Obra patrística
Primeira Carta aos Coríntios
São Clemente de Roma · c. 35–99
XXIII–XLV
Capítulo XXIII.—Sede humildes e crede que Cristo há de vir novamente.
O Pai todo-misericordioso e benéfico tem entranhas de compaixão para com os que O temem, e concede benigna e amorosamente os Seus favores àqueles que vão a Ele com mente simples. Por isso, não sejamos de ânimo dobre, nem se ensoberbeça a nossa alma por causa dos Seus tão grandes e gloriosos dons. Longe de nós esteja aquilo que está escrito: «Miseráveis são os que são de ânimo dobre e de coração duvidoso; que dizem: Estas coisas ouvimos nós mesmo no tempo de nossos pais; mas eis que envelhecemos, e nenhuma delas nos aconteceu.» Ó insensatos! comparai-vos a uma árvore: tomai, por exemplo, a videira. Primeiro, perde as folhas; depois, brota; em seguida, lança folhas, e então floresce; depois disso vem a uva verde, e então segue-se o fruto maduro. Vós vedes como em pouco tempo o fruto de uma árvore amadurece. Em verdade, logo e de repente se cumprirá a Sua vontade, como também a Escritura testifica, dizendo: «Virá depressa, e não tardará»; e: «O Senhor virá de repente ao Seu templo, o Santo, por quem vós esperais.»
Capítulo XXV.—A fênix, emblema da nossa ressurreição.
Consideremos aquele maravilhoso sinal [da ressurreição] que se dá nas terras orientais, isto é, na Arábia e nos países circunvizinhos. Há uma certa ave que se chama fênix, a qual é a única de sua espécie e vive quinhentos anos. E quando se aproxima a dissolução e é necessário que morra, constrói para si um ninho de olíbano, e mirra, e outras especiarias, no qual, cumprido o tempo, entra e morre. Mas, enquanto a carne se corrompe, produz-se uma certa espécie de verme que, nutrido pelos sucos da ave morta, cria penas. Então, quando adquiriu força, toma aquele ninho em que estão os ossos de sua progenitora e, levando-os consigo, passa da terra da Arábia ao Egito, à cidade chamada Heliópolis. E, em pleno dia, voando à vista de todos os homens, coloca-os sobre o altar do sol e, feito isto, volta apressadamente à sua morada anterior. Os sacerdotes então examinam os registros das datas e descobrem que ele voltou exatamente quando se completara o quingentésimo ano.
Capítulo XXVI.—Portanto, ressuscitaremos, como também a Escritura testemunha.
Parece-nos, pois, coisa grande e maravilhosa que o Criador de todas as coisas levante novamente aqueles que piedosamente O serviram na certeza de uma boa fé, quando até por uma ave nos mostra a grandeza do Seu poder para cumprir a Sua promessa? Porque [a Escritura] diz em certo lugar: «Tu me levantarás, e eu Te confessarei»; e outra vez: «Eu me deitei e dormi; acordei, porque Tu estás comigo»; e outra vez Jó diz: «Tu levantarás esta minha carne, que padeceu todas estas coisas.»
Capítulo XXVII.—Na esperança da ressurreição, apegamo-nos ao Deus onipotente e onisciente.
Tendo, pois, esta esperança, estejam as nossas almas ligadas Àquele que é fiel nas suas promessas e justo nos seus juízos. Aquele que nos mandou não mentir, com muito mais razão não mentirá Ele mesmo; porque para Deus nada é impossível, senão mentir. Reavive-se, pois, em nós a fé nEle, e consideremos que todas as coisas Lhe estão próximas. Pela palavra do seu poder estabeleceu todas as coisas, e pela sua palavra as pode derribar. «Quem Lhe dirá: Que fizeste? ou quem resistirá ao poder da sua força?» Quando e como Lhe aprouver, fará todas as coisas, e nenhuma das coisas por Ele determinadas passará. Todas as coisas estão patentes diante dEle, e nada pode ser ocultado ao seu conselho. «Os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos; o dia ao dia profere palavra, e a noite à noite mostra ciência. E não há palavras nem discursos de que as vozes não sejam ouvidas.»
Capítulo XXIX.—Aproximemo-nos também de Deus com pureza de coração.
Aproximemo-nos, pois, d’Ele com santidade de espírito, levantando para Ele mãos puras e sem mácula, amando o nosso benigno e misericordioso Pai, que nos fez participantes das bênçãos dos Seus eleitos. Porque assim está escrito: «Quando o Altíssimo repartiu as nações, quando dispersou os filhos de Adão, fixou os termos das nações segundo o número dos anjos de Deus. O Seu povo Jacob tornou-se a porção do Senhor, e Israel a sorte da Sua herança.» E noutro lugar [a Escritura] diz: «Eis que o Senhor toma para Si uma nação do meio das nações, como um homem toma as primícias da sua eira; e dessa nação sairá o Santíssimo.»
Capítulo XXX.—Façamos aquilo que agrada a Deus e fujamos daquilo que Ele odeia, para que sejamos bem-aventurados.
Vendo, pois, que somos a porção do Santo, pratiquemos todas as coisas que pertencem à santidade, evitando toda maledicência, todos os abraços abomináveis e impuros, juntamente com toda embriaguez, a busca de mudança, todas as abomináveis concupiscências, o detestável adultério e a excerável soberba. “Porque Deus”, diz a Escritura, “resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.” Apeguemo-nos, pois, àqueles a quem a graça foi dada por Deus. Vistamo-nos de concórdia e humildade, exercendo sempre a temperança, mantendo-nos longe de toda murmuração e maledicência, sendo justificados por nossas obras, e não por nossas palavras. Porque diz a Escritura: “O que muito fala, também ouvirá muito em resposta. E acaso o que é ligeiro no falar se tem por justo? Bem-aventurado é o que nasce de mulher, e vive pouco tempo: não sejas dado a muito falar.” Seja o nosso louvor em Deus, e não de nós mesmos; porque Deus aborrece os que a si mesmos se louvam. Seja o testemunho de nossas boas obras dado por outros, como se deu com os nossos justos antepassados. A ousadia, a arrogância e a audácia pertencem aos que são malditos de Deus; mas a moderação, a humildade e a mansidão, aos que são por Ele abençoados.
Capítulo XXXI.—Vejamos por que meios podemos obter a bênção divina.
Apeguemo-nos, pois, à Sua bênção, e consideremos quais são os meios de a possuir. Meditemos sobre as coisas que aconteceram desde o princípio. Por que razão foi nosso pai Abraão abençoado? Não foi porque obrou a justiça e a verdade mediante a fé? Isaac, com perfeita confiança, como se soubesse o que havia de acontecer, alegremente se ofereceu a si mesmo em sacrifício. Jacó, por causa de seu irmão, saiu com humildade da sua terra, e veio para Labão e o serviu; e foi-lhe dado o cetro das doze tribos de Israel.
Capítulo XXXII.—Somos justificados não por nossas obras, mas pela fé.
Quem quiser considerar cada particular com candura, reconhecerá a grandeza dos dons que foram dados por ele. Porque dele procederam os sacerdotes e todos os Levitas que ministram ao altar de Deus. Dele também [descendeu] nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne. Dele [surgiram] reis, príncipes e governantes da raça de Judá. Nem as suas outras tribos estão em pequena glória, porquanto Deus prometera: "A tua semente será como as estrelas do céu." Todos estes, portanto, foram altamente honrados, e engrandecidos, não por si mesmos, ou pelas suas obras, ou pela justiça que praticaram, mas por meio da operação da Sua vontade. E nós também, sendo chamados pela Sua vontade em Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos, nem pela nossa sabedoria, ou entendimento, ou piedade, ou obras que tenhamos praticado em santidade de coração; mas por aquela fé mediante a qual, desde o princípio, Deus Todo-Poderoso justificou todos os homens; a quem seja glória para todo o sempre. Amém.
Capítulo XXXIII.—Mas não abandonemos a prática das boas obras e do amor. O próprio Deus é para nós um exemplo de boas obras.
Que faremos, então, irmãos? Tornar-nos-emos negligentes no bem-fazer e cessaremos a prática da caridade? Deus nos livre de que tal procedimento seja seguido por nós! Antes, apressemo-nos com toda a energia e prontidão de ânimo a realizar toda boa obra. Porque o Criador e Senhor de todas as coisas Se alegra nas Suas obras. Pois, com o Seu poder infinitamente grande estabeleceu os céus, e com a Sua incompreensível sabedoria os adornou. Também separou a terra das águas que a rodeiam, e a fixou sobre o imóvel fundamento da Sua própria vontade. Os animais também que estão sobre ela, Ele ordenou pela Sua própria palavra que viessem à existência. Do mesmo modo, tendo formado o mar e as criaturas viventes que nele estão, encerrou-as nos seus devidos limites pelo Seu próprio poder. Acima de tudo, com as Suas santas e imaculadas mãos formou o homem, a mais excelsa das Suas criaturas, e verdadeiramente grande pelo entendimento que lhe foi dado—a expressa semelhança da Sua própria imagem. Porque assim diz Deus: «Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança. E Deus fez o homem; macho e fêmea os criou.» Tendo, pois, acabado todas estas coisas, aprovou-as e abençoou-as, e disse: «Crescei e multiplicai-vos.» Vemos, pois, como todos os homens justos foram adornados com boas obras, e como o próprio Senhor, adornando-Se com as Suas obras, Se alegrou. Tendo, portanto, tão grande exemplo, acedamos sem demora à Sua vontade, e obremos a obra da justiça com todas as nossas forças.
Capítulo XXXIV.—Grande é a recompensa das boas obras junto de Deus. Unidos em harmonia, imploremos d'Ele essa recompensa.
O bom servo recebe com confiança o pão do seu trabalho; o preguiçoso e negligente não pode olhar o seu senhor no rosto. É necessário, portanto, que sejamos prontos na prática do bem; porque dEle são todas as coisas. E assim Ele nos previne: «Eis que o Senhor [vem], e o seu galardão está diante da sua face, para retribuir a cada homem segundo a sua obra.» Exorta-nos, portanto, de todo o coração a atentarmos a isto, para que não sejamos preguiçosos ou negligentes em nenhuma boa obra. Seja a nossa glória e a nossa confiança nEle. Submetamo-nos à Sua vontade. Consideremos toda a multidão dos Seus anjos, como estão sempre prontos a ministrar à Sua vontade. Porque a Escritura diz: «Dez mil vezes dez mil estavam ao redor dEle, e milhares de milhares O serviam, e clamavam: Santo, Santo, Santo [é] o Senhor dos Exércitos; toda a criação está cheia da Sua glória.» E, portanto, reunindo-nos conscienciosamente em harmonia, clamemos a Ele com fervor, como que com uma só boca, para que sejamos feitos participantes das Suas grandes e gloriosas promessas. Porque [a Escritura] diz: «Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais entraram no coração do homem as coisas que Ele preparou para aqueles que O esperam.»
Capítulo XXXV.—Imenso é este prêmio. Como o obteremos?
Quão bem-aventurados e maravilhosos, amados, são os dons de Deus! Vida em imortalidade, esplendor em justiça, verdade em perfeita confiança, fé em certeza, temperança em santidade! E todas estas coisas caem sob o conhecimento dos nossos entendimentos [agora]; o que serão, pois, aquelas coisas que estão preparadas para os que esperam por Ele? O Criador e Pai de todos os séculos, o Santíssimo, somente conhece a sua quantidade e a sua beleza. Esforcemo-nos, pois, seriamente para sermos achados no número daqueles que esperam por Ele, a fim de que participemos dos Seus prometidos dons. Mas como, amados, se fará isto? Se o nosso entendimento estiver fixado pela fé em Deus; se buscarmos seriamente as coisas que Lhe são agradáveis e aceitáveis; se fizermos as coisas que estão em harmonia com a Sua vontade imaculada; e se seguirmos o caminho da verdade, lançando de nós toda injustiça e iniquidade, juntamente com toda cobiça, contenda, más práticas, engano, murmuração e maldizência, todo ódio a Deus, orgulho e soberba, vanglória e ambição. Porque os que tais coisas fazem são abomináveis a Deus; e não somente os que as fazem, mas também os que se comprazem nos que as fazem. Porque a Escritura diz: “Mas ao pecador disse Deus: Por que anuncias os meus estatutos, e tomas a minha aliança na tua boca, visto que aborreces a instrução, e lanças as minhas palavras para trás de ti? Quando vias um ladrão, consentias com ele, e fazias a tua porção com os adúlteros. A tua boca abundou em maldade, e a tua língua forjou engano. Tu te assentas, e falas contra teu irmão; difamas o filho de tua própria mãe. Estas coisas fizeste, e eu me calei; pensaste, ó ímpio, que eu seria semelhante a ti. Mas eu te repreenderei, e porei as tuas obras diante de ti. Considerai agora estas coisas, vós que vos esqueceis de Deus, para que Ele vos despedace como um leão, e não haja quem livre. O sacrifício de louvor me glorificará, e ali está o caminho pelo qual lhe mostrarei a salvação de Deus.”
Capítulo XXXVI.—Todas as bênçãos nos são dadas por meio de Cristo.
Este é o caminho, amados, pelo qual encontramos o nosso Salvador, a saber, Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote de todas as nossas oferendas, o defensor e auxiliador da nossa enfermidade. Por Ele levantamos os olhos às alturas do céu. Por Ele contemplamos, como num espelho, a Sua imaculada e excelentíssima face. Por Ele são abertos os olhos dos nossos corações. Por Ele o nosso entendimento insensato e obscurecido refloresce de novo para a Sua maravilhosa luz. Por Ele o Senhor quis que provássemos do conhecimento imortal, “o qual, sendo o resplendor da Sua majestade, é tanto maior que os anjos, quanto herdou mais excelente nome que eles.” Porque assim está escrito: “O que faz Seus anjos espíritos, e Seus ministros uma chama de fogo.” Mas acerca do Seu Filho assim falou o Senhor: “Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei. Pede-Me, e dar-Te-ei os gentios por Tua herança, e por Tua possessão os termos da terra.” E outra vez Lhe diz: “Assenta-Te à Minha direita, até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo de Teus pés.” Mas quem são os Seus inimigos? Todos os ímpios, e aqueles que se opõem à vontade de Deus.
Capítulo XXXVII.—Cristo é nosso chefe, e nós, Seus soldados.
Militemos, pois, varões e irmãos, com todo o esforço, como soldados, conforme os seus santos mandamentos. Consideremos os que militam sob nossos generais, com que ordem, obediência e submissão executam as coisas que lhes são mandadas. Nem todos são prefeitos, nem comandantes de mil, nem de cem, nem de cinquenta, nem outros tais; mas cada um no seu próprio posto executa as coisas mandadas pelo rei e pelos generais. Os grandes não podem subsistir sem os pequenos, nem os pequenos sem os grandes. Há como que uma mistura em todas as coisas, e daí nasce a mútua utilidade. Tomemos o nosso corpo por exemplo. A cabeça nada é sem os pés, e os pés nada são sem a cabeça; sim, os menores membros do nosso corpo são necessários e úteis a todo o corpo. Mas todos obram harmoniosamente juntos, e estão sob uma regra comum para a conservação de todo o corpo.
Capítulo XXXVIII.—Submetam-se os membros da Igreja, e ninguém se exalte acima de outro.
Que todo o nosso corpo, pois, seja preservado em Cristo Jesus; e cada um esteja sujeito ao seu próximo, segundo o dom especial que lhe foi concedido. Não despreze o forte o fraco, e mostre respeito o fraco ao forte. Proveja o rico às necessidades do pobre; e bendiga o pobre a Deus, porque lhe deu alguém por quem a sua indigência possa ser suprida. Mostre o sábio a sua sabedoria, não por [meras] palavras, mas mediante boas obras. Não dê testemunho de si mesmo o humilde, mas deixe que outro lhe preste testemunho. Não se ensoberbeça aquele que é puro na carne, nem se glorie, sabendo que foi outro quem lhe concedeu o dom da continência. Consideremos, pois, irmãos, de que matéria fomos feitos — quem e que seres éramos ao entrar no mundo, como que saindo de um sepulcro e de trevas profundas. Aquele que nos fez e nos formou, havendo preparado para nós os Seus dons generosos antes de nascermos, introduziu-nos no Seu mundo. Portanto, já que d’Ele recebemos todas estas coisas, por tudo Lhe devemos dar graças; a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
Capítulo XXXIX.—Não há razão para a vanglória.
Homens insensatos e imprudentes, que não têm sabedoria nem instrução, zombam e escarnecem de nós, desejosos de exaltar-se em suas próprias presunções. Pois que pode fazer um homem mortal? ou que força há naquele que é feito do pó? Porque está escrito: «Não havia forma diante de meus olhos; somente ouvi um som e uma voz [que dizia]: Que então? Será o homem puro diante do Senhor? ou será tal homem tido por inculpável em suas obras, visto que Ele não confia em seus servos, e até mesmo a seus anjos imputou perversidade? O céu não é limpo aos seus olhos; quanto menos aqueles que habitam em casas de barro, das quais também nós mesmos fomos feitos! Ele os feriu como a uma traça; e desde a manhã até a tarde não subsistem. Porque não puderam dar socorro a si mesmos, pereceram. Assoprou sobre eles, e morreram, porque não tinham sabedoria. Mas clama agora, se alguém te responder; ou se tu atentarás para algum dos santos anjos; porque a ira destrói o homem insensato, e a inveja mata aquele que está em erro. Vi o insensato lançar raízes, mas logo a sua habitação foi consumida. Sejam os seus filhos longe da segurança; sejam desprezados diante das portas dos menores do que eles, e não haja quem os livre. Porque o que foi preparado para eles, os justos o comerão; e eles não serão livres do mal.»
Capítulo XL.—Conservemos na Igreja a ordem estabelecida por Deus.
Portanto, estas coisas sendo manifestas a nós, e visto que perscrutamos as profundezas do divino conhecimento, convém-nos fazer todas as coisas em sua devida ordem, que o Senhor nos mandou cumprir em tempos determinados. Ele ordenou que se apresentassem oblações e se lhe prestasse serviço, e isso não inconsiderada ou irregularmente, mas nos tempos e horas determinados. Onde e por quem deseja que estas coisas se façam, Ele mesmo determinou por sua própria vontade suprema, a fim de que, sendo todas as coisas piedosamente feitas segundo o seu beneplácito, lhe sejam aceitáveis. Aqueles, pois, que apresentam as suas oblações nos tempos determinados, são aceitos e benditos; porque, na medida em que seguem as leis do Senhor, não pecam. Porque ao sumo sacerdote são designados os seus serviços próprios, e aos sacerdotes é prescrito o seu lugar apropriado, e aos levitas incumbem as suas especiais ministrações. O leigo está vinculado às leis que pertencem aos leigos.
Capítulo XLII.—A ordem dos ministros na Igreja.
Os apóstolos pregaram-nos o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo [o fez] da parte de Deus. Cristo, pois, foi enviado por Deus, e os apóstolos por Cristo. Ambas estas nomeações, então, foram feitas de maneira ordenada, segundo a vontade de Deus. Tendo, pois, recebido as suas ordens, e plenamente assegurados pela ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, e estabelecidos na palavra de Deus, com plena certeza do Espírito Santo, saíram proclamando que o reino de Deus estava próximo. E assim pregando através de países e cidades, nomearam as primícias [dos seus trabalhos], tendo primeiro provado-as pelo Espírito, para serem bispos e diáconos daqueles que depois haveriam de crer. Nem isto era coisa nova, pois já muitos séculos antes estava escrito acerca de bispos e diáconos. Porque assim diz a Escritura em certo lugar: «Constituirei os seus bispos na justiça, e os seus diáconos na fé.»
Capítulo XLIII.—Moisés, outrora, apaziguou a contenda que surgiu acerca da dignidade sacerdotal.
E que admiração há nisso, se aqueles que em Cristo foram incumbidos por Deus de tal ofício designaram os [ministros] antes mencionados, quando também o bem-aventurado Moisés, “servo fiel em toda a sua casa”, anotou nos livros sagrados todas as instruções que lhe foram dadas, e quando os outros profetas igualmente o seguiram, testemunhando com um só consentimento as ordenanças que ele estabelecera? Porque, tendo surgido rivalidade acerca do sacerdócio, e contendendo as tribos entre si sobre qual delas seria adornada com tão glorioso título, ele mandou que os doze príncipes das tribos lhe trouxessem suas varas, cada uma inscrita com o nome da tribo. E tomou-as e atou-as [juntas], e selou-as com os anéis dos príncipes das tribos, e depositou-as no tabernáculo do testemunho sobre a mesa de Deus. E, tendo fechado as portas do tabernáculo, selou as chaves, como fizera com as varas, e disse-lhes: Varões e irmãos, a tribo cuja vara florescer, essa escolheu Deus para exercer o ofício do sacerdócio e ministrar diante dEle. E, vindo a manhã, reuniu todo o Israel, seiscentos mil homens, e mostrou os selos aos príncipes das tribos, e abriu o tabernáculo do testemunho, e retirou as varas. E achou-se a vara de Arão não só florescida, mas dando fruto sobre ela. Que vos parece, amados? Não sabia Moisés de antemão que isto aconteceria? Sem dúvida o sabia; mas agiu assim, para que não houvesse sedição em Israel, e para que o nome do Deus verdadeiro e único fosse glorificado; a quem seja glória para sempre. Amém.
Capítulo XLIV.—As ordenanças dos apóstolos, para que não houvesse contenda acerca do ofício sacerdotal.
Nossos apóstolos também souberam, por nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contenda acerca do ofício do episcopado. Por esta razão, portanto, porquanto haviam obtido perfeita presciência disto, designaram aqueles [ministros] já mencionados, e depois deram instruções, que, quando estes dormissem, outros varões aprovados lhes sucedessem no ministério. Somos de parecer, portanto, que aqueles que foram designados por eles, ou depois por outros varões eminentes, com o consentimento de toda a Igreja, e que serviram inculpavelmente o rebanho de Cristo em espírito humilde, pacífico e desinteressado, e por muito tempo gozaram da boa opinião de todos, não podem ser justamente demitidos do ministério. Porque não será pequeno o nosso pecado, se ejetarmos do episcopado aqueles que inculpável e santamente cumpriram seus deveres. Bem-aventurados são aqueles presbíteros que, tendo já antes concluído a sua carreira, obtiveram uma partida frutuosa e perfeita deste mundo; pois não têm temor de que alguém os prive do lugar que lhes foi agora designado. Mas vemos que removestes do ministério alguns varões de excelente procedimento, os quais o cumpriram inculpavelmente e com honra.
Capítulo XLV.—É próprio dos ímpios afligir os justos.
Sois amantes da contenda, irmãos, e cheios de zelo por coisas que não pertencem à salvação. Examinai cuidadosamente as Escrituras, que são as verdadeiras palavras do Espírito Santo. Observai que nada de injusto ou de enganoso nelas se escreve. Ali não achareis que os justos foram rejeitados por homens que eram eles mesmos santos. Os justos foram de fato perseguidos, mas somente pelos ímpios; foram lançados na prisão, mas somente pelos profanos; foram apedrejados, mas somente pelos transgressores; foram mortos, mas somente pelos malditos e por aqueles que conceberam contra eles uma inveja injusta. Submetidos a tais sofrimentos, suportaram-nos gloriosamente.
Pois que diremos, irmãos? Foi Daniel lançado na cova dos leões por aqueles que temiam a Deus? Foram Ananias, Azarias e Misael encerrados numa fornalha de fogo por aqueles que observavam o grande e glorioso culto do Altíssimo? Longe de nós tal pensamento! Quem foram, então, os que tais coisas fizeram? Os odiosos e os cheios de toda maldade foram incitados a tal furor, que infligiram tormentos àqueles que serviam a Deus com santo e irrepreensível propósito de coração, não sabendo que o Altíssimo é o Defensor e Protetor de todos os que com pura consciência veneram o seu nome excelentíssimo; a quem seja glória para todo o sempre. Amém.
Mas aqueles que com confiança suportaram estas coisas são agora herdeiros de glória e honra, e foram exaltados e ilustrados por Deus em sua memória para todo o sempre. Amém.