Padres e clássicosSanto Tomás de Aquino, Suma Teológica — Terceira Parte, I

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Obra escolástica

Suma Teológica — Terceira Parte

Santo Tomás de Aquino · c. 1225–1274

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I–II, 2, 4

Prólogo

Porquanto o nosso Salvador o Senhor Jesus Cristo, para “salvar o Seu povo dos seus pecados” (Mat. 1, 21), como o anjo anunciou, nos mostrou em Sua própria Pessoa o caminho da verdade, pelo qual podemos alcançar a bem-aventurança da vida eterna pela ressurreição, é necessário, para completar a obra da teologia, que após a consideração do último fim da vida humana, e das virtudes e dos vícios, se siga a consideração do Salvador de todos, e dos benefícios por Ele concedidos ao humano gênero.

A respeito disto devemos considerar (1) o próprio Salvador; (2) os sacramentos pelos quais alcançamos a nossa salvação; (3) o fim da vida imortal a que chegamos pela ressurreição.

Quanto ao primeiro, ocorre uma dupla consideração: a primeira, acerca do próprio mistério da Encarnação, pelo qual Deus foi feito homem para a nossa salvação; a segunda, acerca das coisas que foram feitas e sofridas pelo nosso Salvador — isto é, Deus encarnado.

Artigo. 1 - Se era conveniente que Deus se encarnasse?

Objeção 1: Pareceria que não era conveniente que Deus Se fizesse encarnado. Pois, sendo Deus desde toda a eternidade a própria essência da bondade, era-lhe ótimo ser como desde toda a eternidade fora. Mas desde toda a eternidade Ele estivera sem carne. Logo, era-lhe ótimo não Se unir à carne. Portanto, não era conveniente que Deus Se fizesse encarnado.

Objeção 2: Ademais, não é conveniente unir coisas que infinitamente distam, assim como não seria união conveniente se alguém "pintasse uma figura em que o pescoço de um cavalo se juntasse à cabeça de um homem" (Horácio, Ars Poet. v. 1). Ora, Deus e a carne distam infinitamente, pois Deus é simplicíssimo, e a carne é compositíssima — sobretudo a carne humana. Logo, não era conveniente que Deus Se unisse à carne humana.

Objeção 3: Ademais, um corpo dista do sumo espírito tanto quanto o mal dista do sumo bem. Ora, de todo não era conveniente que Deus, que é o sumo bem, assumisse o mal. Logo, não era conveniente que o sumo espírito incriado assumisse um corpo.

Objeção 4: Ademais, não é decente que Aquele que excede as coisas grandíssimas seja contido nas mínimas, e que Aquele sobre quem repousa o cuidado das coisas grandes deixe estas pelas menores. Ora, Deus — que cuida do mundo inteiro — o universo inteiro não O pode conter. Logo, pareceria inconveniente que "Ele Se escondesse sob o frágil corpo de um menino em faixas, em comparação de Quem todo o universo é tido por pequeno; e que este Príncipe abandonasse o Seu trono por tanto tempo, e transferisse o governo do mundo inteiro a um corpo tão frágil", como escreve Volusiano a Agostinho (Ep. cxxxv).

Ao contrário, Pareceria sumamente conveniente que pelas coisas visíveis as coisas invisíveis de Deus se fizessem conhecer; pois para este fim foi feito o mundo inteiro, como é claro pela palavra do Apóstolo (Rm 1,20): "Porque as coisas invisíveis d'Ele . . . se veem claramente, sendo entendidas pelas coisas que são feitas." Ora, como diz Damasceno (De Fide Orth. iii, 1), pelo mistério da Encarnação se manifestam simultaneamente a bondade, a sabedoria, a justiça e o poder ou força de Deus — "a bondade, porque não desprezou a fraqueza da Sua própria obra; a justiça, porque, vencido o homem, fez com que o tirano fosse vencido por nenhum outro senão o homem, e contudo não arrebatou os homens à força da morte; a sabedoria, porque achou uma satisfação idônea para uma dívida gravíssima; o poder, ou infinita potência, porque nada é maior do que Deus Se fazer encarnado . . ."

Respondo que: A cada coisa é conveniente aquilo que lhe pertence por razão da sua própria natureza; assim, a razão convém ao homem, porque isto lhe pertence por ser de natureza racional. Ora, a própria natureza de Deus é a bondade, como é claro por Dionísio (Div. Nom. i). Por isso, o que pertence à essência da bondade convém a Deus. Mas pertence à essência da bondade comunicar-se a outros, como é evidente por Dionísio (Div. Nom. iv). Logo, pertence à essência do sumo bem comunicar-se sumamente à criatura, e isto se realiza principalmente por "Ele unir de tal modo a natureza criada a Si mesmo que uma só Pessoa se componha destes três: o Verbo, uma alma e carne", como diz Agostinho (De Trin. xiii). Portanto, é manifesto que era conveniente que Deus Se fizesse encarnado.

Resposta à Objeção 1: O mistério da Encarnação não se consumou por ter Deus mudado de algum modo do estado em que estivera desde a eternidade, mas por Ele Se ter unido à criatura de modo novo, ou antes, por a ter unido a Si. Ora, é conveniente que a criatura, que por natureza é mutável, nem sempre exista do mesmo modo. E portanto, assim como a criatura começou a ser, embora antes não existisse, assim também, não tendo estado antes unida a Deus em Pessoa, depois Lhe foi unida.

Resposta à Objeção 2: Unir-se a Deus em unidade de pessoa não era conveniente à carne humana, segundo os seus dotes naturais, pois isso superava a sua dignidade; contudo, era conveniente que Deus, por causa da Sua infinita bondade, a unisse a Si para a salvação do homem.

Resposta à Objeção 3: Todo modo de ser pelo qual qualquer criatura difere do Criador foi estabelecido pela sabedoria de Deus e ordenado para a bondade de Deus. Pois Deus, que é incriado, imutável e incorpóreo, produziu criaturas mutáveis e corpóreas para a Sua própria bondade. E assim também o mal de pena foi estabelecido pela justiça de Deus para a glória de Deus. Mas o mal de culpa é cometido afastando-se da arte da divina sabedoria e da ordem da divina bondade. E portanto, podia ser conveniente a Deus assumir uma natureza criada, mutável, corpórea e sujeita à pena, mas não Lhe convinha assumir o mal de culpa.

Resposta à Objeção 4: Como responde Agostinho (Ep. ad Volusian. cxxxvii): "A doutrina cristã em nenhum lugar sustenta que Deus estivesse de tal modo unido à carne humana que abandonasse ou perdesse, ou transferisse e como que contraísse dentro deste frágil corpo, o cuidado de governar o universo. Isto é pensamento de homens que não podem ver senão coisas corpóreas . . . Deus é grande não em massa, mas em poder. Logo, a grandeza do Seu poder não sente estreiteza em recintos apertados. Nem, se a palavra passageira de um homem é ouvida ao mesmo tempo por muitos, e inteiramente por cada um, é incrível que o Verbo permanente de Deus esteja em toda a parte simultaneamente?" Portanto, nenhum inconveniente resulta do fato de Deus Se fazer encarnado.

Artigo. 2 - Se era necessário para a restauração do gênero humano que o Verbo de Deus se encarnasse?

Objeção 1: Parece que não foi necessário, para a reparação do gênero humano, que o Verbo de Deus Se encarnasse. Porquanto, sendo o Verbo de Deus Deus perfeito, como se disse (I Parte, Q. 4, aa. 1-2), nenhum poder Lhe foi acrescentado pela assunção da carne. Logo, se o Verbo de Deus encarnado restaurou a natureza humana, também a poderia ter restaurado sem assumir a carne.

Objeção 2: Além disso, para a restauração da natureza humana, que havia caído pelo pecado, nada mais se requer senão que o homem satisfaça pelo pecado. Ora, o homem pode, ao que parece, satisfazer pelo pecado; porque Deus não pode exigir do homem mais do que o homem pode fazer, e, sendo Ele mais inclinado a ter misericórdia do que a punir, assim como Lhe atribui ao homem o ato do pecado, assim também Lhe deveria atribuir o ato contrário. Logo, não foi necessário, para a restauração da natureza humana, que o Verbo de Deus Se encarnasse.

Objeção 3: Demais, reverenciar a Deus pertence especialmente à salvação do homem; por isso está escrito (Ml 1,6): "Se eu sou pai, onde está a minha honra? e se sou senhor, onde está o meu temor?" Ora, os homens reverenciam a Deus tanto mais quanto O consideram elevado acima de tudo e muito além dos sentidos humanos; por isso está escrito (Sl 112,4): "O Senhor é excelso sobre todas as gentes, e a sua glória sobre os céus"; e adiante: "Quem é como o Senhor nosso Deus?" — o que pertence à reverência. Portanto, parece inconveniente para a salvação do homem que Deus Se tenha feito semelhante a nós, assumindo a carne.

Em contrário, O que livra o gênero humano da perdição é necessário para a salvação do homem. Ora, tal é o mistério da Encarnação; segundo Jo 3,16: "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Logo, foi necessário para a salvação do homem que Deus Se encarnasse.

Respondo que uma coisa se diz necessária para um certo fim de dois modos. Primeiro, quando o fim não pode existir sem ela; como o alimento é necessário para a conservação da vida humana. Segundo, quando o fim é alcançado melhor e mais convenientemente; como um cavalo é necessário para uma viagem. Do primeiro modo, não foi necessário que Deus Se encarnasse para a restauração da natureza humana. Porque Deus, com o seu poder onipotente, poderia ter restaurado a natureza humana de muitos outros modos. Mas, do segundo modo, foi necessário que Deus Se encarnasse para a restauração da natureza humana. Donde diz Agostinho (De Trin. XII, 10): "Mostraremos também que não faltaram outros meios a Deus, a cujo poder todas as coisas estão igualmente sujeitas; mas que não houve meio mais apto para curar a nossa miséria."

Ora, isto pode ser considerado em relação ao nosso "progresso no bem". Primeiro, quanto à fé, que se torna mais certa por crermos no próprio Deus que fala; donde diz Agostinho (De Civ. Dei XI, 2): "Para que o homem caminhasse mais confiadamente para a verdade, a própria Verdade, o Filho de Deus, assumindo a natureza humana, estabeleceu e fundou a fé." Segundo, quanto à esperança, que é por isso grandemente fortalecida; donde diz Agostinho (De Trin. XIII): "Nada foi tão necessário para levantar a nossa esperança como mostrar-nos quão profundamente Deus nos amou. E que poderia dar-nos prova mais forte disso do que o Filho de Deus Se ter feito nosso companheiro na natureza humana?" Terceiro, quanto à caridade, que é por isso grandemente acesa; donde diz Agostinho (De Catec. Rudib. IV): "Que maior causa há da vinda do Senhor do que mostrar o amor de Deus por nós?" E adiante acrescenta: "Se fomos lentos em amar, ao menos apressemo-nos a retribuir o amor." Quarto, quanto ao bem obrar, no qual Ele nos deu exemplo; donde diz Agostinho num sermão (XXII de Temp.): "O homem, que se podia ver, não devia ser seguido; mas devia ser seguido Deus, que não se podia ver. E por isso Deus Se fez homem, para que ao homem fosse mostrado Aquele que podia ser visto pelo homem e que o homem pudesse seguir." Quinto, quanto à plena participação da Divindade, que é a verdadeira bem-aventurança do homem e o fim da vida humana; e esta nos é concedida pela humanidade de Cristo; pois Agostinho diz num sermão (XIII de Temp.): "Deus Se fez homem, para que o homem se fizesse Deus."

Do mesmo modo, isto foi útil para o nosso "afastamento do mal". Primeiro, porque o homem é por isso ensinado a não antepor o demônio a si mesmo, nem a honrar aquele que é o autor do pecado; donde diz Agostinho (De Trin. XIII, 17): "Uma vez que a natureza humana está de tal modo unida a Deus que se torna uma só pessoa, não ousem estes espíritos soberbos preferir-se ao homem, por não terem corpo." Segundo, porque somos por isso ensinados quão grande é a dignidade do homem, para que não a maculemos com o pecado; donde diz Agostinho (De Vera Relig. XVI): "Deus nos provou quão alto lugar ocupa a natureza humana entre as criaturas, na medida em que apareceu aos homens como verdadeiro homem." E o Papa Leão diz num sermão sobre o Natal (XXI): "Aprende, ó cristão, o teu valor; e, feito participante da natureza divina, recusa voltar, por más obras, à tua antiga vileza." Terceiro, porque "para destruir a presunção do homem, a graça de Deus é louvada em Jesus Cristo, sem que precedam quaisquer méritos nossos", como diz Agostinho (De Trin. XIII, 17). Quarto, porque "a soberba do homem, que é o maior obstáculo para nos apegarmos a Deus, pode ser convencida e curada por tão grande humildade", como diz Agostinho no mesmo lugar. Quinto, para libertar o homem da escravidão do pecado, a qual, como diz Agostinho (De Trin. XIII, 13), "devia ser feita de tal modo que o demônio fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo"; e isto foi feito por Cristo satisfazendo por nós. Ora, um mero homem não poderia ter satisfeito por todo o gênero humano, e Deus não estava obrigado a satisfazer; portanto, convinha que Jesus Cristo fosse simultaneamente Deus e homem. Donde o Papa Leão diz no mesmo sermão: "A fraqueza é assumida pela fortaleza, a baixeza pela majestade, a mortalidade pela eternidade, a fim de que um só e mesmo Mediador de Deus e dos homens pudesse morrer num e ressuscitar no outro — pois este era o nosso remédio adequado. Se não fosse Deus, não teria trazido remédio; e se não fosse homem, não teria dado exemplo."

E há muitos outros benefícios que resultaram, acima da compreensão humana.

Resposta à Objeção 1: Esta razão diz respeito ao primeiro modo de necessidade, sem o qual não podemos alcançar o fim.

Resposta à Objeção 2: A satisfação pode ser dita suficiente de dois modos — primeiro, perfeitamente, enquanto é condigna, sendo adequada para reparar a falta cometida; e deste modo a satisfação de um mero homem não pode ser suficiente pelo pecado, tanto porque toda a natureza humana foi corrompida pelo pecado, enquanto o bem de uma ou várias pessoas não poderia compensar adequadamente o dano causado a toda a natureza; como também porque um pecado cometido contra Deus tem uma certa infinidade pela infinidade da majestade divina, pois quanto maior é a pessoa que ofendemos, mais grave é a ofensa. Portanto, para a satisfação condigna, era necessário que o ato do satisfazente tivesse uma eficiência infinita, como sendo de Deus e homem. Segundo, a satisfação do homem pode ser dita suficiente imperfeitamente — isto é, na aceitação daquele que se contenta com ela, ainda que não seja condigna; e deste modo a satisfação de um mero homem é suficiente. E porquanto todo imperfeito pressupõe algo perfeito, pelo qual é sustentado, daí resulta que a satisfação de todo mero homem tem a sua eficiência a partir da satisfação de Cristo.

Resposta à Objeção 3: Ao assumir a carne, Deus não diminuiu a sua majestade; e, consequentemente, não diminuiu o motivo para O reverenciarmos, que é aumentado pelo aumento do conhecimento dEle. Pelo contrário, enquanto Ele quis aproximar-Se de nós assumindo a carne, muito nos atraiu a conhecê-Lo.

Referência atual: Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica — Terceira Parte, I