Encíclica
Magnifica Humanitas
Leão XIV
§173 – §211
§173
Esta visão distorcida da pessoa traduz-se hoje em diversas formas de servidão diretamente ligadas à economia digital. No mundo da IA, nada é imaterial ou mágico. Cada resposta que parece imediata e perfeita provém de uma longa cadeia de mediações, de uma rede alargada de recursos naturais, de infraestruturas energéticas e, sobretudo, de pessoas. Uma parte significativa do funcionamento da economia digital assenta no trabalho silencioso de milhões de seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais: etiquetagem de dados, moderação de conteúdos – muitas vezes péssimos – e treino de modelos. Em muitos casos, são jovens, maioritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima. A este esforço invisível junta-se o ainda mais brutal da extração dos recursos necessários à produção dos dispositivos e dos microprocessadores, que servem de suporte à IA. Nalgumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras. Corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo do cálculo não se interrompa. Além disso, organizações criminosas utilizam plataformas na rede, sistemas de mensagens, pagamentos anónimos e técnicas de criação de perfis para recrutar, controlar e deslocar vítimas de tráfico, muitas vezes menores, transformando homens e mulheres em “dados” a rastrear e “pacotes” a transportar dentro dos mesmos circuitos digitais que sustêm grande parte da economia global. Esta realidade interpela profundamente a consciência moral do nosso tempo. Não basta invocar a eficiência, nem celebrar os benefícios da inovação, quando resultam duma cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível. Se uma tecnologia promete emancipação, mas produz novas formas de subordinação global, contradiz o princípio fundamental da dignidade da pessoa.
§174
A luta contra as novas formas de escravatura é um teste decisivo para o discernimento ético da IA e da transformação digital. Seguindo a tradição inaugurada por Leão XIII, a Igreja renova a sua firme condenação de todas as formas de escravatura, tráfico e mercantilização de pessoas, e apela à urgência dum alargado movimento de reflexão e ação que dê centralidade à dignidade inalienável de cada ser humano e ao bem comum, como fins da sociedade e como critérios de qualquer escolha pessoal, social e política. Sem esta reflexão ética e humanizante, o poder crescente dos sistemas digitais corre o risco de nos levar a novas atrocidades, não menos vergonhosas das do passado que hoje deploramos, ao apresentarmo-nos como sociedades “avançadas” e “civilizadas”.
§175
O tráfico deve ser reconhecido como uma forma contemporânea de escravatura e como uma grave violação da dignidade humana; não reagir com firmeza ou tolerar de algum modo estas práticas significa, em certa medida, tornar-se hoje cúmplice das culpas cometidas no passado, quando a escravatura era justificada ou silenciada. [173]
§176
Na maturação da sua doutrina, a Igreja foi progressivamente tomando consciência da gravidade destas realidades. É verdade que os acontecimentos do passado não podem ser considerados de forma a-histórica, como se os critérios amadurecidos ao longo do tempo tivessem estado sempre disponíveis. No entanto, não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura. Se na Antiguidade e na Idade Média, muitas pessoas e instituições eclesiásticas tinham escravos, durante a modernidade, a Sé Apostólica romana – instigada pelos pedidos dos soberanos – interveio várias vezes para regular e legitimar as modalidades de submeter e, nalguns casos, reduzir à escravatura os “infiéis”. [174] Foi preciso aguardar o século XIX para se encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravatura, em particular com Leão XIII. [175] Isto constitui um claro exemplo do crescimento na compreensão, por parte da Igreja, das verdades perenes da Revelação que ela guarda. Embora não encontremos homogeneidade na questão em si – tendo tolerado durante muito tempo a escravatura e só mais tarde condenando-a de forma absoluta –, há ao longo de toda a história uma continuidade no que respeita à convicção da dignidade de cada ser humano, criado à imagem de Deus, mesmo sem ter conseguido, em dezoito séculos, explicitar oficialmente a total incompatibilidade com a escravatura. Trata-se duma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios. [176] É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.
§177
Precisamente por isso, a memória da cumplicidade e da cegueira do passado face à injustiça da escravatura torna-se, para nós, apelo à vigilância: o que aprendemos deve traduzir-se em discernimento e responsabilidade no presente. Se não quisermos, no futuro, pedir perdão por termos sido infiéis ao tesouro da dignidade humana que a nossa fé encerra, cabe-nos hoje ser diretos e firmes em denunciar as múltiplas manifestações do tráfico humano e apoiar, passo a passo com todos os que nisso se empenham, percursos concretos de prevenção, proteção, libertação e reabilitação.
§178
O colonialismo apresenta, nos nossos dias, um rosto inédito. Não domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando as vidas pessoais em informações que podem ser exploradas. Inteiros territórios, sobretudo aqueles com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural, são atualmente atravessados por uma nova lógica de extração: a dos fluxos sanitários, perfis epidemiológicos, mapas genéticos e dados demográficos. São estas as novas “terras raras” do poder: informações vitais que, uma vez relacionadas entre si, podem utilizar-se para desenvolver modelos preditivos, orientar estratégias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa. Os titulares dos dados de saúde de populações inteiras, hoje frequentemente recolhidos sob o pretexto de ajudar, investigar ou inovar, detêm, na realidade, uma alavanca estrutural em relação ao futuro: podem moldar as necessidades e os mercados. E podem decidir, antecipadamente, a quem destinar medicamentos, investimentos e proteções. É aqui que se joga uma das questões morais mais prementes do nosso tempo: transformar o conhecimento partilhado em bem comum e não em alavanca de domínio; devolver aos povos não só os dados que os descrevem, mas também a possibilidade de decidir como serão utilizados, por quem e para quem. Caso contrário, a era digital não será pós-colonial, mas colonial duma outra forma.
§179
As novas expressões de escravatura alimentam-se de cadeias económicas e infraestruturas digitais. É, portanto, necessário trabalhar em várias frentes: em primeiro lugar, para tornar mais rigorosa a transparência das fileiras que sustêm a indústria tecnológica e a economia digital, a fim de que nenhuma vantagem competitiva seja construída sobre a exploração invisível; em segundo lugar, é necessário que as empresas e os investidores adotem critérios claros de averiguação ética preventiva (due diligence), contando como prioridades a proteção dos trabalhadores, o combate ao trabalho forçado e o impacto social dos modelos de empresa baseados em dados. Além disso, as plataformas digitais devem ser chamadas a cooperar, de forma responsável, com as autoridades e a sociedade civil para impedirem que os instrumentos de comunicação, pagamento e definição de perfis se tornem canais de recrutamento e controle das vítimas. Quando estas escolhas convergem, o ambiente digital pode passar dum espaço predatório a um espaço de proteção, prevenção e promoção da dignidade.
Uma responsabilidade partilhada
§180
Os diversos campos em análise – a busca da verdade na vida pública, a educação no ambiente digital, as transformações do trabalho, a fragilidade das famílias e as novas formas de escravatura – não são fenómenos isolados. Eles manifestam o mesmo desafio: se a técnica se torna critério absoluto, a pessoa corre o risco de ser tratada como um dado, uma peça de engrenagem ou uma mercadoria; se, pelo contrário, a técnica for integrada num horizonte de sabedoria, pode tornar-se uma oportunidade de crescimento, justiça e fraternidade.
§181
Nessa perspectiva, a Doutrina social da Igreja propõe uma responsabilidade partilhada. Pede que estes processos sejam geridos com clarividência: por instituições capazes de regular sem sufocar e de proteger sem substituir; por empresas que reconheçam no trabalho e na dignidade um critério de sucesso; por corpos intermédios e comunidades educativas que reconstruam a confiança e os laços; por cidadãos que cultivem responsabilidade, sobriedade, discernimento e sentido do verdadeiro. Só assim a inovação poderá realmente tornar-se desenvolvimento humano integral e não um fator de exclusão e domínio; e só assim a promessa do progresso poderá ser reconhecida como verdadeira, porque aferida pela dignidade inviolável de cada homem e mulher.
CAPÍTULO V
A CULTURA DO PODER E A CIVILIZAÇÃO DO AMOR
§182
Depois de ter considerado a forma como a IA está a transformar certos aspectos da vida e da sociedade, com graves consequências para a dignidade humana, é necessário dirigir o olhar a um âmbito ainda mais dramático: a guerra. Aqui, a questão não diz respeito apenas à eficiência de novos instrumentos, mas ao risco de que a técnica, dissociada da ética e da responsabilidade, torne mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte, e apresente o recurso à força como uma opção imediata e exequível. Num mundo cada vez mais interdependente, a paz não é um tema entre tantos outros, mas uma condição do bem comum universal e um parâmetro para medir a maturidade moral dos povos, especialmente de quem é chamado a assumir responsabilidades de governo.
§183
A revolução digital está a modificar a gramática dos conflitos. A guerra visível é acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas. A IA entra nestes processos como um fator de aceleração, num panorama em que muitas tecnologias são intrinsecamente ambivalentes: o que nasce para defender pode ser rapidamente alterado para atacar, e a fronteira entre proteção e agressão tende a dissipar-se. A IA pode reforçar a defesa e a proteção dos civis, mas também pode diminuir as barreiras do uso da força, tornar as responsabilidades menos claras, alimentar uma cultura em que o inimigo é reduzido a um dado e a vítima a um “dano colateral”. Diante destas transformações, devemos invocar os princípios da Doutrina social – dignidade da pessoa, bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça – como critérios para julgar se as tecnologias servem realmente a humanidade ou acabam por subjugá-la, e considerá-los como orientações para as nossas escolhas.
§184
Neste capítulo, pretendo comparar duas lógicas opostas, que já evoquei com imagens bíblicas: por um lado, a tentação de construir a torre de Babel, confiando no poder e no orgulho; por outro, a paciência em reconstruir Jerusalém “por partes”, como no tempo de Neemias, salvaguardando o humano e o bem comum.
§185
Se olharmos para as dinâmicas mundiais, reconhecemos cada vez mais claramente a expansão de uma cultura do poder, feita de polarizações e violências. A Babel moderna não é apenas o paradigma tecnocrático globalizado, mas também o confronto à distância entre imperialismos opostos, entre potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la, com uma multiplicidade de conflitos locais. Além disso, é a corrida pelo desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas, ou pela garantia do seu controle, segundo uma dinâmica desumanizante que parece não conhecer limites. E, no entanto, ao lado deste desvio, vislumbramos grande parte da humanidade que procura permanecer humana e empenhar-se na construção da cidade da convivência e da paz. Dela, todos nós somos frequentemente artífices sem o saber e arquitetos descoordenados, capazes de gestos generosos, mas desprovidos duma visão de conjunto: trata-se de uma construção mais lenta, menos visível e espetacular, que aguarda ser melhor compreendida e mais coordenada, para se tornar compromisso consciente e articulado de cada comunidade, desde a família ao governo dos Estados e suas relações. É a este horizonte de empenho, a este estaleiro de esperança, que damos o nome de “civilização do amor”.
A civilização do amor na era digital
§186
Quando São Paulo VI introduziu a expressão “civilização do amor”, [177] o mundo estava marcado pela Guerra Fria, pela corrida ao armamento e por fortes desequilíbrios económicos. Naquele contexto, a Igreja apontava um caminho alternativo à oposição ideológica entre sistemas, imaginando uma ordem social em que a justiça e a caridade se entrelaçam e o amor se torna o princípio organizador da vida económica, política e cultural. Hoje devemos recuperar com firmeza esta visão: a civilização do amor não é uma utopia ingénua, mas um projeto exigente. Consiste na tradução da caridade em estruturas de justiça, em dar corpo institucional à fraternidade e em considerar o outro – seja ele uma pessoa ou um povo – como aliado necessário na construção do bem comum. Como nos recordou a Encíclica Fratelli tutti, só este amor social, capaz de se tornar cultura e norma, pode gerar uma ordem internacional estável, transformando a convivência de simples coexistência armada numa comunidade de destino. [178]
§187
Hoje, no contexto da transição digital, esta intuição revela-se ainda mais decisiva. As redes digitais, a economia globalizada e o desenvolvimento da IA criam laços cada vez mais estreitos, ligando em tempo real as decisões tomadas num lugar aos efeitos que estas produzem noutras partes. São, desse modo, ainda atuais as palavras do Concílio Vaticano II sobre a crescente interdependência entre os povos: o bem comum tem cada vez mais uma dimensão universal, com direitos e deveres que dizem respeito a toda a família humana. [179] O projeto da civilização do amor assume aqui a tarefa decisiva de transformar esta interdependência numa solidariedade desejada e escolhida. É este o critério para orientar os processos tecnológicos: não basta que a IA nos torne mais eficientes ou conectados, ela deve servir para edificar a família humana universal, com direitos e deveres partilhados, onde a proximidade digital se torna ocasião concreta de encontro e cuidado recíproco.
A cultura do poder
§188
Na época em que vivemos, vai-se consolidando uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão, relegando o bem comum da humanidade para segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma variável secundária face aos interesses estratégicos. Esta cultura do poder penetra na sociedade, altera relações e comportamentos, expande-se normalizando a guerra, em busca dum poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crise do multilateralismo e alimentando um falso realismo que repete não existirem alternativas.
A normalização da guerra
§189
Em 1965, na Assembleia da ONU, ressoou com força o brado de São Paulo VI: «Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra». [180] Temos de reconhecer que, apesar dos desejos e das declarações de paz, os últimos sessenta anos foram marcados por conflitos duma ferocidade impressionante, que muitas vezes envolveram de forma massiva as populações civis, causando vítimas inocentes, ondas de refugiados, desestabilização social e feridas duradouras. Não obstante, era comum no discurso público a convicção de que a guerra deveria permanecer uma extrema ratio, cercada por limites éticos e jurídicos rigorosos e, em todo o caso, por um horizonte político orientado para a paz. Na sequência dos desenvolvimentos ocorridos no período interbélico, depois da Segunda Guerra Mundial deu-se uma reviravolta: a paz foi colocada no centro da ordem internacional, como atesta em particular a Carta das Nações Unidas, que se propõe «preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra»; [181] muitas Constituições nacionais, na mesma linha, tinham relegado o recurso às armas a casos extremos e rigorosamente delimitados. Mesmo durante a Guerra Fria, apesar da existência de conflitos graves, permanecia a consciência da necessidade de evitar, a todo o custo, um novo conflito mundial.
§190
Hoje, porém, assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional, enquanto precisamente se degradam aqueles critérios éticos que tinham limitado o seu uso. Conflitos regionais que se arrastam no tempo, escaladas de tensões e ameaças cruzadas tornam-se quase habituais, e ressurgem formas de luta por expansão territorial que se pensavam superadas. A opinião pública é progressivamente orientada e condicionada por narrativas mediáticas de polarização, amplificadas com frequência por algoritmos que valorizam o confronto e a oposição.
§191
Assistimos também a uma preocupante perda de memória histórica. O atenuar do testemunho direto da Shoah e das duas Guerras Mundiais facilita a reescrita seletiva ou distorcida do passado, num clima em que as notícias falsas e as manipulações narrativas obscurecem as lições aprendidas. Sem uma memória viva dos horrores da guerra, as decisões políticas correm o risco de ser tomadas com base em cálculos de força, desprovidos duma visão das consequências a longo prazo.
§192
A tudo isto acresce um elemento novo e decisivo: a dimensão mediática e digital. As redes de comunicação, os ambientes informativos fragmentados e os algoritmos que privilegiam o confronto podem amplificar a polarização e o ressentimento, acelerar a propaganda e dificultar o discernimento comum. Assim, a guerra não é só combatida, mas também preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo. Quando a memória histórica desvanece e os critérios éticos que protegem os civis e os mais frágeis enfraquecem, torna-se mais fácil apresentar a violência como necessária, inevitável ou mesmo “limpa”. É neste clima que a humanidade se encontra a resvalar para a cultura violenta do poder, onde a paz já não aparece como uma tarefa a assumir, mas como um intervalo precário entre conflitos. Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da “guerra justa”, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito. [182] Para enfrentar os conflitos, a humanidade dispõe de instrumentos muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana, como o diálogo, a diplomacia e o perdão. O recurso à força, à violência e às armas testemunha uma pobreza relacional que tem sempre consequências desastrosas para as populações civis.
A força sem limites
§193
Um elemento decisivo do panorama atual é o crescimento da indústria bélica, que se tornou um setor-chave na economia de alguns países. A estreita ligação entre interesses económicos, aparatos militares e decisões políticas gera uma “nação armada”, na qual a guerra parece quase uma continuação natural da política e o mercado das armas torna-se motor autónomo de escolhas bélicas. Não podemos ignorar os enormes interesses económicos que estão por trás da guerra. As indústrias de armamento e os países que fornecem armas lucram com um mercado que prospera precisamente graças aos conflitos. Neste sentido, existe também uma lógica económica que contribui para alimentar tensões em diversas regiões do mundo.
§194
Os arsenais militares usufruem duma nova atenção. No passado, o reconhecimento da ameaça representada por armas capazes de destruir toda a humanidade tinha favorecido vias de distensão e de negociação em matéria de desarmamento. Infelizmente, afastámo-nos deste horizonte e a evolução dos arsenais nucleares – incluindo a possibilidade de utilização “tática” – faz com que o recurso a tais engenhos pareça uma possibilidade cada vez menos remota. Nessas circunstâncias, a entrada em vigor, em 2021, do Tratado sobre a proibição de armas nucleares, apoiado por mais de setenta países, representa um sinal importante, mas corre o risco de permanecer em grande parte simbólico, uma vez que as principais potências nucleares não aderem ao mesmo. Assim, difundiu-se a convicção – errada – de que a dissuasão nuclear é uma condição indispensável para a segurança, cujo resultado é alimentar uma nova e pouco controlável corrida ao armamento, acompanhada pelo desmantelamento progressivo dos acordos de redução das armas nucleares e pelo desenvolvimento de engenhos “miniaturizados”, que tornam mais fácil considerar o seu uso como uma opção viável.
§195
A mesma lógica verifica-se nos conflitos convencionais: a força militar, a fraqueza das iniciativas diplomáticas e a complexidade dos interesses em jogo favorecem conflitos que tendem a tornar-se crónicos, com um custo humano e ambiental extremamente elevado. É muito mais fácil iniciar uma guerra do que terminá-la e, no entanto, a reflexão sobre a prevenção de conflitos continua a ser dramaticamente marginal.
§196
O cenário torna-se ainda mais instável com a presença de novos protagonistas armados – grupos jihadistas, milícias privadas, redes criminosas – que marcam o fim do monopólio estatal da força. Frequentemente, eles combinam vagas motivações ideológicas com interesses económicos muito concretos, transformando a guerra num verdadeiro modo de viver para gerações inteiras de jovens e crianças: o objetivo já não é uma vitória definitiva, mas a perpetuação do conflito como fonte de poder e rendimento.
Armas e IA
§197
A este cenário associa-se o desenvolvimento incessante dos sistemas de armas, em particular das armas relacionadas com a IA. A Santa Sé observou recentemente que a crescente facilidade com que os sistemas de armas com autonomia operativa podem ser utilizados torna a guerra mais “viável” e menos sujeita ao controle humano, contrariando o princípio de que o recurso à força armada deve ocorrer como última alternativa em caso de legítima defesa. [183] Por isso, o desenvolvimento e a utilização da IA no campo bélico devem estar sujeitos aos mais rigorosos compromissos éticos, no respeito pela dignidade humana e pela sacralidade da vida, evitando uma corrida ao armamento. [184]
§198
Fala-se por vezes de “agentes morais artificiais”, como se uma máquina pudesse garantir, com maior coerência do que um ser humano, a distinção entre o bem e o mal. Ora, o juízo moral não se reduz a um cálculo: implica consciência, responsabilidade pessoal e reconhecimento do outro como pessoa. Por isso, não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis. Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável. A IA não retira ao conflito a sua intrínseca desumanidade: apenas o torna mais rápido e impessoal, diminuindo as barreiras do recurso à violência e transformando a defesa em previsão operacional, com as vítimas reduzidas a dados. Habituamo-nos, assim, à ideia de que a violência é inevitável e deve apenas ser otimizada. É, portanto, de máxima importância infundir valores e prudência na programação dos sistemas artificiais que construímos, os quais podem contribuir para um ecossistema moral em que os seres humanos se encontrem melhor posicionados para ouvir a própria consciência e em que os modelos de IA estabeleçam limites apropriados.
§199
Não basta invocar genericamente a ética: é necessário indicar critérios precisos de discernimento. O primeiro diz respeito à responsabilidade pessoal. Quando a decisão de atingir se automatiza ou se torna obscura, aumenta o risco de desresponsabilização. Por isso, a cadeia de responsabilidades deve permanecer identificável e verificável: quem projeta, quem treina, quem autoriza e quem utiliza deve poder prestar contas das suas escolhas. O segundo critério diz respeito ao tempo do juízo moral. A IA tende a comprimir os tempos de decisão; mas, na guerra, as decisões irreversíveis não podem ter como critérios supremos a rapidez e a eficiência. O terceiro critério é a distinção dos civis e a sua proteção. Toda a tecnologia que facilite atingir sem ver o rosto do outro reduz o nível moral do conflito. A seleção de alvos e o uso da força não podem confundir combatentes e não combatentes, nem ignorar o impacto sobre populações indefesas.
§200
Destes critérios decorrem algumas exigências imprescindíveis. Em primeiro lugar, para qualquer sistema utilizado em âmbito bélico, devem ser garantidas a rastreabilidade e a possibilidade de reconstituir as decisões, de modo que responsabilidade e eventuais culpas não se dissolvam “na máquina”. Em segundo lugar, a decisão de recorrer à força letal não pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve permanecer sob um controle humano efetivo, consciente e responsável. Por fim, é necessário estabelecer regras partilhadas, inclusive a nível internacional, que travem a corrida ao armamento tecnológico e garantam uma especial proteção a civis e infraestruturas essenciais à sua sobrevivência.
A crise do multilateralismo
§201
A cultura do poder decorre também da crise do sistema multilateral. As instituições criadas para salvaguardar a ideia dum destino comum dos povos e dum bem comum mundial parecem enfraquecidas, não apenas devido a limitações estruturais, mas porque muitas vezes falta uma vontade partilhada de as apoiar e reformar, e de reconhecer a sua autoridade moral. Em vez de progredirmos, estamos a retroceder em relação à mudança histórica do século XX. Depois de 1989, o colapso na Europa dos regimes comunistas foi acompanhado por uma globalização predominantemente económica, desprovida de uma arquitetura política adequada capaz de sustentar o diálogo e a paz. Confiou-se quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade, quando, na realidade, a globalização não gerou automaticamente unidade e paz, mas suscitou reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas. O resultado está longe dum multilateralismo autêntico: parece antes um multipolarismo desordenado e conflituoso, onde prevalece a desconfiança em relação ao outro.
§202
Ressurge a tentação de construir a identidade coletiva contra um inimigo, alimentando narrativas nas quais cada um se apresenta como vítima com direito à vingança. As simplificações – “primeiro eu”, “amigo-inimigo”, “nós-eles” – facilitam decisões frequentemente irresponsáveis, que minam a confiança mútua entre as nações. A força do direito internacional é assim substituída pelo pretenso “direito do mais forte”, e os seus instrumentos – desde os tribunais competentes em crimes de guerra aos tribunais chamados a dirimir controvérsias entre Estados – são em muitos casos contornados ou enfraquecidos, com consequências devastadoras para a cultura política e a convivência. [185]
§203
Neste contexto, a construção da paz passou para segundo plano: em nome de lógicas de poder, deixam-se de lado a cooperação para o desenvolvimento, o desarmamento, a prevenção de conflitos e a construção da confiança mútua. Assim, enfraquecem-se também as conquistas do direito humanitário: o princípio da proporcionalidade na resposta às agressões; a garantia do acesso à água, aos alimentos e aos bens essenciais; o respeito pela vida dos civis e das crianças são tratados como reminiscências ingénuas do passado.
Um suposto realismo político
§204
Vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural. Um falso pragmatismo convida-nos a cortar as raízes da memória, como se fosse possível inaugurar uma espécie de “nova criação” desligada do passado; mesmo quem invoca grandes princípios morais pode cair neste niilismo histórico, iludindo-se com a ideia de que as atrocidades do século XX não se podem repetir. Na realidade, as mesmas dinâmicas ressurgem sob novas formas. Parece voltar a impor-se a lógica do equilíbrio armado e da dissuasão. Mas, ao contrário do cenário bipolar da Guerra Fria, hoje a multiplicação dos protagonistas e das frentes de conflito torna esta lógica cada vez mais frágil. A conflitualidade exacerbada conduz a guerras assimétricas e “híbridas”, travadas também em âmbito económico, financeiro e informático, com o recurso à desinformação e a campanhas que alimentam o medo para influenciar a opinião pública. Em muitos países, também no Sul Global, o aumento das despesas militares é apresentado como a única resposta a um futuro incerto ou a ameaças pressentidas, enquanto o custo real recai sobre os mais pobres, que assistem à redução dos recursos destinados à saúde, à instrução e aos serviços sociais.
§205
Por trás de tudo isto está um falso “realismo”, baseado não só na lógica dominante da força, mas também numa convicção cultural e antropológica, como se a guerra fosse inevitavelmente parte da natureza humana. Diz-se que, salvo breves intervalos, sempre foi assim e assim será! Portanto, o problema já não é a paz, perdida como referência no horizonte internacional, mas sim como e quando agir militarmente, considerando-se irresponsável a não preparação para o confronto. Porém, o que é verdadeiramente irresponsável é a Realpolitik, esta forma de “realismo” político, que semeia nas consciências e na cultura a resignação perante uma guerra inevitável, e qualifica a paz e o diálogo como posições utópicas ou irracionais, que ignoram os riscos em jogo. Pelo contrário, a paz não é uma esperança ingénua nem apenas uma ausência de guerra: é o fruto, sempre possível, da justiça e da caridade.
§206
Neste clima, o niilismo e o pragmatismo acabam por entrelaçar-se e normalizar erros gravíssimos: extremismos religiosos e fanatismos identitários aliam-se a um economicismo irracional, enquanto a política recorre com facilidade à desinformação, à ridicularização do adversário e à construção sistemática de medos e ressentimentos. Assim, a diversidade do outro é cada vez mais vivida como uma ameaça, alimentando o desejo de posse, a vontade de domínio, as ambições hegemónicas, os abusos de poder e o medo da diferença, e preparando um terreno no qual novos conflitos podem amadurecer quase sem nos apercebermos. [186]
§207
Este é um terreno fértil para novas guerras, talvez ainda mais perigosas do que as do passado, pois tendem a perder todo o limite ético. O que outrora era considerado inaceitável pode hoje ser posto em prática quase sem hesitação, enquanto a reação internacional se adapta à conveniência de cada governo, mais do que à gravidade objetiva dos acontecimentos. As decisões parecem guiadas quase exclusivamente por cálculos económicos, defendidas através de ilusões mediáticas, euforias artificiais e “sonhos” que inevitavelmente se desvanecem, gerando frustração e nova violência. Quando nos persuadimos de que nada é verdadeiramente real e os “princípios” não passam de um embrulho vazio, o rastilho de novas explosões de intolerância e agressividade acende-se no coração das pessoas.
§208
Neste contexto, a reivindicação de garantias contra novos atos de violência permanece em aberto. Quando uma cultura normaliza e justifica o conflito, abre-se uma deriva perigosa: o que hoje parece impensável pode amanhã tornar-se aceitável por razões de utilidade ou segurança. Em países marcados por graves tensões sociais, não podemos excluir a possibilidade de que alguém acabe por considerar o conflito armado como uma forma eficaz de desviar a atenção dos problemas internos e como um instrumento de gestão cínica das dificuldades.
§209
Uma responsabilidade particular recai sobre aqueles que atuam no mundo da pesquisa. Todos os protagonistas desta área – cientistas, empreendedores, investidores, autoridades académicas, políticos e outros – são chamados a trabalhar numa lógica de transparência e responsabilidade, mantendo viva a consciência do quadro mais amplo em que se inscrevem os avanços tecnológicos para os quais contribuem, incluindo os relacionados com a IA. Quando se olha apenas para o próprio setor, julga-se desempenhar uma tarefa moralmente neutra e evitam-se questões sobre os fins últimos que orientam determinadas experiências: corre-se assim o risco de cooperar, talvez sem querer, em projetos obscuros que alimentam novas formas de violência, manipulação e domínio.
Construir a civilização do amor
§210
A construção de um mundo em estado de beligerância permanente é um mal, e deve ser chamado pelo seu nome. Esta forma de descrever a realidade em que vivemos pode parecer sombria ou pessimista, mas considero tratar-se duma denúncia necessária. A perspectiva cristã, porém, não se esgota na denúncia do mal. Contemplamos a história à luz do Crucificado Ressuscitado, a quem o Pai concedeu «todo o poder no Céu e na Terra» (Mt 28, 18). Não interpretamos o presente como um destino fechado, mas como um campo aberto à conversão pessoal e coletiva. E acreditamos na força do Reino, que se desenvolve a partir da pequenez dum grão de mostarda, como uma semente que, uma vez deitada à terra, germina e cresce (cf. Mc 4, 26-32). Enquanto nos rodeia o ruído da confusão, o bem cresce silenciosamente da terra. Escreve o profeta: «Vou realizar algo de novo, que já está a aparecer: não o notais?» (Is 43, 19).
§211
Uma leitura atenta da história confirma-o. Mesmo nas noites mais escuras, o Senhor suscita homens e mulheres capazes de não se resignarem e de perseverarem no bem: pessoas que protegem os mais fracos e abrem caminhos para a reconciliação. A memória dos santos e dos justos, dos construtores da paz muitas vezes esquecidos, mostra que a graça não elimina o conflito com um gesto mágico, mas gera uma ativa resistência ao mal e uma surpreendente criatividade no bem. Os cristãos veem as trevas e chamam-nas pelo nome, mas não ficam parados a contemplá-las: conhecem a luz e sabem que as trevas nem a receberam nem podem vencê-la (cf. Jo 1, 5). Por isso, mesmo onde parece que a dor tem a última palavra, servem o bem sustentados por uma esperança teologal que dá à realidade um horizonte e uma direção.