Obra patrística
Sobre a Ressurreição — Fragmentos
São Justino Mártir · c. 100–165
Capítulo I.—O poder auto-evidente da verdade.
O poder auto-evidente da verdade.
A palavra da verdade é livre, e carrega sua própria autoridade, desdenhando cair sob qualquer argumento engenhoso, ou de suportar o escrutínio lógico de seus ouvintes. Mas seria acreditada por sua própria nobreza, e pela confiança devida Àquele que a envia. Ora, a palavra da verdade é enviada de Deus; portanto a liberdade reivindicada pela verdade não é arrogante. Pois sendo enviada com autoridade, não seria conveniente que fosse requerido que produzisse prova do que é dito; já que não há qualquer prova além de si mesma, que é Deus. Pois toda prova é mais poderosa e digna de confiança do que aquilo que prova; já que o que não é acreditado, até que prova seja produzida, ganha crédito quando tal prova é produzida, e é reconhecido como sendo o que foi dito ser. Mas nada é nem mais poderoso nem mais digno de confiança do que a verdade; de sorte que aquele que requer prova disto é como alguém que deseja que seja demonstrado por que as coisas que aparecem aos sentidos aparecem. Pois o teste daquelas coisas que são recebidas através da razão, é o sentido; mas do sentido mesmo não há teste além de si mesmo. Como, então, trazemos aquelas coisas que a razão busca, ao sentido, e por ele julgamos que tipo de coisas são, se as coisas ditas sejam verdadeiras ou falsas, e então nos assentamos em julgamento não mais, dando pleno crédito à sua decisão; assim também referimos tudo o que é dito a respeito dos homens e do mundo à verdade, e por ela julgamos se seja sem valor ou não. Mas as locuções da verdade julgamos por nenhum teste separado, dando pleno crédito a si mesma. E Deus, o Pai do universo, que é a inteligência perfeita, é a verdade. E o Verbo, sendo Seu Filho, veio a nós, tendo revestido carne, revelando tanto a Si mesmo quanto ao Pai, dando-nos em Si próprio a ressurreição dos mortos, e a vida eterna depois. E este é Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor. Ele, portanto, é em Si mesmo tanto a fé como a prova de Si mesmo e de todas as coisas. Portanto, aqueles que O seguem, e O conhecem, tendo fé nEle como sua prova, hão de descansar nEle. Mas visto que o adversário não cessa de resistir a muitos, e usa muitas e diversas artes para ensnará-los, para que possa seduzir os fiéis de sua fé, e para que possa impedir os infiéis de crer, parece-me necessário que também nós, armados das doutrinas invulneráveis da fé, combatamos contra ele em favor dos fracos.
Capítulo III.—Se os membros ressuscitam, devem eles desempenhar as mesmas funções que agora?
Dizem, então, que se o corpo ressuscitar inteiro e possuído de todos os seus membros, segue-se necessariamente que também as funções dos membros existirão; que o ventre engravidará, e o varão também exercerá sua função de geração, e os demais membros de igual modo. Ora, fique este argumento em pé ou caia por esta única afirmação. Pois, provada esta como falsa, toda a objeção deles será removida. Ora, é evidente que os membros que exercem funções exercem aquelas funções que na presente vida vemos, mas não se segue que necessariamente exerçam as mesmas funções desde o princípio. E para que isto se veja mais claramente, consideremo-lo assim. A função do ventre é engravidar; e a do membro do varão, fecundar. Mas, embora estes membros estejam destinados a exercer tais funções, não é portanto necessário que desde o princípio as exerçam (pois vemos muitas mulheres que não engravidam, como as estéreis, ainda que tenham ventre), assim a gravidez não é consequência imediata e necessária de ter ventre; mas até aquelas que não são estéreis se abstêm da relação sexual, umas virgens desde o princípio, e outras desde certo tempo. E vemos também varões que se conservam virgens, uns desde o princípio, e outros desde certo tempo; de modo que por meio deles se destrói o matrimônio, tornado ilícito pela concupiscência. E achamos que alguns até dos animais inferiores, embora possuam ventre, não geram, como a mula; e os mulos machos não geram a sua espécie. De modo que tanto no caso dos homens como dos animais irracionais podemos ver abolida a relação sexual; e isto também antes do mundo futuro. E nosso Senhor Jesus Cristo nasceu de uma virgem, por nenhuma outra razão senão para destruir a geração pelo desejo ilícito, e para mostrar ao soberano que a formação do homem era possível a Deus sem intervenção humana. E tendo nascido, e tendo-Se submetido às outras condições da carne — quero dizer, comida, bebida e vestimenta —, só esta condição de exercer a função sexual não sofreu; pois, quanto aos desejos da carne, aceitou alguns como necessários, enquanto outros, que eram desnecessários, a eles não Se submeteu. Porque, se a carne fosse privada de comida, bebida e vestimenta, pereceria; mas, privada do desejo ilícito, não sofre dano algum. E ao mesmo tempo predisse que, no mundo futuro, a relação sexual seria abolida; como diz: “Os filhos deste mundo casam-se e são dados em casamento; mas os filhos do mundo vindouro nem se casam nem são dados em casamento, mas serão como os anjos no céu.” Não se maravilhem, pois, os incrédulos se, no mundo vindouro, Ele abolir aqueles atos de nossos membros carnais que até na presente vida são abolidos.
Capítulo V.—A ressurreição da carne não é impossível.
Mas, novamente, daqueles que sustentam que a carne não tem ressurreição, alguns afirmam que é impossível; outros que, considerando quão vil e desprezível é a carne, não é digno que Deus a ressuscite; e outros, que ela não recebeu a promessa desde o princípio. Primeiro, pois, quanto àqueles que dizem que é impossível a Deus ressuscitá-la, parece-me que devo mostrar que são ignorantes, professando embora de palavra que são crentes, mas por suas obras mostrando-se incrédulos, ainda mais incrédulos do que os incrédulos. Pois, vendo que todos os gentios creem nos seus ídolos, e estão persuadidos de que a eles todas as coisas são possíveis (como até o seu poeta Homero diz: “Os deuses podem todas as coisas, e isso facilmente”; e acrescentou a palavra “facilmente” para evidenciar a grandeza do poder dos deuses), muitos parecem ser mais incrédulos do que eles. Porque, se os gentios creem nos seus deuses, que são ídolos (“que têm ouvidos e não ouvem; têm olhos e não veem”), que podem todas as coisas, ainda que sejam demônios, como diz a Escritura: “Os deuses das nações são demônios”, muito mais nós, que professamos a fé reta, excelente e verdadeira, devemos crer no nosso Deus, visto que também temos provas [do Seu poder], primeiro na criação do primeiro homem, pois foi feito da terra por Deus; e isto é suficiente evidência do poder de Deus; e então os que observam as coisas podem ver como os homens são gerados uns pelos outros, e podem admirar-se ainda mais que de uma pequena gota de umidade tão grande criatura vivente seja formada. E certamente, se isto fosse apenas registrado numa promessa, e não visto cumprido, também isto seria muito mais incrível do que aquilo; mas torna-se mais crível pelo cumprimento. Mas mesmo no caso da ressurreição, o Salvador nos mostrou cumprimentos, dos quais falaremos em breve. Agora, porém, demonstramos que é possível a ressurreição da carne, pedindo perdão aos filhos da Igreja se aduzimos argumentos que parecem seculares e físicos: primeiro, porque para Deus nada é secular, nem mesmo o mundo, pois é obra Sua; e segundo, porque conduzimos nosso argumento de modo a enfrentar os incrédulos. Pois, se argumentássemos com crentes, bastaria dizer que cremos; mas agora devemos proceder por demonstrações. As provas anteriores são de fato bastante suficientes para evidenciar a possibilidade da ressurreição da carne; mas, visto que estes homens são excessivamente incrédulos, aduziremos ainda um argumento mais convincente — um argumento tirado não da fé, pois eles estão fora do seu âmbito, mas da sua própria mãe, a incredulidade — quero dizer, naturalmente, das razões físicas. Porque, se por tais argumentos lhes provarmos que a ressurreição da carne é possível, certamente são dignos de grande desprezo se não podem ser persuadidos nem pelos testemunhos da fé nem pelos argumentos do mundo.
Capítulo VI.—A ressurreição consistente com as opiniões dos filósofos.
Aqueles, pois, que são chamados filósofos naturais, dizem, alguns deles, como Platão, que o universo é matéria e Deus; outros, como Epicuro, que são átomos e o vazio; outros, como os Estoicos, que são estes quatro — fogo, água, ar, terra. Pois basta mencionar as opiniões mais prevalecentes. E Platão diz que todas as coisas são feitas da matéria por Deus, e segundo o Seu desígnio; mas Epicuro e seus seguidores dizem que todas as coisas são feitas do átomo e do vazio por uma espécie de ação autorreguladora do movimento natural dos corpos; e os Estoicos, que todas são feitas dos quatro elementos, Deus os penetrando. Ora, havendo tal discrepância entre eles, há algumas doutrinas reconhecidas por todos em comum, uma das quais é que nem pode algo ser produzido do que não está em ser, nem pode algo ser destruído ou dissolvido no que não tem nenhum ser, e que os elementos existem indestrutíveis, dos quais todas as coisas são geradas. E sendo isto assim, a regeneração da carne parecerá possível segundo todos esses filósofos. Pois, se, segundo Platão, são matéria e Deus, ambos são indestrutíveis e Deus; e Deus ocupa na verdade a posição de um artífice, a saber, um oleiro; e a matéria ocupa o lugar de barro ou cera, ou algo semelhante. Aquilo, pois, que é formado da matéria, seja uma imagem ou uma estátua, é destrutível; mas a matéria em si é indestrutível, como barro ou cera, ou qualquer outra espécie de matéria. Assim, o artista modela no barro ou na cera e faz a forma de um animal vivo; e, novamente, se a sua obra for destruída, não lhe é impossível fazer a mesma forma, trabalhando o mesmo material e moldando-o de novo. De modo que, segundo Platão, nem será impossível a Deus, que é Ele próprio indestrutível e tem também material indestrutível, mesmo depois que aquilo que foi primeiramente formado dele foi destruído, refazê-lo de novo e fazer a mesma forma exatamente como era antes. Mas, segundo os Estoicos, o corpo sendo produzido pela mistura das quatro substâncias elementares, quando este corpo é dissolvido nos quatro elementos, permanecendo estes indestrutíveis, é possível que recebam segunda vez a mesma fusão e composição, por meio de Deus que os penetra, e assim refaçam o corpo que outrora fizeram. Como se um homem fizer uma composição de ouro e prata, e bronze e estanho, e depois quiser dissolvê-la novamente, de modo que cada elemento exista separadamente, tendo-os misturado outra vez, poderá, se quiser, fazer a mesma composição que outrora fizera. Novamente, segundo Epicuro, os átomos e o vazio sendo indestrutíveis, é por uma disposição e ajuste definidos dos átomos ao se juntarem que se produzem tanto todas as outras formações como o próprio corpo; e, sendo com o tempo dissolvido, é dissolvido novamente naqueles átomos dos quais também foi produzido. E como estes permanecem indestrutíveis, não é de todo impossível que, juntando-se novamente e recebendo a mesma disposição e posição, façam um corpo de natureza semelhante ao que outrora foi produzido por eles; como se um joalheiro fizesse em mosaico a forma de um animal, e as pedras fossem dispersadas pelo tempo ou pelo próprio homem que as fez, tendo ele ainda em sua posse as pedras dispersas, pode reuni-las novamente e, tendo-as reunido, dispô-las do mesmo modo e fazer a mesma forma de animal. E não poderá Deus recolher novamente os membros decompostos da carne e fazer o mesmo corpo que outrora foi por Ele produzido?
Capítulo VII.—O corpo é precioso aos olhos de Deus.
Mas a prova da possibilidade da ressurreição da carne demonstrei suficientemente, em resposta aos homens do mundo. E se a ressurreição da carne não se acha impossível até mesmo segundo os princípios dos incrédulos, quanto mais se achará conforme à mente dos crentes! Mas, seguindo a nossa ordem, devemos agora falar com respeito àqueles que pensam mal da carne e dizem que ela não é digna da ressurreição nem da economia celestial, porque, primeiro, a sua substância é terra; e além disso, porque está cheia de toda a maldade, de modo que obriga a alma a pecar juntamente com ela. Mas estas pessoas parecem ignorar toda a obra de Deus, tanto a gênese e formação do homem no princípio, como por que as coisas no mundo foram feitas. Pois não diz a palavra: “Façamos o homem à Nossa imagem e conforme a Nossa semelhança?” Que homem? Manifestamente, o homem carnal. Pois a palavra diz: “E Deus tomou o pó da terra e fez o homem.” É evidente, portanto, que o homem feito à imagem de Deus era de carne. Não é, pois, absurdo dizer que a carne, feita por Deus à Sua própria imagem, é desprezível e de nenhum valor? Mas que a carne é para Deus uma possessão preciosa é manifesto, primeiro, por ser formada por Ele, se ao menos a imagem é valiosa para o formador e artífice; e além disso, o seu valor pode ser coligido da criação do resto do mundo. Pois aquilo por causa do qual o resto é feito é o mais precioso de tudo para o fazedor.
Capítulo VIII.—O corpo faz a alma pecar?
Muito verdadeiro, dizem eles; contudo, a carne é pecadora, tanto que obriga a alma a pecar juntamente com ela. E assim vãmente a acusam e lançam sobre ela sozinha os pecados de ambos. Mas em que instância pode a carne pecar por si mesma, se não tiver a alma precedendo-a e incitando-a? Pois como no caso de uma junta de bois, se um ou outro for solto do jugo, nenhum deles pode arar sozinho; assim nem a alma nem o corpo podem efetuar nada sozinhos, se forem soltos da sua comunhão. E se é a carne que é a pecadora, então por causa dela somente veio o Salvador, como diz: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência.” Visto, pois, que a carne foi provada ser valiosa aos olhos de Deus e gloriosa acima de todas as Suas obras, mui justamente seria por Ele salva.
Devemos enfrentar, portanto, aqueles que dizem que, ainda que seja a especial obra de Deus e acima de tudo mais valorizada por Ele, não se seguiria imediatamente que ela tenha a promessa da ressurreição. Contudo, não é absurdo que aquilo que foi produzido com tais circunstâncias e que é acima de tudo mais valioso seja tão negligenciado pelo seu Criador, a ponto de passar à não-entidade? Então, o escultor e o pintor, se desejam que as obras que fizeram perdurem, para obterem glória por elas, renovam-nas quando começam a deteriorar-se; mas Deus negligenciaria tanto a Sua própria possessão e obra, que ela se aniquilasse e não mais existisse? Não deveríamos chamar a isto trabalho em vão? Como se um homem que construiu uma casa a destruísse imediatamente, ou a negligenciasse, embora a veja cair em ruínas e seja capaz de repará-la: culpá-lo-íamos por trabalhar em vão; e não culparíamos assim a Deus? Mas não é tal o Incorruptível — não é insensata a Inteligência do universo. Calem-se os incrédulos, ainda que eles mesmos não creiam.
Mas, na verdade, Ele até chamou a carne à ressurreição e promete-lhe a vida eterna. Pois onde promete salvar o homem, aí dá a promessa à carne. Porque, que é o homem senão o animal racional composto de corpo e alma? A alma por si só é o homem? Não; mas a alma do homem. Seria o corpo chamado homem? Não, mas é chamado corpo do homem. Se, pois, nenhum destes é por si só homem, mas aquilo que é feito da união de ambos é chamado homem, e Deus chamou o homem à vida e ressurreição, chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo. Porque não seria incontestavelmente absurdo, se, estando estes dois no mesmo ser e segundo a mesma lei, um fosse salvo e o outro não? E se não é impossível, como já se provou, que a carne seja regenerada, qual é a distinção com base na qual a alma é salva e o corpo não? Fazem de Deus um Deus mesquinho? Mas Ele é bom e deseja que todos sejam salvos. E por Deus e pela Sua proclamação, não só a vossa alma ouviu e creu em Jesus Cristo, e com ela a carne, mas ambos foram lavados, e ambos praticaram a justiça. Fazem, pois, a Deus ingrato e injusto, se, crendo ambos nEle, deseja salvar um e não o outro. Ora, dizem eles, mas a alma é incorruptível, sendo uma parte de Deus e inspirada por Ele, e por isso Ele deseja salvar o que é peculiarmente Seu e aparentado a Si mesmo; mas a carne é corruptível e não dEle, como a alma é. Então, que graças Lhe são devidas, e que manifestação do Seu poder e bondade é esta, se Ele propôs salvar o que por natureza é salvo e existe como uma parte de Si mesmo? Pois tinha a sua salvação de si mesma; de modo que, ao salvar a alma, Deus não faz grande coisa. Porque ser salvo é o seu destino natural, visto que é uma parte de Si mesmo, sendo a Sua inspiração. Mas não se devem graças a quem salva o que é seu; pois isto é salvar-se a si mesmo. Porque quem salva uma parte de si mesmo, salva-se a si mesmo por seus próprios meios, para não se tornar defeituoso nessa parte; e isto não é ato de um homem bom. Porque nem mesmo quando um homem faz o bem a seus filhos e descendência, alguém o chama de homem bom; pois até as mais selvagens das feras fazem o mesmo, e na verdade sofrem a morte de boa vontade, se necessário, por causa de seus filhotes. Mas se um homem realizasse os mesmos atos em favor de seus servos, esse homem seria justamente chamado bom. Por isso o Salvador também nos ensinou a amar os nossos inimigos, pois, diz Ele: “que graça tereis?” De modo que nos mostrou que é boa obra não só amar os que são gerados por Ele, mas também os que estão de fora. E o que nos ordena, Ele mesmo o faz em primeiro lugar.