Padres e clássicosAtenágoras, Súplica em Favor dos Cristãos, II, 1

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Obra patrística

Súplica em Favor dos Cristãos

Atenágoras · c. 133–190

II, 1–II, 25

Capítulo I.—Injustiça demonstrada contra os cristãos.

No vosso império, ó maiores dos soberanos, diferentes nações têm diferentes costumes e leis; e ninguém é impedido por lei ou temor de castigo de seguir os seus usos ancestrais, por mais ridículos que sejam. Um cidadão de Ílio chama Heitor de deus e presta honras divinas a Helena, tomando-a por Adrasteia. O Lacedemônio venera Agamémnone como Zeus, e Filónoe, filha de Tíndaro; e o homem de Tenedos adora Tennes. O Ateniense sacrifica a Erecteu como Posídon. Os Atenienses também realizam ritos religiosos e celebram mistérios em honra de Aglauro e Pândroso, mulheres que foram consideradas culpadas de impiedade por abrirem a caixa. Em suma, entre toda nação e povo, os homens oferecem quaisquer sacrifícios e celebram quaisquer mistérios que lhes aprazem. Os Egípcios contam entre os seus deuses até gatos, crocodilos, serpentes, áspides e cães. E a todos estes tanto vós como as leis permitis que assim procedam, considerando, por um lado, que crer em nenhum deus é ímpio e mau, e, por outro, que é necessário que cada homem adore os deuses que prefere, a fim de que, pelo temor da divindade, os homens sejam impedidos de praticar o mal. Mas por que — pois não vos deixeis levar, como a multidão, pela fama — por que um simples nome vos é odioso? Os nomes não são dignos de ódio: é o ato injusto que pede pena e castigo. E, assim, com admiração da vossa brandura e mansidão, e da vossa disposição pacífica e benévola para com todo homem, os indivíduos vivem na posse de direitos iguais; e as cidades, segundo a sua categoria, partilham de igual honra; e todo o império, sob o vosso sábio governo, goza de profunda paz. Mas por nós, que somos chamados cristãos, não cuidastes de igual modo; e, embora não cometamos mal algum — antes, como se verá no decurso deste discurso, somos de todos os homens os mais piedosa e justamente dispostos para com a Divindade e para com o vosso governo — permitis que sejamos molestados, espoliados e perseguidos, fazendo a multidão guerra contra nós só pelo nome. Ousamos, portanto, expor perante vós uma declaração da nossa causa — e por este discurso sabereis que padecemos injustamente, e contra toda a lei e razão — e vos suplicamos que lanceis também algum olhar sobre nós, para que, afinal, cessemos de ser mortos por instigação de falsos acusadores. Pois a multa imposta pelos nossos perseguidores não visa apenas aos nossos bens, nem os seus insultos à nossa reputação, nem o dano que nos causam a qualquer dos outros nossos maiores interesses. Destes fazemos pouco caso, embora para a generalidade pareçam coisas de grande importância; porque aprendemos não só a não revidar golpe por golpe, nem a ir a juízo contra os que nos espoliam e roubam, mas até a oferecer a outra face aos que nos ferem numa face, e a dar também a capa aos que nos tomam a túnica. Porém, quando entregamos os nossos bens, eles atentam contra os nossos próprios corpos e almas, derramando sobre nós, a granel, acusações de crimes de que somos inocentes até no pensamento, mas que pertencem a esses tagarelas ociosos e a toda a tribo dos que lhes são semelhantes.

Capítulo IV.—Os cristãos não são ateus, mas reconhecem um só Deus.

Quanto, em primeiro lugar, à alegação de que somos ateus — pois responderei às acusações uma por uma, para que não sejamos ridicularizados por não termos resposta a dar àqueles que as fazem — com razão os Atenienses julgaram Diágoras culpado de ateísmo, porquanto não só divulgou a doutrina órfica e publicou os mistérios de Elêusis e dos Cabiros, e cortou a estátua de madeira de Hércules para cozer seus nabos, mas declarou abertamente que Deus nenhum existia. Mas a nós, que distinguimos Deus da matéria e ensinamos que a matéria é uma coisa e Deus outra, e que estão separados por um grande intervalo (pois a Divindade é incriada e eterna, para ser contemplada pelo entendimento e pela razão somente, enquanto a matéria é criada e perecível), não é absurdo aplicar-nos o nome de ateísmo? Se os nossos sentimentos fossem como os de Diágoras, tendo nós tais incentivos à piedade — na ordem estabelecida, na harmonia universal, na magnitude, na cor, na forma, na disposição do mundo — com razão a nossa fama de impiedade, bem como a causa de sermos assim molestados, poderia ser imputada a nós mesmos. Mas, uma vez que a nossa doutrina reconhece um só Deus, o Criador deste universo, o qual é Ele próprio incriado (pois o que é não vem a ser, mas o que não é) e fez todas as coisas pelo Verbo que d'Ele procede, somos tratados irrazoavelmente em ambos os respeitos, pois somos ao mesmo tempo difamados e perseguidos.

Capítulo V.—Testemunho dos poetas acerca da unidade de Deus.

Poetas e filósofos não foram julgados ateus por investigar a respeito de Deus. Eurípides, falando daqueles que, segundo a preconcepção popular, são ignorantemente chamados deuses, diz duvidosamente:— Mas, falando d’Aquele que é apreendido pelo intelecto como matéria de conhecimento certo, dá a sua opinião decididamente e com inteligência, assim:— Pois, quanto a esses pretensos deuses, ele não viu existências reais, às quais um nome é usualmente atribuído, subjacentes a eles (“Zeus”, por exemplo: “Quem é Zeus, não sei; conheço-o por fama”), nem que nomes foram dados a realidades que de fato existem (pois de que servem nomes àqueles que não têm realidades subjacentes?); mas a Ele viu por meio das Suas obras, considerando com olhos voltados às coisas invisíveis as coisas que se manifestam no ar, no éter, na terra. A Ele, portanto, de Quem procedem todas as coisas criadas, e por cujo Espírito são governadas, concluiu ser Deus; e Sófocles concorda com ele, quando diz:— [Eurípides fala] da natureza de Deus, que enche as Suas obras de beleza, e ensina tanto onde Deus deve estar, como que Ele deve ser Um.

Capítulo VI.—Opiniões dos filósofos acerca do Deus Único.

Também Filolau, ao dizer que todas as coisas estão contidas em Deus como numa fortaleza, ensina que Ele é um, e que é superior à matéria. Lysis e Opsimus assim definem Deus: um diz que Ele é um número inefável, o outro que Ele é o excesso do maior número sobre aquele que lhe é mais próximo. De modo que, sendo dez o maior número segundo os pitagóricos, por ser a Tétrade, e conter todos os princípios aritméticos e harmônicos, e estando o Nove imediatamente abaixo, Deus é uma unidade — isto é, um. Pois o maior número excede o seguinte por um.

Vêm depois Platão e Aristóteles — não que eu vá percorrer tudo quanto os filósofos disseram acerca de Deus, como se desejasse apresentar um resumo completo de suas opiniões; pois sei que, assim como vós excedeis a todos os homens em inteligência e no poder do vosso império, na mesma proporção os superais a todos no conhecimento exato de toda a erudição, cultivando vós cada um dos ramos com mais êxito do que aqueles que se dedicaram exclusivamente a um só deles. Mas, porquanto é impossível demonstrar, sem a citação de nomes, que não estamos sós em restringir a noção de Deus à unidade, atrevi-me a uma enumeração de opiniões.

Platão, pois, diz: 'Descobrir o Criador e Pai deste universo é difícil; e, descoberto, é impossível declará-Lo a todos', concebendo um Deus único, incriado e eterno. E se ele reconhece também outros, como o sol, a lua e as estrelas, todavia os reconhece como criados: 'deuses, descendentes de deuses, dos quais Eu sou o Criador e o Pai de obras que são indissolúveis sem a Minha vontade; mas tudo que é composto pode ser dissolvido'. Se, portanto, Platão não é ateu por conceber um Deus único incriado, o Artífice do universo, também nós não somos ateus, nós que reconhecemos e firmemente sustentamos que é Deus Aquele que formou todas as coisas pelo Verbo e as mantém no ser pelo Seu Espírito.

Aristóteles, por sua vez, e seus seguidores, reconhecendo a existência de um a quem consideram como uma espécie de criatura viva composta (ζῶον), falam de Deus como consistindo em alma e corpo, pensando ser o Seu corpo o espaço etéreo e os astros planetários e a esfera das estrelas fixas, movendo-se em círculos; mas a Sua alma, a razão que preside ao movimento do corpo, ela mesma não sujeita ao movimento, mas tornando-se causa de movimento para o outro.

Os estoicos também, embora pelas denominações que empregam para adequar-se às mudanças da matéria, a qual dizem ser permeada pelo Espírito de Deus, multipliquem a Divindade em nome, todavia na realidade consideram Deus ser um. Pois, se Deus é um fogo artístico que avança metodicamente para a produção das várias coisas no mundo, abrangendo em Si mesmo todos os princípios seminais pelos quais cada coisa é produzida de acordo com o destino, e se o Seu Espírito permeia o mundo inteiro, então Deus é um segundo eles, sendo nomeado Zeus com respeito à parte fervente (τὸ ζέον) da matéria, e Hera com respeito ao ar (ὁ ἀήρ), e chamado por outros nomes com respeito àquela parte particular da matéria que Ele permeia.

Capítulo VII.—Superioridade da doutrina cristã a respeito de Deus.

Visto que, portanto, a unidade da Divindade é confessada por quase todos, mesmo contra sua vontade, quando chegam a tratar dos primeiros princípios do universo, e nós, por nossa vez, igualmente afirmamos que Aquele que dispôs este universo é Deus — por que motivo podem eles dizer e escrever impunemente o que lhes apraz acerca da Divindade, mas contra nós vigora uma lei, embora sejamos capazes de demonstrar, com provas e razão concordes com a verdade, o que apreendemos e justamente cremos, a saber, que há um só Deus? Porque os poetas e filósofos, assim como a outros assuntos, também a este se aplicaram a modo de conjetura, movidos, por causa de sua afinidade com a inspiração de Deus, cada um pela sua própria alma, a tentar se poderia descobrir e apreender a verdade; mas não se mostraram capazes de apreendê-la plenamente, porque julgaram conveniente aprender, não de Deus acerca de Deus, mas cada um de si mesmo; daí que cada qual chegou à sua própria conclusão acerca de Deus, e da matéria, e das formas, e do mundo. Nós, porém, temos por testemunhas das coisas que apreendemos e cremos os profetas, homens que pronunciaram acerca de Deus e das coisas de Deus, guiados pelo Espírito de Deus. E vós também haveis de admitir, sobressaindo a todos os outros como sobressaís em inteligência e em piedade para com o verdadeiro Deus (τὸ ὄντως θεῖον), que seria irracional deixarmos de crer no Espírito que vem de Deus, o qual moveu as bocas dos profetas como instrumentos musicais, e darmos ouvidos a meras opiniões humanas.

Capítulo IX.—o testemunho dos profetas.

Se nos contentássemos em apresentar tais considerações, nossas doutrinas poderiam por alguns ser tidas como humanas. Mas, pois que as vozes dos profetas confirmam nossos argumentos — porque penso que também vós, com vosso grande zelo pelo conhecimento e vossos grandes dotes de erudição, não podeis ignorar os escritos quer de Moisés, quer de Isaías e Jeremias, e os demais profetas, que, arrebatados em êxtase acima das operações naturais de suas mentes pelos impulsos do Divino Espírito, proferiram as coisas com que foram inspirados, fazendo o Espírito uso deles como um flautista assopra uma flauta; — que dizem, pois, estes homens? «O Senhor é nosso Deus; nenhum outro se Lhe pode comparar». E ainda: «Eu sou Deus, o primeiro e o último, e além de Mim não há Deus». Do mesmo modo: «Antes de Mim não houve outro Deus, e depois de Mim não haverá; Eu sou Deus, e não há outro além de Mim». E quanto à Sua grandeza: «O céu é Meu trono, e a terra o escabelo de Meus pés: que casa Me edificareis, ou qual é o lugar do Meu repouso?». Mas deixo a vós, quando encontrardes os livros mesmos, examinar cuidadosamente as profecias neles contidas, para que, por fundamentos adequados, nos defendais do abuso que sobre nós é lançado.

Capítulo X.—Os cristãos adoram o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Que não somos ateus, portanto, visto que reconhecemos um só Deus, incriado, eterno, invisível, impassível, incompreensível, ilimitado, que é apreendido só pelo entendimento e pela razão, que é circunscrito por luz, e beleza, e espírito, e poder inefável, por quem o universo foi criado mediante o seu Verbo, e ordenado, e é conservado no ser — demonstrei suficientemente. [Digo “seu Verbo”], pois reconhecemos também um Filho de Deus. Nem pense alguém ser ridículo que Deus tenha um Filho. Porque, ainda que os poetas, em suas ficções, representem os deuses como não melhores que os homens, o nosso modo de pensar não é o mesmo que o deles, quer a respeito de Deus Pai, quer a respeito do Filho. Mas o Filho de Deus é o Verbo do Pai, em ideia e em operação; porque segundo o modelo d’Ele e por Ele foram feitas todas as coisas, sendo o Pai e o Filho um só. E, estando o Filho no Pai e o Pai no Filho, na unidade e poder do espírito, o entendimento e a razão (νοῦς καὶ λόγος) do Pai é o Filho de Deus. Mas se, em vossa excelsa inteligência, vos ocorre perguntar o que se entende por Filho, direi brevemente que Ele é o primeiro produto do Pai, não como tendo sido trazido à existência (pois desde o princípio, Deus, que é a mente eterna [νοῦς], tinha o Verbo em Si mesmo, sendo desde a eternidade instinto de Verbo [λογικός]); mas porquanto Ele saiu para ser a ideia e a potência energizante de todas as coisas materiais, que jaziam como uma natureza sem atributos, e uma terra inativa, misturando-se as partículas mais grosseiras com as mais leves. O Espírito profético também concorda com nossas afirmações. “O Senhor”, diz, “me fez, princípio de seus caminhos, para suas obras”. O próprio Espírito Santo, que opera nos profetas, afirmamos ser uma efluência de Deus, que d’Ele flui e retorna novamente como um raio do sol. Quem, pois, não se admiraria ao ouvir homens que falam de Deus Pai, e de Deus Filho, e do Espírito Santo, e que declaram tanto seu poder na união como sua distinção na ordem, serem chamados ateus? Tampouco nosso ensino, no que diz respeito à natureza divina, se limita a estes pontos; mas reconhecemos também uma multidão de anjos e ministros, que Deus, o Fazedor e Artífice do mundo, distribuiu e designou por seu Verbo para seus vários postos, a ocuparem-se dos elementos, e dos céus, e do mundo, e das coisas nele, e do bom ordenamento de todos eles.

Capítulo XI.—A doutrina moral dos cristãos repele a acusação que lhes é feita.

Se eu entrar minuciosamente nos particulares da nossa doutrina, não vos cause isso admiração. É para que não sejais arrastados pela opinião popular e irracional, mas tenhais a verdade claramente diante de vós. Porque, apresentando as próprias opiniões a que aderimos, como sendo não humanas, mas proferidas e ensinadas por Deus, poderemos persuadir-vos a não nos terdes por ateus. Quais são, pois, aqueles ensinamentos em que somos educados? “Eu vos digo: Amai a vossos inimigos; abençoai os que vos maldizem; orai pelos que vos perseguem; para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.” Permiti-me aqui erguer a voz com ousadia, em alto e audível clamor, pleiteando como pleiteio diante de príncipes filósofos. Pois quem, dentre os que reduzem silogismos, e esclarecem ambiguidades, e explicam etimologias, ou dentre os que ensinam homônimos e sinônimos, e predicamentos e axiomas, e o que é o sujeito e o que o predicado, e prometem a seus discípulos, por estas e tais instruções, torná-los felizes: quem dentre eles purificou de tal modo as suas almas que, em vez de odiar os inimigos, os ama; e, em vez de falar mal dos que os injuriaram (abster-se do que é já por si evidência de não pequena moderação), os abençoa; e ora pelos que atentam contra as suas vidas? Ao contrário, nunca cessam, com intenção maligna, de investigar astuciosamente os segredos da sua arte, e estão sempre inclinados a praticar algum mal, fazendo da arte das palavras, e não da exibição de obras, o seu negócio e profissão. Mas entre nós encontrareis pessoas incultas, e artífices, e velhinhas, que, se são incapazes de provar em palavras o benefício da nossa doutrina, contudo, pelas suas obras, exibem o benefício que provém da sua persuasão da verdade dela: não recitam discursos, mas exibem boas obras; quando golpeados, não golpeiam de volta; quando roubados, não vão a juízo; dão aos que lhes pedem, e amam o próximo como a si mesmos.

Capítulo XIII.—Por que os cristãos não oferecem sacrifícios.

Mas, porquanto a maior parte dos que nos acusam de ateísmo, e isso por não terem sequer o mais vago conceito do que Deus é, sendo estólidos e totalmente desconhecidos das coisas naturais e divinas, e tais que medem a piedade pela régua dos sacrifícios, nos acusam de não reconhecer os mesmos deuses que as cidades, dignai-vos atender às considerações seguintes, ó imperadores, sobre ambos os pontos. E, primeiro, quanto ao não sacrificarmos: o Artífice e Pai deste universo não necessita de sangue, nem do odor dos holocaustos, nem da fragrância de flores e incenso, porquanto Ele mesmo é perfeita fragrância, nada necessitando nem interior nem exteriormente; mas o mais nobre sacrifício para Ele é que nós conheçamos Quem estendeu e abobadou os céus, e fixou a terra no seu lugar como um centro, Quem ajuntou as águas nos mares e separou a luz das trevas, Quem adornou o céu de estrelas e fez a terra produzir sementes de toda espécie, Quem fez os animais e formou o homem. Quando, tendo a Deus por este Artífice de todas as coisas, que as conserva no ser e as governa todas por conhecimento e habilidade administrativa, “levantamos mãos santas” para Ele, que necessidade tem Ele ainda de uma hecatombe?

E que tenho eu a ver com holocaustos, de que Deus não necessita?—embora na verdade nos convenha oferecer um sacrifício incruento e “o serviço da nossa razão.”

Capítulo XIV.—Incoerência dos que acusam os cristãos.

Quanto à outra queixa, de que não oramos nem cremos nos mesmos deuses que as cidades, é ela extremamente tola. Ora, os próprios homens que nos acusam de ateísmo por não admitirmos os mesmos deuses que eles reconhecem, não estão de acordo entre si a respeito dos deuses. Os atenienses erigiram como deuses Celeu e Metanira; os lacedemônios, Menelau; e oferecem-lhe sacrifícios e realizam festas, enquanto os homens de Ílion não suportam ouvir sequer o seu nome e prestam adoração a Heitor. Os ceus veneram Aristeu, considerando-o o mesmo que Zeus e Apolo; os tásios, Teágenes, um homem que cometeu assassinato nos jogos olímpicos; os sâmios, Lisandro, a despeito de todas as matanças e de todos os crimes por ele perpetrados; Alcmã e Hesíodo, Medeia; e os cilícios, Niobe; os sicilianos, Filipe, filho de Butácides; os amatusianos, Onésilo; os cartagineses, Amílcar. Faltar-me-ia tempo para enumerar todos. Portanto, quando diferem entre si acerca dos seus deuses, por que nos acusam de não concordar com eles? Considerai então as práticas vigentes entre os egípcios: não são elas perfeitamente ridículas? Pois nos templos, nas suas solenes festividades, batem nos peitos como pelos mortos e sacrificam aos mesmos seres como deuses; e não é de admirar, quando consideram os brutos como deuses, e rapam a cabeça quando morrem, e os enterram nos templos, e fazem lamentação pública. Se, portanto, somos culpados de impiedade porque não praticamos uma piedade correspondente à deles, então todas as cidades e todas as nações são culpadas de impiedade, pois não reconhecem todas os mesmos deuses.

Capítulo XV.—Os cristãos distinguem Deus da matéria.

Concedei, porém, que eles reconheçam o mesmo. Que importa? Porque a multidão, que não pode distinguir entre a matéria e Deus, nem ver quão grande é o intervalo que entre eles medeia, ora a ídolos feitos de matéria, devemos nós, que distinguimos e separamos o incriado e o criado, o que é e o que não é, o que é apreendido pelo entendimento e o que é percebido pelos sentidos, e que damos o nome conveniente a cada um deles,—devemos nós vir e adorar imagens? Se, na verdade, a matéria e Deus são o mesmo, dois nomes para uma só coisa, então certamente, em não termos os paus e as pedras, o ouro e a prata, por deuses, somos culpados de impiedade. Mas se eles estão no mais alto grau possível de afastamento um do outro—tão distantes como o artista e os materiais da sua arte—por que somos chamados a dar contas? Porque, assim como é o oleiro e o barro (sendo a matéria o barro, e o artista o oleiro), assim é Deus, o Artífice do mundo, e a matéria, que Lhe é subserviente para os fins da Sua arte. Mas, assim como o barro não pode tornar-se vasos por si mesmo sem a arte, assim também a matéria, que é capaz de tomar todas as formas, não recebeu, sem Deus, o Artífice, distinção, forma e ordem. E, assim como não temos a olaria por mais valiosa do que aquele que a fez, nem os vasos de vidro e ouro do que os trabalhou; mas, se há neles algo de elegante na arte, louvamos o artífice, e é ele quem colhe a glória dos vasos: assim também com a matéria e Deus—a glória e a honra da ordem do mundo pertence de direito, não à matéria, mas a Deus, o Artífice da matéria. De modo que, se considerássemos as várias formas da matéria como deuses, pareceríamos não ter nenhum senso do verdadeiro Deus, porque estaríamos pondo as coisas que são dissolúveis e perecíveis ao nível daquilo que é eterno.

Capítulo XVI.—Os cristãos não adoram o universo.

Formoso é, sem dúvida, o mundo, excelente tanto pela sua magnitude como pela disposição das suas partes, quer as do círculo oblíquo, quer as da região do norte, e também pela sua forma esférica. Contudo, não é a ele, mas ao seu Artífice, que devemos adorar. Pois quando algum dos vossos súbditos vem a vós, não descuida de prestar homenagem a vós, seus soberanos e senhores, de quem obterá tudo quanto precisa, e se dirigem à magnificência do vosso palácio; mas, se porventura se depararem com a residência real, lançam-lhe um breve olhar de admiração pela sua bela estrutura; porém é a vós mesmos que prestam honra, como sendo "tudo em todos". Vós, soberanos, na verdade, ergueis e adornais os vossos palácios para vós mesmos; mas o mundo não foi criado porque Deus tivesse necessidade dele; pois Deus é Ele mesmo tudo para Si mesmo — luz inacessível, um mundo perfeito, espírito, poder, razão. Se, portanto, o mundo é um instrumento afinado, que se move em tempo bem medido, adoro o Ser que lhe deu a harmonia, e toca as suas notas, e canta a melodia concordante, e não o instrumento. Pois nos concursos musicais os juízes não passam ao largo dos tocadores de lira para coroar as liras. Quer, pois, como diz Platão, o mundo seja um produto da arte divina, admiro a sua beleza e adoro o Artífice; quer seja a sua essência e corpo, como afirmam os peripatéticos, não descuramos de adorar a Deus, que é a causa do movimento do corpo, e descer "aos pobres e fracos elementos", adorando no ar impassível (como lhe chamam) a matéria passível; ou, se alguém concebe as várias partes do mundo como poderes de Deus, não nos achegamos e prestamos homenagem aos poderes, mas ao seu Fazedor e Senhor. Não peço à matéria o que ela não tem para dar, nem, passando por Deus, rendo homenagem aos elementos, que nada podem fazer senão o que lhes foi ordenado; pois, embora sejam belos à vista, pela arte do seu Artífice, contêm ainda a natureza da matéria. E a esta opinião também Platão dá testemunho; "pois", diz ele, "aquilo que se chama céu e terra recebeu muitas bênçãos do Pai, mas ainda participa do corpo; portanto, não pode de modo algum estar livre da mudança." Se, pois, enquanto admiro os céus e os elementos quanto à sua arte, não os adoro como deuses, sabendo que a lei da dissolução está sobre eles, como posso chamar deuses àqueles objetos de quem sei que os fazedores são homens? Atendei, peço, a breves palavras sobre este assunto.

Capítulo XVII.—Os nomes dos deuses e as suas imagens são apenas de data recente.

Um apologista deve aduzir argumentos mais precisos do que os que até agora apresentei, tanto acerca dos nomes dos deuses, para mostrar que são de origem recente, como acerca das suas imagens, para mostrar que são, por assim dizer, de ontem. Vós mesmos, contudo, estais perfeitamente cientes destas matérias, visto que sois versados em todos os ramos do saber, e mais do que todos os outros homens estais familiarizados com os antigos.

Afirmo, pois, que foram Orfeu, Homero e Hesíodo quem deram tanto genealogias como nomes àqueles a quem chamam deuses. Tal é também o testemunho de Heródoto. “Minha opinião,” diz ele, “é que Hesíodo e Homero me precederam em quatrocentos anos, e não mais; e foram eles que compuseram uma teogonia para os gregos, e deram aos deuses os seus nomes, e lhes designaram as suas várias honras e funções, e descreveram as suas formas.”

Representações dos deuses, por outro lado, não eram de todo usadas, enquanto a estatuária, a pintura e a escultura eram desconhecidas; nem se tornaram comuns até que apareceram Saurias o Samiano, Crato o Sicíone, Cleantes o Coríntio e a donzela coríntia, quando o desenho a contorno foi inventado por Saurias, que esboçou um cavalo ao sol, e a pintura por Crato, que pintou a óleo sobre uma tábua caiada os contornos de um homem e uma mulher; e a arte de fazer figuras em relevo (κοροπλαθική) foi inventada pela donzela, que, estando apaixonada por uma pessoa, traçou a sua sombra na parede enquanto ele dormia, e seu pai, deleitado com a exatidão da semelhança (era oleiro), entalhou o esboço e o preencheu com barro: esta figura ainda se conserva em Corinto.

Depois destes, Dédalo e Teodoro o Milesiano inventaram ainda a escultura e a estatuária.

Percebeis, pois, que o tempo desde que as representações de forma e a feitura de imagens começaram é tão curto, que podemos nomear o artista de cada deus em particular. A imagem de Ártemis em Éfeso, por exemplo, e a de Atena (ou antes Athelâ, pois assim é ela chamada pelos que falam mais ao estilo dos mistérios; pois assim era chamada a antiga imagem feita da oliveira), e a figura sentada da mesma deusa, foram feitas por Endeu, discípulo de Dédalo; o deus Pítico foi obra de Teodoro e Telecles; e o deus Délio e Ártemis se devem à arte de Tecteu e Angélio; Hera em Samos e em Argos veio das mãos de Smilis, e as outras estátuas foram de Fídias; Afrodite a cortesã em Cnido é produção de Praxíteles; Asclépio em Epidaurus é obra de Fídias.

Numa palavra, de nenhuma destas estátuas se pode dizer que não foi feita por homem. Se, pois, estes são deuses, por que não existiram desde o princípio? Por que, na verdade, são eles mais jovens do que aqueles que os fizeram? Por que, na verdade, para virem à existência, precisaram do auxílio de homens e da arte? Eles não são senão terra, e pedras, e matéria, e arte curiosa.

Capítulo XVIII.—Os próprios deuses foram criados, como confessam os poetas.

Mas, visto que por alguns se afirma que, embora estas sejam apenas imagens, contudo existem deuses em honra dos quais são feitas; e que as súplicas e sacrifícios oferecidos às imagens se devem referir aos deuses, e são na verdade feitos aos deuses; e que não há qualquer outro modo de chegar até eles, pois e, enquanto, em prova de que tal é o fato, eles aduzem as energias possuídas por certas imagens, examinemos o poder ligado aos seus nomes. E rogar-vos-ia, ó maiores dos imperadores, antes de entrar nesta discussão, que sejais indulgente para comigo enquanto apresento considerações verdadeiras; pois não é meu desígnio mostrar a falácia dos ídolos, mas, refutando as calúnias lançadas contra nós, oferecer uma razão para o gênero de vida que seguimos. Possais vós, considerando-vos a vós mesmos, ser capazes de descobrir também o reino celeste! Pois assim como todas as coisas vos estão sujeitas, a vós, pai e filho, que recebestes o reino do alto (porque “a alma do rei está na mão de Deus”, diz o profético Espírito), assim também ao único Deus e ao Logos que dele procede, o Filho, por nós apreendido como inseparável d’Ele, todas as coisas estão de modo semelhante sujeitas. Isto, pois, especialmente vos rogo que considereis atentamente. Os deuses, como afirmam, não existiram desde o princípio, mas cada um deles veio à existência exatamente como nós. E nesta opinião todos concordam. Homero fala de e Orfeu (o qual, além disso, foi o primeiro a inventar os seus nomes, e relatou os seus nascimentos, e narrou os feitos de cada um, e é por eles tido como quem trata com maior verdade do que outros das coisas divinas, e a quem o próprio Homero segue na maioria das matérias, especialmente no tocante aos deuses) — também ele fixou a sua primeira origem como sendo da água: — Pois, segundo ele, a água era o princípio de todas as coisas, e da água formou-se o lodo, e de ambos foi produzido um animal, um dragão com uma cabeça de leão que lhe crescia, e entre as duas cabeças havia o rosto de um deus, chamado Héracles e Cronos. Este Héracles gerou um ovo de tamanho enorme, o qual, tornando-se pleno, foi, pela poderosa fricção do seu gerador, partido em dois, recebendo a parte superior a forma do céu (οὐρανός), e a parte inferior a da terra (γῆ). A deusa Gé, além disso, surgiu com um corpo; e Úrano, pela sua união com Gé, gerou fêmeas, Cloto, Láquesis e Átropos; e machos, os de cem mãos Cotes, Giges, Briareu, e os Ciclopes Brontes, Estéropes e Argos, aos quais também ele amarrou e precipitou no Tártaro, tendo sabido que havia de ser expulso do seu governo por seus filhos; pelo que Gé, irada, produziu os Titãs.

Capítulo XX.—Representações absurdas dos deuses.

Se o absurdo da sua teologia se confinasse a dizer que os deuses foram criados e deviam a sua constituição à água, uma vez que demonstrei que nada é feito que não seja também sujeito à dissolução, poderia prosseguir para as acusações restantes. Mas, por um lado, descreveram as suas formas corporais: falando de Hércules, por exemplo, como um deus em forma de dragão enroscado; de outros como centímanos; da filha de Zeus, que ele gerou de sua mãe Reia; ou de Deméter, como tendo dois olhos na ordem natural, e dois na testa, e o rosto de um animal na parte posterior do pescoço, e como tendo também cornos, de modo que Reia, assustada com o seu monstro de filha, fugiu dela e não lhe deu o peito (θηλή), donde misticamente é chamada Atelá, mas vulgarmente Perséfone e Coré, embora não seja a mesma que Atena, que é chamada Coré da pupila do olho; — e, por outro lado, descreveram as suas admiráveis realizações, como as consideram: como Cronos, por exemplo, mutilou seu pai e o precipitou do seu carro, e como assassinou seus filhos e devorou os machos deles; e como Zeus amarrou seu pai e o lançou ao Tártaro, como também Urano fez a seus filhos, e lutou com os Titãs pelo governo; e como perseguiu sua mãe Reia quando ela se recusou a desposá-lo, e ela tornando-se uma dragão, e ele mesmo transformando-se num dragão, a amarrou com o que é chamado o nó hercúleo, e consumou o seu propósito, do qual fato a vara de Hermes é um símbolo; e novamente, como violou sua filha Perséfone, também neste caso assumindo a forma de um dragão, e se tornou pai de Dionísio. Perante narrações como estas, devo dizer ao menos isto: Que há de conveniente ou útil em tal história, para que devamos acreditar que Cronos, Zeus, Coré e os restantes são deuses? São as descrições dos seus corpos? Ora, que homem de juízo e reflexão acreditará que uma víbora foi gerada por um deus (assim Orfeu: —), ou quem admitirá que o próprio Fanes, sendo um deus primogénito (pois ele foi o que foi produzido do ovo), tem o corpo ou a forma de um dragão, ou foi engolido por Zeus, para que Zeus se tornasse demasiado grande para ser contido? Porque se eles em nada diferem dos mais baixos brutos (visto que é evidente que a Divindade deve diferir das coisas da terra e daquelas que são derivadas da matéria), não são deuses. Como, pois, pergunto, podemos aproximar-nos deles como suplicantes, quando a sua origem se assemelha à do gado, e eles mesmos têm a forma de brutos, e são feios de se ver?

Capítulo XXI.—Amores impuros atribuídos aos deuses.

Mas, se acaso se disser que eles tão-somente tiveram formas carnais, e possuem sangue e semente, e as afecções da ira e do desejo sexual, ainda assim devemos considerar tais asserções como disparatadas e ridículas; porque não há ira, nem desejo e apetite, nem semente procriadora, nos deuses. Tenham eles, pois, formas carnais, mas sejam superiores à cólera e à ira, para que não se veja Atena, nem Hera assim apareça: — E sejam superiores à dor: — Porque até mesmo os homens rudes e estúpidos, que se entregam à ira e à dor, eu os censuro. Mas quando o “pai dos homens e dos deuses” pranteia por seu filho, — e não pode, enquanto pranteia, livrá-lo do perigo: — quem não culparia a insensatez daqueles que, com tais fábulas, são amantes dos deuses, ou antes, vivem sem deus algum? Tenham eles formas carnais, mas não seja Afrodite ferida por Diomedes no seu corpo: — ou por Ares na sua alma: — Aquele que era terrível na batalha, o aliado de Zeus contra os Titãs, é mostrado como mais fraco que Diomedes: — Cala-te, Homero, um deus jamais se enfurece. Mas tu me descreves o deus como ensanguentado e flagelo dos mortais: — e contas do seu adultério e dos seus vínculos: — Não derramam eles em abundância tais ímpias sandices acerca dos deuses? Urano é mutilado; Cronos é atado e precipitado ao Tártaro; os Titãs se revoltam; Estige morre em combate; sim, até mesmo os representam como mortais; estão enamorados uns dos outros; estão enamorados de seres humanos: — Não estão eles enamorados? Não padecem eles? Não, em verdade, eles são deuses, e o desejo não os pode tocar! Ainda que um deus assuma a carne em conformidade com um desígnio divino, ele é, portanto, escravo do desejo. Ele é criado, é perecível, sem nenhum traço de deus nele. Não, eles são até mesmo servos assalariados dos homens: — E apascentam o gado: — Admeto, portanto, era superior ao deus. Profeta e sábio, e que podes predizer para outrem as coisas que hão de ser, não adivinhaste a matança do teu amado, mas até o mataste com a tua própria mão, por mais querido que fosse: — (Ésquilo está a reprovar Apolo por ser um falso profeta:)

Capítulo XXII.—Pretensas explicações simbólicas.

Mas talvez estas coisas sejam invenções poéticas, e haja alguma explicação natural delas, como esta de Empédocles:— Se, portanto, Zeus é fogo, e Hera a terra, e Aidoneus o ar, e Nestis a água, e estes são elementos—fogo, água, ar—, nenhum deles é deus, nem Zeus, nem Hera, nem Aidoneus; porque da matéria separada em partes por Deus é a sua constituição e origem:— Eis coisas que sem harmonia não podem subsistir; que seriam levadas à ruína pela discórdia: como, então, pode alguém dizer que são deuses? A Amizade, segundo Empédocles, tem aptidão para governar; as coisas compostas são governadas, e o que é apto para governar tem o domínio; de modo que, se fizermos o poder do governado e do governante um e o mesmo, estaremos, sem o saber, pondo a matéria perecível, flutuante e mutável em igualdade com o Deus incriado, eterno e sempre consigo mesmo concordante. Zeus é, segundo os Estoicos, a parte fervente da natureza; Hera é o ar (ἀήρ)—o próprio nome, se unido a si mesmo, significa isso; Posídon é o que se bebe (a água, πόσις). Mas estas coisas são por diferentes pessoas explicadas de objetos naturais de diferentes maneiras. Uns chamam a Zeus ar duplo masculino-feminino; outros, a estação que traz o tempo ameno, por causa da qual ele só escapou de Kronos. Mas aos Estoicos pode-se dizer: Se reconheceis um só Deus, o Supremo, Incriado e Eterno, e tantos corpos compostos quantas são as mudanças da matéria, e dizeis que o Espírito de Deus, que penetra a matéria, obtém segundo suas variações uma diversidade de nomes, as formas da matéria se tornarão o corpo de Deus; mas quando os elementos forem destruídos na conflagração, os nomes necessariamente perecerão juntamente com as formas, restando tão-somente o Espírito de Deus. Quem, então, pode crer que esses corpos, dos quais a variação segundo a matéria está aliada à corrupção, são deuses? Mas àqueles que dizem que Kronos é o tempo, e Reia a terra, e que ela engravida de Kronos e dá à luz, donde é considerada a mãe de todos; e que ele gera e devora seus filhos; e que a mutilação é o coito do macho com a fêmea, que corta a semente e a lança no ventre, e gera um ser humano, que tem em si o desejo sexual, que é Afrodite; e que a loucura de Kronos é a mudança de estação, que destrói as coisas animadas e inanimadas; e que as cadeias e o Tártaro são o tempo, que é mudado pelas estações e desaparece;—a tais pessoas dizemos: Se Kronos é o tempo, ele muda; se uma estação, ele se volta; se trevas, ou geada, ou a parte úmida da natureza, nenhuma destas coisas é permanente; mas a Divindade é imortal, imóvel e inalterável: de modo que nem Kronos nem sua imagem são Deus. Quanto a Zeus novamente: Se ele é ar, nascido de Kronos, do qual a parte masculina é chamada Zeus e a feminina Hera (donde ambos irmã e esposa), ele está sujeito à mudança; se uma estação, ele se volta; mas a Divindade nem muda nem se desloca. Mas por que cansaria eu a vossa paciência dizendo mais, quando sabeis tão bem o que foi dito por cada um daqueles que resolveram estas coisas na natureza, ou o que vários escritores pensaram acerca da natureza, ou o que dizem acerca de Atena, a quem afirmam ser a sabedoria (φρόνησις) que tudo permeia; e acerca de Ísis, a quem chamam o nascimento de todo o tempo (φύσις αἰῶνος), de quem todos brotaram e por quem todos existem; ou acerca de Osíris, em cujo assassinato por Tifão, seu irmão, Ísis com seu filho Hórus procuraram seus membros, e encontrando-os, honraram-nos com um sepulcro, o qual sepulcro é até hoje chamado o túmulo de Osíris? Pois, enquanto vagueiam para cima e para baixo acerca das formas da matéria, deixam de encontrar o Deus que só pode ser contemplado pela razão, ao mesmo tempo que deificam os elementos e suas várias partes, aplicando-lhes diferentes nomes em diferentes tempos: chamando a sementeira do trigo, por exemplo, Osíris (donde dizem que, nos mistérios, ao encontrar os membros do seu corpo, ou os frutos, Ísis é assim saudada: Achamos-te, regozijamo-nos contigo), o fruto da videira, Dionísio, a videira mesma, Sêmele, o calor do sol, o raio. E, no entanto, de fato, os que referem as fábulas a deuses reais fazem qualquer coisa antes que acrescentar ao seu caráter divino; pois não percebem que, pela própria defesa que fazem dos deuses, confirmam as coisas que são alegadas a respeito deles. Que têm Europa, e o touro, e o cisne, e Leda, a ver com a terra e o ar, para que o abominável coito de Zeus com eles seja tomado como o coito da terra e do ar? Mas, falhando em descobrir a grandeza de Deus, e não podendo elevar-se ao alto com a razão (pois não têm afinidade com o lugar celeste), eles definham entre as formas da matéria, e enraizados na terra, deificam as mudanças dos elementos: tal como se alguém pusesse o navio em que navegou no lugar do timoneiro. Mas, assim como o navio, ainda que equipado de tudo, de nada serve se não tiver timoneiro, assim também os elementos, ainda que dispostos em perfeita ordem, de nada servem sem a providência de Deus. Pois o navio não navegará por si mesmo; e os elementos sem seu Artífice não se moverão.

Capítulo XXIII.—Opiniões de Tales e Platão.

Bem podeis, todavia, visto que excedeis a todos os homens em entendimento, perguntar: como sucede então que alguns dos ídolos manifestem poder, se aqueles a quem erigimos as estátuas não são deuses? Pois não é verossímil que imagens destituídas de vida e movimento possam por si mesmas fazer coisa alguma sem um motor. Que em vários lugares, cidades e nações se produzam certos efeitos em nome dos ídolos, longe estamos de negar. Nem por isso, contudo, se alguns receberam benefício e outros, ao contrário, sofreram dano, julgaremos serem deuses aqueles que produziram os efeitos em um ou outro caso. Mas fiz cuidadosa investigação, tanto por que razão pensais terem os ídolos este poder, como quem são os que, usurpando-lhes os nomes, produzem os efeitos. Necessário me é, porém, ao tentar mostrar quem são os que produzem os efeitos atribuídos aos ídolos e que não são deuses, recorrer a algumas testemunhas dentre os filósofos. Primeiramente Tales, conforme relatam os que examinaram acuradamente suas opiniões, divide [os seres superiores] em Deus, demônios e heróis. A Deus reconhece como a Inteligência (νοῦς) do mundo; por demônios entende seres possuidores de alma (ψυχικαί); e por heróis, as almas separadas dos homens, sendo as boas as almas boas, e as más as vis. Platão, por sua vez, embora não consinta em outros pontos, também divide [os seres superiores] no Deus incriado e naqueles produzidos pelo Incriado para ornamento do céu, dos planetas e das estrelas fixas, e em demônios; acerca dos quais demônios, não julgando próprio falar ele mesmo, pensa que se deve ouvir aqueles que deles falaram. "Falar acerca dos outros demônios e conhecer sua origem está além de nossas forças; mas devemos crer naqueles que falaram antes, nos descendentes dos deuses, como dizem — e certamente devem conhecer bem seus próprios antepassados: é impossível, portanto, descrer dos filhos dos deuses, ainda que falem sem provas prováveis ou convincentes; mas, como professam contar as coisas de sua própria família, somos obrigados, em conformidade com o costume, a crer neles. Deste modo, então, tenhamos e digamos como eles acerca da origem dos próprios deuses. De Gê e Urano nasceram Oceano e Tétis; e destes, Fórcis, Cronos e Reia, e os demais; e de Cronos e Reia, Zeus, Hera e todos os outros, que, sabemos, são chamados seus irmãos; além de outros descendentes ainda destes." Acreditava, então, aquele que contemplara a eterna Inteligência e o Deus apreendido pela razão, e declarara seus atributos — sua real existência, a simplicidade de sua natureza, o bem que dele emana, que é a verdade, e discorrera sobre o poder primordial, e como "todas as coisas estão acerca do Rei de todas, e todas as coisas existem por causa dele, e ele é a causa de todas"; e acerca do dois e do três, que "o segundo se move acerca dos segundos, e o terceiro acerca dos terceiros" — acreditava este homem que aprender a verdade acerca daqueles que se diz terem sido produzidos de coisas sensíveis, a saber, terra e céu, fosse tarefa que transcendia suas forças? Não é de crer por um momento. Mas porque julgou impossível crer que deuses gerem e sejam gerados, pois a tudo que começa a ser segue-se um fim, e (pois isto é muito mais difícil) mudar as opiniões da multidão, que recebe as fábulas sem exame, por esta razão declarou estar além de suas forças conhecer e falar acerca da origem dos outros demônios, uma vez que não podia nem admitir nem ensinar que os deuses fossem gerados. E quanto àquela sua palavra: "O grande soberano no céu, Zeus, conduzindo um carro alado, avança primeiro, ordenando e governando todas as coisas, e o seguem uma hoste de deuses e demônios", isto não se refere ao Zeus que se diz ter nascido de Cronos; pois aqui o nome é dado ao Fazedor do universo. Isto é mostrado pelo próprio Platão: não podendo designá-lo por outro título que fosse adequado, valeu-se do nome popular, não como próprio de Deus, mas para clareza, porque não é possível discorrer sobre Deus a todos os homens tão plenamente quanto se poderia; e acrescenta ao mesmo tempo o epíteto "Grande", para distinguir o celeste do terreno, o incriado do criado, que é mais jovem que o céu e a terra, e mais jovem que os cretenses, que o roubaram para que não fosse morto por seu pai.

Capítulo XXIV.—Acerca dos anjos e dos gigantes.

Que necessidade há, falando a vós que perscrutastes toda espécie de conhecimento, de mencionar os poetas, ou de examinar opiniões de outro gênero? Baste dizer isto. Se os poetas e filósofos não reconhecessem que há um só Deus, e acerca destes deuses não opinassem, uns que são demônios, outros que são matéria, e outros que outrora foram homens, — haveria alguma aparência de razão para sermos molestados como o somos, nós que empregamos linguagem que distingue entre Deus e a matéria, e as naturezas de ambos. Pois, assim como reconhecemos um Deus, e um Filho, seu Verbo, e um Espírito Santo, unidos em essência, — o Pai, o Filho, o Espírito, porque o Filho é a Inteligência, a Razão, a Sabedoria do Pai, e o Espírito uma efluência, como a luz do fogo; assim também apreendemos a existência de outras potências, que exercem domínio acerca da matéria e por meio dela, e uma em particular, que é hostil a Deus: não que algo seja realmente oposto a Deus, como a discórdia o é à amizade, segundo Empédocles, e a noite ao dia, segundo o aparecimento e desaparecimento dos astros (pois, ainda que algo se houvesse posto em oposição a Deus, teria cessado de existir, sendo a sua estrutura destruída pelo poder e força de Deus), mas que ao bem que está em Deus, o qual Lhe pertence necessariamente e com Ele coexiste, como a cor com o corpo, sem o qual não tem existência (não como parte dele, mas como uma propriedade concomitante que com ele coexiste, unida e mesclada, assim como é natural ao fogo ser amarelo e ao éter azul escuro), — ao bem que está em Deus, digo, opõe-se o espírito que está acerca da matéria, que foi criado por Deus, assim como os outros anjos foram por Ele criados, e encarregado do controle da matéria e das formas da matéria. Pois este é o ofício dos anjos: — exercer a providência por Deus sobre as coisas criadas e ordenadas por Ele; de modo que Deus tenha a providência universal e geral do todo, enquanto as partes particulares são providas pelos anjos postos sobre elas. Assim como entre os homens, que têm livre arbítrio quanto à virtude e ao vício (pois nem honraríeis os bons nem puniríeis os maus, se o vício e a virtude não estivessem em seu próprio poder; e uns são diligentes nas matérias que lhes são confiadas por vós, e outros infiéis), assim é entre os anjos. Alguns, agentes livres, observareis, tais como foram criados por Deus, perseveraram naquelas coisas para as quais Deus os fizera e sobre as quais os ordenara; mas alguns ultrajaram tanto a constituição da sua natureza como o governo que lhes foi confiado: a saber, este dominador da matéria e das suas várias formas, e outros daqueles que foram colocados acerca deste primeiro firmamento (bem sabeis que nada dizemos sem testemunhas, mas declaramos as coisas que foram anunciadas pelos profetas); estes caíram em amor impuro das virgens, e foram subjugados pela carne, e ele tornou-se negligente e mau na administração das coisas que lhe foram confiadas. Destes amantes das virgens, portanto, foram gerados os que são chamados gigantes. E se algo foi dito também pelos poetas acerca dos gigantes, não vos admireis disso: a sabedoria mundana e a divina diferem tanto entre si quanto a verdade e a verossimilhança: uma é do céu e a outra da terra; e, na verdade, segundo o príncipe da matéria,—

Capítulo XXV.—Os poetas e filósofos negaram a Providência divina.

Estes anjos, pois, que caíram do céu e habitam o ar e a terra, e já não podem subir às coisas celestiais, e as almas dos gigantes, que são os demônios que vagueiam pelo mundo, realizam ações semelhantes, umas (isto é, os demônios) segundo as naturezas que receberam, outras (isto é, os anjos) segundo os apetites que satisfizeram. Mas o príncipe da matéria, como pode ser visto simplesmente pelo que ocorre, exerce um controle e governo contrário ao bem que está em Deus:— Prosperidade e adversidade, contrárias à esperança e à justiça, tornaram impossível para Eurípides dizer a quem pertence a administração dos assuntos terrenos, que é de tal natureza que se poderia dizer dela:— A mesma coisa levou Aristóteles a dizer que as coisas abaixo do céu não estão sob o cuidado da Providência, embora a eterna providência de Deus se preocupe igualmente conosco cá embaixo,— e se dirige aos que são dignos individualmente, segundo a verdade e não segundo a opinião; e todas as outras coisas, segundo a constituição geral da natureza, são providas pela lei da razão. Mas porque os movimentos e operações demoníacas que procedem do espírito adverso produzem essas investidas desordenadas, e além disso movem os homens, uns de um modo e outros de outro, como indivíduos e como nações, separada e conjuntamente, de acordo com a tendência da matéria por um lado, e da afinidade pelas coisas divinas por outro, de dentro e de fora,—alguns que não são de pouca reputação pensaram, portanto, que este universo é constituído sem qualquer ordem definida, e é levado de um lado para outro por um acaso irracional. Mas eles não entendem que, daquelas coisas que pertencem à constituição do mundo inteiro, nada está fora de ordem ou negligenciado, mas que cada uma delas foi produzida pela razão, e que, portanto, não transgridem a ordem que lhes foi prescrita; e que o próprio homem também, no que diz respeito Àquele que o fez, é bem ordenado, tanto por sua natureza original, que tem um caráter comum a todos, como pela constituição de seu corpo, que não transgride a lei que lhe foi imposta, e pelo término de sua vida, que permanece igual e comum a todos igualmente; mas que, segundo o caráter peculiar a si mesmo e a operação do príncipe reinante e dos demônios seus seguidores, é impelido e movido nesta ou naquela direção, não obstante todos possuírem em comum a mesma constituição original de espírito.

Referência atual: Atenágoras, Súplica em Favor dos Cristãos, II, 1