Encíclica
Rerum Novarum
Leão XIII
§59 – §64
§59
Tais regras e regulamentos, se obedecidos de boa vontade por todos, assegurarão suficientemente o bem-estar dos menos abastados; enquanto tais associações mútuas entre católicos certamente hão de produzir, em não pequeno grau, prosperidade para o Estado. Não é temerário conjecturar o futuro a partir do passado. A idade cede lugar à idade, mas os acontecimentos de um século são maravilhosamente semelhantes aos de outro, pois são dirigidos pela providência de Deus, que governa o curso da história conforme os seus desígnios ao criar o gênero humano. Conta-se que foi lançado como opróbrio aos cristãos nos primeiros tempos da Igreja que a maior parte deles vivia de esmola ou do trabalho. No entanto, embora desprovidos de riqueza e influência, acabaram por conquistar a seu favor o favor dos ricos e a benevolência dos poderosos. Mostraram-se laboriosos, diligentes, assíduos e pacíficos, regidos pela justiça e, sobretudo, unidos pelo amor fraterno. Diante de tal modo de vida e de tal exemplo, o preconceito cedeu lugar, a língua da malevolência se calou, e as lendas mentirosas da superstição antiga pouco a pouco cederam à verdade cristã.
§60
§ 60. — Ora, a condição das classes operárias é, no momento, a questão premente do tempo, e nada pode ser de maior interesse para todas as classes do Estado do que ela seja resolvida de modo reto e razoável. Mas será fácil aos operários cristãos resolvê-la acertadamente se formarem associações, escolherem guias sábios e seguirem o caminho que, com tanto proveito para si e para o bem comum, trilharam seus pais antes deles. É verdade que o preconceito é poderoso, e também o é a cobiça do dinheiro; mas, se o senso do justo e do direito não for deliberadamente sufocado, seus concidadãos certamente serão conquistados por um sentimento de benevolência para com homens que veem seriamente empenhados em seu trabalho e que preferem tão inequivocamente a retidão ao mero lucro, e a santidade do dever a qualquer outra consideração.
§61
E maior vantagem adviria ainda do estado de coisas que descrevemos: haveria tanto mais motivo de esperança, e até probabilidade, de trazer de volta ao senso do dever aqueles operários que ou abandonaram inteiramente a fé, ou cujas vidas estão em desacordo com os seus preceitos. Tais homens sentem, na maioria dos casos, que foram iludidos por promessas vãs e enganados por falsos pretextos. Não podem deixar de perceber que os seus patrões ambiciosos os tratam não raro com grande desumanidade e pouco se importam com eles além do lucro que o seu trabalho traz; e, se pertencem a alguma associação, é provavelmente uma na qual, em vez de caridade e amor, reina aquela discórdia interna que sempre acompanha a pobreza quando inconformada e sem o amparo da religião. Alquebrados de espírito e exaustos de corpo, quantos deles se libertariam de bom grado desse jugo opressivo! Mas o respeito humano, ou o temor da fome, os faz tremer ao dar o passo. Para tais, as associações católicas são de incalculável serviço, ajudando-os a sair das suas dificuldades, convidando-os ao companheirismo e recebendo os pródigos que retornam a um porto onde possam encontrar seguro repouso.
§62
Expusemos já diante de vós, veneráveis irmãos, tanto quais são as pessoas como quais os meios pelos quais esta questão tão árdua deve ser resolvida. Cada um ponha mãos à obra que lhe toca, e isso desde já e sem demora, para que o mal, já tão grande, não se torne, pela dilação, absolutamente irremediável. Os que governam os Estados sirvam-se das leis e instituições do país; os patrões e os proprietários abastados lembrem-se do seu dever; a classe operária, cujos interesses estão em jogo, faça todo o esforço lícito e conveniente; e, uma vez que só a religião, como dissemos no princípio, pode valer para destruir o mal pela raiz, todos se persuadam de que o principal necessário é restabelecer os costumes cristãos, fora dos quais todos os planos e expedientes dos mais sábios serão de pouco proveito.
§63
Quanto à Igreja, nunca faltará a sua cooperação, seja qual for o tempo ou a ocasião; e intervirá com tanto maior efeito quanto mais desimpedida for a sua liberdade de ação. Tomem isto seriamente em consideração aqueles a quem incumbe a salvaguarda do bem público. Cada ministro da sagrada religião deve levar para a luta toda a energia do seu espírito e toda a sua capacidade de resistência. Animados pela vossa autoridade, veneráveis irmãos, e estimulados pelo vosso exemplo, não cessem de incutir a todos os homens de todas as classes, tanto aos elevados como aos humildes, as doutrinas evangélicas da vida cristã; por todos os meios ao seu alcance devem esforçar-se por assegurar o bem do povo; e, acima de tudo, devem cultivar ardentemente em si mesmos, e procurar despertar nos outros, a caridade, senhora e rainha das virtudes. Pois os felizes resultados que todos ansiamos devem ser alcançados principalmente pela copiosa efusão da caridade; daquela verdadeira caridade cristã que é o cumprimento de toda a lei evangélica, que está sempre pronta a sacrificar-se pelos outros, e é o mais seguro antídoto do homem contra a soberba mundana e o amor desordenado de si mesmo; daquela caridade cujo ofício é descrito e cujos traços divinos são delineados pelo Apóstolo São Paulo nestas palavras: "A caridade é paciente, é benigna, ... não busca os seus próprios interesses, ... tudo sofre, ... tudo suporta."[41]
§64
A cada um de vós, Veneráveis Irmãos, e ao vosso clero e povo, como penhor da misericórdia de Deus e sinal do Nosso afeto, amorosamente no Senhor concedemos a bênção apostólica. Dado em Roma, junto a São Pedro, aos quinze dias de maio de 1891, décimo quarto ano do Nosso pontificado.