Padres e clássicosSanto Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte, I, 1, 1

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Obra escolástica

Suma Teológica — Primeira Parte

Santo Tomás de Aquino · c. 1225–1274

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I, 1, 1–II, 2, 2

Artigo. 1 - Se, além da filosofia, é necessária alguma doutrina adicional?

Objeção 1: Parece que, além da ciência filosófica, não necessitamos de nenhum outro conhecimento. Porque o homem não deve procurar saber o que está acima da razão: «Não queiras saber o que é mais alto do que tu» (Ecle. 3,22). Ora, tudo o que não está acima da razão é plenamente tratado na ciência filosófica. Logo, qualquer outro conhecimento além da ciência filosófica é supérfluo.

Objeção 2: Além disso, o conhecimento só pode ter por objeto o ente, pois nada pode ser conhecido senão o que é verdadeiro; e tudo o que é, é verdadeiro. Mas tudo o que é, é tratado na ciência filosófica — até mesmo o próprio Deus; de modo que há uma parte da filosofia chamada teologia, ou ciência divina, como Aristóteles demonstrou (Met. VI). Portanto, além da ciência filosófica, não é necessário nenhum outro conhecimento.

Em contrário, está escrito (2 Tim. 3,16): «Toda a Escritura, divinamente inspirada, é proveitosa para ensinar, para reprovar, para corrigir, para instruir em justiça.» Ora, a Escritura, inspirada por Deus, não faz parte da ciência filosófica, que foi edificada pela razão humana. Logo, é útil que, além da ciência filosófica, haja outro conhecimento, isto é, inspirado por Deus.

Respondo que: Foi necessário para a salvação do homem que, além da ciência filosófica, edificada pela razão humana, houvesse um conhecimento revelado por Deus. Primeiramente, porque o homem é ordenado a Deus como a um fim que ultrapassa a capacidade da sua razão: «Os olhos não viram, ó Deus, senão a Ti, o que Tens preparado para os que Te esperam» (Is. 64,4). Ora, o fim deve ser primeiro conhecido pelos homens, que hão de dirigir os seus pensamentos e ações para esse fim. Por isso foi necessário para a salvação do homem que certas verdades, que excedem a razão humana, lhe fossem dadas a conhecer por revelação divina. Mesmo quanto àquelas verdades acerca de Deus que a razão humana poderia descobrir, foi necessário que o homem fosse instruído por uma revelação divina; porque a verdade acerca de Deus, tal como a razão a poderia descobrir, seria conhecida apenas por poucos, e depois de muito tempo, e com a mistura de muitos erros. Ora, toda a salvação do homem, que está em Deus, depende do conhecimento dessa verdade. Portanto, para que a salvação dos homens se realizasse de modo mais adequado e mais seguro, foi necessário que eles fossem instruídos nas verdades divinas por revelação divina. Por conseguinte, foi necessário que, além da ciência filosófica, edificada pela razão, houvesse uma ciência sagrada aprendida por meio da revelação.

Resposta à Objeção 1: Embora o que está acima do conhecimento humano não possa ser procurado pelo homem mediante a sua razão, todavia, uma vez revelado por Deus, deve ser aceito pela fé. Por isso o texto sagrado continua: «Porque muitas coisas te são mostradas acima do entendimento dos homens» (Ecle. 3,25). E é nisto que consiste a ciência sagrada.

Resposta à Objeção 2: As ciências distinguem-se segundo os diversos meios pelos quais o conhecimento é obtido. Pois o astrônomo e o físico podem demonstrar a mesma conclusão — por exemplo, que a terra é redonda: o astrônomo, mediante a matemática (isto é, abstraindo da matéria); o físico, mediante a própria matéria. Portanto, não há razão para que aquelas coisas que podem ser aprendidas pela ciência filosófica, enquanto cognoscíveis pela razão natural, não nos sejam também ensinadas por outra ciência, enquanto caem sob a revelação. Por isso, a teologia que está contida na sagrada doutrina difere em espécie daquela teologia que é parte da filosofia.

Artigo. 2 - Se a doutrina sagrada é uma ciência?

Objeção 1: Parece que a sacra doutrina não é uma ciência. Pois toda ciência procede de princípios evidentes por si mesmos. Ora, a sacra doutrina procede dos artigos de fé, que não são evidentes por si mesmos, visto que sua verdade não é admitida por todos: «Porque todos os homens não têm fé» (2 Ts 3,2). Logo, a sacra doutrina não é uma ciência.

Objeção 2: Além disso, nenhuma ciência trata de fatos individuais. Ora, esta sacra ciência trata de fatos individuais, como os feitos de Abraão, Isaac e Jacó e semelhantes. Logo, a sacra doutrina não é uma ciência.

Em contrário, diz Agostinho (De Trin. XIV,1): «A esta ciência só pertence aquilo pelo qual a fé salutar é gerada, nutrida, protegida e fortalecida.» Ora, isso não se pode dizer de nenhuma ciência senão da sacra doutrina. Logo, a sacra doutrina é uma ciência.

Respondo que a sacra doutrina é uma ciência. Devemos ter presente que há duas espécies de ciências. Umas procedem de um princípio conhecido pela luz natural do intelecto, como a aritmética e a geometria e semelhantes. Outras procedem de princípios conhecidos pela luz de uma ciência superior: assim, a ciência da perspectiva procede de princípios estabelecidos pela geometria, e a música, de princípios estabelecidos pela aritmética. Deste modo, a sacra doutrina é uma ciência porque procede de princípios estabelecidos pela luz de uma ciência superior, a saber, a ciência de Deus e dos bem-aventurados. Por conseguinte, assim como o músico aceita por autoridade os princípios que lhe ensina o matemático, assim a sacra ciência se firma sobre princípios revelados por Deus.

Resposta à objeção 1: Os princípios de qualquer ciência ou são em si mesmos evidentes, ou se reduzem às conclusões de uma ciência superior; e tais são, como dissemos, os princípios da sacra doutrina.

Resposta à objeção 2: Os fatos individuais são tratados na sacra doutrina, não porque ela se ocupe deles principalmente, mas são introduzidos tanto como exemplos a serem seguidos em nossa vida (como nas ciências morais) quanto para estabelecer a autoridade daqueles homens por meio dos quais a revelação divina, sobre a qual se baseia esta sagrada escritura ou doutrina, chegou até nós.

Artigo. 3 - Se a doutrina sagrada é uma só ciência?

Objeção 1: Parece que a doutrina sagrada não é uma só ciência; pois, segundo o Filósofo (Poster. i), «aquela ciência é uma que trata de uma só classe de sujeitos». Ora, o Criador e a criatura, de ambos os quais se trata na doutrina sagrada, não podem ser agrupados sob uma só classe de sujeitos. Logo, a doutrina sagrada não é uma só ciência.

Objeção 2: Demais, na doutrina sagrada tratamos dos anjos, das criaturas corpóreas e da moral humana. Ora, estas coisas pertencem a ciências filosóficas separadas. Logo, a doutrina sagrada não pode ser uma só ciência.

Em contrário, a Sagrada Escritura fala dela como uma só ciência: «A sabedoria lhe deu a ciência das coisas santas» (Sb 10,10).

Respondo que a doutrina sagrada é uma só ciência. A unidade de uma faculdade ou hábito deve ser aferida pelo seu objeto, não, de fato, no seu aspecto material, mas quanto à precisa formalidade sob a qual ele é objeto. Por exemplo, o homem, o asno e a pedra concordam na precisa formalidade de serem coloridos; e a cor é o objeto formal da visão. Portanto, porque a Sagrada Escritura considera as coisas precisamente sob a formalidade de serem divinamente reveladas, tudo o que foi divinamente revelado possui a precisa formalidade do objeto desta ciência; e, por conseguinte, está incluído sob a doutrina sagrada como sob uma só ciência.

Resposta à objeção 1: A doutrina sagrada não trata de Deus e das criaturas igualmente, mas de Deus principalmente, e das criaturas somente enquanto são referíveis a Deus como seu princípio ou fim. Portanto, a unidade desta ciência não é prejudicada.

Resposta à objeção 2: Nada impede que faculdades ou hábitos inferiores sejam diferenciados por algo que também cai sob uma faculdade ou hábito superior; porque a faculdade ou hábito superior considera o objeto na sua formalidade mais universal, assim como o objeto do «senso comum» é tudo o que afeta os sentidos, incluindo, portanto, tudo o que é visível ou audível. Donde o «senso comum», embora uma só faculdade, se estende a todos os objetos dos cinco sentidos. Semelhantemente, objetos que são matéria de diferentes ciências filosóficas podem ainda ser tratados por esta única ciência sagrada sob um só aspecto, precisamente enquanto podem ser incluídos na revelação. De modo que, assim, a doutrina sagrada traz, por assim dizer, o cunho da ciência divina, que é una e simples, e contudo se estende a tudo.

Artigo. 4 - Se a sacra doutrina é uma ciência prática?

Objeção 1: Parece que a sacra doutrina é uma ciência prática; porque uma ciência prática é aquela que termina na ação, segundo o Filósofo (Metaf. II). Ora, a sacra doutrina é ordenada à ação: «Sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes» (Tg 1,22). Logo, a sacra doutrina é uma ciência prática.

Objeção 2: Além disso, a sacra doutrina divide-se em Antiga e Nova Lei. Ora, a lei implica uma ciência moral, que é uma ciência prática. Logo, a sacra doutrina é uma ciência prática.

Ao contrário, Toda ciência prática tem por objeto as operações humanas; assim como a ciência moral tem por objeto os atos humanos, e a arquitetura, os edifícios. Mas a sacra doutrina tem principalmente por objeto a Deus, cuja obra especialmente é o homem. Logo, ela não é uma ciência prática, mas especulativa.

Respondo que, A sacra doutrina, sendo una, estende-se a coisas que pertencem a diferentes ciências filosóficas, porque considera em cada uma o mesmo aspecto formal, a saber, enquanto podem ser conhecidas pela revelação divina. Por isso, embora entre as ciências filosóficas uma seja especulativa e outra prática, contudo a sacra doutrina inclui ambas; assim como Deus, por uma mesma ciência, conhece a Si mesmo e as Suas obras. Todavia, ela é mais especulativa do que prática, porque trata mais das coisas divinas do que dos atos humanos; embora também trate destes últimos, enquanto por eles o homem é ordenado ao perfeito conhecimento de Deus, no qual consiste a bem-aventurança eterna. Isto basta para responder às objeções.

Artigo. 5 - Se a doutrina sagrada é mais nobre do que as outras ciências?

Objeção 1: Parece que a sacra doutrina não é mais nobre que as outras ciências; porque a nobreza de uma ciência depende da certeza que estabelece. Ora, as outras ciências, cujos princípios não podem ser duvidados, parecem ser mais certas que a sacra doutrina; pois seus princípios — a saber, os artigos de fé — podem ser duvidados. Logo, as outras ciências parecem ser mais nobres.

Objeção 2: Ademais, é sinal de uma ciência inferior depender de uma superior, como a música depende da aritmética. Ora, a sacra doutrina depende de certo modo das ciências filosóficas; pois Jerônimo observa, na sua Epístola a Magno, que "os antigos doutores enriqueceram de tal modo seus livros com as ideias e frases dos filósofos, que não sabeis o que mais admirar neles, sua erudição profana ou seu saber escriturístico." Portanto, a sacra doutrina é inferior às outras ciências.

Em contrário, As outras ciências são chamadas servas desta: "A Sabedoria enviou suas servas para convidar para a torre" (Prov 9,3).

Respondo que: Sendo esta ciência em parte especulativa e em parte prática, transcende todas as outras, tanto especulativas quanto práticas. Ora, diz-se que uma ciência especulativa é mais nobre que outra, ou pela sua maior certeza, ou pelo mais alto valor de seu sujeito. Em ambos os aspectos esta ciência supera as outras ciências especulativas: em ponto de maior certeza, porque as outras ciências derivam sua certeza da luz natural da razão humana, que pode errar; ao passo que esta deriva sua certeza da luz do conhecimento divino, que não pode enganar-se; em ponto do mais alto valor de seu sujeito, porque esta ciência trata principalmente daquelas coisas que, por sua sublimidade, transcendem a razão humana; enquanto as outras ciências consideram apenas aquelas coisas que estão ao alcance da razão. Das ciências práticas, é mais nobre aquela que se ordena a um fim ulterior, como a ciência política é mais nobre que a ciência militar; pois o bem do exército se dirige ao bem do Estado. Ora, o fim desta ciência, enquanto prática, é a bem-aventurança eterna; para a qual, como para um fim último, se dirigem os fins de toda ciência prática. Portanto, é claro que, de todos os pontos de vista, ela é mais nobre que as outras ciências.

Resposta à objeção 1: Pode bem acontecer que o que é em si mais certo nos pareça menos certo por causa da fraqueza do nosso intelecto, "que se deslumbra diante dos objetos mais claros da natureza, como a coruja se deslumbra com a luz do sol" (Metaf. II, lec. 1). Por isso, o fato de alguns duvidarem acerca dos artigos de fé não se deve à natureza incerta das verdades, mas à fraqueza do intelecto humano; contudo, o mais exíguo conhecimento que se possa obter das coisas mais altas é mais desejável do que o mais certo conhecimento obtido das coisas menores, como se diz em De Animalibus XI.

Resposta à objeção 2: Esta ciência pode, em certo sentido, depender das ciências filosóficas, não como se delas necessitasse, mas apenas para tornar seu ensino mais claro. Pois ela não aceita seus princípios de outras ciências, mas imediatamente de Deus, por revelação. Portanto, não depende das outras ciências como de superiores, mas se serve delas como de inferiores e como servas; assim como as ciências mestras se servem das ciências que lhes fornecem os materiais, como a política da militar. Que dela se sirva assim não se deve a defeito ou insuficiência própria, mas ao defeito do nosso intelecto, que é mais facilmente conduzido pelo que é conhecido pela razão natural (de onde procedem as outras ciências) àquilo que está acima da razão, tais como são os ensinamentos desta ciência.

Referência atual: Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte, I, 1, 1