Padres e clássicosDidaqué, Didaqué — Doutrina dos Doze Apóstolos, III

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Obra patrística

Didaqué — Doutrina dos Doze Apóstolos

Didaqué

III–III, 17

O ensino dos doze apóstolos.

A Doutrina dos Doze Apóstolos, como é chamada este antigo documento, é uma das mais valiosas relíquias dos tempos apostólicos que nos restaram. Ainda que tenha sido perdida por muitos séculos, sua recente descoberta e publicação nos proporcionam um vislumbre notável da vida e das práticas da Igreja primitiva. O nome mesmo dos Apóstolos confere a este escrito uma autoridade que não pode ser negligenciada. Trata-se de um testemunho vivo do estado da doutrina cristã num período muito antigo, anterior mesmo à composição de alguns dos livros que foram depois incluídos no Novo Testamento. Por todas estas razões, merece ser estudado com toda a diligência e reverência.

Capítulo I.—Os Dois Caminhos; O Primeiro Mandamento

Há dois caminhos, um de vida e outro de morte; mas uma grande diferença entre os dois caminhos. 2. O caminho da vida, pois, é este: Primeiramente, amarás a Deus que te criou; segundo, ao teu próximo como a ti mesmo; e todas as coisas que não querias que te sucedessem, não as faças também a outro. 3. E o ensinamento destas palavras é este: Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos vossos inimigos, e jejuai pelos que vos perseguem. Pois que graça há se amais aos que vos amam? Não fazem também o mesmo os gentios? Mas vós amai aos que vos odeiam; e não tereis inimigo. 4. Abstém-te das concupiscências carnais e mundanas. Se alguém te der uma bofetada na tua face direita, oferece-lhe também a outra; e serás perfeito. Se alguém te levar à força uma milha, vai com ele duas. Se alguém te tirar a tua capa, dá-lhe também a tua túnica. Se alguém te tomar o que é teu, não o peças de volta, pois verdadeiramente não podes. 5. Dá a todo aquele que te pede, e não peças de volta; porque o Pai quer que a todos se dê dos nossos próprios bens (dons gratuitos). Bem-aventurado é aquele que dá conforme o mandamento; pois é inocente. Ai daquele que recebe; porque se alguém tendo necessidade recebe, é inocente; mas aquele que recebe não tendo necessidade, pagará a pena, por quê recebeu e para quê, e, caindo em apertos (confinamento), será examinado sobre as coisas que fez, e não escapará daí enquanto pague o último centavo. 6. Mas também agora acerca disto, foi dito: Que as tuas esmolas transpirem nas tuas mãos, até que saibas a quem deves dar.

Capítulo II.—O segundo mandamento: pecado grave proibido.

1. E o segundo mandamento da Doutrina: 2. Não matarás, não adulterarás, não cometerás pederastia, não fornicarás, não furtarás, não praticarás magia, não farás feitiçaria, não matarás uma criança por aborto, nem matarás o que é gerado. Não cobiçarás as coisas do teu próximo; 3. não te perjurarás, não dirás falso testemunho, não falarás mal, não guardarás rancor. 4. Não serás de ânimo dobre, nem de língua dobre; porque ser de língua dobre é laço de morte. 5. Tua palavra não será falsa, nem vazia, mas cumprida pela ação. 6. Não serás avarento, nem rapace, nem hipócrita, nem malicioso, nem soberbo. Não maquinarás o mal contra o teu próximo. 7. Não odiarás a nenhum homem; mas a alguns repreenderás, e por alguns orarás, e a alguns amarás mais do que a tua própria vida.

Capítulo III.—Outros pecados proibidos.

1. Meu filho, foge de toda coisa má e de toda semelhança dela. 2. Não sejas inclinado à ira, porque a ira conduz ao homicídio; nem invejoso, nem contencioso, nem de ânimo colérico; porque de todas estas coisas se geram os homicídios. 3. Meu filho, não sejas lascivo; porque a lascívia conduz à fornicação; nem falador torpe, nem de olhar altivo; porque de todas estas coisas se geram os adultérios. 4. Meu filho, não sejas observador de presságios, porque isso conduz à idolatria; nem encantador, nem astrólogo, nem purificador, nem queiras atentar para essas coisas; porque de todas elas se gera a idolatria. 5. Meu filho, não sejas mentiroso, porque a mentira conduz ao furto; nem amante do dinheiro, nem vanglorioso; porque de todas estas coisas se geram os furtos. 6. Meu filho, não sejas murmurador, porque a murmuração conduz à blasfêmia; nem obstinado, nem malicioso; porque de todas estas coisas se geram as blasfêmias. 7. Mas sê tu manso, porque os mansos herdarão a terra. 8. Sê longânimo, misericordioso, sem dolo, brando e bom, e sempre treme diante das palavras que ouviste. 9. Não te exaltarás, nem darás demasiada confiança à tua alma. Tua alma não se unirá aos soberbos, mas com os justos e humildes terá seu convívio. 10. As coisas que te sobrevêm, recebe-as como boas, sabendo que, sem Deus, nada acontece.

Capítulo IV.—Vários Preceitos.

1. Filho meu, lembra-te noite e dia daquele que te fala a palavra de Deus; e honrá-lo-ás como ao Senhor; porque onde se profere o ditame do senhorio, aí está o Senhor. 2. E cada dia buscarás a face dos santos, a fim de que descanses sobre as suas palavras. 3. Não desejarás a divisão, mas porás em paz os que contendem. Julgarás com justiça, e não farás acepção de pessoas ao repreender as transgressões. 4. Não serás indeciso se há de ser ou não. 5. Não sejas um que estende as mãos para receber e as recolhe para dar. 6. Se tiveres alguma coisa, pelas tuas mãos darás resgate por teus pecados. 7. Não hesites em dar, nem murmures quando deres; porque saberás quem é o bom remunerador da recompensa. 8. Não desviarás o rosto do necessitado, mas com teu irmão todas as coisas repartirás, e não dirás que são tuas; pois, se sois participantes naquilo que é imortal, quanto mais nas coisas que são mortais? 9. Não retirarás a tua mão de teu filho ou de tua filha, mas desde a sua mocidade os ensinarás o temor de Deus. 10. Não darás ordens com amargura ao teu servo ou à tua serva, que esperam no mesmo Deus, para que não venham a temer a Deus, que é Senhor de ambos; porque Ele não vem para chamar segundo a aparência exterior, mas àqueles que o Espírito preparou. 11. E vós, servos, estareis sujeitos a vossos senhores como a uma figura de Deus, em modéstia e temor. 12. Odiarás toda a hipocrisia e tudo o que não é agradável ao Senhor. 13. De modo nenhum deixarás os mandamentos do Senhor; mas guardarás o que recebeste, sem nada acrescentar nem tirar. 14. Na igreja confessarás as tuas transgressões, e não te aproximarás para a tua oração com má consciência. Este é o caminho da vida.

Capítulo V.—O caminho da morte

E o caminho da morte é este: Primeiramente, é mau e cheio de maldição: homicídios, adultérios, concupiscências, fornicações, furtos, idolatrias, artes mágicas, feitiçarias, rapinas, falsos testemunhos, hipocrisias, duplicidade de coração, engano, soberba, depravação, vontade própria, avareza, conversa obscena, ciúme, presunção, altivez, jactância; perseguidores dos bons, odiando a verdade, amando a mentira, não conhecendo a recompensa da justiça, não se apegando ao bem nem ao juízo justo, não velando pelo que é bom, mas pelo que é mau; dos quais estão longe a mansidão e a paciência, amando as vaidades, buscando a retribuição, não se compadecendo do pobre, não trabalhando pelo aflito, não conhecendo Aquele que os fez, assassinos de crianças, destruidores da obra de Deus, desviando-se do necessitado, afligindo o angustiado, advogados dos ricos, juízes sem lei dos pobres, pecadores consumados. Guardai-vos, filhos, de todas estas coisas.

Capítulo VI.—Contra os falsos mestres, e os alimentos sacrificados aos ídolos

1. Vê que ninguém te faça errar desta via da Doutrina, pois te ensina aparte de Deus. 2. Porque, se podes suportar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; mas, se não podes, o que podes, isso faze. 3. E acerca do alimento, suporta o que podes; mas guarda-te grandemente daquilo que é sacrificado aos ídolos; porque é o culto dos deuses mortos.

Capítulo VII.—Acerca do batismo

1. Quanto ao batismo, assim batizai: Tendo dito primeiro todas estas coisas, batizai em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, em água viva. 2. Mas se não tiverdes água viva, batizai em outra água; e se não puderdes em água fria, em água morna. 3. Porém, se não tiverdes nem uma nem outra, derramai água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. 4. Antes do batismo, jejue o batizador, e o batizado, e quaisquer outros que puderem; mas ordenai ao batizado que jejue um ou dois dias antes.

Capítulo VIII.—Acerca do jejum e da oração (a Oração do Senhor)

1. Mas não jejueis com os hipócritas; porque eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; vós, porém, jejuai no quarto dia e no da Preparação. 2. Nem oreis como os hipócritas; mas como o Senhor ordenou no seu Evangelho, assim orai: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra. O pão nosso de cada dia (necessário) dá-nos hoje; e perdoa-nos a nossa dívida, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do maligno (ou, do mal); porque teu é o poder e a glória para sempre. 3. Três vezes ao dia assim orai.

Capítulo IX.—A ação de graças (Eucaristia)

1. Quanto à Ação de Graças (Eucaristia), dai graças assim. 2. Primeiro, acerca do cálice: Nós vos damos graças, Pai nosso, pela santa videira de Davi, Teu servo, a qual nos fizeste conhecer por Jesus, Teu Servo; a Vós seja a glória para sempre. 3. E acerca do pão partido: Nós vos damos graças, Pai nosso, pela vida e pelo conhecimento que nos fizeste conhecer por Jesus, Teu Servo; a Vós seja a glória para sempre. 4. Assim como este pão partido estava espalhado pelos montes e, sendo recolhido, tornou-se um, assim seja a Vossa Igreja reunida desde os confins da terra no Vosso Reino; porque Tua é a glória e o poder por Jesus Cristo para sempre. 5. Ninguém, porém, coma nem beba da vossa Ação de Graças (Eucaristia), senão os que foram batizados em nome do Senhor; porque acerca disto também disse o Senhor: Não deis o santo aos cães.

Capítulo X.—Oração depois da Comunhão

1. Mas depois de terdes sido saciados, assim dai graças: 2. Nós Te agradecemos, santo Pai, por Teu santo nome, o qual fizeste tabernacular em nossos corações, e pelo conhecimento, fé e imortalidade, que nos revelaste por Jesus Teu Servo; a Ti seja a glória para sempre. 3. Tu, Mestre onipotente, criaste todas as coisas por amor do Teu nome; deste alimento e bebida aos homens para gozo, a fim de que Te dessem graças; mas a nós deste gratuitamente alimento e bebida espiritual e vida eterna por meio de Teu Servo. 4. Antes de todas as coisas Te agradecemos porque és poderoso; a Ti seja a glória para sempre. 5. Lembra-Te, Senhor, da Tua Igreja, para livrá-la de todo mal e aperfeiçoá-la no Teu amor, e congregá-la dos quatro ventos, santificada para o Teu reino que lhe preparaste; pois Teu é o poder e a glória para sempre. 6. Venha a graça, e passe este mundo. Hosana ao Deus (Filho) de Davi! Se alguém é santo, venha; se alguém não o é, arrependa-se. Maran atha. Amém. 7. Permiti, porém, aos profetas que façam ação de graças quanto quiserem.

Capítulo XI.—Acerca dos mestres, apóstolos e profetas

1. Todo aquele, pois, que vier e vos ensinar todas estas coisas que foram ditas antes, recebei-o. 2. Mas se o próprio doutor se desviar e ensinar outra doutrina para destruição desta, não o ouçais; porém, se ensinar de modo a acrescentar a justiça e o conhecimento do Senhor, recebei-o como ao Senhor. 3. E quanto aos apóstolos e profetas, segundo o decreto do Evangelho, assim fazei. 4. Todo apóstolo que vier a vós seja recebido como ao Senhor. 5. Mas não fique senão um dia; e se houver necessidade, também o seguinte; porém, se ficar três dias, é falso profeta. 6. E quando o apóstolo for partir, nada tome senão pão até que se hospede; mas se pedir dinheiro, é falso profeta. 7. E a todo profeta que fala no Espírito nem o provareis nem o julgareis; porque todo pecado será perdoado, mas este pecado não será perdoado. 8. Mas nem todo o que fala no Espírito é profeta; senão se tiver os caminhos do Senhor. Portanto, pelos seus caminhos se conhecerá o falso profeta e o profeta. 9. E todo profeta que ordena uma refeição no Espírito não come dela, a menos que seja falso profeta; 10. e todo profeta que ensina a verdade, se não fizer o que ensina, é falso profeta. 11. E todo profeta, provado verdadeiro, operando para o mistério da Igreja no mundo, e todavia não ensinando outros a fazer o que ele mesmo faz, não será julgado entre vós, porque com Deus tem o seu juízo; porque assim fizeram também os antigos profetas. Mas quem disser no Espírito: Dai-me dinheiro, ou outra coisa, não o ouçais; porém, se vos disser que deis por amor dos outros que estão necessitados, ninguém o julgue.

Capítulo XII.—Recepção dos cristãos.

1. Mas todo aquele que vem em nome do Senhor seja recebido; e depois o provareis e o conhecereis; porque tereis entendimento pela direita e pela esquerda. 2. Se aquele que vem é um peregrino, ajudai-o conforme fordes capazes; mas não permaneça convosco senão por dois ou três dias, se for necessário. 3. Mas se quiser ficar convosco, sendo artesão, trabalhe e coma; mas se não tiver ofício, 4. conforme vosso entendimento, vede que, como cristão, não permaneça com vós ocioso. 5. Mas se não quiser fazer, é um traficante de Cristo. Guardai-vos de vos aproximardes de tais.

Capítulo XIII.—Sustento dos profetas

1. Mas todo verdadeiro profeta que quiser fixar-se entre vós é digno do seu sustento. 2. Assim também todo verdadeiro mestre é ele próprio digno, como o obreiro, do seu sustento. 3. Toda primícia, pois, dos produtos do lagar e da eira, dos bois e das ovelhas, tomarás e darás aos profetas, porque eles são os vossos sumos sacerdotes. 4. Se, porém, não tendes profeta, dai-o aos pobres. 5. Se fizeres uma porção de massa, toma a primícia e dá segundo o mandamento. 6. Assim também, quando abrires um vaso de vinho ou de azeite, toma a primícia e dá-a aos profetas; 7. e do dinheiro (prata) e da vestimenta e de toda possessão, toma a primícia, como te parecer bem, e dá segundo o mandamento.

Capítulo XIV.—Assembleia cristã no Dia do Senhor

Mas, em cada dia do Senhor, reuni-vos, e parti o pão, e dai graças, depois de terdes confessado as vossas transgressões, para que o vosso sacrifício seja puro. 2. Mas ninguém que esteja em desavença com o seu próximo se reúna convosco, até que se reconciliem, para que o vosso sacrifício não seja profanado. 3. Porque isto é o que foi dito pelo Senhor: Em todo o lugar e tempo, oferecei-me um sacrifício puro; porque eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e o meu nome é maravilhoso entre as nações.

Capítulo XV.—Bispos e diáconos; repreensão cristã.

Constituí, pois, para vós, bispos e diáconos dignos do Senhor, varões mansos, e não amigos do dinheiro, e verdadeiros, e provados; porque também eles vos prestam o serviço dos profetas e dos doutores. Não os desprezeis, portanto, porque eles são os vossos honrados, juntamente com os profetas e os doutores. E repreendei-vos uns aos outros, não com ira, mas em paz, como o tendes no Evangelho; mas a todo aquele que obra mal contra outrem, ninguém lhe fale, nem ouça ele coisa alguma de vós, até que se arrependa. Porém, as vossas orações e esmolas, e todas as vossas obras, assim as fazei como as tendes no Evangelho de nosso Senhor.

Capítulo XVI.—Vigilância; A Vinda do Senhor

1. Vigiai pela vossa vida. Não deixeis apagar as vossas lâmpadas, nem desateis os vossos lombos; mas estai prontos, porque não sabeis a hora em que nosso Senhor vem. 2. Mas frequentemente vos ajuntareis, procurando as coisas que convêm às vossas almas: porque todo o tempo da vossa fé não vos aproveitará, se não fordes aperfeiçoados no último tempo. 3. Porque nos últimos dias falsos profetas e corruptores se multiplicarão, e as ovelhas se converterão em lobos, e o amor se converterá em ódio; 4. pois quando a iniquidade abundar, vos odiareis e perseguireis e vos traireis uns aos outros, e então aparecerá o enganador do mundo como o Filho de Deus, e fará sinais e prodígios, e a terra será entregue em suas mãos, e fará coisas iníquas que nunca aconteceram desde o princípio. 5. Então a criação dos homens virá para o fogo da prova, e muitos serão feitos cair e perecerão; mas aqueles que perseverarem em sua fé serão salvos da própria maldição. 6. E então aparecerão os sinais da verdade; primeiro, o sinal de uma abertura no céu; depois o sinal do som da trombeta; e o terceiro, a ressurreição dos mortos; 7. contudo não de todos, mas como está dito: O Senhor virá e todos os seus santos com ele. 8. Então o mundo verá o Senhor vindo sobre as nuvens do céu.

Elucidações

(Assim batizai vós, p. 379.)

Se compararmos este capítulo com o correspondente nas Constituições Apostólicas, o Ensinamento parece-me ser uma forma um tanto abreviada de um original comum. Sendo este destinado aos catecúmenos, há uma omissão do que eles hão de saber posteriormente. Uma forma originalmente redigida para o clero e o povo foi expurgada de modo muito inábil para a instrução dos jovens discípulos. Isto aparece do nono capítulo (p. 380), onde apenas certas formas receptivas ou responsivas são dadas. A liturgia das Constituições Apostólicas, livro VIII, encerra o que era cuidadosamente mantido de todos, exceto dos τέλειοι, i.e., aqueles «de idade plena».

(Acerca dos Apóstolos, p. 380, nota 16.)

A referência aos «apóstolos», provavelmente itinerantes, em Apoc. ii, 2, corresponde a isto. Havia oficiais conhecidos no tempo apostólico (comparai 2 Cor. viii, 23, grego) como ἀπόστολοι ἐκκλησιῶν, pois os pseudo-apóstolos do Apocalipse não poderiam ter pretendido o que fizeram se fosse de outro modo. Nem teria sido necessário «provar aqueles que diziam ser apóstolos», nesse caso: a mera afirmação de tal pretensão os teria suficientemente convencido.

As direções muito infantis (adequadas a meros catecúmenos) dadas no texto ilustram Apoc. ii, 2, e são, até este ponto, evidência da origem muito antiga do Ensinamento.

O nome apóstolos foi tornado técnico pelo próprio Cristo: «Chamou-os Apóstolos» (Lucas vi, 13). E a palavra nunca é usada no modo vago que o Bispo Lightfoot sugere perigosamente, como devo ousar crer.

(Fanaticismo incipiente, p. 381, nota 25.)

Indubitavelmente, pois mesmo no tempo de São Paulo suas admoestações implicam nada menos. Vede 1 Cor. cap. xiv. passim. Mas, como no Aviso Introdutório insinuei minhas suspeitas de Montanismo incipiente no Ensinamento, assim sou fortalecido nesta ideia pelo erudito crítico à cuja nota ouso apender esta observação com o propósito de pedir uma referência às minhas anotações de Hermas no vol. ii. desta série. Posso também pedir uma referência ao mesmo volume, pp. 4, 5 e 6? A «refeição» (nota 23, p. 380) do Ensinamento é sem dúvida o Ágape, que havia sido abusado desde tão cedo que o próprio São Pedro foi forçado a denunciar os «falsos profetas» que poluíam esta festa de caridade.

Referência atual: Didaqué, Didaqué — Doutrina dos Doze Apóstolos, III