Obra patrística
Sobre Não Haver Três Deuses
São Gregório de Nissa · c. 335–394
Sobre 'não três deuses.'
A Ablábio.
Vós que sois fortes com toda a força no homem interior deveis de direito prosseguir na luta contra os inimigos da verdade, e não vos esquivardes da tarefa, para que nós pais nos regozijemos com o nobre trabalho de nossos filhos; pois isto é o impulso da lei da natureza: mas como vós voltais vossas fileiras, e nos lançais os assaltos daqueles dardos que são disparados pelos adversários da verdade, e exigis que seus "carvões ardentes" e seus dardos aguçados pelo conhecimento falsamente assim chamado sejam apagados com o escudo da fé por nós homens antigos, aceitamos vosso comando, e nos fazemos exemplo de obediência, para que vós mesmos nos déis o justo retribuição em comandos semelhantes, Ablábio, nobre soldado de Cristo, se alguma vez vos convocarmos para tal contenção.
Na verdade, a questão que nos propondes não é pequena, nem tal que apenas pequeno dano se seguiria se encontrasse um tratamento insuficiente. Pois pela força da questão, somos à primeira vista compelidos a aceitar uma ou outra de duas opiniões errôneas, e ou dizer "há três Deuses," o que é ilícito, ou não reconhecer a Divindade do Filho e do Espírito Santo, o que é ímpio e absurdo.
O argumento que formulais é algo assim:—Pedro, Tiago e João, sendo de uma única natureza humana, são chamados três homens: e não há absurdo em descrever aqueles que são unidos em natureza, se forem mais de um, pelo número plural do nome derivado de sua natureza. Se, pois, no caso acima, o costume admite isto, e ninguém nos proíbe falar daqueles que são dois como dois, ou daqueles que são mais de dois como três, como é que no caso de nossas afirmações dos mistérios da Fé, ainda que confessando as Três Pessoas, e não reconhecendo nenhuma diferença de natureza entre elas, estamos de certa maneira em desacordo com nossa confissão, quando dizemos que a Divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo é uma, e todavia proibimos aos homens dizer "há três Deuses"? A questão é, como disse, muito difícil de tratar: contudo, se pudéssemos encontrar algo que possa dar apoio à incerteza de nosso espírito, para que ele não mais oscile e vacile neste dilema monstruoso, seria bem: por outro lado, ainda que nosso raciocínio se mostre insuficiente para o problema, devemos guardar para sempre, firme e inamovível, a tradição que recebemos por sucessão dos pais, e pedir ao Senhor a razão que é a advogada de nossa fé: e se esta for encontrada por algum daqueles dotados de graça, devemos dar graças Àquele que concedeu a graça; mas se não, não deixaremos de manter, naqueles pontos que foram determinados, nossa fé inalteravelmente.
Qual é, pois, a razão pela qual, quando contamos um a um aqueles que nos são apresentados em uma única natureza, ordinariamente os nomeamos no plural e falamos de "tantos homens," em vez de chamá-los todos um: enquanto no caso da natureza Divina nossa definição doutrinária rejeita a pluralidade de Deuses, enumerando ao mesmo tempo as Pessoas, e simultaneamente não admitindo a significação plural? Talvez alguém pudesse parecer tocar o ponto se dissesse (falando de improviso a pessoas simples), que a definição recusasse contar Deuses em número algum para evitar qualquer semelhança ao politeísmo dos gentios, para que, se também nós enumerássemos a Divindade, não no singular, mas no plural, como eles têm por costume fazer, não houvesse de se supor também alguma comunidade de doutrina. Esta resposta, digo eu, se dada a pessoas de espírito mais ingênuo, poderia parecer ser de algum peso: mas no caso dos outros que exigem que uma das alternativas que propõem seja estabelecida (ou que não reconheçamos a Divindade em Três Pessoas, ou que, se o fazemos, falemos daqueles que participam da mesma Divindade como três), esta resposta não é tal que forneça solução alguma da dificuldade. E portanto necessariamente devemos fazer nossa resposta com maior extensão, traçando a verdade o melhor que podemos; pois a questão não é uma ordinária.
Dizemos, pois, para começar, que o costume de chamar por um mesmo nome comum, no plural, aqueles que não são divididos na natureza, dizendo que são "muitos homens," é um abuso consuetudinário da linguagem, e que seria quase o mesmo dizer que são "muitas naturezas humanas." E a verdade disto podemos ver pelo seguinte exemplo. Quando nos dirigimos a alguém, não o chamamos pelo nome de sua natureza, a fim de que não resulte confusão da comunidade do nome, como aconteceria se cada um dos que o ouvem pensasse que era ele próprio a pessoa chamada, porque a chamada é feita não pela apelação própria mas pelo nome comum de sua natureza: mas o separamos da multidão usando aquele nome que lhe pertence como seu; — isto é, aquele que significa o sujeito particular. Assim há muitos que participaram da natureza — muitos discípulos, digamos, ou apóstolos, ou mártires — mas o homem neles todos é um; pois, como se tem dito, o termo "homem" não pertence à natureza do indivíduo como tal, mas àquilo que é comum. Pois Lucas é um homem, ou Estêvão é um homem; mas não se segue que se alguém é homem seja portanto Lucas ou Estêvão: mas a noção das pessoas admite aquela separação que é feita pelos atributos peculiares considerados em cada um separadamente, e quando se combinam nos é apresentada por meio do número; contudo sua natureza é uma, unida em si mesma, e uma unidade absolutamente indivisível, não capaz de aumento por adição nem de diminuição por subtração, mas em sua essência sendo e continuamente permanecendo uma, inseparável ainda que apareça em pluralidade, contínua, completa, e não dividida com os indivíduos que nela participam. E como falamos de um povo, ou de uma multidão, ou de um exército, ou de uma assembleia no singular em todos os casos, sendo cada um destes concebido como estando em pluralidade, assim segundo a expressão mais acurada, "homem" seria dito ser um, ainda que aqueles que nos são apresentados na mesma natureza formem uma pluralidade.