Obra patrística
Sete Cartas (recensão breve)
Santo Inácio de Antioquia · c. 35–108
II, 1–II, 20
Capítulo I.—Elogio dos Efésios.
Tornei-me conhecedor do vosso nome, mui amados em Deus, o qual adquiristes pelo hábito da justiça, segundo a fé e o amor em Jesus Cristo, nosso Salvador. Sendo seguidores de Deus, e animando-vos pelo sangue de Deus, perfeitamente cumpristes a obra que vos era conveniente. Porque, ouvindo que eu vinha preso da Síria pelo nome e esperança comum, confiando, mediante vossas orações, ser permitido combater com feras em Roma, para que assim, pelo martírio, me torne verdadeiramente discípulo d’Aquele que «Se deu por nós em oblação e sacrifício a Deus», [apressastes-vos a ver-me]. Recebi, portanto, toda a vossa multidão em nome de Deus, por meio de Onésimo, homem de amor inefável e vosso bispo segundo a carne, a quem vos rogo, por Jesus Cristo, que ameis, e que todos vos esforceis por ser-lhe semelhantes. E bendito seja Aquele que vos concedeu, sendo dignos, alcançar tão excelente bispo.
Capítulo II.—Congratulações e súplicas.
Quanto a meu conservo Burro, vosso diácono para com Deus e bendito em todas as coisas, rogo que permaneça por mais tempo, tanto para vossa honra como para a do vosso bispo. Também Croco, digno tanto de Deus como de vós, a quem recebi como manifestação do vosso amor, em tudo me refrigerou, como também o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo o refrigerará; juntamente com Onésimo, Burro, Euplo e Frontão, por meio dos quais, quanto ao amor, vos vi a todos vós. Possa eu sempre gozar de vós, se é que sou digno disso. Convém, portanto, que de toda a maneira glorifiqueis a Jesus Cristo, que vos glorificou, para que, por uma obediência unânime, «sejais perfeitamente unidos no mesmo sentir e no mesmo juízo, e todos digais a mesma coisa acerca da mesma coisa»; e que, sujeitos ao bispo e ao presbitério, em tudo sejais santificados.
Capítulo III.—Exortações à unidade.
Não vos dou ordens, como se eu fosse alguém grande. Pois, embora esteja preso pelo nome [de Cristo], ainda não sou perfeito em Jesus Cristo. Porque agora começo a ser discípulo, e falo-vos como a condiscípulos comigo. Porque era necessário que eu fosse incitado por vós na fé, exortação, paciência e longanimidade. Mas, porquanto o amor não me permite calar-me a respeito de vós, tomei a mim primeiro exortar-vos a que todos corrésseis juntos conforme a vontade de Deus. Porque também Jesus Cristo, nossa vida inseparável, é a [manifesta] vontade do Pai; assim como os bispos, constituídos por toda parte até os confins [da terra], o são pela vontade de Jesus Cristo.
Capítulo IV.—Continuação do mesmo.
Pelo que convém que corrais juntos conforme a vontade do vosso bispo, o que também fazeis. Porque o vosso presbitério justamente renomado, digno de Deus, está ajustado tão exatamente ao bispo como as cordas à harpa. Portanto, na vossa concórdia e amor harmonioso, Jesus Cristo é cantado. E vós, homem por homem, vos torneis um coro, para que, sendo harmoniosos no amor, e entoando o cântico de Deus em uníssono, com uma só voz canteis ao Pai por Jesus Cristo, de modo que Ele vos ouça e perceba pelas vossas obras que sois verdadeiramente os membros de Seu Filho. É proveitoso, portanto, que vivais em uma unidade irrepreensível, para que assim sempre gozeis da comunhão com Deus.
Capítulo V.—O louvor da unidade.
Porque se eu, neste breve espaço de tempo, gozei de tal comunhão com o vosso bispo — não digo de natureza meramente humana, mas espiritual —, quanto mais vos considero venturosos, que estais tão unidos a ele como a Igreja o está a Jesus Cristo, e como Jesus Cristo o está ao Pai, para que todas as coisas concordem na unidade! Ninguém se engane a si mesmo: se alguém não está dentro do altar, está privado do pão de Deus. Porque, se a oração de um ou dois possui tal poder, quanto mais a do bispo e de toda a Igreja! Aquele, pois, que não se congrega com a Igreja, manifestou já por isso o seu orgulho e a si mesmo se condenou. Porque está escrito: “Deus resiste aos soberbos.” Cuidemos, pois, de não nos opormos ao bispo, a fim de que sejamos súbditos de Deus.
Capítulo VI.—Tende respeito ao bispo como ao próprio Cristo.
Quanto mais alguém vê o bispo guardar silêncio, tanto mais o deve reverenciar. Porque devemos receber todo aquele que o Senhor da casa envia para estar sobre a sua família, como faríamos a quem o enviou. É manifesto, portanto, que devemos olhar para o bispo como olharíamos para o próprio Senhor. E, na verdade, o próprio Onésimo muito recomenda a vossa boa ordem em Deus, que todos viveis segundo a verdade, e que nenhuma seita tem morada entre vós. E, na verdade, não dais ouvidos a ninguém mais do que a Jesus Cristo, que fala na verdade.
Capítulo VII.—Cuidado com os falsos mestres.
Porque alguns costumam trazer o nome de Jesus Cristo com engano perverso, enquanto praticam coisas indignas de Deus, os quais deveis fugir como a feras. Porque são cães vorazes, que mordem secretamente, contra os quais deveis estar de sobreaviso, pois são homens que dificilmente se podem curar. Há um só Médico, que possui carne e espírito; feito e não feito; Deus existindo em carne; vida verdadeira na morte; tanto de Maria como de Deus; primeiro passível e depois impassível — Jesus Cristo nosso Senhor.
Capítulo VIII.—Renovado louvor aos Efésios.
Não vos engane, pois, ninguém, como de facto não sois enganados, pois estais inteiramente devotados a Deus. Porque, já que não há contenda alguma entre vós que vos possa atribular, certamente viveis segundo a vontade de Deus. Eu sou muito inferior a vós e necessito ser santificado pela vossa Igreja de Éfeso, tão renomada em todo o mundo. Os que são carnais não podem fazer as coisas espirituais, nem os espirituais as carnais; assim como a fé não pode fazer as obras da incredulidade, nem a incredulidade as obras da fé. Mas até as coisas que fazeis segundo a carne são espirituais; porque fazeis todas as coisas em Jesus Cristo.
Capítulo IX.—Não destes ouvidos aos falsos mestres.
Não obstante, ouvi dizer que alguns passaram daqui para vós, trazendo falsa doutrina, aos quais não permitistes semear entre vós, mas tapastes os ouvidos, para que não recebêsseis as coisas que por eles foram semeadas, sendo como pedras do templo do Pai, preparadas para a edificação de Deus Pai, e elevadas ao alto pelo instrumento de Jesus Cristo, que é a cruz, usando do Espírito Santo como de uma corda, enquanto a vossa fé foi o meio pelo qual ascendestes, e o vosso amor, o caminho que conduziu a Deus. Vós, portanto, bem como todos os vossos companheiros de jornada, sois portadores de Deus, portadores do templo, portadores de Cristo, portadores da santidade, adornados em tudo com os mandamentos de Jesus Cristo, no qual também exulto por ter sido julgado digno, por meio desta Epístola, de conversar e regozijar-me convosco, porque, no tocante à vossa vida cristã, nada amais senão a Deus unicamente.
Capítulo X.—Exortações à oração, humildade, etc.
E orai sem cessar pelos outros homens. Porque neles há esperança de arrependimento, para que alcancem a Deus. Vede, pois, que sejam instruídos pelas vossas obras, se de nenhum outro modo. Sede mansos em resposta à sua ira, humildes em oposição à sua soberba; às suas blasfêmias, retribuí com vossas orações; em contraste com o seu erro, sede firmes na fé; e pela sua crueldade, manifestai a vossa benignidade. Enquanto cuidamos em não imitar a sua conduta, sejamos achados seus irmãos em toda a verdadeira bondade; e procuremos ser imitadores do Senhor (que jamais foi mais injustiçado, mais desamparado, mais condenado?), para que nenhuma planta do diabo se ache em vós, mas permaneçais em toda a santidade e sobriedade em Jesus Cristo, tanto a respeito da carne como do espírito.
Capítulo XI.—Uma exortação ao temor de Deus, etc.
Os últimos tempos chegaram sobre nós. Sejamos, pois, de espírito reverente, e temamos a longanimidade de Deus, para que não se converta em nossa condenação. Porque, ou nos aterrorizemos da ira vindoura, ou consideremos a graça que agora se manifesta — uma de duas coisas. Somente [de um ou de outro modo] sejamos achados em Cristo Jesus para a verdadeira vida. Fora dEle, nada vos atraia, por quem trago estes vínculos, estas joias espirituais, pelas quais possa eu ressurgir mediante as vossas orações, das quais rogo que sempre seja participante, para que seja achado na sorte dos cristãos de Éfeso, que sempre foram do mesmo parecer com os apóstolos pelo poder de Jesus Cristo.
Capítulo XII.—Elogio dos Efésios.
Sei quem sou eu e a quem escrevo. Eu sou um homem condenado, vós fostes objetos de misericórdia; eu estou sujeito ao perigo, vós estais firmados em segurança. Vós sois as pessoas por quem passam aqueles que são exterminados por amor de Deus. Vós estais iniciados nos mistérios do Evangelho com Paulo, o santo, o mártir, o merecidamente felicíssimo, a cujos pés possa eu ser achado, quando alcançar a Deus; o qual em todas as suas Epístolas faz menção de vós em Cristo Jesus.
Capítulo XIII.—Exortação a reunir-se frequentemente para o culto de Deus.
Portanto, cuidai de vos reunir frequentemente para dar graças a Deus e manifestar o Seu louvor. Pois quando vos ajuntais com frequência no mesmo lugar, as potestades de Satanás são destruídas, e a ruína que ele intenta é impedida pela unidade da vossa fé. Nada é mais precioso do que a paz, pela qual toda guerra, tanto no céu como na terra, é levada a termo.
Capítulo XIV.—Exortações à fé e ao amor.
Nenhuma destas coisas vos é oculta, se possuirdes perfeitamente aquela fé e amor para com Cristo Jesus, que são o princípio e o fim da vida. Porque o princípio é a fé, e o fim é o amor. Ora, estas duas, estando inseparavelmente ligadas, são de Deus; ao passo que todas as outras coisas necessárias para uma vida santa as seguem. Ninguém que faz profissão de fé verdadeiramente peca; nem aquele que possui o amor odeia a alguém. A árvore se manifesta pelo seu fruto; assim aqueles que se professam cristãos serão reconhecidos pela sua conduta. Porque não se exige agora uma mera profissão, mas que o homem seja encontrado perseverando no poder da fé até o fim.
Capítulo XV.—Exortação a confessar Cristo tanto pelo silêncio quanto pela palavra.
Melhor é para o homem calar-se e ser [cristão] do que falar e não o ser. Bom é ensinar, se aquele que fala também obra. Há, pois, um só Mestre, que falou, e foi feito; enquanto até mesmo aquelas coisas que Ele fez em silêncio são dignas do Pai. Aquele que possui a palavra de Jesus é verdadeiramente capaz de ouvir até mesmo o Seu próprio silêncio, para que seja perfeito, e tanto aja como fala, e seja reconhecido pelo seu silêncio. Nada há que esteja escondido de Deus, mas os nossos próprios segredos Lhe são próximos. Façamos, pois, todas as coisas como aqueles que O têm habitando em nós, para que sejamos Seus templos, e Ele esteja em nós como nosso Deus, o que de fato é, e Se manifestará diante de nossos rostos. Por isso justamente O amamos.
Capítulo XVI.—O destino dos falsos mestres.
Não erreis, irmãos meus. Os que corrompem as famílias não herdarão o reino de Deus. Se, pois, aqueles que fazem isto quanto à carne sofreram a morte, quanto mais será o caso com aquele que corrompe pela má doutrina a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado! Tal homem, tornando-se assim contaminado, irá para o fogo eterno, e assim também todo aquele que lhe der ouvidos.
Capítulo XVII.—Acautelai-vos das falsas doutrinas.
Com este fim o Senhor permitiu que o ungüento fosse derramado sobre a Sua cabeça, para que Ele pudesse infundir imortalidade na Sua Igreja. Não vos ungis com o mau odor da doutrina do príncipe deste mundo; não vos deixeis levar cativos da vida que vos é proposta. E por que não somos todos prudentes, visto que recebemos o conhecimento de Deus, que é Jesus Cristo? Por que perecemos loucamente, não reconhecendo o dom que o Senhor verdadeiramente nos enviou?
Capítulo XVIII.—A glória da cruz.
Seja o meu espírito tido como nada por amor da cruz, a qual é escândalo para os que não creem, mas para nós salvação e vida eterna. “Onde está o sábio? onde o disputador?” Onde está a jactância daqueles que são chamados prudentes? Porque o nosso Deus, Jesus Cristo, segundo a ordenação de Deus, foi concebido no ventre por Maria, da descendência de Davi, mas pelo Espírito Santo. Nasceu e foi batizado, para que pela Sua paixão purificasse a água.
Capítulo XIX.—Três célebres mistérios.
Ora, a virgindade de Maria foi oculta ao príncipe deste mundo, como também a sua descendência e a morte do Senhor; três mistérios de renome, que foram realizados em silêncio por Deus. Como, pois, foi Ele manifestado ao mundo? Uma estrela brilhou no céu acima de todas as outras estrelas, cuja luz era inexprimível, enquanto a sua novidade causava admiração aos homens. E todas as demais estrelas, com o sol e a lua, formavam um coro a esta estrela, e a sua luz era sobremaneira grande acima de todas elas. E havia agitação quanto a saber de onde vinha este novo espetáculo, tão diferente de tudo o mais [nos céus]. Daí, toda a espécie de magia foi destruída, e todo o laço de maldade desapareceu; a ignorância foi removida, e o antigo reino abolido, manifestando-se o próprio Deus em forma humana para a renovação da vida eterna. E agora teve início aquilo que havia sido preparado por Deus. Daí em diante, todas as coisas estavam em tumulto, porque Ele meditava a abolição da morte.
Capítulo XX.—Promessa de outra carta.
Se Jesus Cristo, por vossas orações, benignamente me permitir, e se for da Sua vontade, num segundo pequeno escrito que vos dirigirei, manifestar-vos-ei mais claramente [a natureza d]a dispensação da qual comecei [a tratar], a respeito do novo homem, Jesus Cristo, na Sua fé e no Seu amor, no Seu sofrimento e na Sua ressurreição. Especialmente [o farei] se o Senhor me der a conhecer que vos reunis homem por homem em comum, pela graça, individualmente, numa só fé, e em Jesus Cristo, que foi da semente de Davi segundo a carne, sendo Ele mesmo Filho do homem e Filho de Deus, de modo que obedeçais ao bispo e ao presbitério com mente indivisa, partindo um mesmo e único pão, o qual é a medicina da imortalidade, e o antídoto para nos impedir de morrer, mas [que faz] que vivamos para sempre em Jesus Cristo.