Padres e clássicosSanto Agostinho, Tratados sobre o Evangelho de João, Capítulo I. 1–5.

Busca integral no Premium. Criar conta

Obra patrística

Tratados sobre o Evangelho de João

Santo Agostinho · c. 354–430

Prévia gratuita

Capítulo I. 1–5.

Capítulo I. 1–5.

PALESTRAS OU TRATADOS SOBRE O EVANGELHO SEGUNDO SANTO JOÃO.

TRATADO I.

Capítulo I. 1–5

1. Quando dou atenção ao que acabamos de ouvir da lição apostólica, que "o homem animal não percebe as coisas que são do Espírito de Deus," e considero que na presente assembleia, meus amados, deve necessariamente haver entre vós muitos homens animais, que conhecem apenas segundo a carne, e ainda não conseguem elevar-se à inteligência espiritual, fico em grande dificuldade para saber de que modo, como o Senhor me conceder, eu possa ser capaz de exprimir, ou em minha pequena medida de explicar, aquilo que foi lido do Evangelho: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus;" pois isto o homem animal não percebe. Que fazer então, irmãos? Guardaremos silêncio por esta causa? Por que então se lê, se devemos calar a respeito? Ou por que se ouve, se não for explicado? E por que se explica, se não for entendido? E assim, por outro lado, uma vez que não duvido de que há entre vós alguns que não somente podem recebê-lo quando explicado, mas até compreendê-lo antes que seja explicado, não privarei aqueles que são capazes de recebê-lo, por receio de que minhas palavras se percam nos ouvidos daqueles que não são capazes de recebê-lo. Finalmente, estará presente conosco a misericórdia de Deus, para que porventura haja o suficiente para todos, e cada um receba conforme é capaz, enquanto aquele que fala diz o que lhe é possível. Pois, para falar da matéria como ela é, quem é capaz? Ouso dizer, meus irmãos, talvez nem o próprio João falasse da matéria como ela é, mas também ele apenas como lhe era possível; porque foi homem que falou de Deus, inspirado verdadeiramente por Deus, mas ainda assim homem. Porque foi inspirado, disse algo; se não tivesse sido inspirado, nada teria dito; mas porque homem inspirado, não falou o todo, mas o que um homem pôde falou.

2. Porque este João, caríssimos irmãos, foi um daqueles montes a respeito dos quais está escrito: "Recebam os montes paz para teu povo, e os outeiros justiça." Os montes são almas elevadas, os outeiros almas pequenas. Mas por esta razão recebem os montes paz, para que os outeiros possam receber justiça. Qual é a justiça que recebem os outeiros? A fé; porque "o justo vive de fé." As almas menores, porém, não receberiam fé se as almas maiores, que se chamam montes, não fossem iluminadas pela Sabedoria mesma, para que possam transmitir aos pequeninos o que os pequeninos possam receber; e os outeiros vivem de fé, porque os montes recebem paz. Pelos próprios montes foi dito à Igreja: "Paz seja convosco;" e os montes mesmos ao proclamarem paz à Igreja não se dividiram contra Aquele de quem receberam paz, para que verdadeiramente, não fingidamente, proclamassem paz.

3. Porque há outros montes que causam naufrágio, aos quais, se alguém dirige sua nau, ela é despedaçada. Pois é fácil, quando terra é vista por homens em perigo, fazer uma tentativa como que para a atingir; mas às vezes a terra é vista num monte, e rochas se ocultam sob o monte; e quando alguém se dirige para o monte, cai sobre as rochas, e encontra ali não repouso, mas naufrágio. Assim houve certos montes, e grandes se mostraram entre os homens, e geraram heresias e cismas, e dividiram a Igreja de Deus; mas aqueles que dividiram a Igreja de Deus não eram aqueles montes a respeito dos quais se disse: "Recebam os montes paz para teu povo." Pois de que maneira receberam paz aqueles que romperam a unidade?

Mas aqueles que receberam paz para a proclamá-la ao povo fizeram da própria Sabedoria um objeto de contemplação, na medida em que os corações humanos pudessem compreender aquilo que "o olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem." Se não subiu ao coração do homem, como subiu ao coração de João? Não era João um homem? Ou talvez nem mesmo ao coração de João tenha subido, mas o coração de João tenha subido a ele? Pois aquilo que sobe ao coração do homem vem de baixo, para o homem; mas aquilo a que sobe o coração do homem está acima, do homem. Assim também, irmãos, pode-se dizer que, se subiu ao coração de João (se de alguma forma se possa dizer), subiu ao seu coração na medida em que ele não era homem. Que significa "não era homem"? Na medida em que havia começado a ser anjo. Pois todos os santos são anjos, porquanto são mensageiros de Deus. Portanto, aos homens carnais e naturais, que não podem perceber as coisas que são de Deus, que diz o apóstolo? "Porquanto dizeis: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, não sois homens?" O que desejou fazer daqueles a quem repreendeu porque eram homens? Desejais saber o que desejou fazer deles? Ouvi nos Salmos: "Eu disse: Vós sois deuses; e todos vós sois filhos do Altíssimo." A isto, pois, Deus nos chama, para que não sejamos homens. Mas então será melhor que não sejamos homens, se primeiro reconhecermos o fato de que somos homens, a fim de que nos elevemos daquela altura a partir da humildade; não seja que, quando pensemos ser algo, sendo nada, não somente não recebamos o que não somos, mas ainda percamos o que somos.

Portanto, irmãos, também daquelas montanhas era João, que disse: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." Esta montanha havia recebido paz; contemplava a divindade do Verbo. De que sorte era esta montanha? Quão elevada? Havia se elevado acima de todos os cumes da terra, havia se elevado acima de todas as planícies do céu, havia se elevado acima de todas as alturas das estrelas, havia se elevado acima de todos os coros e legiões dos anjos. Pois, a menos que se elevasse acima de todas as coisas que foram criadas, não chegaria àquele por quem todas as coisas foram feitas. Não podes imaginar acima de que se elevou, se não vires aonde chegou. Indagas acerca do céu e da terra? Foram feitos. Indagas acerca das coisas que estão no céu e na terra? Certamente muito mais foram feitas. Indagas acerca dos seres espirituais, acerca dos anjos, arcanjos, tronos, domínios, potestades, principados? Também estes foram feitos. Pois quando o Salmo enumerou todas estas coisas, terminou assim: "Ele falou, e foram feitas; Ele ordenou, e foram criadas." Se "Ele falou e foram feitas," foi pelo Verbo que foram feitas; mas se foi pelo Verbo que foram feitas, o coração de João não poderia chegar àquilo que ele diz, "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus," a não ser que se houvesse elevado acima de todas as coisas que foram feitas pelo Verbo. Que montanha esta! Quão santa! Quão elevada entre aquelas montanhas que receberam paz para o povo de Deus, para que os outeiros recebessem justiça!

Considerai, pois, irmãos, se porventura João não é uma daquelas montanhas de que entoamos há pouco, "Levantei meus olhos para as montanhas, de onde virá meu auxílio." Portanto, meus irmãos, se quereis compreender, levantai vossos olhos para esta montanha, isto é, elevai-vos até o evangelista, ascendei ao seu sentido. Mas, porque ainda que estas montanhas recebam paz, não pode estar em paz quem coloca sua esperança no homem, não levanteis vossos olhos para a montanha de tal forma que penseis que vossa esperança deva ser colocada no homem; e assim dizei, "Levantei meus olhos para as montanhas, de onde virá meu auxílio," para que imediatamente acrescenteis, "Meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra." Portanto levantemos nossos olhos para as montanhas, de onde virá nosso auxílio; e contudo não é nos montes mesmos que nossa esperança deve ser posta, pois os montes recebem o que podem nos ministrar; portanto, de onde também os montes recebem aí deve ser posta nossa esperança. Quando levantamos nossos olhos para as Escrituras, porquanto foi por homens que as Escrituras foram ministradas, estamos levantando nossos olhos aos montes, de onde virá nosso auxílio; mas ainda assim, uma vez que foram homens aqueles que escreveram as Escrituras, eles não brilhavam de si mesmos, mas "Ele era a verdadeira luz, que ilumina a todo homem que vem ao mundo." Um monte também era aquele João Batista, que disse: "Eu não sou o Cristo," para que ninguém, pondo sua esperança no monte, caísse daquele que ilumina o monte. Ele também confessou, dizendo: "Porque da sua plenitude todos nós recebemos." Assim tu deves dizer: "Levantei meus olhos aos montes, de onde virá meu auxílio," de modo a não atribuir aos montes o auxílio que te vem; mas continua e dize: "Meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra."

7. Portanto, irmãos, seja este o resultado de minha admoestação, que compreendais que, ao levantardes vossos corações às Escrituras (quando o evangelho estava soando: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus," e o mais que foi lido), estávais levantando vossos olhos aos montes. Pois se os montes não dissessem estas coisas, vós não encontraríeis de modo algum como pensá-las. Portanto dos montes veio vosso auxílio, que vós mesmo ouvistes destas coisas; mas ainda não podeis compreender o que ouvistes. Clama por socorro ao Senhor, que fez o céu e a terra; pois os montes foram habilitados somente a falar de modo a não iluminarem de si mesmos, porque também eles mesmos são iluminados por ouvirem. Daí João, que disse estas coisas, as recebeu—ele que pousava no seio do Senhor, e do seio do Senhor bebeu o que pudesse nos dar a beber. Mas ele nos deu palavras a beber. Tu deves então receber entendimento da fonte de onde bebeu aquele que te deu a beber; para que levantes teus olhos aos montes de onde virá teu auxílio, para que daí recebas, como que, o cálice, isto é, a palavra, que te é dada a beber; e contudo, uma vez que teu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra, tu possas encher teu peito da fonte de onde ele encheu o seu; donde tu disseste: "Meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra:" deixa então, quem pode, que encha. Irmãos, isto é o que eu disse: Cada um levante seu coração do modo que lhe parece conveniente, e receba o que é falado. Mas talvez digais que sou mais presente a vós do que Deus. Longe de vós tal pensamento! Ele vos é muito mais presente; pois eu apareço a vossos olhos, Ele preside vossas consciências. Dai-me pois vossos ouvidos, a Ele vossos corações, para que enchais ambos. Eis que vossos olhos, e aqueles vossos sentidos corporais, vós levantais a nós; e contudo não a nós, pois não somos daqueles montes, mas ao evangelho mesmo, ao evangelista mesmo: vossos corações, porém, ao Senhor para serem enchidos. Além disso, cada um se levante de modo a ver o que levanta, e para onde. Que quero eu dizer ao dizer: "o que levanta, e para onde?" Veja ele bem o que sorte de coração levanta, porque é ao Senhor que o levanta, para que, carregado por um peso de deleite carnal, não caia antes mesmo de ser levantado. Mas cada um vê que carrega um fardo de carne? Esforce-se pela continência em purificar aquilo que pode levantar a Deus. Pois "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus."

8. Mas vejamos que vantagem têm estas palavras que soaram: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." Também proferimos palavras quando falamos. Era tal palavra essa que estava com Deus? Não soaram e passaram as palavras que proferimos? Soou, pois, a Palavra de Deus e teve fim? Se assim é, como foram todas as coisas feitas por ela, e sem ela nada foi feito? como é que o que ela criou é governado por ela, se soou e passou? Qual é, portanto, essa palavra que é proferida e não passa? Ouvi, meus amados, é grande matéria. Pelo falar cotidiano, as palavras aqui nos tornam-se desprezíveis, porque pelo seu soar e passar são desprezadas, e parecem nada mais que palavras. Mas há uma palavra no próprio homem que permanece dentro; pois o som procede da boca. Há uma palavra que é proferida verdadeiramente de modo espiritual, aquela que vós entendeis do som, não o som mesmo. Notai, eu profiro uma palavra quando digo "Deus." Quão breve a palavra que proferi—quatro letras e duas sílabas! É tudo isto que Deus é, quatro letras e duas sílabas? Ou é aquilo que é significado tão precioso quanto a palavra é ínfima? Que se passou em teu coração quando ouviste "Deus"? Que se passou em meu coração quando disse "Deus"?

Uma certa substância grande e perfeita estava em nossos pensamentos, transcendendo toda criatura mutável da carne ou da alma. E se eu te disser: "É Deus mutável ou imutável?" responderás logo: "Longe de mim crer ou imaginar que Deus seja mutável: Deus é imutável." Tua alma, ainda que pequena, ainda que porventura carnal, não poderia responder-me de outro modo senão que Deus é imutável: mas toda criatura é mutável; como então pudeste entrar, com um vislumbre do teu espírito, naquilo que está acima da criatura, de modo a responderes-me com confiança: "Deus é imutável"? Que é, portanto, aquilo que está em teu coração, quando pensas em certa substância, vivente, eterna, onipotente, infinita, presente em toda parte, inteira em toda parte, em nenhum lugar circunscrita? Quando pensas nestas qualidades, esta é a palavra concernente a Deus em teu coração. Mas é este o som que consiste em quatro letras e duas sílabas? Portanto, tudo quanto é proferido e passa são sons, são letras, são sílabas. Sua palavra que soa passa; mas aquilo que o som significava, e estava no que fala quando pensava, e no que ouve quando entendia, aquilo permanece enquanto os sons passam.

9. Volta tua atenção para aquela palavra. Podes ter uma palavra em teu coração, como que um desígnio nascido em tua mente, de modo que tua mente produz o desígnio; e o desígnio é, por assim dizer, a prole de tua mente, o filho de teu coração. Pois primeiro teu coração produz um desígnio para construir alguma obra, para erguer algo grandioso sobre a terra; já o desígnio está concebido, e a obra ainda não está acabada: vês o que hás de fazer; mas outro não o admira, até que hajas feito e construído o edifício, e trazido aquela obra à forma e à perfeição; então os homens contemplam a obra admirável, e admiram o desígnio do arquiteto; ficam assombrados com o que veem, e aprazem-se com o que não veem: quem há que possa ver um desígnio? Se, pois, por causa de alguma construção grandiosa um desígnio humano recebe louvor, desejas ver qual é um desígnio de Deus — o Senhor Jesus Cristo, isto é, o Verbo de Deus? Repara nesta obra do mundo.

Vê o que foi feito pelo Verbo, e então compreenderás qual é a natureza do mundo. Repara estes dois corpos do mundo, os céus e a terra. Quem desdobrará em palavras a beleza dos céus? Quem desdobrará em palavras a fecundidade da terra? Quem dignamente exaltará as mutações das estações? Quem dignamente exaltará a força das sementes? Vês as coisas que não menciono, para que, ao dar uma longa enumeração, talvez não diga senão menos do que vós mesmos podeis evocar a vossas mentes. Desta obra, portanto, julga a natureza do Verbo pelo qual foi feita: e não apenas desta; pois todas estas coisas se veem, porque dizem respeito ao sentido corpóreo. Por aquele Verbo também foram feitos os anjos;

Referência atual: Santo Agostinho, Tratados sobre o Evangelho de João, Capítulo I. 1–5.