Doutrina da Igreja

Catecismo da Igreja Católica

João Paulo II

§2740 – §2776

§2740

A oração de Jesus faz da oração cristã uma petição eficaz. Jesus é o modelo da oração cristã; Ele ora em nós e connosco. Uma vez que o coração do Filho não procura senão o que agrada ao Pai, como poderia o dos filhos adoptivos apegar-se mais aos dons que ao Doador?

§2741

Jesus também ora por nós, em nosso lugar e em nosso favor. Todos os nossos pedidos foram reunidos, de uma vez por todas, no seu brado sobre a cruz e atendidos pelo Pai na sua ressurreição; e é por isso que Ele não cessa de interceder por nós junto do Pai. Se a nossa oração estiver resolutamente unida à de Jesus na confiança e na audácia filial, obteremos tudo o que pedirmos em seu nome e muito mais do que isto ou aquilo: o próprio Espírito Santo que inclui todos os dons.

IV. Perseverar no amor

§2742

«Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17), «dai sempre graças por tudo a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo» (Ef 5, 20), «servindo-vos de toda a espécie de orações e preces, orai em todo o tempo no Espírito Santo; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos» (Ef 6, 18). «Não nos foi mandado que trabalhemos, velemos e jejuemos constantemente, mas temos a lei de orar sem cessar» Este fervor incansável só pode vir do amor. Contra a nossa lentidão e preguiça, o combate da oração é o do amor humilde, confiante e perseverante. Este amor abre os nossos corações a três evidências de fé, luminosas e vivificantes:

§2743

Orar é sempre possível: O tempo do cristão é o de Cristo Ressuscitado, que está «connosco todos os dias» (Mt 28, 20), sejam quais forem as tempestades. O nosso tempo está na mão de Deus: «É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio solitário, fazer oração frequente e fervorosa; sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, até mesmo a cozinhar».

§2744

Orar é uma necessidade vital. A demonstração do contrário não é menos convincente: se não nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, recairemos na escravidão do pecado. Ora, como pode o Espírito Santo ser a «nossa vida» se o nosso coração estiver longe d'Ele? «Nada iguala o valor da oração; ela torna possível o impossível, fácil o difícil. [...] É impossível [...] que o homem que ora caia no pecado». «Quem reza salva-se, de certeza; quem não reza condena-se, de certeza»».

§2745

Oração e vida cristã são inseparáveis, porque se trata do mesmo amor e da mesma renúncia que procede do amor; da mesma conformidade filial e amorosa com o desígnio de amor do Pai; da mesma união transformante no Espírito Santo que nos conforma sempre mais com Cristo Jesus; do mesmo amor para com todos os homens, desse amor com que Jesus nos amou. «Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros» (Jo 15, 16-17). «Ora sem cessar, aquele que une a oração às obras e as obras à oração. Só assim é que podemos considerar como realizável o preceito de orar incessantemente».

V. A oração da Hora de Jesus

§2746

Ao chegar a sua «Hora», Jesus ora ao Pai. A sua oração, a mais longa que nos é transmitida pelo Evangelho, abraça toda a economia da criação e da salvação, bem como a sua morte e ressurreição. A oração da «Hora» de Jesus continua sempre sua, tal como a sua Páscoa, acontecida «uma vez por todas», continua presente na liturgia da sua Igreja.

§2747

A tradição cristã chama-lhe, a justo título, a oração «sacerdotal» de Jesus. Ela é, de facto, a oração do nosso Sumo-Sacerdote, inseparável do seu sacrifício, da sua «passagem» (páscoa) deste mundo para o Pai, em que é inteiramente «consagrado» ao Pai.

§2748

Nesta oração pascal, sacrificial, tudo está «recapitulado» n'Ele: Deus e o mundo, o Verbo e a carne, a vida eterna e o tempo, o amor que se entrega e o pecado que o atraiçoa, os discípulos presentes e os que n'Ele hão-de crer pela palavra deles, a humilhação e a glória. É a Oração da Unidade.

§2749

Jesus cumpriu perfeitamente a obra do Pai e a sua oração, como o seu sacrifício estende-se até à consumação do tempo. A oração da «Hora» preenche os últimos tempos e leva-os à sua consumação. Jesus, o Filho a Quem o Pai tudo deu, entrega-Se todo ao Pai; e, ao mesmo tempo, exprime-Se com uma liberdade soberana, segundo o poder que o Pai Lhe deu sobre toda a carne. O Filho, que Se fez Servo, é o Senhor, o Pantocrátor. O nosso Sumo-Sacerdote que ora por nós é também Aquele que em nós ora e o Deus que nos atende.

§2750

É entrando no santo nome do Senhor Jesus que podemos acolher, desde dentro, a oração que Ele nos ensina: «Pai nosso!». A sua oração sacerdotal inspira, a partir de dentro, as grandes petições do Pai-nosso: a preocupação com o nome do Pai, a paixão pelo seu Reino (a glória), o cumprimento da vontade do Pai, do seu desígnio de salvação e a libertação do mal (44).

§2751

Finalmente, é nesta oração que Jesus nos revela e nos dá o «conhecimento» indissociável do Pai e do Filho, que é o próprio mistério da vida de oração.

Resumindo:

§2752

A oração pressupõe esforço e luta contra nós mesmos e contra as ciladas do Tentador. O combate da oração é inseparável do «combate espiritual» necessário para agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo: ora-se como se vive, porque se vive como se ora.

§2753

No combate da oração, devemos enfrentar concepções erróneas, diversas correntes de mentalidades e a experiência dos nossos fracassos. A estas tentações, que lançam a dúvida sobre a utilidade ou até mesmo a possibilidade da oração, convém responder com humildade, confiança e perseverança.

§2754

As principais dificuldades no exercício da oração são a distracção e a aridez. O remédio está na fé, na conversão e na vigilância do coração.

§2755

Duas tentações frequentes ameaçam a oração: a falta de fé e a acédia, que é uma espécie de depressão devida ao relaxamento da ascese e que leva ao desânimo.

§2756

A confiança filial é posta à prova quando temos a sensação de nem sempre ser atendidos. O Evangelho convida-nos a interrogarmo-nos sobre a conformidade da nossa oração com o desejo do Espírito.

§2757

. «Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17). Orar é sempre possível. É, até, uma necessidade vital. Oração e vida cristã são inseparáveis.

§2758

. A oração da «Hora» de Jesus, justamente chamada «oração sacerdotal», recapitula toda a economia da criação e da salvação. É ela que inspira as grandes petições do «Pai-nosso».

QUARTA PARTE

A ORAÇÃO CRISTÃ

SEGUNDA SECÇÃO

A ORAÇÃO DO SENHOR: «PAI NOSSO»

§2759

«Um dia, estava Jesus em oração, em certo lugar. Quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: "Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista também ensinou os seus discípulos"» (Lc 11, 1). Foi em resposta a este pedido que o Senhor confiou aos seus discípulos e à sua Igreja a oração cristã fundamental. São Lucas apresenta-nos um texto breve dessa oração (cinco petições); São Mateus, uma versão mais desenvolvida (sete petições) (2). A tradição litúrgica da Igreja reteve o texto de São Mateus (Mt 6, 9-13): Pai Nosso que estais nos céus,santificado seja o vosso Nome,venha a nós o vosso Reino,seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje,perdoai-nos as nossas ofensasassim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação,mas livrai-nos do Mal.

§2760

Bem cedo o uso litúrgico concluiu a oração do Senhor por uma doxologia. Na Didakê: «Porque Vosso é o poder e a glória, pelos séculos». A esta doxologia, as Constituições Apostólicas acrescentam no princípio: «o Reino», e essa é a fórmula que se usa em nossos dias na oração ecuménica. A tradição bizantina acrescenta, depois de «a glória»: «Pai, Filho e Espírito Santo». O Missal Romano amplia a última petição na perspectiva explícita da «expectativa da bem-aventurada esperança» e da vinda de Jesus Cristo nosso Senhor, seguindo-se a aclamação da assembleia que retoma a doxologia das Constituições Apostólicas.

ARTIGO 1

«O RESUMO DE TODO O EVANGELHO»

§2761

«A oração dominical é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho». «Depois de o Senhor nos ter legado esta fórmula de oração, acrescentou "Pedi e recebereis" (Jo 16, 24). Cada um pode, portanto, dirigir ao céu diversas orações segundo as suas necessidades, mas começando sempre pela oração do Senhor, que continua a ser a oração fundamental».

I. No centro da Sagrada Escritura

§2762

Depois de ter mostrado como os Salmos são o alimento principal da oração cristã e convergem para as petições do Pai-nosso, Santo Agostinho conclui: «Percorrei todas as orações que existem na Sagrada Escritura; não creio que possais encontrar uma só que não esteja incluída e compendiada nesta oração dominical».

§2763

Todas as Escrituras (a Lei, os Profetas e os Salmos) se cumpriram em Cristo. O Evangelho é esta «boa-nova». O seu primeiro anúncio está resumido por São Mateus no sermão da montanha. Ora a oração do Pai-nosso está no centro deste anúncio. E é neste contexto que se elucida cada uma das petições da oração legada pelo Senhor: «A oração dominical é a mais perfeita das orações [...]. Nela, não só pedimos tudo quanto podemos rectamente desejar, mas também segundo a ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração, não só nos ensina a pedir, mas também plasma todos os nossos afectos».

§2764

O sermão da montanha é doutrina de vida e a oração dominical é prece; mas num e noutra, o Espírito do Senhor dá uma forma nova aos nossos desejos, a esses movimentos interiores que animam a nossa vida. Jesus ensina-nos a vida nova com as suas palavras e ensina-nos a pedi-la pela oração. Da rectidão da nossa oração dependerá a da nossa vida n' Ele.

II. «A oração do Senhor»

§2765

A expressão tradicional «oração dominical» (isto é, «oração do Senhor») significa que a prece dirigida ao nosso Pai nos foi ensinada e legada pelo Senhor Jesus. Tal oração, que nos vem de Jesus, é verdadeiramente única: é «do Senhor». Efectivamente, por um lado, nas palavras desta oração o Filho Único dá-nos as palavras que o Pai Lhe deu: Ele é o mestre da nossa oração. Por outro lado, sendo o Verbo encarnado, Ele conhece no seu coração de homem as necessidades dos seus irmãos e irmãs humanos e revela-no-las: Ele é o modelo da nossa oração.

§2766

Mas Jesus não nos deixa uma fórmula para ser repetida maquinalmente (14). Como em toda a oração vocal, é pela Palavra de Deus que o Espírito Santo ensina os filhos de Deus a orar ao seu Pai. Jesus dá-nos, não somente as palavras da nossa oração filial, mas também, ao mesmo tempo, o Espírito pelo qual elas se tornam em nós «espírito e vida» (Jo 6, 63). Mais ainda: a prova e a possibilidade da nossa oração filial é que o Pai «enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: "Abbá! ó Pai!"» (Gl 4, 6). Uma vez que a nossa oração traduz os nossos desejos diante do Pai, é ainda «Aquele que sonda os corações», o Pai, que «conhece o desejo do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos» (Rm 8, 27). A oração ao nosso Pai insere-se na missão misteriosa do Filho e do Espírito.

III. A oração da Igreja

§2767

Esta dádiva indissociável das palavras do Senhor e do Espírito Santo que lhes dá vida no coração dos crentes foi recebida e vivida pela Igreja desde as origens. As primeiras comunidades rezavam a oração do Senhor «três vezes por dia», em vez das «dezoito bênçãos» usadas pela piedade judaica.

§2768

Segundo a Tradição apostólica, a oração do Senhor está essencialmente radicada na oração litúrgica: O Senhor «ensina-nos a fazer a nossa oração em comum por todos os nossos irmãos. Porque Ele não diz «meu Pai» que estás nos céus, mas sim nosso Pai, para que a nossa oração seja, numa só alma, por todo o corpo da Igreja». Em todas as tradições litúrgicas, a oração do Senhor é parte integrante das «horas» principais do Ofício Divino. Mas é sobretudo nos três sacramentos da iniciação cristã que o seu carácter eclesial aparece com evidência:

§2769

No Baptismo e na Confirmação, a entrega («traditio») da oração do Senhor significa o novo nascimento para a vida divina. Uma vez que a oração cristã consiste em falar a Deus com a própria Palavra de Deus, aqueles que são «regenerados [...] pela palavra do Deus vivo» (1 Pe 1, 23) aprendem a invocar o seu Pai com a única palavra que Ele escuta sempre. E podem fazê-lo a partir de então, porque o selo da unção do Espírito Santo foi gravado indelevelmente no seu coração, nos seus ouvidos, nos seus lábios, em todo o seu ser filial. É por isso que a maior parte dos comentários patrísticos ao Pai-nosso são dirigidos aos catecúmenos e aos neófitos. Quando a Igreja reza a oração do Senhor, é sempre o povo dos «recém-nascidos» que ora e alcança misericórdia.

§2770

Na liturgia eucarística, a oração do Senhor aparece como a oração de toda a Igreja. Ali se revela o seu sentido pleno e a sua eficácia. Situada entre a anáfora (oração eucarística) e a liturgia da comunhão, recapitula, por um lado, todas as petições e intercessões expressas no movimento da epiclese; e por outro, bate à porta do festim do Reino que a Comunhão sacramental vai antecipar.

§2771

Na Eucaristia, a oração do Senhor manifesta também o carácter escatológico das suas petições. É a oração própria dos «últimos tempos», dos tempos da salvação que começaram com a efusão do Espírito Santo e terminarão com o regresso do Senhor. Os pedidos que fazemos ao nosso Pai, diferentemente das orações da Antiga Aliança, apoiam-se no mistério da salvação já realizada, duma vez para sempre, em Cristo crucificado e ressuscitado.

§2772

Desta fé inabalável brota a esperança que suscita cada uma das sete petições. Estas exprimem os gemidos do tempo presente, este tempo da paciência e da espera, durante o qual «ainda não se manifestou o que havemos de ser» (1 Jo 3, 2). A Eucaristia e o Pai-nosso tendem para a vinda do Senhor, «até que Ele venha!» (1 Cor 11, 26).

Resumindo:

§2773

. Em resposta ao pedido dos seus discípulos («Senhor, ensina-nos a orar»: Lc 11, 1), Jesus confia-lhes a oração cristã fundamental do «Pai-nosso».

§2774

«A Oração Dominical é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho», «a mais perfeita das orações». Está no centro da Sagrada Escritura.

§2775

É chamada «Oração Dominical», porque nos vem do Senhor Jesus, mestre e modelo da nossa oração.

§2776

. A Oração Dominical é a oração da Igreja por excelência. Faz parte integrante das «horas» principais do Ofício Divino e dos sacramentos da iniciação cristã: Baptismo, Confirmação e Eucaristia. Integrada na Eucaristia, manifesta o carácter «escatológico» das suas petições, na esperança do Senhor, «até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).

Referência atual: §2740