Obra patrística
Tratado sobre a Alma
Tertuliano · c. 160–225
It is Not to the Philosophers that We Resort for Information About the Soul But to God.–The Soul's Vitality and Intelligence. Its Character and Seat in Man.
Não é aos filósofos que recorremos em busca de informação sobre a alma, mas a Deus.
IX.
UM TRATADO SOBRE A ALMA.
[Traduzido por Peter Holmes, D.D.]
CAPÍTULO I.—Não é aos Filósofos que Recorremos para Obter Informação Acerca da Alma, mas a Deus.
Tendo discutido com Hermógenes o único ponto da origem da alma, até onde a sua suposição me levou, a saber, que a alma consistia antes numa adaptação da matéria do que na inspiração de Deus, volto-me agora para as outras questões incidentais ao assunto; e (no meu tratamento destas) terei evidentemente de contender principalmente com os filósofos. No próprio cárcere de Sócrates eles escaramuçavam acerca do estado da alma. Duvido imediatamente se a ocasião era oportuna para o seu (grande) mestre — (para não falar do lugar), embora isso talvez não importe muito. Pois o que poderia a alma de Sócrates então contemplar com clareza e serenidade? A sacra nau voltara (de Delos), a taça de cicuta a que fora condenado já estava bebida, a morte estava agora presente diante dele; (a sua mente) estava, como se pode supor, naturalmente excitada por toda a emoção; ou, se a natureza perdera a sua influência, devia ter sido privada de todo o poder de pensamento. Ou, seja ela tão plácida e tranquila quanto queiras, inflexível, apesar das reivindicações do dever natural, perante as lágrimas daquela que tão cedo seria sua viúva, e à vista dos seus filhos doravante órfãos, contudo a sua alma deve ter sido movida até pelos seus próprios esforços para suprimir a emoção; e a sua própria constância deve ter sido abalada, enquanto lutava contra a perturbação da agitação ao redor. Além disso, que outros pensamentos poderia qualquer homem, que tinha sido injustamente condenado a morrer, ter, senão os que o consolassem pela injúria que lhe fora feita? Especialmente seria este o caso com aquela criatura gloriosa, o filósofo, para quem o tratamento injurioso não sugeriria um anseio por consolação, mas antes o sentimento de ressentimento e indignação. Por conseguinte, depois da sua sentença, quando a sua mulher veio a ele com o seu grito efeminado: «Ó Sócrates, és injustamente condenado!» ele pareceu já encontrar alegria em responder: «Querias então que eu fosse justamente condenado?» Não é, portanto, de admirar, se mesmo no seu cárcere, por um desejo de quebrar as mãos sórdidas de Anito e Meleto, ele, em face da própria morte, afirma a imortalidade da alma por uma forte suposição, como era necessária para frustrar o mal (que lhe haviam infligido). De modo que toda a sabedoria de Sócrates, naquele momento, procedeu da afetação de uma compostura assumida, antes do que da firme convicção da verdade averiguada. Pois por quem foi alguma vez descoberta a verdade sem Deus? Por quem foi alguma vez encontrado Deus sem Cristo? Por quem foi alguma vez Cristo explorado sem o Espírito Santo? Por quem foi alguma vez o Espírito Santo alcançado sem o misterioso dom da fé? Sócrates, como ninguém pode duvidar, foi movido por um espírito diferente. Pois dizem que um demônio se apegou a ele desde a sua meninice — o pior mestre decerto, não obstante o lugar elevado que lhe é atribuído pelos poetas e filósofos — mesmo ao lado (ou melhor, juntamente) dos próprios deuses. Os ensinamentos do poder de Cristo ainda não haviam sido dados — (esse poder) que só pode confutar esta influência perniciosíssima do mal que nada tem de bom, mas é antes o autor de todo o erro, e o sedutor de toda a verdade. Ora, se Sócrates foi proclamado o mais sábio dos homens pelo oráculo do demônio pítico, que, bem podes crer, manejou habilmente o negócio em favor do seu amigo, de quanta maior dignidade e constância é a afirmação da sabedoria cristã, diante do cujo fôlego toda a hoste de demônios se dispersa! Esta sabedoria da escola do céu nega franca e irrestritamente os deuses deste mundo, e não mostra tal inconsistência como ordenar que "se sacrifique um galo a Esculápio": não introduz novos deuses e demônios, mas expulsa os velhos; não corrompe a juventude, mas instrui-os em toda a bondade e moderação; e assim sofre a condenação injusta não de uma só cidade, mas de todo o mundo, pela causa daquela verdade que incorre decerto no maior ódio na proporção da sua plenitude: de modo que prova a morte não de um copo (envenenado) quase por modo de jocosidade; mas esgota-a em toda a espécie de amarga crueldade, em forcas e em holocaustos. Entretanto, no ainda mais sombrio cárcere do mundo entre os vossos Cebes e Fédons, em toda a investigação acerca da alma (do homem), dirige a sua indagação segundo as regras de Deus. De todo modo, não podeis mostrar-nos mais poderoso expositor da alma do que o Autor dela. De Deus podes aprender acerca daquilo que tens de Deus; mas de nenhum outro obterás este conhecimento, se não o obtiveres de Deus. Pois quem há de revelar o que Deus escondeu? A essa fonte devemos recorrer nas nossas indagações, de onde é mais seguro até mesmo derivarmos a nossa ignorância. Porque é realmente melhor para nós não sabermos uma coisa, porque Ele não no-la revelou, do que sabê-la segundo a sabedoria humana, porque alguém foi ousado o suficiente para a assumir.
O cristão tem conhecimento certo e simples acerca do assunto em questão.
Por certo, não negaremos que os filósofos hajam por vezes pensado as mesmas coisas que nós. O testemunho da verdade é o resultado disso. Acontece às vezes, até mesmo em uma tempestade, quando os limites do céu e do mar se perdem na confusão, que algum porto é topado (pela nau laboriosa) por algum feliz acaso; e, às vezes, nas próprias trevas da noite, por obra da cega sorte apenas, alguém encontra acesso a um lugar, ou saída dele. Na natureza, contudo, a maioria das conclusões é sugerida, por assim dizer, por aquela inteligência comum com que Deus se dignou dotar a alma do homem. Esta inteligência foi captada pela filosofia e, com o intuito de glorificar a sua própria arte, foi inflada (não é de admirar que eu use esta linguagem) com o esforço por aquela facilidade de linguagem que se pratica na edificação e na demolição de tudo, e que tem maior aptidão para persuadir os homens falando do que ensinando. Ela atribui às coisas suas formas e condições; ora as torna comuns e públicas, ora as apropria ao uso privado; sobre as certezas, estampa caprichosamente o caráter de incerteza; apela para precedentes, como se todas as coisas pudessem ser comparadas entre si; descreve todas as coisas por regra e definição, distribuindo propriedades diversas até mesmo a objetos semelhantes; nada atribui à permissão divina, mas assume como seus princípios as leis da natureza. Toleraria eu as suas pretensões, se ao menos ela mesma fosse fiel à natureza e me provasse que tinha domínio sobre a natureza, como associada à sua criação. Pensou, sem dúvida, que estava derivando seus mistérios de fontes sagradas, como os homens as consideram, porque nos tempos antigos a maioria dos autores era suposta (não direi divina, mas) na verdade deuses: como, por exemplo, o Mercúrio egípcio, a quem Platão prestou grandíssima reverência; e o Sileno frígio, a quem Midas emprestou suas longas orelhas, quando os pastores o trouxeram a ele; e Hermótimo, a quem os bons cidadãos de Clazômenas ergueram um templo após sua morte; e Orfeu; e Museu; e Ferécides, o mestre de Pitágoras. Mas por que nos importar, visto que esses filósofos também têm atacado aqueles escritos que são por nós condenados sob o título de apócrifos, certos como estamos de que nada deve ser recebido que não concorde com o verdadeiro sistema da profecia, que surgiu nesta presente idade? Porque não nos esquecemos de que houve falsos profetas e, muito antes deles, espíritos decaídos, que instruíram todo o tom e aspecto do mundo com o astuto conhecimento deste (filosófico) teor? Não é, de fato, incrível que qualquer homem que está em busca de sabedoria tenha ido tão longe, por curiosidade, a ponto de consultar os próprios profetas; (mas seja como for), se tomardes os filósofos, neles achareis mais diversidade que concordância, visto que até mesmo na sua concordância a sua diversidade é descoberta. Quaisquer coisas que são verdadeiras em seus sistemas e concordes com a sabedoria profética, eles ou as recomendam como emanando de alguma outra fonte, ou as aplicam perversamente em algum outro sentido. Este processo é acompanhado de grandíssimo detrimento para a verdade, quando fingem que ela é ajudada pela falsidade, ou que a falsidade deriva apoio dela. A seguinte circunstância deve necessariamente ter posto a nós e aos filósofos em desavença, especialmente nesta presente matéria: que eles ora revestem sentimentos que são comuns a ambos os lados com argumentos que lhes são peculiares, mas contrários em alguns pontos à nossa regra e padrão de fé; e ora defendem opiniões que são especialmente suas com argumentos que ambos os lados reconhecem como válidos, e ocasionalmente conformes ao seu sistema de crença. A verdade, a este passo, foi quase excluída pelos filósofos, por meio dos venenos com que a infectaram; e assim, se consideramos ambos os modos de coalizão que agora mencionamos, e que são igualmente hostis à verdade, sentimos a necessidade urgente de libertar, por um lado, os sentimentos que sustentamos em comum com eles dos argumentos dos filósofos, e de separar, por outro lado, os argumentos que ambas as partes empregam das opiniões dos mesmos filósofos. E isto podemos fazer remetendo todas as questões ao padrão inspirado de Deus, com a óbvia exceção de casos tão simples que, estando livres do emaranhado de quaisquer conceitos preconcebidos, se possam admitir justamente com base em mero testemunho humano; porque provas evidentes desta espécie às vezes devemos tomar emprestado dos oponentes, quando nossos oponentes nada têm a ganhar com elas. Ora, não ignoro quão vasta massa de literatura os filósofos acumularam acerca da matéria presente, em seus próprios comentários sobre ela — quantas diversas escolas de princípios há, quantos conflitos de opinião, quão fecundas fontes de questões, quão perplexos métodos de solução. Além disso, examinei também a Ciência Médica, a irmã (como dizem) da Filosofia, que reivindica como sua função curar o corpo e, por isso, ter um conhecimento especial da alma. Desta circunstância, ela tem grandes diferenças com sua irmã, pretendendo esta última saber mais acerca da alma, através do tratamento mais óbvio, por assim dizer, dela em seu domicílio do corpo. Mas não importa toda esta contenda entre elas pela preeminência! Pois, ao estenderem suas respectivas pesquisas sobre a alma, a Filosofia, por um lado, gozou do pleno escopo de seu gênio; enquanto a Medicina, por outro lado, possuiu as exigências rigorosas de sua arte e prática. Amplas são as investigações dos homens sobre as incertezas; mais amplas ainda são suas disputas sobre conjeturas. Por maior que seja a dificuldade de aduzir provas, o trabalho de produzir convicção não é nem um pouco menor; de modo que o sombrio Heráclito tinha toda razão quando, observando a espessa escuridão que obscurecia as pesquisas dos inquiridores acerca da alma, e cansado de suas intermináveis questões, declarou que certamente não explorara os limites da alma, embora tivesse percorrido todos os caminhos de seus domínios. Ao cristão, contudo, poucas palavras são necessárias para o claro entendimento de toda a matéria. Mas nas poucas palavras sempre surge a certeza para ele; nem lhe é permitido dar às suas investigações uma amplitude maior do que a compatível com a sua solução; porque "questões intermináveis" o apóstolo proíbe. Deve-se, todavia, acrescentar que nenhuma solução pode ser achada por homem algum, senão a que é aprendida de Deus; e o que é aprendido de Deus é a soma e a substância de toda a coisa.
A origem da alma definida pelas simples palavras da Escritura.
Prouvera a Deus que nunca houvera sido necessário “heresias, para que os que são aprovados se tornem manifestos”! Nunca seríamos então obrigados a provar as nossas forças em contendas acerca da alma com os filósofos, esses patriarcas dos hereges, como com justiça se lhes pode chamar. O apóstolo, já no seu tempo, previu, na verdade, que a filosofia violentamente danificaria a verdade. Esta admoestação acerca da falsa filosofia foi ele levado a oferecer depois de ter estado em Atenas, de ter conhecido aquela cidade loquaz, e de ter ali provado os seus sabichões e tagarelas mercadores. De igual modo se trata a alma segundo as doutrinas sofísticas dos homens que “misturam o seu vinho com água”. Uns negam a imortalidade da alma; outros afirmam que ela é imortal e algo mais. Uns levantam disputas acerca da sua substância; outros acerca da sua forma; outros, ainda, acerca de cada uma das suas várias faculdades. Uma escola de filósofos deriva o seu estado de várias fontes, enquanto outra atribui a sua partida a diferentes destinos. As várias escolas refletem o caráter dos seus mestres, segundo receberam as suas impressões da dignidade de Platão, ou do vigor de Zenão, ou da equanimidade de Aristóteles, ou da estupidez de Epicuro, ou da tristeza de Heráclito, ou da loucura de Empédocles. A falta, suponho, está na doutrina divina proceder da Judeia em vez da Grécia. Cristo também errou ao enviar pescadores para pregar, em vez de sofistas. Por conseguinte, quaisquer vapores nocivos que da filosofia exalem, obscurecendo a atmosfera clara e saudável da verdade, cumpre aos cristãos dissipá-los, tanto despedaçando os argumentos tirados dos princípios das coisas — quero dizer, os dos filósofos — como opondo-lhes as máximas da sabedoria celeste — isto é, as que são reveladas pelo Senhor; a fim de que sejam removidos tanto os laços com que a filosofia cativa os gentios, como reprimidos os meios de que a heresia se serve para abalar a fé dos cristãos. Já decidimos um ponto na nossa controvérsia com Hermógenes, como dissemos no princípio deste tratado, quando afirmámos que a alma é formada pelo sopro de Deus, e não da matéria. Apoiámo-nos, mesmo ali, na clara direção da declaração inspirada que nos informa que “o Senhor Deus inspirou no rosto do homem o sopro da vida, e o homem foi feito alma vivente” — por aquela inspiração de Deus, evidentemente. Neste ponto, portanto, nada mais nos cumpre investigar ou avançar. Tem o seu próprio tratado e o seu próprio herege. Considerá-lo-ei como a minha introdução aos outros ramos do assunto.