Padres e clássicosTertuliano, Sobre a Penitência, Of Heathen Repentance.

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Obra patrística

Sobre a Penitência

Tertuliano · c. 160–225

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Do arrependimento dos pagãos.

I.

Acerca do Arrependimento dos Gentios.

O arrependimento, os homens entendem, quanto a natureza o pode, ser uma comoção da alma que nasce do desgosto que tem de algum sentimento pior anteriormente acarinhado: refiro-me àquela espécie de homens que também nós mesmos éramos em dias passados — cegos, sem a luz do Senhor. Da razão do arrependimento, contudo, estão tão afastados como o estão do próprio Autor da razão. A razão, com efeito, é coisa de Deus, porquanto não há nada que Deus, o Criador de todas as coisas, não haja provido, disposto, ordenado pela razão — nada que Ele não haja querido que fosse tratado e compreendido pela razão. Todos, portanto, os que ignoram a Deus, necessariamente ignoram também o que é Seu, porque nenhum tesouro é acessível a estranhos. E assim, navegando todo o curso universal da vida sem o leme da razão, não sabem como evitar o furacão que paira sobre o mundo. Além disso, quão irracionalmente se comportam na prática do arrependimento, bastará mostrá-lo brevemente por este único fato: que o exercem até mesmo no caso de suas boas ações. Arrependem-se da boa fé, do amor, da singeleza de coração, da paciência, da misericórdia, na mesma proporção em que qualquer ação inspirada por esses sentimentos haja caído em solo ingrato. Amaldiçoam a si mesmos por terem feito o bem; e essa espécie de arrependimento, especialmente a que se aplica às melhores obras, fixam no coração, cuidando em nunca mais tornar a fazer o bem. Pelo contrário, ao arrependimento por más ações impõem menos peso. Em suma, fazem desta mesma (virtude) um meio de pecar mais facilmente do que de obrar retamente.

O verdadeiro arrependimento é uma coisa divina, originada por Deus, e sujeita às suas leis.

Mas se eles agissem como homens que tivessem alguma parte em Deus, e por isso também na razão, primeiro pesariam bem a importância do arrependimento, e nunca o aplicariam de modo a fazer dele um motivo para se convencerem de uma emenda perversa. Em suma, regulariam o limite do seu arrependimento, porque também chegariam a (um limite) no pecar — quero dizer, por temor a Deus. Mas onde não há temor, de igual modo não há emenda; onde não há emenda, o arrependimento é necessariamente vão, porque lhe falta o fruto para o qual Deus o semeou; isto é, a salvação do homem. Pois Deus — depois de tantos e tão grandes pecados da temeridade humana, começados pelo primeiro da raça, Adão, depois da condenação do homem, juntamente com o dote do mundo, após sua expulsão do paraíso e sujeição à morte — quando se apressou a voltar para Sua própria misericórdia, desde então inaugurou o arrependimento em Si mesmo, rescindindo a sentença de Sua primeira ira, comprometendo-Se a conceder perdão à Sua própria obra e imagem. E assim congregou para Si um povo, e o nutriu com muitas liberalidades de Sua generosidade, e, depois de tantas vezes o achar mui ingrato, sempre o exortou ao arrependimento e fez ressoar as vozes de toda a companhia dos profetas para profetizar. Depois, prometendo gratuitamente a graça que nos últimos tempos tencionava derramar como um dilúvio de luz sobre o mundo universal por meio do Seu Espírito, ordenou que o batismo de arrependimento precedesse, com o intuito de preparar primeiro, por meio do sinal e selo do arrependimento, aqueles que Ele estava chamando, pela graça, a (herdar) a promessa certamente feita a Abraão. João não se cala, dizendo: «Entrai pelo arrependimento, porque agora se aproximará a salvação das nações» — o Senhor, isto é, trazendo a salvação segundo a promessa de Deus. A Ele, João, como Seu precursor, dirigiu o arrependimento (que pregava), cuja alçada era a purgação das mentes dos homens, para que toda mácula que o erro inveterado houvesse comunicado, toda contaminação que a ignorância houvesse engendrado no coração do homem, o arrependimento as varresse e raspa, e as lançasse para fora, e assim preparasse a casa do coração, tornando-a limpa, para o Espírito Santo, que estava prestes a sobrevir, a fim de que Ele com prazer aí Se introduzisse, juntamente com Seus bens celestiais. Destes bens, o título é brevemente um — a salvação do homem — sendo a abolição dos pecados anteriores o passo preliminar. Esta é a (última) causa do arrependimento, esta a sua obra, ao tomar a si o negócio da divina misericórdia. O que é proveitoso ao homem serve a Deus. A regra do arrependimento, contudo, que aprendemos quando conhecemos o Senhor, retém uma forma definida — a saber, que nunca se ponham mãos violentas, por assim dizer, sobre boas ações ou pensamentos. Pois Deus, nunca dando Sua sanção à reprovação das boas obras, porquanto são Suas próprias (das quais, sendo o autor, deve necessariamente ser também o defensor), é de igual modo o aceitador delas; e, se aceitador, também o recompensador. Veja, pois, a ingratidão dos homens, se anexa arrependimento até às boas obras; veja também a sua gratidão, se o desejo de a merecer é o incentivo para o bem-fazer: terrenas e mortais são ambas. Porque quão pequeno é o teu ganho se fazes o bem a um homem grato! ou a tua perda se a um ingrato! Uma boa ação tem a Deus como devedor, assim como uma má também; porque o juiz é recompensador de toda causa. Ora, visto que Deus, como Juiz, preside à exigência e manutenção da justiça, que Lhe é caríssima; e visto que é de olho na justiça que Ele dispõe toda a soma da Sua disciplina, há lugar para duvidar que, assim como em todos os nossos atos universalmente, também no caso do arrependimento, se deva render justiça a Deus? — dever que, na verdade, só pode ser cumprido sob a condição de que o arrependimento se aplique apenas aos pecados. Além disso, nenhuma ação, senão a má, merece ser chamada pecado, nem ninguém erra por bem-fazer. Mas se não erra, por que invade (a província do) arrependimento, o terreno privado dos que erram? Por que impõe à sua bondade um dever próprio da maldade? Assim acontece que, quando uma coisa é posta em prática onde não deve, ali, onde deve, é negligenciada.

Referência atual: Tertuliano, Sobre a Penitência, Of Heathen Repentance.