Padres e clássicosSanto Tomás de Aquino, Suma Teológica — Segunda Parte da Segunda Parte, I, 1, 1

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Obra escolástica

Suma Teológica — Segunda Parte da Segunda Parte

Santo Tomás de Aquino · c. 1225–1274

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I, 1, 1–I, 2, 2

Artigo. 1 - Se o objeto da fé é a Primeira Verdade?

Objeção 1: Parece que o objeto da fé não é a Primeira Verdade. Porque parece que o objeto da fé é aquilo que nos é proposto para crer. Ora, não somente as coisas que pertencem à Divindade, isto é, a Primeira Verdade, nos são propostas para crer, mas também as coisas concernentes à natureza humana de Cristo, e aos sacramentos da Igreja, e à condição das criaturas. Logo, o objeto da fé não é somente a Primeira Verdade.

Objeção 2: Além disso, a fé e a incredulidade têm o mesmo objeto, pois se opõem uma à outra. Ora, a incredulidade pode ser acerca de todas as coisas contidas na Sagrada Escritura, porque, se alguém nega qualquer uma delas, é considerado incrédulo. Logo, a fé também é acerca de todas as coisas contidas na Sagrada Escritura. Mas nela há muitas coisas concernentes ao homem e a outras criaturas. Portanto, o objeto da fé não é somente a Primeira Verdade, mas também a verdade criada.

Objeção 3: Além disso, a fé é dividida juntamente com a caridade, como se disse (I-II, Q. 62, A. 3). Ora, pela caridade amamos não somente a Deus, que é o sumo Bem, mas também o próximo. Logo, o objeto da fé não é somente a Primeira Verdade.

Em sentido contrário, Dionísio diz (Dos Nomes Divinos, VII) que "a fé é acerca da verdade simples e eterna". Ora, esta é a Primeira Verdade. Logo, o objeto da fé é a Primeira Verdade.

Respondo que o objeto de todo hábito cognitivo inclui duas coisas: primeiro, aquilo que é conhecido materialmente, e é, por assim dizer, o objeto material; e, segundo, aquilo pelo qual é conhecido, que é a razão formal do objeto. Assim, na ciência da geometria, as conclusões são o que é conhecido materialmente, enquanto a razão formal da ciência é o meio de demonstração, pelo qual as conclusões são conhecidas.

Portanto, se considerarmos, na fé, a razão formal do objeto, esta não é outra coisa senão a Primeira Verdade. Pois a fé da qual falamos não dá assentimento a coisa alguma, senão porque é revelada por Deus. Logo, o meio sobre o qual a fé se funda é a Verdade Divina. Se, porém, considerarmos materialmente as coisas às quais a fé dá assentimento, elas incluem não só Deus, mas também muitas outras coisas, as quais, todavia, não caem sob o assentimento da fé senão enquanto guardam alguma relação com Deus, na medida em que, por certos efeitos da operação divina, o homem é ajudado em sua peregrinação para o gozo de Deus. Consequentemente, também deste ponto de vista, o objeto da fé é, de certo modo, a Primeira Verdade, na medida em que nada cai sob a fé senão em relação a Deus, assim como o objeto da arte médica é a saúde, pois ela não considera nada senão em relação à saúde.

Resposta à Objeção 1: As coisas concernentes à natureza humana de Cristo e aos sacramentos da Igreja, ou a quaisquer criaturas, caem sob a fé enquanto por elas somos dirigidos a Deus, e enquanto lhes damos assentimento por causa da Verdade Divina.

Resposta à Objeção 2: A mesma resposta se aplica, quanto a todas as coisas contidas na Sagrada Escritura.

Resposta à Objeção 3: A caridade também ama o próximo por causa de Deus; de modo que seu objeto, propriamente falando, é Deus, como se mostrará adiante (Q. 25, A. 1).

Artigo. 2 - Se o objeto da fé é algo complexo, por via de proposição?

Objeção 1: Parece que o objeto da fé não é algo complexo, por via de proposição. Porque o objeto da fé é a Primeira Verdade, como se disse acima (A. 1). Ora, a Primeira Verdade é algo simples. Logo, o objeto da fé não é algo complexo.

Objeção 2: Além disso, a exposição da fé está contida no símbolo. Ora, o símbolo não contém proposições, mas coisas; pois nele não se diz que Deus é onipotente, mas: “Creio em Deus… onipotente”. Logo, o objeto da fé não é uma proposição, mas uma coisa.

Objeção 3: Além disso, a fé é sucedida pela visão, segundo 1 Cor. 13,12: “Agora vemos por um espelho, em enigma; mas então veremos face a face. Agora conheço em parte; mas então conhecerei como também sou conhecido.” Ora, o objeto da visão celeste é algo simples, pois é a Essência Divina. Logo, também o é a fé do viandante.

Em contrário, a fé é um meio entre a ciência e a opinião. Ora, o meio é do mesmo gênero que os extremos. Portanto, sendo a ciência e a opinião acerca de proposições, parece que a fé é igualmente acerca de proposições; de modo que seu objeto é algo complexo.

Respondo que a coisa conhecida está no conhecente segundo o modo do conhecente. Ora, o modo próprio do intelecto humano é conhecer a verdade por síntese e análise, como se disse na Primeira Parte, Q. 85, A. 5. Por isso, as coisas que em si mesmas são simples são conhecidas pelo intelecto com certa complexidade, assim como, inversamente, o intelecto divino conhece, sem complexidade alguma, as coisas que em si mesmas são complexas.

Portanto, o objeto da fé pode ser considerado de dois modos. Primeiro, quanto à própria coisa que se crê; e assim o objeto da fé é algo simples, a saber, a própria coisa acerca da qual temos fé. Segundo, por parte do crente; e sob esse aspecto, o objeto da fé é algo complexo, por via de proposição.

Por isso, no passado, ambas as opiniões foram sustentadas com certa verdade.

Resposta à Objeção 1: Este argumento considera o objeto da fé por parte da coisa crida.

Resposta à Objeção 2: O símbolo menciona as coisas acerca das quais é a fé, na medida em que o ato do crente nelas termina, como é evidente pelo modo de falar delas. Ora, o ato do crente não termina numa proposição, mas numa coisa. Pois, assim como na ciência não formamos proposições senão para, por meio delas, ter conhecimento das coisas, assim também na fé.

Resposta à Objeção 3: O objeto da visão celeste será a Primeira Verdade vista em si mesma, segundo 1 Jo 3,2: “Sabemos que, quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é”: por isso, essa visão não será por via de proposição, mas por via de simples entendimento. Pela fé, porém, não apreendemos a Primeira Verdade como ela é em si mesma. Logo, a comparação não procede.

Artigo. 3 - Se algo falso pode cair sob a fé?

Artigo 3 — Pode alguma falsidade cair sob a fé?

Objeção 1: Parece que alguma falsidade pode cair sob a fé. Pois a fé é condividida com a esperança e a caridade. Ora, alguma falsidade pode cair sob a esperança, pois muitos esperam alcançar a vida eterna, que não a obterão. O mesmo se pode dizer da caridade, pois muitos são amados como bons, que, no entanto, não são bons. Logo, alguma falsidade pode ser objeto da fé.

Objeção 2: Além disso, Abraão acreditou que Cristo havia de nascer, conforme Jo 8,56: "Abraão, vosso pai, desejou muito ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se." Ora, depois do tempo de Abraão, Deus poderia não ter tomado carne, pois foi simplesmente porque quis que o fez, de modo que o que Abraão acreditou acerca de Cristo teria sido falso. Portanto, o objeto da fé pode ser algo falso.

Objeção 3: Além disso, os antigos acreditavam no nascimento futuro de Cristo, e muitos continuaram a assim crer até ouvirem a pregação do Evangelho. Ora, uma vez que Cristo nasceu, mesmo antes de começar a pregar, era falso que Cristo ainda estivesse para nascer. Logo, alguma falsidade pode cair sob a fé.

Objeção 4: Além disso, é matéria de fé acreditar que o verdadeiro Corpo de Cristo está contido no Sacramento do altar. Mas poderia acontecer que o pão não fosse devidamente consagrado, e que ali não estivesse o verdadeiro Corpo de Cristo, mas somente pão. Portanto, alguma falsidade pode cair sob a fé.

Em contrário, nenhuma virtude que aperfeiçoa o intelecto se relaciona com o falso, considerado como o mal do intelecto, como declara o Filósofo (Ética VI, 2). Ora, a fé é uma virtude que aperfeiçoa o intelecto, como mostraremos adiante (Q. 4, AA. 2 e 5). Logo, nenhuma falsidade pode cair sob ela.

Respondo que Nada cai sob qualquer potência, hábito ou ato, senão por meio do aspecto formal do objeto: assim, a cor não pode ser vista senão por meio da luz, e uma conclusão não pode ser conhecida senão através do meio da demonstração. Ora, foi dito (A. 1) que o aspecto formal do objeto da fé é a Primeira Verdade; de modo que nada pode cair sob a fé, senão na medida em que está sob a Primeira Verdade, sob a qual nenhuma falsidade pode estar, assim como o não-ser não pode estar sob o ser, nem o mal sob o bem. Segue-se, portanto, que nenhuma falsidade pode cair sob a fé.

Resposta à Objeção 1: Visto que o verdadeiro é o bem do intelecto, mas não da potência apetitiva, segue-se que todas as virtudes que aperfeiçoam o intelecto excluem totalmente a falsidade, porque pertence à natureza da virtude relacionar-se somente com o bem. Por outro lado, aquelas virtudes que aperfeiçoam a faculdade apetitiva não excluem totalmente a falsidade, pois é possível agir segundo a justiça ou a temperança, tendo uma opinião falsa sobre o que se está fazendo. Logo, como a fé aperfeiçoa o intelecto, enquanto a esperança e a caridade aperfeiçoam a parte apetitiva, a comparação entre elas não vale.

No entanto, também na esperança não pode cair nenhuma falsidade, pois o homem espera obter a vida eterna, não por seu próprio poder (pois isso seria ato de presunção), mas com o auxílio da graça; e se nela perseverar, obterá a vida eterna segura e infalivelmente.

Do mesmo modo, pertence à caridade amar a Deus, onde quer que Ele esteja; de modo que não importa para a caridade se Deus está no indivíduo que amamos por amor de Deus.

Resposta à Objeção 2: Que "Deus não tomaria carne", considerado em si mesmo, era possível mesmo depois do tempo de Abraão, mas na medida em que está na presciência de Deus, tem uma certa necessidade de infalibilidade, como foi explicado na I Parte, Q. 14, AA. 13 e 15; e é assim que cai sob a fé. Portanto, na medida em que cai sob a fé, não pode ser falso.

Resposta à Objeção 3: Após o nascimento de Cristo, crer Nele era crer no nascimento de Cristo em algum tempo. A fixação do tempo, em que alguns foram enganados, não se devia à sua fé, mas a uma conjectura humana. Pois é possível que um crente tenha uma opinião falsa por uma conjectura humana, mas é inteiramente impossível que uma opinião falsa seja resultado da fé.

Resposta à Objeção 4: A fé do crente não se dirige a tais e tais acidentes do pão, mas ao fato de que o verdadeiro corpo de Cristo está sob as aparências de pão sensível, quando é devidamente consagrado. Portanto, se não for devidamente consagrado, não se segue que alguma falsidade caia sob a fé.

Artigo. 4 - Se o objeto da fé pode ser algo visto?

Objecção 1: Parece que o objecto da fé é algo visto. Pois Nosso Senhor disse a Tomé (Jo. 20,29): «Porque me viste, Tomé, creste.» Logo, a visão e a fé têm o mesmo objecto.

Objecção 2: Além disso, o Apóstolo, falando do conhecimento da fé, diz (1 Cor. 13,12): «Vemos agora por espelho em enigma.» Logo, o que se crê é visto.

Objecção 3: Além disso, a fé é uma luz espiritual. Ora, sob toda luz algo se vê. Logo, a fé é de coisas vistas.

Objecção 4: Além disso, «Todo sentido é uma espécie de visão», como diz Agostinho (De Verb. Domini, Serm. xxxiii). Ora, a fé é de coisas ouvidas, segundo Rom. 10,17: «A fé... vem pelo ouvir.» Logo, a fé é de coisas vistas.

Em contrário, o Apóstolo diz (Heb. 11,1) que «a fé é o argumento das coisas que não aparecem.»

Respondo que a fé implica o assentimento do intelecto àquilo que se crê. Ora, o intelecto assente a algo de dois modos. Primeiro, sendo movido a assentir pelo seu próprio objecto, que é conhecido ou por si mesmo (como no caso dos primeiros princípios, que são tidos pelo hábito do entendimento), ou por meio de algo já conhecido (como no caso das conclusões, que são tidas pelo hábito da ciência). Segundo, o intelecto assente a algo, não sendo suficientemente movido a este assentimento pelo seu objecto próprio, mas por um acto de escolha, pelo qual se volta voluntariamente para uma parte em vez da outra: e se isto for acompanhado de dúvida ou receio da parte contrária, haverá opinião; ao passo que, se houver certeza e nenhum receio da outra parte, haverá fé.

Ora, dizem-se vistas aquelas coisas que, por si mesmas, movem o intelecto ou os sentidos ao conhecimento delas. Por onde é evidente que nem a fé nem a opinião podem ser de coisas vistas, quer pelos sentidos, quer pelo intelecto.

Resposta à primeira objecção: Tomé «viu uma coisa, e creu outra» [*São Gregório: Hom. xxvi in Evang.]: viu o Homem, e crendo que Ele era Deus, fez profissão da sua fé, dizendo: «Senhor meu e Deus meu.»

Resposta à segunda objecção: As coisas que caem sob a fé podem considerar-se de dois modos. Primeiro, em particular; e assim não podem ser vistas e cridas ao mesmo tempo, como se mostrou acima. Segundo, em geral, isto é, sob a razão comum de credibilidade; e deste modo são vistas pelo crente. Pois ele não creria a menos que, pela evidência dos sinais ou de algo semelhante, visse que deviam ser cridas.

Resposta à terceira objecção: A luz da fé faz-nos ver o que cremos. Pois assim como, pelos hábitos das outras virtudes, o homem vê o que lhe convém segundo esse hábito, assim, pelo hábito da fé, a mente humana é dirigida a assentir àquelas coisas que convêm a uma fé recta, e não a assentir a outras.

Resposta à quarta objecção: O ouvido é das palavras que significam o que é de fé, mas não das próprias coisas que se crêem; donde não se segue que essas coisas sejam vistas.

Referência atual: Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica — Segunda Parte da Segunda Parte, I, 1, 1