Leitura orante

Lectio divina: como fazer a leitura orante com os Padres da Igreja

Um método antigo e simples: ler o Evangelho, meditar com a tradição, orar e contemplar.

O que é a lectio divina

Lectio divina — “leitura divina”, leitura orante — é o modo como os monges sempre leram a Escritura: não para vencer páginas, mas para encontrar Deus no texto. A prática é anterior a qualquer método; já Orígenes, no século III, recomendava ler a Escritura com atenção e oração, e a Regra de São Bento reservava horas do dia para essa leitura.

Foi um monge cartuxo do século XII, Guigo II, quem descreveu os quatro degraus que usamos até hoje. Na sua imagem, eles formam uma escada dos monges que sobe da terra ao céu: a leitura (lectio) busca, a meditação (meditatio) encontra, a oração (oratio) pede, a contemplação (contemplatio) saboreia. Nenhum degrau exige erudição — exigem tempo, silêncio e um texto aberto.

O que muda quando a lectio é feita com os Padres da Igreja? A meditação deixa de depender só da nossa imaginação. Ler o comentário de um Agostinho ou de um Crisóstomo sobre o mesmo versículo é meditar em companhia — a mesma página, lida por quem a viveu antes de nós.

Os quatro passos

Passo 1

Lectio · ler

Leia o texto devagar, mais de uma vez, sem pressa de entender tudo. A pergunta deste passo é simples: o que o texto diz? Repare nas palavras que se repetem, nos gestos, em quem fala e com quem.

Na Aurea: abra o Evangelho do dia e leia a perícope inteira antes de qualquer comentário. O texto vem sempre com a referência e, quando disponível, a tradução indicada.

Passo 2

Meditatio · meditar

Rumine o que leu: o que o texto diz para mim, hoje? É aqui que a tradição entra — os Padres da Igreja passaram a vida fazendo exatamente esta pergunta diante de cada versículo, e as respostas deles alargam a nossa.

Na Aurea: a meditação é feita com os Padres. Logo abaixo do Evangelho estão os comentários da Catena Aurea — leia duas ou três vozes e deixe que elas mostrem o que você não tinha visto.

Passo 3

Oratio · orar

Responda a Deus com as suas palavras. O que a leitura despertou — gratidão, pedido de perdão, um desejo, uma pergunta — vira oração dirigida a Ele, sem fórmula obrigatória.

Na Aurea: guarde a frase que mais tocou você (o botão de salvar existe para isso) e transforme-a em oração: repita-a, responda a ela, peça o que ela pede.

Passo 4

Contemplatio · contemplar

Fique em silêncio diante de Deus, sem buscar mais ideias. A contemplação não se fabrica: é dom. O que cabe a nós é o tempo oferecido e o coração quieto.

Na Aurea: feche a tela. A leitura orante termina fora dela — num minuto de silêncio, e na resolução concreta que você leva para o dia.

Um exemplo real: Jo 1, 1-18

Tome Jo 1, 1-18 como exercício. Primeiro a lectio: leia a passagem inteira, devagar. Depois a meditatio, em companhia dos Padres — dois exemplos do que eles viram nesse texto:

Anos, séculos, idades são transpostos; ponde qual princípio quiserdes em vossa imaginação, não o alcançais no tempo, pois Aquele de Quem ele deriva, ainda era.

Santo Hilário de Poitiers · Hilarius de Trin · séc. IV

Este Verbo não é um verbo humano. Pois como haveria um verbo humano no princípio, quando o homem recebeu o seu ser por último? Não havia, então, palavra alguma de homem no princípio, nem tampouco dos…

São Basílio Magno · séc. IV

Agora a oratio: responda ao que leu — uma frase basta. E a contemplatio: um minuto de silêncio antes de voltar ao dia.

Ler Jo 1, 1-18 com a catena completa →

Comece hoje

O Evangelho do dia já vem pronto para a lectio: o texto, os Padres e as fontes.

Fazer a lectio com o Evangelho de hoje →