Padres e clássicosSão Gregório Magno, Vida de São Bento (Diálogos, Livro II), I

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Obra patrística

Vida de São Bento (Diálogos, Livro II)

São Gregório Magno · c. 540–604

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I–XX

Introdução

Houve um homem de vida venerável, Bento por nome e graça, que desde a própria infância trouxe o coração de um ancião. Sua conduta, na verdade, ultrapassando a sua idade, não se dava a nenhum divertimento ou prazer, mas, vivendo aqui na terra, desprezou o mundo com toda a sua glória, no tempo em que mais livremente o poderia ter gozado. Nasceu na província de Núrsia de pais honrados e foi enviado a Roma para estudar as ciências liberais. Porém, quando viu ali muitos, pelos caminhos desiguais do vício, precipitarem-se para a própria ruína, retraiu o pé, ainda mal posto no mundo, para que, na busca do conhecimento humano, não caísse também no mesmo perigoso precipício. Desprezando, portanto, o aprendizado e os estudos, e abandonando a casa e os bens de seu pai, desejou somente agradar a Deus numa vida virtuosa. Partiu, pois, sabiamente ignorante e doutamente indouto. Não alcancei tudo o que este homem fez, mas as poucas coisas que aqui relato me foram narradas por quatro dos seus discípulos: a saber, Constantino, varão muito reverendo, que o sucedeu no governo do Mosteiro; Valentiniano, que por muitos anos governou o Mosteiro de Latrão; Simplício, que foi o terceiro superior daquela congregação depois dele; e Honorato, que ainda governa o Mosteiro que ele primeiro habitou.

Capítulo I.

Tendo já Bento deixado as escolas, resolveu dirigir-se ao deserto, acompanhado apenas pela sua ama, que ternissimamente o amava. Chegando, pois, a um lugar chamado Affile, e permanecendo algum tempo na Igreja de São Pedro pelo caridoso convite de muitas pessoas virtuosas que ali viviam por devoção, aconteceu que a sua ama tomou emprestada de uma vizinha uma peneira para limpar trigo, a qual, deixada descuidadamente sobre a mesa, foi achada partida em dois pedaços. Portanto, ao voltar e encontrá-la partida, começou a chorar amargamente, por ser somente emprestada. Mas o piedoso e devoto menino Bento, vendo a sua ama lamentar-se, moveu-se de compaixão e, tomando consigo os dois pedaços da peneira quebrada, com lágrimas se entregou à oração, a qual, mal terminada, achou a peneira inteira, e não encontrou sinal algum de que houvera sido quebrada. Então, imediatamente, restituiu a peneira que fora quebrada, inteira, à sua ama, para seu grande consolo. Este fato foi divulgado a todos os que ali viviam ao redor, e tão admirado por todos, que os habitantes daquele lugar mandaram pendurar a peneira no pórtico da Igreja, para que não só os presentes, mas toda a posteridade soubesse com quão grandes dons de graça Bento fora dotado desde o princípio da sua conversão. A peneira permaneceu para ser vista por muitos anos depois, e esteve pendurada sobre a porta da Igreja até os tempos dos Lombardos.

Mas Bento, mais desejoso de sofrer aflições do que cobiçoso de louvor, e antes querendo sofrer trabalhos pela honra de Deus do que ser exaltado com os favores deste mundo, fugiu secretamente da sua ama para um lugar remoto no deserto chamado Subíaco, distante cerca de quarenta milhas de Roma, no qual uma fonte, brotando águas frescas e cristalinas, se estende primeiro num largo lago e, correndo mais adiante com aumento de águas, torna-se finalmente um rio. Enquanto viajava para este lugar, um certo monge chamado Romano encontrou-o e perguntou-lhe para onde ia. Tendo compreendido a sua intenção, tanto a manteve secreta como lhe prestou ajuda; mais ainda, deu-lhe um hábito religioso e o assistiu em todas as coisas. O homem de Deus, chegado a este lugar, viveu por espaço de três anos numa obscura caverna, desconhecido de qualquer homem, exceto do monge Romano, que vivia não longe dali num Mosteiro governado pelo Padre Deodato. Mas ele piedosamente furtava-se e, em certos dias, trazia a Bento um pão que poupara da sua própria ração. Porém, não havendo caminho para a caverna desde a cela de Romano, por causa de uma rocha íngreme e alta que sobre ela pendia, Romano costumava baixar o pão por uma longa corda, à qual também atava um pequeno sino, para que, ao som dele, o homem de Deus soubesse que Romano lhe trazia o pão e, saindo, o recebesse. Mas o antigo inimigo, invejando a caridade de um e o refrigério do outro, quando num certo dia viu o pão assim baixado, atirou uma pedra e quebrou o sino. Não obstante, Romano depois não deixou de o auxiliar da melhor maneira que pôde. Ora, quando aprouve a Deus Todo-Poderoso que Romano descansasse dos seus trabalhos, e que a vida de Bento se manifestasse ao mundo para exemplo de todos os homens, para que a candeia colocada sobre o candelabro brilhasse e desse luz a toda a Igreja de Deus, nosso Senhor dignou-se aparecer a um certo Sacerdote que vivia longe, que havia preparado o seu jantar para o Dia de Páscoa, dizendo-lhe: “Preparaste boa ceia para ti, e o meu servo em tal lugar está faminto de fome.” O qual, levantando-se logo, e no solene dia de Páscoa foi em direção ao lugar com a comida que para si havia preparado, onde, buscando o homem de Deus entre rochedos escarpados, vales sinuosos e covas profundas, encontrou-o escondido numa caverna. Então, após as orações e a bênção ao Senhor Todo-Poderoso, sentaram-se e, depois de algum colóquio espiritual, disse o Sacerdote: “Levanta-te, e tomemos a nossa refeição, pois este é o Dia de Páscoa.” Ao que o homem de Deus respondeu: “Sei que é Páscoa, porque achei tanta graça que te vejo.” (Pois, não tendo por muito tempo conversado com homens, não sabia que era o Dia de Páscoa.) O bom Sacerdote, portanto, afirmou-o de novo, dizendo: “Verdadeiramente este é o dia da Ressurreição do Senhor, e por isso não convém que guardes abstinência, e para isto fui enviado, para que comamos juntos o que Deus Todo-Poderoso nos concedeu.” Pelo que, bendizendo a Deus, puseram-se a comer. Terminado o seu discurso e a ceia, o Sacerdote voltou para a sua Igreja.

Pelo mesmo tempo, certos pastores encontraram-no escondido numa caverna; os quais, ao primeiro, avistando-o entre os arbustos, vestido com peles de animais, julgaram-no algum animal feroz, mas depois, conhecendo-o por servo de Deus, muitos deles se converteram da sua vida selvagem à virtude. Por este meio, começou o seu nome a tornar-se famoso na região, e muitos a ele recorriam, trazendo-lhe os necessários para o corpo, enquanto recebiam dos seus lábios o alimento da vida.

Capítulo II.

O santo homem estando um certo dia sozinho, o tentador estava à mão; pois um pequeno pássaro preto, comumente chamado melro, começou a voar ao redor do seu rosto, e tão perto que o santo homem, se quisesse, o poderia ter apanhado com a mão; mas mal fez o sinal da cruz, o pássaro desapareceu. Quando logo uma tão grande tentação carnal o assaltou, como o santo homem nunca antes sentira igual. Pois a lembrança de uma mulher que algum tempo vira foi tão vivamente representada à sua fantasia pelo espírito maligno, e tão veementemente a sua imagem inflamou o seu peito com desejos lascivos, que, quase vencido pelo prazer, decidia deixar o ermo. Porém, subitamente assistido pela graça divina, voltou a si e, vendo perto de si um matagal cheio de urtigas e espinheiros, lançou fora as suas vestes e atirou-se nu no meio daqueles agudos espinhos e urtigas, onde se revolveu por tanto tempo que, ao levantar-se, todo o seu corpo estava lastimosamente rasgado; assim, pelas feridas da carne, curou as da alma, convertendo o prazer em dor; e pela veemência dos tormentos exteriores extinguiu a chama ilícita que ardia dentro, vencendo o pecado mudando o fogo. Após o que, como ele mesmo relatou aos seus discípulos, ficou tão livre da mesma tentação, que nunca mais sentiu nenhum tal movimento.

Muitos depois disto começaram a abandonar o mundo e a apressar-se para se colocar sob o seu governo. Estando agora inteiramente livre do vício, mereceu dignamente ser feito mestre da virtude. Como é ordenado por Moisés que os Levitas sirvam desde os vinte e cinco anos para cima, e depois dos cinquenta anos sejam designados para guardar os vasos sagrados.

PEDRO.

Já entendi alguma coisa deste testemunho alegado, contudo peço que me o torneis mais claro.

GREGÓRIO.

É manifesto, Pedro, que na juventude as tentações da carne são grandes, mas depois dos cinquenta anos o calor natural se entibia; ora, as almas dos bons homens são os vasos sagrados. Portanto, enquanto os eleitos estão em tentação, é necessário que vivam sob obediência e se cansem com trabalhos; mas quando, por causa da idade, o fervor das tentações se aplaca, são ordenados guardas dos vasos sagrados, isto é, tornam-se instrutores de almas.

PEDRO.

Confesso que o que dizeis me deu plena satisfação, e portanto, sendo este lugar da Escritura claramente exposto, peço-vos que prossigais com a vida do santo homem que começastes.

Referência atual: São Gregório Magno, Vida de São Bento (Diálogos, Livro II), I