Obra patrística
Carta a Diogneto
Matetes
I–XI
Capítulo I.—Ocasião da epístola.
Vendo-vos, ó excelentíssimo Diogneto, tão desejoso de aprender o modo de adorar a Deus que prevalece entre os cristãos, e inquirindo com muito cuidado e seriedade acerca deles, em que Deus confiam, e que forma de religião observam, de modo que todos desprezam o mundo mesmo e menosprezam a morte, enquanto nem consideram deuses aqueles que pelos gregos são tidos como tais, nem aderem à superstição dos judeus; e qual é a afeição que nutrem entre si; e por que, finalmente, esta nova espécie ou prática [de piedade] apenas agora entrou no mundo, e não há muito tempo; acolho cordialmente este vosso desejo, e suplico a Deus, que nos habilita tanto a falar como a ouvir, que me conceda falar de tal modo que, acima de tudo, eu ouça que fostes edificado, e a vós ouvir de tal modo que eu, que falo, não tenha motivo de arrependimento por o ter feito.
Capítulo II.—A vaidade dos ídolos.
Vinde, pois, depois de vos libertardes de todos os preconceitos que possuírem a vossa mente, e de pordes de lado aquilo a que estais acostumados, como algo que vos pode enganar, e tornando-vos, como que desde o princípio, um homem novo, porquanto, segundo a vossa própria confissão, haveis de ser ouvintes de uma nova doutrina; vinde e contemplai, não somente com os olhos, mas com o entendimento, a substância e a forma daqueles que vós declarais e considerais deuses. Não é um deles uma pedra semelhante àquela sobre a qual pisamos? Não é um segundo bronze, em nada superior àqueles vasos que são fabricados para o nosso uso ordinário? Não é um terceiro madeira, e já podre? Não é um quarto prata, que precisa de um homem para a vigiar, para que não seja roubada? Não é um quinto ferro, consumido pela ferrugem? Não é um sexto barro, em nada mais valioso do que aquele que é formado para os mais humildes fins? Não são todos estes de matéria corruptível? Não são fabricados por meio do ferro e do fogo? Não foi o escultor que deu forma a um deles, o bronzista a um segundo, o ourives a um terceiro e o oleiro a um quarto? Não estava cada um deles, antes de serem formados pelas artes destes artífices na figura destes [deuses], sujeito à mudança, cada um à sua maneira? Não se tornariam aquelas coisas que agora são vasos, formados dos mesmos materiais, semelhantes a tais [deuses], se encontrassem os mesmos artífices? Não poderiam estes, que agora são por vós adorados, ser novamente transformados por homens em vasos semelhantes a outros? Não são todos surdos? Não são todos cegos? Não são todos sem vida? Não são todos destituídos de sentimento? Não são todos incapazes de movimento? Não estão todos sujeitos a apodrecer? Não são todos corruptíveis? A estas coisas chamais deuses; a estas servis; a estas adorais; e vos tornais inteiramente semelhantes a elas. Por esta razão odiais os cristãos, porque eles não julgam serem estas coisas deuses. Mas não lançais vós mesmos, que agora pensais e supondes [serem tais coisas deuses], muito mais desprezo sobre elas do que eles [os cristãos]? Não zombais e insultais muito mais, quando adorais aquelas que são feitas de pedra e barro, sem nomear guardas para as proteger; mas aquelas feitas de prata e ouro encerrais à noite, e nomeais vigias para cuidar delas de dia, para que não sejam roubadas? E com esses dons que pretendeis ofertar-lhes, não as castigais antes [do que as honrais], se elas possuem sentido? Mas se, por outro lado, são destituídas de sentido, vós as convencereis deste fato, enquanto as adorais com sangue e fumo de sacrifícios. Sofra alguém de vós tais indignidades! Suporte alguém de vós que tais coisas lhe sejam feitas! Mas nenhum ser humano, a menos que seja forçado, suportará tal tratamento, visto que é dotado de sentido e razão. Uma pedra, porém, suporta-o prontamente, pois é insensível. Certamente não mostrais [pela vossa conduta] que ele [vosso deus] é dotado de sentido. E quanto ao fato de os cristãos não estarem acostumados a servir a tais deuses, poderia facilmente dizer muitas outras coisas; mas, se mesmo o que foi dito não parece a alguém suficiente, julgo ocioso dizer algo mais.
Capítulo III.—Superstições dos judeus.
E, em seguida, imagino que estejais muito desejoso de ouvir algo sobre este ponto, que os cristãos não observam as mesmas formas de culto divino que os judeus. Os judeus, pois, se se abstêm do gênero de serviço acima descrito, e julgam próprio adorar um só Deus como Senhor de todos, [fazem bem]; mas se Lhe oferecem culto da maneira que descrevemos, erram gravemente. Porque, enquanto os gentios, oferecendo tais coisas aos que são desprovidos de sentido e de ouvido, dão exemplo de loucura; eles, por outro lado, pensando oferecer essas coisas a Deus como se Ele delas necessitasse, poderiam justamente considerá-lo antes um ato de insensatez do que de culto divino. Porque Aquele que fez o céu e a terra, e tudo o que neles há, e nos dá todas as coisas de que necessitamos, certamente não requer nenhuma daquelas coisas que Ele mesmo concede àqueles que pensam em Lhas oferecer. Mas aqueles que imaginam que, por meio de sangue, e do fumo de sacrifícios e holocaustos, Lhe oferecem sacrifícios [aceitáveis], e que por tais honras Lhe mostram respeito, — estes, supondo que podem dar algo Àquele que de nada necessita, parecem-me em nada diferir daqueles que estudadamente conferem a mesma honra a coisas desprovidas de sentido, e que, por isso, são incapazes de gozar tais honras.
Capítulo IV.—As outras observâncias dos judeus.
Mas quanto à sua escrupulosidade acerca das carnes, e à sua superstição a respeito dos sábados, e à sua jactância acerca da circuncisão, e às suas fantasias sobre o jejum e as luas novas, que são totalmente ridículas e indignas de atenção—não penso que precisais aprender algo de mim. Pois, aceitar algumas daquelas coisas que foram formadas por Deus para o uso dos homens como propriamente formadas, e rejeitar outras como inúteis e supérfluas—como pode isto ser lícito? E falar falsamente de Deus, como se nos proibisse de fazer o bem nos dias de sábado—como não é isto ímpio? E gloriar-se na circuncisão da carne como prova de eleição, e como se, por causa dela, fossem especialmente amados por Deus—como não é isto objeto de ridículo? E quanto a observarem meses e dias, como se aguardassem os astros e a lua, e distribuírem, segundo suas próprias inclinações, as determinações de Deus e as vicissitudes das estações, umas para festividades, e outras para luto—quem julgaria isto parte do culto divino, e não antes uma manifestação de loucura? Suponho, pois, que estais suficientemente convencido de que os cristãos devidamente se abstêm da vaidade e do erro comuns [a ambos, judeus e gentios], e do espírito intrometido e da vã jactância dos judeus; mas não deveis esperar aprender o mistério do seu peculiar modo de adorar a Deus de nenhum mortal.
Capítulo V.—Os costumes dos cristãos.
Porque os cristãos não se distinguem dos outros homens nem pelo país, nem pela língua, nem pelos costumes que observam. Pois nem habitam cidades próprias, nem usam de uma linguagem peculiar, nem vivem uma vida assinalada por qualquer singularidade. O modo de conduta que seguem não foi inventado por especulação ou deliberação de homens curiosos; nem, como alguns, se proclamam defensores de doutrinas meramente humanas. Mas, habitando cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um determinou, e seguindo os costumes dos naturais no tocante ao vestuário, à comida e ao resto de sua conduta ordinária, mostram-nos o seu modo de vida admirável e manifestamente notável. Habitam as suas próprias pátrias, mas como peregrinos. Como cidadãos, compartilham de todas as coisas com os outros, e todavia suportam tudo como estrangeiros. Toda terra estrangeira é para eles como pátria, e toda pátria como terra de estranhos. Casam-se, como todos; geram filhos, mas não destroem a prole. Têm mesa comum, mas não leito comum. Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Passam os dias na terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis estabelecidas, e ao mesmo tempo excedem as leis com suas vidas. Amam a todos os homens, e são perseguidos por todos. São desconhecidos e condenados; são mortos e restituídos à vida. São pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e abundam em tudo. São desonrados, e na própria desonra são glorificados. São difamados, e contudo são justificados; são injuriados, e bendizem; são ultrajados, e retribuem a ultrajem com honra; fazem o bem, e são castigados como malfeitores. Quando castigados, regozijam-se como se fossem vivificados; são atacados pelos judeus como estrangeiros, e perseguidos pelos gregos; e os que os odeiam não podem dar nenhuma razão para o seu ódio.
Capítulo VI.—A relação dos cristãos com o mundo.
Para resumir tudo numa só palavra: o que é a alma no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está derramada por todos os membros do corpo, e os cristãos estão espalhados por todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, contudo não é do corpo; e os cristãos habitam no mundo, contudo não são do mundo. A alma invisível é guardada pelo corpo visível, e os cristãos são conhecidos, na verdade, por estarem no mundo, mas a sua piedade permanece invisível. A carne odeia a alma e peleja contra ela, embora ela própria não sofra dano algum, porque é impedida de gozar os prazeres; o mundo também odeia os cristãos, embora em nada ofendido, porque eles renunciam aos prazeres. A alma ama a carne que a odeia, e ama também os seus membros; os cristãos, da mesma sorte, amam os que os odeiam. A alma está encarcerada no corpo, e contudo preserva esse mesmo corpo; e os cristãos estão confinados no mundo como numa prisão, e todavia são os preservadores do mundo. A alma imortal habita num tabernáculo mortal; e os cristãos habitam como peregrinos em corpos corruptíveis, esperando uma morada incorruptível nos céus. A alma, quando mal provida de comida e bebida, torna-se melhor; de igual modo, os cristãos, embora sujeitos dia a dia a castigos, crescem cada vez mais em número. Deus lhes assinalou esta posição ilustre, que lhes seria ilícito abandonar.
Capítulo VII.—A manifestação de Cristo.
Porque, como disse, isto não foi uma mera invenção terrena que lhes foi entregue, nem é um mero sistema humano de opinião, que eles julgam direito preservar tão cuidadosamente, nem uma dispensação de meros mistérios humanos lhes foi confiada, mas o próprio Deus, que é onipotente, o Criador de todas as coisas e invisível, enviou do céu e colocou entre os homens Aquele que é a verdade, e o santo e incompreensível Verbo, e firmemente O estabeleceu nos seus corações. Ele não enviou aos homens, como se poderia imaginar, algum servo, ou anjo, ou príncipe, ou algum daqueles que dominam as coisas terrenas, ou algum daqueles a quem foi confiado o governo das coisas nos céus, mas o próprio Criador e Artífice de todas as coisas — por quem fez os céus — por quem encerrou o mar dentro dos seus devidos limites — cujas ordenanças todas as estrelas fielmente observam — de quem o sol recebeu a medida do seu curso diário para ser observada — a quem a lua obedece, sendo mandada a brilhar na noite, e a quem as estrelas também obedecem, seguindo a lua no seu curso; por quem todas as coisas foram dispostas e colocadas dentro dos seus devidos limites, e a quem todas estão sujeitas — os céus e as coisas que neles há, a terra e as coisas que nela há, o mar e as coisas que nele há — o fogo, o ar e o abismo — as coisas que estão nas alturas, as coisas que estão nas profundezas e as coisas que estão no meio. Este [mensageiro] enviou a eles. Foi, então, como se poderia conceber, com o propósito de exercer tirania, ou de inspirar medo e terror? De modo nenhum, mas sob a influência de clemência e mansidão. Como um rei envia o seu filho, que também é rei, assim O enviou; como Deus O enviou; como a homens O enviou; como Salvador O enviou, e como procurando persuadir-nos, não compelir-nos; porque a violência não tem lugar no caráter de Deus. Como chamando-nos O enviou, não como perseguindo-nos vingativamente; como amando-nos O enviou, não como julgando-nos. Porque ainda O enviará para nos julgar, e quem suportará a Sua aparição? … Não vedes que são expostos às feras, para que sejam persuadidos a negar o Senhor, e contudo não são vencidos? Não vedes que quanto mais são punidos, maior se torna o número dos restantes? Isto não parece ser obra de homem: este é o poder de Deus; estas são as evidências da Sua manifestação.
Capítulo VIII.—O miserável estado dos homens antes da vinda do Verbo.
Porque, qual dos homens, antes da Sua vinda, compreendeu o que Deus é? Aceitais as doutrinas vãs e insensatas daqueles que são tidos por filósofos dignos de crédito? Dos quais uns disseram que o fogo era Deus, chamando Deus àquilo a que eles mesmos brevemente haviam de vir; e outros, a água; e outros, algum outro dos elementos criados por Deus. Ora, se alguma destas teorias fosse digna de aprovação, cada uma das outras coisas criadas poderia também ser declarada Deus. Mas tais declarações são simplesmente as assustadoras e errôneas palavras de enganadores; e nenhum homem O viu, nem O deu a conhecer, mas Ele Se revelou a Si mesmo. E manifestou-Se através da fé, à qual só é dado contemplar a Deus. Porque Deus, o Senhor e Artífice de todas as coisas, que fez todas as coisas e lhes assinalou os seus vários lugares, provou não ser apenas amigo da humanidade, mas também longânimo [no Seu trato com eles]. Sim, Ele foi sempre de tal caráter, e ainda é, e será para sempre, benigno e bom, e isento de ira, e verdadeiro, e o único que é [absolutamente] bom; e formou na Sua mente um grande e inefável desígnio, que comunicou somente ao Seu Filho. Enquanto, pois, manteve e preservou oculto o Seu próprio sábio conselho, parecia descuidar-se de nós e não ter cuidado de nós. Mas depois que revelou e abriu, por meio do Seu amado Filho, as coisas que haviam sido preparadas desde o princípio, conferiu toda a bênção de uma só vez sobre nós, de modo que devêssemos tanto participar dos Seus benefícios, como ver e ser ativos [no Seu serviço]. Qual de nós jamais esperaria estas coisas? Ele estava ciente, pois, de todas as coisas na Sua própria mente, juntamente com o Seu Filho, segundo a relação que entre eles subsiste.
Capítulo IX.—Por que o Filho foi enviado tão tarde.
Enquanto, pois, durou o tempo anterior, permitiu-nos ser levados por impulsos desordenados, sendo arrastados pelo desejo do prazer e várias concupiscências. Isto não era que Ele de modo algum Se deleitasse nos nossos pecados, mas que simplesmente os suportava; nem que aprovasse o tempo de obrar a iniquidade que então havia, mas que procurava formar uma mente consciente da justiça, de modo que, sendo convencidos naquele tempo da nossa indignidade de alcançar a vida pelas nossas próprias obras, nos fosse agora, pela bondade de Deus, concedida; e tendo tornado manifesto que por nós mesmos éramos incapazes de entrar no reino de Deus, fôssemos feitos capazes pelo poder de Deus. Mas quando a nossa maldade tinha atingido o seu auge, e tinha sido claramente mostrado que a sua recompensa, o castigo e a morte, estava iminente sobre nós; e quando tinha chegado o tempo que Deus antes havia designado para manifestar a Sua própria bondade e poder, como o único amor de Deus, por excessivo apreço pelos homens, não nos olhou com ódio, nem nos rejeitou, nem Se lembrou da nossa iniquidade contra nós, mas mostrou grande longanimidade e nos suportou, Ele mesmo tomou sobre Si o peso das nossas iniquidades, deu o Seu próprio Filho como resgate por nós, o Santo pelos transgressores, o Inocente pelos maus, o Justo pelos injustos, o Incorruptível pelos corruptíveis, o Imortal por aqueles que são mortais. Pois que outra coisa era capaz de cobrir os nossos pecados senão a Sua justiça? Por que outro era possível que nós, os maus e ímpios, fôssemos justificados, senão pelo único Filho de Deus? Ó doce troca! Ó operação inescrutável! Ó benefícios que excedem toda a expectativa! que a maldade de muitos fosse escondida num único Justo, e que a justiça de Um justificasse a muitos transgressores! Tendo-nos, portanto, convencido no tempo anterior de que a nossa natureza era incapaz de alcançar a vida, e tendo agora revelado o Salvador que é capaz de salvar mesmo aquelas coisas que era [antes] impossível salvar, por ambos estes factos Ele desejou levar-nos a confiar na Sua bondade, a estimá-Lo como nosso Nutridor, Pai, Mestre, Conselheiro, Médico, nossa Sabedoria, Luz, Honra, Glória, Poder e Vida, de modo que não devêssemos estar ansiosos quanto ao vestuário e ao alimento.
Capítulo X.—As bênçãos que provirão da fé.
Se tu também desejas possuir esta fé, igualmente receberás em primeiro lugar o conhecimento do Pai. Porque Deus amou o gênero humano, por causa do qual fez o mundo, ao qual sujeitou todas as coisas que nele estão, ao qual deu razão e entendimento, ao qual só concedeu o privilégio de olhar para cima para Si mesmo, o qual formou à Sua própria imagem, ao qual enviou o Seu Unigênito Filho, ao qual prometeu um reino nos céus, e o dará aos que O amaram. E quando houveres alcançado este conhecimento, com que gozo pensas que serás cumulado? Ou como amarás Aquele que primeiro te amou de tal maneira? E se O amares, serás imitador da Sua bondade. E não te admires que um homem possa tornar-se imitador de Deus. Pode, se quiser. Porque não é pelo dominar sobre os seus próximos, nem pelo buscar ter supremacia sobre os mais fracos, nem pelo ser rico e usar de violência para com os inferiores, que se encontra a felicidade; nem pode alguém por estas coisas tornar-se imitador de Deus. Mas estas coisas de modo algum constituem a Sua majestade. Pelo contrário, aquele que toma sobre si o peso do seu próximo; aquele que, em qualquer respeito em que seja superior, está pronto a beneficiar outro que é deficiente; aquele que, quaisquer coisas que tenha recebido de Deus, distribuindo-as aos necessitados, se torna um deus para os que recebem os seus benefícios: esse é imitador de Deus. Então verás, ainda na terra, que Deus nos céus rege o universo; então começarás a falar os mistérios de Deus; então amarás e admirarás os que sofrem castigo porque não querem negar a Deus; então condenarás o engano e o erro do mundo quando souberes o que é viver verdadeiramente no céu, quando desprezares o que aqui se tem por morte, quando temeres o que é verdadeiramente morte, a qual está reservada para os que serão condenados ao fogo eterno, o qual afligirá até o fim os que a ele são entregues. Então admirarás os que, por amor da justiça, sofrem o fogo que é por um momento, e os terás por bem-aventurados quando souberes a natureza daquele fogo.
Capítulo XI.—Estas coisas são dignas de serem conhecidas e acreditadas.
Não falo de coisas alheias a mim, nem aspiro a algo contrário à sã razão; mas, tendo sido discípulo dos Apóstolos, tornei-me mestre dos gentios. Ministro as coisas que me foram entregues àqueles que são discípulos dignos da verdade. Pois quem, que é retamente ensinado e gerado pelo amoroso Verbo, não procuraria aprender acuradamente as coisas que foram claramente mostradas pelo Verbo a Seus discípulos, aos quais o Verbo, manifestando-Se, as revelou, falando abertamente, não entendido na verdade pelos incrédulos, mas conversando com os discípulos, que, sendo por Ele considerados fiéis, adquiriram o conhecimento dos mistérios do Pai? Por isso enviou o Verbo, para que fosse manifestado ao mundo; e Ele, sendo desprezado pelo povo, foi, quando pregado pelos Apóstolos, crido pelos gentios. Este é Aquele que desde o princípio era, que apareceu como novo, e foi achado antigo, e contudo sempre renasce nos corações dos santos. Este é Aquele que, sendo desde sempre, é hoje chamado o Filho; por quem a Igreja é enriquecida, e a graça, vastamente difundida, aumenta nos santos, proporcionando entendimento, revelando mistérios, anunciando tempos, alegrando-Se sobre os fiéis, concedendo aos que buscam, por quem os limites da fé não são transgredidos, nem as balizas fixadas pelos pais ultrapassadas. Então o temor da Lei é cantado, e a graça dos profetas é conhecida, e a fé dos Evangelhos é estabelecida, e a tradição dos Apóstolos é preservada, e a graça da Igreja exulta; a qual graça, se não entristecerdes, conhecereis aquelas coisas que o Verbo ensina, por quem quer, e quando Lhe apraz. Pois tudo quanto somos movidos a proferir pela vontade do Verbo que nos ordena, comunicamo-vos com esforço, e por amor das coisas que nos foram reveladas.