Obra patrística
Sobre o Vestuário das Mulheres
Tertuliano · c. 160–225
Introduction. Modesty in Apparel Becoming to Women, in Memory of the Introduction of Sin into the World Through a Woman.–Such Outward Adornments Meretricious, and Therefore Unsuitable to Modest Women.
Introdução. A modéstia no vestuário conveniente às mulheres, em memória da introdução do pecado no mundo por meio de uma mulher.
II.
Do Ornato das Mulheres.
Livro I.
[Traduzido pelo Rev. S. Thelwall.]
Capítulo I.—Introdução. A Modéstia no Trajar Convém às Mulheres, em Memória da Introdução do Pecado no Mundo por Meio de uma Mulher.
Se houvesse na terra uma fé tão grande quanto é a recompensa da fé que se espera nos céus, nenhuma de vós absolutamente, amadíssimas irmãs, desde o momento em que primeiro "conheceu ao Senhor" e aprendeu (a verdade) acerca da sua própria (isto é, da mulher) condição, teria desejado um estilo de vestir demasiado alegre (para não dizer demasiado ostentoso); de modo a não andar antes em traje humilde, e antes afetar a mediocridade da aparência, andando como Eva a lamentar-se e arrependida, a fim de que, por toda a vestimenta de penitência, expiasse mais plenamente aquilo que de Eva deriva — a ignomínia, digo, do primeiro pecado, e a odiosidade (que a ela se atribui como causa) da perdição humana. "Em dores e em angústias darás à luz (filhos), mulher; e para teu marido será a tua inclinação, e ele te dominará." E não sabeis que sois (cada uma) uma Eva? A sentença de Deus sobre este vosso sexo vive nesta idade: a culpa necessariamente há de viver também. Sois a porta do diabo: sois a que descerrou aquela (árvore) proibida: sois a primeira desertora da divina lei: sois aquela que persuadiu aquele a quem o diabo não era valente o bastante para atacar. Destruístes tão facilmente a imagem de Deus, o homem. Por causa do vosso abandono — isto é, a morte — até o Filho de Deus teve que morrer. E pensais em vos adornar sobre as vossas túnicas de peles? Vamos; se desde o princípio do mundo os milésios tosquiavam ovelhas, e os sérios teciam árvores, e os tírios tingiam, e os frígios bordavam com a agulha, e os babilónios com o tear, e as pérolas reluziam, e as pedras de ônix cintilavam; se o próprio ouro também já havia saído, com a cobiça (que o acompanha), da terra; se o espelho, também, já tinha licença para mentir tão largamente, Eva, expulsa do paraíso, (Eva) já morta, teria também cobiçado estas coisas, imagino! Não mais, portanto, deve ela agora desejar, ou conhecer (se deseja viver novamente), o que, quando vivia, não possuiu nem conheceu. Por conseguinte, estas coisas são toda a bagagem da mulher no seu estado condenado e morto, instituída como que para aumentar a pompa do seu funeral.
A origem do ornamento das mulheres, remontada aos anjos que haviam caído.
Porque aqueles mesmos que os instituíram estão já condenados à pena de morte—aqueles anjos, a saber, que se precipitaram do céu sobre as filhas dos homens; de modo que também esta ignomínia se apega à mulher. Pois quando, a uma idade muito mais ignorante (que a nossa), revelaram certas substâncias materiais bem ocultas, e várias artes científicas não bem descobertas—se é verdade que desvendaram as operações da metalurgia, e divulgaram as propriedades naturais das ervas, e promulgaram os poderes dos encantamentos, e traçaram toda arte curiosa, até a interpretação dos astros—conferiram própria e, por assim dizer, peculiarmente às mulheres aquele meio instrumental da ostentação feminina, os fulgores das joias com que os colares são matizados, e os círculos de ouro com que os braços são comprimidos, e os medicamentos do orchil com que as lãs são coloridas, e aquele pó negro com que as pálpebras e os cílios são realçados. Qual seja a qualidade destas coisas pode ser declarado, entretanto, mesmo neste ponto, pela qualidade e condição de seus mestres: porque os pecadores jamais poderiam ter mostrado ou fornecido algo conducente à integridade, os amantes ilícitos algo conducente à castidade, os espíritos apóstatas algo conducente ao temor de Deus. Se (estas coisas) devem ser chamadas ensinamentos, mestres maus necessariamente ensinaram o mal; se como salário da luxúria, não há nada de vil cujo salário seja honroso. Mas por que foi tão importante mostrar estas coisas bem como conferi-las? Para que as mulheres, sem causas materiais de esplendor, e sem engenhosas invenções de graça, não pudessem agradar aos homens, que, ainda não adornados, e incultos e—por assim dizer—grosseiros e rudes, haviam movido (a mente dos) anjos? Ou seria para que os amantes parecessem sórdidos e—pelo uso gratuito—ultrajosos, se não houvessem conferido nenhum dom (de compensação) às mulheres que haviam sido seduzidas para a união conjugal com eles? Mas estas questões não admitem cálculo. Mulheres que possuíam anjos (como maridos) nada mais poderiam desejar; haviam feito, por certo, um grande casamento! Decerto aquelas que, de fato, algumas vezes pensavam de onde haviam caído, e, após os ímpetos ardentes de suas luxúrias, olhavam para o céu, assim retribuíam aquela mesma excelência das mulheres, a beleza natural, como (tendo sido) uma causa do mal, a fim de que sua boa fortuna nada lhes aproveitasse; mas que, sendo desviadas da simplicidade e sinceridade, elas, juntamente com (os próprios anjos), se tornassem ofensivas a Deus. Sabiam elas que toda ostentação, e ambição, e amor de agradar por meios carnais, desagrada a Deus. E estes são os anjos que estamos destinados a julgar: estes são os anjos que no batismo renunciamos: estas são, é claro, as razões pelas quais eles mereceram ser julgados pelo homem. Que negócio, então, têm as suas coisas com os seus juízes? Que comércio têm aqueles que hão de condenar com aqueles que hão de ser condenados? O mesmo, suponho, que Cristo tem com Belial. Com que consistência subimos àquela (futura) cadeira de juiz para proferir sentença contra aqueles cujos dons (agora) buscamos? Pois também a vós, (mulheres como sois), é prometida a mesma natureza angélica como recompensa, o mesmo sexo que aos homens: a mesma promoção à dignidade de julgar, (o Senhor) vos promete. A menos, pois, que comecemos mesmo aqui a pré-julgar, pré-condenando as suas coisas, que futuramente havemos de condenar neles mesmos, eles antes nos julgarão e condenarão.
Sobre a autenticidade da “Profecia de Enoque”.
Sei que a Escritura de Enoque, que atribuiu esta ordem (de ação) aos anjos, não é recebida por alguns, porque também não é admitida no cânone judaico. Suponho que não pensaram que, tendo sido publicada antes do dilúvio, pudesse ter sobrevivido em segurança àquela calamidade universal, aniquiladora de todas as coisas. Se essa é a razão (para a rejeitarem), lembrem-se de que Noé, o sobrevivente do dilúvio, era o bisneto do próprio Enoque; e ele, sem dúvida, ouvira e lembrava-se, pela tradição doméstica e hereditária, da “graça aos olhos de Deus” do seu próprio bisavô e de todas as suas pregações; pois Enoque não dera a Matusalém outro encargo senão o de transmitir o conhecimento delas à sua posteridade. Portanto, Noé, sem dúvida, poderia ter sucedido na custódia da (sua) pregação; ou, se assim não fosse, não teria silenciado igualmente acerca da disposição (das coisas) feita por Deus, seu Preservador, e acerca da glória particular da sua própria casa.
Se (Noé) não tivesse tido este (poder de conservação) por caminho tão curto, haveria (ainda) esta (consideração) para justificar a nossa afirmação da (genuinidade d)esta Escritura: ele poderia igualmente tê-la renovado, sob a inspiração do Espírito, depois de ter sido destruída pela violência do dilúvio, assim como, depois da destruição de Jerusalém pelo assalto babilónico, se concorda geralmente que todos os documentos da literatura judaica foram restaurados por meio de Esdras.
Mas, visto que Enoque na mesma Escritura pregou igualmente acerca do Senhor, nada deve ser por nós rejeitado do que nos diz respeito; e lemos que “toda a Escritura que é própria para a edificação é divinamente inspirada”. Pode agora parecer que foi rejeitada pelos judeus por essa (mesma) razão, como quase todas as outras (partes) que falam de Cristo. E, na verdade, não é maravilhoso que não recebessem algumas Escrituras que falavam d'Aquele que, ainda pessoalmente, falando na sua presença, não haviam de receber. A estas considerações acrescenta-se o facto de Enoque ter um testemunho no Apóstolo Judas.
Deixando de lado a questão dos autores, Tertuliano propõe considerar as coisas por seus próprios méritos.
Concedei agora que nenhuma marca de pré-condenação tenha sido estampada na pompa feminina pelo (fato do) fado de seus autores; nada seja imputado àqueles anjos além do seu repúdio do céu e (do seu) matrimônio carnal: examinemos as qualidades das próprias coisas, a fim de que possamos detectar também os propósitos pelos quais elas são ansiosamente desejadas.
O hábito feminino traz consigo uma dupla ideia—vestido e ornamento. Por “vestido” entendemos o que chamam de “enfeite feminino”; por “ornamento”, aquilo que convém seja chamado de “desgraça feminina”. O primeiro é considerado (como consistindo) em ouro, e prata, e gemas, e vestes; o segundo no cuidado dos cabelos, e da pele, e daquelas partes do corpo que atraem o olhar. Contra um apresentamos a acusação de ambição, contra o outro a de prostituição; para que, mesmo desde este estágio inicial (de nossa discussão), possais olhar adiante e ver o que, dentre (todas) estas coisas, é conveniente, serva de Deus, à vossa disciplina, visto que sois avaliada por diferentes princípios (das outras mulheres)—aqueles, a saber, da humildade e da castidade.