: enquanto que, se não querem que seja cometido, não deviam conceder indulgência; se querem conceder indulgência, não deviam tomar precaução. Pois, de novo, o adultério e a fornicação não serão colocados ao mesmo tempo entre os pecados moderados e entre os maiores, de modo que ambos os caminhos sejam igualmente abertos com respeito a eles—a solicitude que toma precaução, e a segurança que concede indulgência. Mas posto que são tais que ocupam o lugar culminante entre os crimes, não há lugar ao mesmo tempo para a sua indulgência como se fossem moderados, e para a sua precaução como se fossem maiores. Mas por nós a precaução é assim também tomada contra os maiores, ou (se quiserdes), os mais altos (crimes, a saber, em que não é permitido, depois de crer, conhecer sequer um segundo matrimônio, diferenciado embora, decerto, da obra do adultério e fornicação pelas tábuas nupciais e dotais: e, consequentemente, com o máximo rigor, excomungamos os digâmicos, como trazendo infâmia sobre o Paráclito pela irregularidade da sua disciplina. O mesmo limite limiar fixamos também para adúlteros e fornicadores; condenando-os a derramar lágrimas estéreis de paz, e a não obter da Igreja maior retorno do que a publicação da sua desgraça.

Deus Justo Tanto Quanto Misericordioso; Portanto, a Misericórdia Não Deve Ser Indiscriminada.

Mas, dizem eles, “Deus é ‘bom’, e ‘ótimíssimo’, e ‘misericordioso’, e ‘compassivo’, e ‘abundante em misericórdia’, a qual Ele tem ‘por mais cara do que todo o sacrifício’, ‘não cuidando tanto da morte do pecador como da sua conversão’, ‘Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis’. E assim será conveniente que também ‘os filhos de Deus’ sejam ‘misericordiosos’ e ‘pacificadores’; ‘dando por sua vez, assim como também Cristo nos deu’; ‘não julgando, para que não sejais julgados’. Pois ‘cada um está em pé ou cai diante do seu próprio senhor; quem és tu, que julgas o servo alheio?’ ‘Perdoai, e ser-vos-á perdoado.’” Tais e tão grandes futilidades deles, com que lisonjeiam a Deus e se condescendem a si mesmos, efeminando antes que fortalecendo a disciplina, com quão cogentes e contrários argumentos podemos nós, por nossa parte, rebater — argumentos que nos apresentam admonitoriamente a “severidade” de Deus e provocam a nossa própria constância? Porque, ainda que Deus seja por natureza bom, é também “justo”. Pois, pela natureza do caso, assim como sabe “curar”, assim também sabe “ferir”; “fazendo a paz”, mas também “criando os males”; preferindo a penitência, mas também ordenando a Jeremias que não rogue pela remoção dos males em favor do povo pecador — “pois, se eles jejuarem”, diz Ele, “não ouvirei a sua súplica”. E ainda: “E não rogues tu por este povo, nem peças por eles em oração e súplica, pois não os ouvirei no tempo em que me invocarem, no tempo da sua aflição.” E, além disso, acima, o mesmo que prefere a misericórdia ao sacrifício diz: “E não rogues tu por este povo, nem peças que alcancem misericórdia, nem te aproximes por eles a mim, pois não os ouvirei” — decerto quando imploram misericórdia, quando, arrependidos, choram e jejuam, e quando oferecem a sua própria aflição a Deus. Pois Deus é “ciumento”, e é Aquele que não é desprezado com escárnio — escarnecido, a saber, por aqueles que lisonjeiam a sua bondade — e que, embora “paciente”, ameaça, por Isaías, um fim da sua paciência. “Calei-me; mas calar-me-ei sempre e sofrerei? Fiquei quieto como a que está em dores de parto; levantar-me-ei e farei com que sequem.” Pois “um fogo irá adiante da sua face, e abrasará totalmente os seus inimigos”; ferindo não só o corpo, mas também as almas, no inferno. Além disso, o próprio Senhor demonstra de que maneira ameaça aqueles que julgam: “Pois com o juízo com que julgardes, sereis julgados.” Assim, Ele não proibiu julgar, mas ensinou a fazê-lo. Donde também o apóstolo julga, e isso num caso de fornicação, que “tal homem deve ser entregue a Satanás para a destruição da carne”; repreendendo-os igualmente porque os “irmãos” não eram “julgados diante do tribunal dos santos”: pois continua e diz: “Que me importa a mim julgar os que estão de fora?” “Mas vós perdoais, para que vos seja concedido o perdão por Deus.” Os pecados que são (assim) purificados são aqueles que um homem possa ter cometido contra seu irmão, não contra Deus. Professamos, em suma, na nossa oração, que concederemos perdão aos nossos devedores; mas não convém estender mais longe, com base na autoridade de tais Escrituras, o cabo da contenda com puxões alternados em direções diversas; de modo que uma (Escritura) pareça apertar, outra afrouxar as rédeas da disciplina — na incerteza, por assim dizer — e esta última aviltar o auxílio medicinal da penitência pela lenidade, aquela recusá-lo pela austeridade. Além disso: a autoridade da Escritura permanecerá dentro dos seus próprios limites, sem oposição recíproca. O auxílio medicinal da penitência é determinado pelas suas próprias condições, sem concessão ilimitada; e as suas próprias causas são anteriormente distinguidas sem confusão na proposição. Concordamos que as causas da penitência são os pecados. Estes dividimos em duas espécies: alguns serão remissíveis, outros irremissíveis; de acordo com o que, a ninguém será duvidoso que uns merecem castigo, outros condenação. Todo pecado é passível de ser descarregado ou pelo perdão ou pela pena: pelo perdão como resultado do castigo, pela pena como resultado da condenação. Tocante a esta diferença, não somente já premiamos certas passagens antitéticas das Escrituras, de um lado retendo, de outro remitindo os pecados; mas também João nos ensinará: “Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não é de morte, pedirá, e Deus lhe dará vida;” porque não está “pecando para a morte”, este será remissível. “Há pecado de morte; não digo que alguém rogue por este” — este será irremissível. Assim, onde há o poder eficaz de “rogar”, aí está também o da remissão: onde não há (poder eficaz) de “rogar”, aí igualmente não há remissão. Segundo esta diferença dos pecados, também se discernem as condições da penitência. Haverá uma condição que possa obter perdão — no caso, a saber, de um pecado remissível: haverá uma condição que de modo nenhum o pode obter — no caso, a saber, de um pecado irremissível. E resta examinar particularmente, no tocante à posição do adultério e da fornicação, a que classe de pecados devem ser atribuídos.

Uma objeção antecipada antes de se iniciar a discussão acima prometida.

Mas, antes de fazer isto, abreviarei com uma resposta que nos vem do lado oposto, acerca daquela espécie de penitência que estamos agora a definir como sem perdão. “Por que”, dizem eles, “se há uma penitência que carece de perdão, segue-se imediatamente que tal penitência deve ser também totalmente não praticada por vós. Pois nada deve ser feito em vão. Ora, a penitência será praticada em vão, se for sem perdão. Mas toda penitência deve ser praticada. Portanto, concedamos que toda ela obtém perdão, para que não seja praticada em vão; porque não será para praticar, se for praticada em vão. Ora, em vão é praticada, se faltar o perdão.” Justamente, pois, alegam (este argumento) contra nós; uma vez que usurpadoramente mantiveram em seu poder o fruto desta como de outra penitência — isto é, o perdão; pois, enquanto depende deles, de cujas mãos (a penitência) obtém a paz dos homens, (é em vão). Quanto a nós, porém, que nos lembramos que só o Senhor concede (o perdão) dos pecados, (e decerto dos mortais), ela não será praticada em vão. Pois (a penitência), sendo remetida ao Senhor e, dali em diante, prostrada diante dEle, por este mesmo fato antes alcançará o perdão, que o obtém por súplica somente de Deus, que não crê que a paz dos homens seja adequada à sua culpa, que, no que diz respeito à Igreja, prefere o rubor da vergonha ao privilégio da comunhão. Pois diante das suas portas está, e pelo exemplo do seu próprio estigma admoesta todos os outros, e ao mesmo tempo chama em seu auxílio as lágrimas dos irmãos, e regressa com uma mercadoria ainda mais rica — a compaixão deles, a saber — do que a sua comunhão. E se não colhe aqui a seara da paz, contudo semeia a sua semente com o Senhor; nem perde, mas prepara, o seu fruto. Não faltará ao lucro se não faltar ao dever. Assim, nem tal penitência é vã, nem tal disciplina é severa. Ambas honram a Deus. A primeira, não se lisonjeando a si mesma, obterá mais facilmente o sucesso; a segunda, nada presumindo de si mesma, auxiliará mais plenamente.

Referência atual: Tertuliano, Sobre a Modéstia, Capítulo I