Obra patrística
Contra as Heresias
Santo Ireneu de Lião · c. 130–202
Capítulo XXI.—Uma defesa da profecia em Isaías VII, 14 contra as más interpretações de Teodócio, Áquila, dos ebionitas e dos judeus. Autoridade da versão da Septuaginta.…
Capítulo XXI.—Uma defesa da profecia em Isaías VII, 14 contra as más interpretações de Teodócio, Áquila, dos ebionitas e dos judeus. Autoridade da versão da Septuaginta.…
7. Por esta razão também Daniel, prevendo o seu advento, disse que uma pedra, cortada sem mãos, veio a este mundo. Pois isto é o que "sem mãos" significa, que a sua vinda a este mundo não foi pela operação de mãos humanas, isto é, daqueles homens que costumam talhar pedra; isto é, José não tomando parte nisto, mas apenas Maria cooperando com o plano preordenado. Pois esta pedra da terra deriva existência tanto do poder quanto da sabedoria de Deus. Por isto também Isaías diz: "Assim diz o Senhor: Eis que coloco nos fundamentos de Sião uma pedra preciosa, eleita, o chefe, a da esquina, de modo que seja tida em honra." Assim, pois, compreendemos que o seu advento na natureza humana não foi pela vontade de um homem, mas pela vontade de Deus.
Capítulo XXI.—Uma defesa da profecia em Isaías VII, 14 contra as más interpretações de Teodócio, Áquila, dos ebionitas e dos judeus. Autoridade da versão da Septuaginta.…
8. Por isto também Moisés, dando um tipo, lançou a sua vara sobre a terra, para que ela, tornando-se carne, expusesse e tragasse toda a oposição dos Egípcios, que se levantava contra o plano preordenado de Deus; para que os próprios Egípcios testificassem que é o dedo de Deus que opera a salvação do povo, e não o filho de José. Pois se Ele fosse o filho de José, como poderia ser maior que Salomão, ou maior que Jonas, ou maior que Davi, sendo gerado da mesma semente, e sendo descendente destes homens? E como foi que Ele também declarou Pedro bem-aventurado, porque O reconheceu como o Filho do Deus vivo?
Capítulo XXI.—Uma defesa da profecia em Isaías VII, 14 contra as más interpretações de Teodócio, Áquila, dos ebionitas e dos judeus. Autoridade da versão da Septuaginta.…
9. Mas além disso, se deveras Ele tivesse sido filho de José, não poderia, segundo Jeremias, ser nem rei nem herdeiro. Pois José é mostrado ser filho de Joaquim e de Jeconias, como também Mateus expõe em sua genealogia. Mas Jeconias e toda a sua posteridade foram deserdados do reino; Jeremias assim declarando: "Vivo eu, diz o Senhor, se Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, se fizesse o sinete da minha mão direita, eu o arrancaria dali e o entregaria nas mãos dos que buscam a tua vida." E novamente: "Jeconias é desonrado como um vaso inútil, porque foi lançado numa terra que não conheceu. Terra, ouve a palavra do Senhor: Escreve este homem como deserdado; pois nenhuma da sua descendência, assentado no trono de Davi, prosperará, ou será príncipe em Judá." E ainda, Deus fala de Joaquim, seu pai: "Por isso assim diz o Senhor acerca de Joaquim, seu pai, rei de Judá: Dele não sairá ninguém assentado no trono de Davi; e seu cadáver será lançado ao calor do dia e ao frio da noite. E eu olharei para ele e para seus filhos, e trarei sobre eles e sobre os habitantes de Jerusalém, sobre a terra de Judá, todos os males que pronunciei contra eles." Aqueles, portanto, que dizem que Ele foi gerado de José, e que nEle têm esperança, causam-se a si mesmos serem deserdados do reino, caindo sob a maldição e repreensão dirigidas contra Jeconias e sua descendência. Porque por esta razão estas coisas foram ditas acerca de Jeconias, o [Espírito] Santo preconhecendo as doutrinas dos mestres iníquos; para que aprendam que de sua descendência—isto é, de José—Ele não havia de nascer, mas que, segundo a promessa de Deus, do seio de Davi o Rei eterno é suscitado, que todas as coisas em Si recapitula, e reuniu em Si a formação antiga [do homem].
Capítulo XXI.—Uma defesa da profecia em Isaías VII, 14 contra as más interpretações de Teodócio, Áquila, dos ebionitas e dos judeus. Autoridade da versão da Septuaginta.…
10. Pois assim como pela desobediência de um homem entrou o pecado e a morte obteve [um lugar] pelo pecado; assim também pela obediência de um homem, tendo sido introduzida a justiça, causará que a vida frutifique naqueles que em tempos passados estavam mortos. E assim como o próprio protoplasto Adão teve sua substância de solo não cultivado e ainda virgem ("pois Deus não havia ainda enviado chuva, e o homem não havia cultivado o solo"), e foi formado pela mão de Deus, isto é, pelo Verbo de Deus, pois "todas as coisas foram feitas por Ele," e o Senhor tomou pó da terra e formou o homem; assim também Aquele que é o Verbo, recapitulando Adão em Si mesmo, justamente recebeu um nascimento, que Lhe permitisse reunir Adão [em Si mesmo], de Maria, que era ainda virgem. Se, portanto, o primeiro Adão tivesse um homem por pai e fosse nascido de semente humana, seria razoável dizer que o segundo Adão foi gerado de José. Mas se o primeiro foi tomado do pó, e Deus foi seu Criador, era necessário que o segundo também, fazendo uma recapitulação em Si mesmo, fosse formado como homem por Deus, para ter uma analogia com o primeiro quanto à sua origem. Por que, pois, não tomou Deus novamente pó, mas obrou para que a formação se fizesse de Maria? Foi para que não se chamasse à existência outra formação, nem qualquer outra que [requereria] ser salva, mas que a mesma formação fosse em [Cristo recapitulada como havia existido em Adão], sendo preservada a analogia.
Capítulo XXII.—Cristo assumiu carne real, concebido e nascido da Virgem.
1. Portanto, aqueles que alegam que Ele nada recebeu da Virgem erram grandemente, pois, para que possam rejeitar a herança da carne, rejeitam também a analogia entre Ele e Adão. Porque se aquele que procedeu da terra teve, na verdade, formação e substância da mão e obra de Deus, mas o outro não da mão e obra de Deus, então Aquele que foi feito à imagem e semelhança do primeiro não preservou, nesse caso, a analogia do homem, e deve parecer uma obra incoerente, não tendo com que possa mostrar a Sua sabedoria. Mas isto é dizer que Ele também apareceu aparentemente como homem quando não era homem, e que foi feito homem não recebendo nada do homem. Pois se Ele não recebeu a substância da carne de um ser humano, nem foi feito homem nem Filho do homem; e se não foi feito o que nós éramos, nenhuma grande coisa fez no que sofreu e suportou. Mas todos concederão que nós somos compostos de um corpo tomado da terra e uma alma que recebe espírito de Deus. Isto, portanto, o Verbo de Deus se fez, recapitulando em Si mesmo a Sua própria obra; e por isso confessa-Se o Filho do homem, e bendiz os mansos, porque eles possuirão a terra. Além disso, o Apóstolo Paulo, na Epístola aos Gálatas, declara claramente: "Deus enviou Seu Filho, feito de mulher". E novamente, na que aos Romanos, diz: "Acerca de Seu Filho, que foi feito da semente de Davi segundo a carne, que foi predestinado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo nosso Senhor".
2. Supérflua também, nesse caso, é a Sua descida a Maria; pois por que desceu a ela se nada havia de receber dela? Ainda mais, se nada houvesse recebido de Maria, nunca ter-Se-ia utilizado daqueles tipos de alimento que derivam da terra, pelos quais é nutrido aquele corpo que foi tomado da terra; nem teria tido fome, jejuando aqueles quarenta dias, como Moisés e Elias, a não ser que Seu corpo anelasse por seu próprio alimento; nem tampouco João, Seu discípulo, teria dito, escrevendo d'Ele: "Mas Jesus, cansado da jornada, estava sentado para descansar"; nem Davi teria proclamado d'Ele de antemão: "Acrescentaram à dor das minhas chagas"; nem teria chorado sobre Lázaro, nem suado grandes gotas de sangue; nem declarado: "A minha alma está tristíssima"; nem, quando o Seu lado foi traspassado, teria saído sangue e água. Pois todos estes são sinais da carne que havia sido derivada da terra, a qual Ele recapitulou em Si mesmo, levando salvação à Sua própria obra.
3. Por isso Lucas assinala que a genealogia que traça a geração de nosso Senhor até Adão contém setenta e duas gerações, ligando o fim ao princípio, e implicando que é Ele quem resumiu em Si mesmo todas as nações dispersas desde Adão para baixo, e todas as línguas e gerações dos homens, juntamente com o próprio Adão. Por isso também Adão foi chamado por Paulo "a figura d'Aquele que havia de vir", porque o Verbo, o Criador de todas as coisas, havia prefigurado para Si mesmo a futura dispensação do gênero humano, ligada ao Filho de Deus; tendo Deus predestinado que o primeiro homem fosse de natureza animal, com este fim, que pudesse ser salvo pelo espiritual. Pois, visto que Ele tinha uma pré-existência como Ser salvador, era necessário que aquilo que poderia ser salvo também fosse chamado à existência, a fim de que o Ser que salva não existisse em vão.
4. Em conformidade com este desígnio, Maria, a Virgem, encontra-se obediente, dizendo: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra." Mas Eva foi desobediente; pois não obedeceu quando ainda era virgem. E assim como ela, tendo na verdade um marido, Adão, mas sendo contudo ainda virgem (porque no Paraíso "estavam ambos nus, e não se envergonhavam", visto que, tendo sido criados pouco tempo antes, não tinham conhecimento da procriação dos filhos: pois era necessário que primeiro chegassem à idade adulta, e então se multiplicassem daí em diante), tendo-se tornado desobediente, foi feita causa de morte, tanto para si mesma como para todo o gênero humano; assim também Maria, tendo um homem desposado, e sendo contudo virgem, por prestar obediência, tornou-se causa de salvação, tanto para si mesma como para todo o gênero humano. E por isso a lei chama a uma mulher desposada com um homem, esposa daquele que a desposara, embora ainda fosse virgem; indicando assim a referência de volta de Maria a Eva, porque o que está unido não poderia ser desatado de outro modo senão pela inversão do processo pelo qual esses laços de união haviam surgido; de modo que os primeiros vínculos sejam cancelados pelos últimos, e que os últimos ponham os primeiros novamente em liberdade. E, de fato, aconteceu que o primeiro pacto se desata do segundo vínculo, mas que o segundo vínculo toma o lugar do primeiro que foi cancelado. Por esta razão declarou o Senhor que os primeiros seriam na verdade últimos, e os últimos primeiros. E o profeta também indica o mesmo, dizendo: "Em lugar de teus pais, te nasceram filhos." Pois o Senhor, tendo nascido "o Primogênito dos mortos", e recebendo em Seu seio os antigos pais, os regenerou para a vida de Deus, tendo-Se tornado Ele mesmo o princípio dos que vivem, como Adão se tornou o princípio dos que morrem. Por isso também Lucas, começando a genealogia pelo Senhor, a levou de volta a Adão, indicando que era Ele quem os regenerava para o Evangelho da vida, e não eles a Ele. E assim também foi que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. Pois o que a virgem Eva havia ligado firmemente pela incredulidade, isto a virgem Maria desatou pela fé.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
1. Era necessário, portanto, que o Senhor, vindo à ovelha perdida e fazendo a recapitulação de tão ampla economia, e buscando a obra de suas próprias mãos, salvasse aquele mesmo homem que havia sido criado à sua imagem e semelhança, isto é, Adão, completando os tempos de sua condenação, que havia incorrido pela desobediência — tempos “que o Pai havia posto em seu próprio poder”. [Isto era necessário, também, porquanto toda a economia da salvação a respeito do homem se deu segundo o bom prazer do Pai, para que Deus não fosse vencido, nem a sua sabedoria diminuída, [na estimativa de suas criaturas]. Pois se o homem, que havia sido criado por Deus para que vivesse, depois de perder a vida, por ter sido danificado pela serpente que o corrompera, não mais retornasse à vida, mas fosse totalmente [e para sempre] abandonado à morte, Deus [nesse caso] teria sido vencido, e a malícia da serpente teria prevalecido sobre a vontade de Deus. Mas porquanto Deus é invencível e longânime, Ele mostrou-se longânime no tocante à correção do homem e à provação de todos, como já observei; e por meio do segundo homem ligou o forte e despojou os seus bens, e aboliu a morte, vivificando aquele homem que estava em estado de morte. Pois assim como o primeiro Adão se tornou um vaso na posse dele (Satanás), o qual ele também mantinha sob seu poder, isto é, trazendo-lhe o pecado iniquamente, e sob o colorido da imortalidade acarretando-lhe a morte. Porque, ao prometer que seriam como deuses, o que de modo algum lhe era possível ser, ele operou neles a morte: pelo que aquele que havia levado o homem cativo foi justamente capturado por sua vez por Deus; mas o homem, que havia sido levado cativo, foi libertado dos laços da condenação.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
2. Mas este é Adão, se a verdade deve ser dita, o primeiro homem formado, do qual a Escritura diz que o Senhor falou: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”; e todos nós somos dele; e como somos dele, por isso herdamos todos o seu título. Mas porquanto o homem é salvo, é conveniente que seja salvo aquele que foi criado o homem original. Pois é demasiado absurdo sustentar que aquele que foi tão profundamente ferido pelo inimigo e foi o primeiro a sofrer o cativeiro, não foi resgatado por Aquele que venceu o inimigo, mas sim os seus filhos — aqueles que ele havia gerado no mesmo cativeiro. Nem o inimigo pareceria ainda vencido, se os antigos despojos permanecessem com ele. Para dar uma ilustração: Se uma força hostil tivesse vencido certos [inimigos], os tivesse amarrado e levado cativos, e os mantivesse por muito tempo em servidão, de modo que entre eles gerassem filhos; e alguém, compadecendo-se daqueles que haviam sido feitos escravos, vencesse essa mesma força hostil; certamente não agiria com equidade se libertasse os filhos daqueles que haviam sido levados cativos do domínio daqueles que haviam escravizado seus pais, mas deixasse estes últimos, que sofreram o ato da captura, sujeitos a seus inimigos — aqueles mesmos por cuja causa ele havia procedido a essa retaliação —, sucedendo os filhos na liberdade por meio da vingança da causa de seus pais, mas não de modo que seus pais, que sofreram o próprio ato da captura, fossem deixados [em cativeiro]. Pois Deus não é destituído de poder nem de justiça, Ele que trouxe socorro ao homem e o restaurou à sua própria liberdade.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
3. Por essa razão também, imediatamente depois que Adão transgrediu, como relata a Escritura, Ele não pronunciou maldição alguma contra o próprio Adão, mas contra a terra, em referência às suas obras, como observou certo antigo: “Deus transferiu a maldição para a terra, para que não permanecesse no homem”. Mas o homem recebeu, como castigo de sua transgressão, a penosa tarefa de lavrar a terra, e de comer o pão no suor do seu rosto, e de voltar ao pó de onde foi tomado. Semelhantemente também a mulher [recebeu] trabalho, e labor, e gemidos, e as dores do parto, e um estado de sujeição, isto é, que ela servisse ao seu marido; de modo que nem perecessem totalmente ao serem amaldiçoados por Deus, nem, permanecendo sem repreensão, fossem levados a desprezar a Deus. Mas a maldição em toda a sua plenitude caiu sobre a serpente, que os havia enganado. “E Deus”, está declarado, “disse à serpente: Porquanto fizeste isso, maldita és tu entre todos os animais e entre todas as bestas da terra.” E isso mesmo diz também o Senhor no Evangelho àqueles que se acham à sua esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que meu Pai preparou para o diabo e seus anjos”; indicando que o fogo eterno não foi originalmente preparado para o homem, mas para aquele que enganou o homem e o fez pecar — para ele, digo, que é o chefe da apostasia, e para aqueles anjos que se tornaram apóstatas juntamente com ele; o qual [fogo], na verdade, também sentirão justamente aqueles que, como ele, perseveram em obras de maldade, sem arrependimento e sem retroceder.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
4. [Estes agem] como Caim [fez, o qual], quando foi aconselhado por Deus a aquietar-se, porque não fizera uma partilha equitativa da porção a que seu irmão tinha direito, mas com inveja e malícia pensou que poderia dominá-lo, não só não aquiesceu, mas até acrescentou pecado ao pecado, indicando seu estado de espírito pela sua ação. Pois o que ele planejara, isso também pôs em prática: tiranizou-o e matou-o; sujeitando Deus o justo ao injusto, para que aquele fosse provado como justo pelas coisas que sofria, e este fosse descoberto como injusto pelas que perpetrava. E nem mesmo por isso se abrandou, nem parou com aquele ato maligno; mas, perguntado onde estava seu irmão, disse: “Não sei; sou eu guardador do meu irmão?” estendendo e agravando [sua] maldade pela resposta. Pois se é mau matar um irmão, muito pior é responder assim com insolência e irreverência ao Deus onisciente, como se pudesse combatê-Lo. E por isso ele mesmo trouxe consigo uma maldição, porque ofereceu gratuitamente uma oferta de pecado, não tendo reverência para com Deus, nem sendo confundido pelo ato de fratricídio.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
5. O caso de Adão, porém, não tinha analogia com este, mas era totalmente diferente. Pois, tendo sido enganado por outro sob o pretexto da imortalidade, é imediatamente tomado de terror e se esconde; não como se pudesse escapar de Deus; mas, em estado de confusão por ter transgredido o seu mandamento, sente-se indigno de aparecer diante de Deus e de conversar com Ele. Ora, “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”; o senso do pecado leva ao arrependimento, e Deus concede sua compaixão aos que se arrependem. Pois [Adão] mostrou seu arrependimento por sua conduta, por meio do cinto [que usou], cobrindo-se com folhas de figueira, embora houvesse muitas outras folhas que irritariam menos o seu corpo. Ele, porém, adotou uma veste conforme à sua desobediência, atemorizado pelo temor de Deus; e resistindo à propensão errante e lasciva de sua carne (pois havia perdido sua disposição natural e mente infantil, e chegado ao conhecimento das coisas más), cingiu um freio de continência sobre si e sobre sua mulher, temendo a Deus e esperando a sua vinda, e indicando, por assim dizer, algo como [o seguinte]: Porquanto, diz ele, perdi pela desobediência aquela veste de santidade que tinha do Espírito, reconheço agora que sou merecedor de uma cobertura desta natureza, que não oferece deleite, mas que rói e fere o corpo. E ele teria sem dúvida retido para sempre essa vestimenta, humilhando-se assim, se Deus, que é misericordioso, não os tivesse vestido com túnicas de peles em lugar de folhas de figueira. Para esse fim, também, Ele os interroga, para que a culpa recaísse sobre a mulher; e novamente, interroga a ela, para que ela transferisse a culpa para a serpente. Pois ela relatou o que acontecera. “A serpente”, diz ela, “me enganou, e eu comi.” Mas Ele não fez pergunta alguma à serpente; pois sabia que ela fora a primeira instigadora do ato culpado; mas pronunciou a maldição sobre ela em primeiro lugar, para que caísse sobre o homem com uma repreensão atenuada. Pois Deus detestava aquele que havia desencaminhado o homem, mas gradualmente, e pouco a pouco, mostrou compaixão àquele que havia sido enganado.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
6. Por isso também o expulsou do Paraíso e o removeu para longe da árvore da vida, não porque Lhe invejasse a árvore da vida, como alguns ousam afirmar, mas porque Se compadeceu dele, [e não desejou] que continuasse pecador para sempre, nem que o pecado que o cercava fosse imortal, e o mal interminável e irremediável. Mas pôs um limite ao seu [estado de] pecado, interpondo a morte, e assim fazendo cessar o pecado, pondo-lhe fim pela dissolução da carne, que deveria ocorrer na terra, de modo que o homem, deixando finalmente de viver para o pecado e morrendo para ele, começasse a viver para Deus.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
7. Para este fim pôs inimizade entre a serpente e a mulher e a sua semente, mantendo-a eles mutuamente: Ele, cuja planta do pé seria mordida, tendo poder também para pisar a cabeça do inimigo; mas o outro mordendo, matando e impedindo os passos do homem, até que viesse a semente designada para pisar-lhe a cabeça — a qual nasceu de Maria, da qual o profeta fala: “Pisarás o áspide e o basilisco; calcarás o leão e o dragão”; — indicando que o pecado, que foi erigido e espalhado contra o homem, e que o tornou sujeito à morte, seria privado de seu poder, juntamente com a morte, que reina [sobre os homens]; e que o leão, isto é, o anticristo, que se levanta contra a humanidade nos últimos dias, seria calcado por Ele; e que Ele ligaria “o dragão, a antiga serpente” e o sujeitaria ao poder do homem, que havia sido vencido, de modo que toda a sua força fosse pisada. Ora, Adão havia sido vencido, tendo-lhe sido tirada toda a vida: pelo que, quando o inimigo foi vencido por sua vez, Adão recebeu nova vida; e o último inimigo, a morte, é destruída, que a princípio havia tomado posse do homem. Portanto, quando o homem é libertado, “cumprir-se-á o que está escrito: Tragada é a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” Isto não poderia ser dito com justiça, se aquele homem, sobre quem a morte primeiro obteve domínio, não fosse libertado. Pois a sua salvação é a destruição da morte. Quando, portanto, o Senhor vivifica o homem, isto é, Adão, a morte é ao mesmo tempo destruída.
Capítulo XXIII.—Argumentos em oposição a Taciano, mostrando que era consoante à justiça e à misericórdia divinas que o primeiro Adão fosse o primeiro a participar da salvação…
8. Todos, portanto, falam falso os que negam a sua (de Adão) salvação, excluindo-se a si mesmos da vida para sempre, por não crerem que a ovelha que se havia perdido foi achada. Pois se não foi achada, todo o gênero humano ainda está retido em estado de perdição. Falso, portanto, é aquele homem que primeiro levantou esta ideia, ou antes, esta ignorância e cegueira — Tacíano. Como já indiquei, este homem se enredou com todos os hereges. Este dogma, porém, foi inventado por ele mesmo, a fim de que, introduzindo algo de novo, independentemente dos demais, e falando vaidade, granjeasse para si ouvintes desprovidos de fé, afetando ser tido por mestre, e esforçando-se de tempos em tempos por empregar ditos desta espécie, usados frequentemente por Paulo: “Em Adão todos morremos”; ignorando, contudo, que “onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Visto, pois, que isto foi claramente demonstrado, envergonhem-se todos os seus discípulos, e contendam acerca de Adão, como se algum grande lucro lhes adviesse se ele não for salvo; quando nada mais lucram [com isso], assim como também a serpente nada lucrou ao persuadir o homem [a pecar], exceto nisto, que o provou transgressor, obtendo o homem como primícias de sua própria apostasia. Mas ela não conhecia o poder de Deus. Assim também aqueles que negam a salvação de Adão nada lucram, exceto isto, que se tornam hereges e apóstatas da verdade, e se mostram patronos da serpente e da morte.
Capítulo XXIV.—Recapitulação dos vários argumentos aduzidos contra a impiedade gnóstica em todos os seus aspectos.…
1. Eis, pois, como foram desmascarados todos esses homens que introduzem doutrinas ímpias acerca do nosso Criador e Formador, que também fez este mundo, e acima do qual não há outro Deus; e foram derrubados por seus próprios argumentos aqueles que ensinam falsidades acerca da substância do nosso Senhor e da dispensação que Ele cumpriu por amor da sua própria criatura, o homem. Mas, por outro lado, mostrou-se que a pregação da Igreja é por toda parte coerente, e prossegue em curso uniforme, e recebe testemunho dos profetas, dos apóstolos e de todos os discípulos — como provei — através do princípio, do meio e do fim, e de toda a dispensação de Deus, e daquele sistema bem fundado que tende para a salvação do homem, a saber, a nossa fé; a qual, tendo sido recebida da Igreja, preservamos, e a qual sempre, pelo Espírito de Deus, que rejuvenesce a sua juventude, como se fora um precioso depósito num vaso excelente, faz também com que o próprio vaso que a contém rejuvenesça. Pois este dom de Deus foi confiado à Igreja, como o sopro foi confiado ao primeiro homem criado, com este propósito: que todos os membros que o recebem sejam vivificados; e o meio de comunhão com Cristo foi distribuído por toda ela, isto é, o Espírito Santo, o penhor da incorrupção, o meio de confirmar a nossa fé e a escada de ascensão a Deus. «Porque na Igreja», está escrito, «Deus pôs apóstolos, profetas, doutores», e todos os outros meios pelos quais o Espírito opera; dos quais não são participantes todos aqueles que não se unem à Igreja, mas se privam da vida por meio das suas opiniões perversas e do seu comportamento infame. Pois onde está a Igreja, aí está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, aí está a Igreja e toda a espécie de graça; mas o Espírito é a verdade. Aqueles, portanto, que não participam d'Ele, nem são alimentados para a vida pelos seios da mãe, nem gozam daquela límpidíssima fonte que jorra do corpo de Cristo; mas cavam para si cisternas rotas em fossos terrenos, e bebem água pútrida do lodo, fugindo da fé da Igreja para não serem convencidos; e rejeitando o Espírito, para não serem instruídos.
2. Alienados assim da verdade, merecidamente se revolvem em todo o erro, agitados de um lado para o outro por ele, pensando diversamente acerca das mesmas coisas em tempos diferentes, e jamais atingindo um conhecimento bem fundado, mais ansiosos por serem sofistas de palavras do que discípulos da verdade. Pois não foram fundados sobre a única rocha, mas sobre a areia, que em si mesma tem uma multidão de pedras. Por isso também imaginam muitos deuses, e têm sempre a desculpa de buscar a verdade (pois são cegos), mas nunca conseguem encontrá-la. Pois blasfemam do Criador, que é verdadeiramente Deus, que também fornece poder para encontrar a verdade; imaginando que descobriram outro deus para além de Deus, ou outro Pleroma, ou outra dispensação. Por isso também a luz que vem de Deus não os ilumina, porque desonraram e desprezaram a Deus, tendo-O em pouca conta, porque, pelo Seu amor e infinita benignidade, Ele Se colocou ao alcance do conhecimento humano (conhecimento, porém, não quanto à Sua grandeza, nem quanto à Sua essência — pois isso nenhum homem mediu ou apalpou — mas deste modo: que saibamos que Aquele que fez, e formou, e neles soprou o fôlego da vida, e nos nutre por meio da criação, estabelecendo todas as coisas pelo Seu Verbo, e unindo-as pela Sua Sabedoria — este é o único Deus verdadeiro); mas eles sonham com um ser inexistente acima d'Ele, para serem considerados como tendo descoberto o grande Deus, que ninguém, segundo eles, pode reconhecer comunicando com a raça humana, ou dirigindo os assuntos mundanos: isto é, descobrem o deus de Epicuro, que nada faz nem por si nem por outrem; isto é, não exerce providência alguma.
Capítulo XXV.—Este mundo é governado pela providência de um só Deus, que é dotado tanto de infinita justiça para punir os ímpios, como de infinita bondade para abençoar os…
Deus, todavia, exerce uma providência sobre todas as coisas, e por isso também dá conselho; e, ao dar conselho, está presente com aqueles que atendem à disciplina moral. Segue-se, por conseguinte, como é natural, que as coisas que são vigiadas e governadas conheçam o seu governador; as quais coisas não são irracionais ou vãs, mas têm entendimento derivado da providência de Deus. E, por esta razão, certos dentre os gentios, que eram menos afeiçoados aos [sensuais] atrativos e à voluptuosidade, e não foram levados a tal grau de superstição com respeito aos ídolos, sendo movidos, ainda que levemente, pela sua providência, foram contudo convencidos de que deviam chamar ao Fazedor deste universo o Pai, o qual exerce uma providência sobre todas as coisas, e dispõe os assuntos do nosso mundo.
Outrossim, para que removessem o poder repreensor e judicial do Pai, considerando isso como indigno de Deus, e pensando ter achado um Deus tanto sem ira como [meramente] bom, alegaram que um [Deus] julga, mas que outro salva, tirando inconscientemente a inteligência e a justiça de ambas as deidades. Pois, se o judicial não é também bom, para conceder favores aos dignos, e dirigir repreensões contra os que as merecem, ele não parecerá um juiz justo nem sábio. Por outro lado, o Deus bom, se é meramente bom, e não aquele que prova aqueles sobre os quais há de enviar a sua bondade, estará fora do âmbito da justiça e da bondade; e a sua bondade parecerá imperfeita, por não salvar a todos; [pois assim deveria ser, se não for acompanhada de juízo.
Marcião, portanto, ele mesmo, ao dividir Deus em dois, sustentando ser um bom e o outro judicial, na verdade, de ambos os lados, põe fim à divindade. Pois aquele que é o judicial, se não é bom, não é Deus, porque aquele de quem a bondade está ausente não é Deus de modo algum; e, outra vez, aquele que é bom, se não tem poder judicial, sofre a mesma [perda] que o primeiro, sendo privado do seu caráter de divindade. E como podem eles chamar sábio ao Pai de todos, se não lhe atribuem uma faculdade judicial? Pois, se Ele é sábio, é também aquele que prova [os outros]; mas o poder judicial pertence àquele que prova, e a justiça segue a faculdade judicial, para que chegue a uma conclusão justa; a justiça chama o julgamento, e o julgamento, quando executado com justiça, passará à sabedoria. Portanto, o Pai excederá em sabedoria toda a sabedoria humana e angélica, porque é Senhor, e Juiz, e Justo, e Dominador sobre todos. Pois Ele é bom, e misericordioso, e paciente, e salva a quem deve; nem a bondade O abandona no exercício da justiça, nem a sua sabedoria é diminuída; porque salva aqueles que deve salvar, e julga os dignos de julgamento. Nem se mostra Ele injustamente misericordioso; pois a sua bondade, sem dúvida, vai adiante, e tem precedência.
O Deus, portanto, que benevolentemente faz nascer o seu sol sobre todos, e envia chuva sobre justos e injustos, julgará aqueles que, gozando da sua bondade igualmente distribuída, levaram vidas não correspondentes à dignidade da sua munificência; mas que passaram os seus dias em lascívia e luxo, em oposição à sua benevolência, e além disso, blasfemaram até daquele que lhes conferiu tão grandes benefícios.
Platão prova ser mais religioso do que estes homens, pois permitiu que o mesmo Deus fosse justo e bom, tendo poder sobre todas as coisas, e executando Ele mesmo o julgamento, expressando-se assim: “E Deus, na verdade, como é também o Verbo antigo, possuindo o princípio, o fim e o meio de todas as coisas existentes, faz tudo retamente, movendo-se ao redor delas segundo a sua natureza; mas a justiça retributiva sempre O segue contra aqueles que se afastam da lei divina.” Depois, aponta outrossim que o Fazedor e Artífice do universo é bom. “E ao bom,” diz ele, “nunca nasce inveja com respeito a coisa alguma;” estabelecendo assim a bondade de Deus, como o princípio e a causa da criação do mundo, mas não a ignorância, nem um Éon errante, nem a consequência de um defeito, nem a Mãe chorando e lamentando, nem outro Deus ou Pai.
Bem pode a Mãe deles chorá-los, como capazes de conceber e inventar tais coisas; pois dignamente proferiram esta falsidade contra si mesmos, que a sua Mãe está além do Pleroma, isto é, além do conhecimento de Deus, e que toda a sua multidão se tornou um aborto disforme e informe; porque não apreende nada da verdade; cai no vazio e nas trevas; porque a sua sabedoria (Sophia) era vazia, e envolta em trevas; e Horos não lhe permitiu entrar no Pleroma; porque o Espírito (Achamoth) não os recebeu no lugar de refrigério. Pois o pai deles, gerando ignorância, operou neles os sofrimentos da morte. Nós não deturpamos [as suas opiniões sobre] estes pontos; mas eles mesmos confirmam, eles mesmos ensinam, eles se gloriam neles, imaginam um elevado [mistério] acerca da sua Mãe, a qual representam como tendo sido gerada sem pai, isto é, sem Deus, uma fêmea de uma fêmea, isto é, corrupção do erro.
Nós, na verdade, oramos para que estes homens não permaneçam no poço que eles mesmos cavaram, mas se separem de uma Mãe de tal natureza, e se retirem de Bythus, e se afastem do vazio, e abandonem a sombra; e que eles, convertendo-se à Igreja de Deus, sejam legitimamente gerados, e que Cristo seja formado neles, e que conheçam o Artífice e Fazedor deste universo, o único verdadeiro Deus e Senhor de todos. Rogamos estas coisas a favor deles, amando-os melhor do que eles parecem amar a si mesmos. Porque o nosso amor, por ser verdadeiro, é salutar para eles, se eles o receberem. Pode ser comparado a um remédio severo, que extirpa a carne orgulhosa e corrupta de uma ferida; pois põe fim ao seu orgulho e altivez. Por onde, não nos cansaremos de, com todas as nossas forças, esforçar-nos por lhes estender a mão. Além do que já foi declarado, adiei para o livro seguinte aduzir as palavras do Senhor; se, convencendo alguns dentre eles, por meio da própria instrução de Cristo, conseguir persuadi-los a abandonar tal erro, e a cessar de blasfemar do seu Criador, que é Deus só, e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Texto do editor da edição, não do autor.
Elucidação
O editor desta série americana limita-se, em geral, a anotações ocasionais e muito breves, que possam sugerir aos estudiosos e outros as visões práticas necessárias para uma clara compreensão de autores que escreveram para eras passadas; para uma espécie e condição de homens que já não existem, cuja extinção como classe se deve, em grande parte, a estes mesmos escritos. Mas ele reservou para si o privilégio de corrigir erros palpáveis, especialmente em pontos que versam sobre questões de nossos próprios tempos.
Que os nossos eruditos tradutores inexplicavelmente admitiram uma tradução muito imprecisa do parágrafo crucial no livro iii, cap. iii, sec. 2, demonstrei na nota de rodapé naquele lugar. É evidente, (1) porque eles mesmos não estão satisfeitos com ela, e (2) porque a coloquei lado a lado com a tradução mais literal de um escritor que teria preferido a leitura deles se ela pudesse ter resistido ao teste da crítica.
Ora, os autores da tradução latina podem ter intencionado a ambiguidade que dá ao partido Ultramontano uma vantagem aparente; mas é uma vantagem que desaparece assim que é examinada e, portanto, contento-me em tomá-la como está. Várias conjecturas foram feitas quanto ao grego original de Irineu; mas o latim atende a todos os propósitos do argumento do autor e é fatal para as pretensões do Papado. Permita-me recorrer à tradução dada, in loco, por um Católico Romano, e isto será visto de imediato.
Pois ele a traduz assim:—
1. Nesta Igreja, “sempre, por aqueles que estão de toda parte, foi preservada aquela tradição que é dos apóstolos.” Como teria soado tal proposição a Pio IX no Concílio do Vaticano? A fé é preservada por aqueles que vêm a Roma, não pelo Bispo que ali preside.
2. “Pois a esta Igreja, por causa do principado mais potente, é necessário que toda Igreja (isto é, aqueles que são, de toda parte, fiéis) recorra.” A grandeza de Roma, isto é, como capital do Império, confere à Igreja local uma dignidade superior, mesmo em comparação com Lions, ou qualquer outra Igreja metropolitana. Todos visitam Roma: daí se encontram ali testemunhas fiéis de toda parte (de todas as Igrejas); e é o seu testemunho unido que preserva em Roma as puras tradições apostólicas.
O latim, assim traduzido por um Católico Romano sincero, inverte todo o sistema do Papado. Pio IX informou seus Bispos, no último Concílio, que eles não eram chamados a dar seu testemunho, mas a ouvir seu decreto infalível; “reduzindo-nos”, disse o Arcebispo de Paris, “a um concílio de sacristães.”
Sustentando estas visões com algumas notas de rodapé, acrescento (1) uma tradução literal minha e, em seguida, (2) uma metáfrase da mesma, extraindo o argumento das obstruções intrincadas do texto latino. Isto, então, é o que Irineu diz: (a) “Pois é necessário que toda Igreja (isto é, os fiéis de todas as partes) se reúna nesta Igreja, por causa da magistratura superior; na qual Igreja, por aqueles que são de todos os lugares, a tradição dos apóstolos foi preservada.” Ou, mais livremente traduzido: (b) “Por causa da principal magistratura [do império], os fiéis de todas as partes, representando toda Igreja, são obrigados a recorrer a Roma, e ali se congregar; de modo que [é a distinção desta Igreja que], nela, a tradição dos apóstolos foi preservada por cristãos reunidos de todas as Igrejas.” Tomando todo o argumento de nosso autor com o contexto, então, ele equivale a isto: “Devemos perguntar, não por testemunho local, mas universal. Ora, em toda Igreja fundada pelos apóstolos, foram transmitidas as suas tradições; mas, como seria uma coisa tediosa colhê-las todas, que isto baste. Tomai aquela Igreja (a mais próxima, e que é a única Igreja Apostólica do Ocidente), a grande e gloriosa Igreja em Roma, que ali foi fundada pelos dois apóstolos Pedro e Paulo. Nela foram preservadas as tradições de todas as Igrejas, porque todos são forçados a ir à sede do império: e, portanto, por estes representantes de toda a Igreja Católica, as tradições apostólicas foram todas coligidas em Roma: e tendes uma visão sinóptica de todas as Igrejas no que ali é preservado.” Se as visões do Papado moderno alguma vez tivessem entrado na cabeça de Irineu, quão absurdo teria sido todo este argumento. Ele teria dito: “Não importa o que possa ser colhido em outro lugar; pois o Bispo de Roma é o oráculo infalível de toda a verdade Católica, e vós sempre a encontrareis por sua boca.” Deve-se notar que a Ortodoxia foi de fato preservada ali, exatamente enquanto Roma permitiu que outras Igrejas contribuíssem com seu testemunho com base no princípio de Irineu, e assim a tornassem a depositária de toda a tradição Católica, como testemunhado “por todos, em toda parte, e desde o princípio.” Mas tudo isto é virado de cabeça para baixo pelo romanismo moderno. Nenhuma outra Igreja deve ser ouvida ou considerada; mas Roma toma tudo em seu próprio poder, e pode ditar a todas as Igrejas o que devem crer, por mais novo que seja, ou contrário à torrente da antiguidade nos ensinamentos de seus próprios fundadores e grandes doutores em todo o tempo passado.
Prefácio.
Transmitindo-te, meu caríssimo amigo, este quarto livro da obra que se intitula Detecção e Refutação do Falso Conhecimento, acrescentarei, conforme prometi, peso, por meio das palavras do Senhor, ao que já adiantei; para que também tu, como o solicitaste, obtenhas de mim os meios de confutar todos os hereges em toda parte, e não permitas que eles, rechaçados em todos os pontos, se lancem mais ao fundo do erro, nem se afoguem no mar da ignorância; mas que tu, volvendo-os ao porto da verdade, os faças alcançar a sua salvação.
O homem, porém, que empreender a sua conversão, deve possuir um conhecimento acurado dos seus sistemas ou esquemas de doutrina. Porque é impossível a alguém curar os enfermos, se não tiver conhecimento da doença dos pacientes. Esta foi a razão por que os meus antecessores — homens muito superiores a mim, também — não puderam, não obstante, refutar satisfatoriamente os Valentinianos, por ignorarem o sistema destes homens; o qual eu com todo o cuidado te entreguei no primeiro livro, no qual também mostrei que a sua doutrina é uma recapitulação de todos os hereges. Pelo que também, no segundo, tivemos, como num espelho, uma visão de toda a sua confusão. Porque os que se opõem a estes homens (os Valentinianos) pelo método reto, opõem-se [assim] a todos os que são de mente má; e os que os derrubam, de fato derrubam toda espécie de heresia.
Porque o seu sistema é blasfemo acima de todos [os outros], pois representam que o Criador e Artífice, que é um só Deus, como mostrei, foi produzido de um defeito ou apostasia. Profere blasfémia, também, contra o nosso Senhor, separando e dividindo Jesus de Cristo, e Cristo do Salvador, e novamente o Salvador do Verbo, e o Verbo do Unigênito. E como alegam que o Criador se originou de um defeito ou apostasia, assim também ensinaram que Cristo e o Espírito Santo foram emitidos por causa deste defeito, e que o Salvador era um produto daqueles Éons que foram produzidos de um defeito; de modo que não há senão blasfémia para ser encontrada entre eles. No livro precedente, pois, as ideias dos apóstolos quanto a todos estes pontos foram expostas, [no sentido] de que não só eles, “que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra” da verdade, não sustentavam tais opiniões, mas que também nos pregaram que evitássemos estas doutrinas, prevendo pelo Espírito aquelas pessoas de mente fraca que seriam desviadas.
Porque assim como a serpente enganou Eva, prometendo-lhe o que ela mesma não tinha, assim também fazem estes homens, fingindo [possuir] conhecimento superior, e [estar familiarizados com] mistérios inefáveis; e, prometendo aquela admissão de que falam como ocorrendo dentro do Pleroma, mergulham na morte os que lhes creem, tornando-os apóstatas d'Aquele que os fez. E naquele tempo, na verdade, o anjo apóstata, tendo efetuado a desobediência do género humano por meio da serpente, imaginou que escapara ao conhecimento do Senhor; pelo que Deus lhe atribuiu a forma e o nome [de uma serpente]. Mas agora, visto que os últimos tempos [são chegados sobre nós], o mal se espalha entre os homens, o qual não só os torna apóstatas, mas por muitas maquinações [o diabo] suscita blasfemadores contra o Criador, a saber, por meio de todos os hereges já mencionados. Porque todos estes, embora provenham de diversas regiões e promulguem [opiniões] diferentes, contudo concorrem no mesmo desígnio blasfemo, ferindo [os homens] até à morte, ensinando blasfémia contra Deus nosso Criador e Sustentador, e derogando a salvação do homem. Ora, o homem é uma organização mista de alma e carne, que foi formado à semelhança de Deus, e moldado por Suas mãos, isto é, pelo Filho e pelo Espírito Santo, aos quais também Ele disse: “Façamos o homem.” Este, pois, é o fim daquele que inveja a nossa vida, tornar os homens descrentes da sua própria salvação e blasfemos contra Deus o Criador. Porque tudo quanto todos os hereges possam ter avançado com a máxima solenidade, vêm a dar nisto por fim, que blasfemam o Criador e desautorizam a salvação da obra de Deus, que a carne verdadeiramente é; em favor da qual provei, de várias maneiras, que o Filho de Deus cumpriu toda a economia [de misericórdia], e mostrei que nenhum outro é chamado Deus pelas Escrituras senão o Pai de todos, e o Filho, e aqueles que possuem a adoção.
Capítulo II.—Provas do claro testemunho de Moisés e dos outros profetas, cujas palavras são palavras de Cristo, de que há um só Deus, o fundador do mundo, a quem Nosso Senhor…
Moisés, portanto, fazendo uma recapitulação de toda a lei, que recebera do Criador (Demiturgo), assim fala no Deuteronômio: «Dai ouvidos, ó céus, e eu falarei; e ouve, ó terra, as palavras da minha boca.» Novamente, Davi, dizendo que o seu auxílio vinha do Senhor, afirma: «O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra.» E Isaías confessa que palavras foram proferidas por Deus, que fez o céu e a terra e os governa. Diz ele: «Ouvi, ó céus; e dai ouvidos, ó terra: porque o Senhor falou.» E ainda: «Assim diz o Senhor Deus, que fez o céu e o estendeu; que firmou a terra e as coisas que nela há; e que dá fôlego ao povo sobre ela, e espírito aos que andam nela.»
Novamente, nosso Senhor Jesus Cristo confessa este mesmo Ser como Seu Pai, onde diz: «Eu te confesso, ó Pai, Senhor do céu e da terra.» Que Pai quererão aqueles homens que entendamos [por estas palavras], aqueles que são os mais perversos sofistas de Pandora? Será Bythus, que eles próprios fabularam; ou sua Mãe; ou o Unigênito? Ou será aquele que os marcionitas ou os outros inventaram como deus (o qual eu, na verdade, demonstrei amplamente não ser deus algum); ou será (o que realmente é o caso) o Criador do céu e da terra, a quem também os profetas proclamaram,—a quem também Cristo confessa como Seu Pai,—a quem também a lei anuncia, dizendo: «Ouve, ó Israel: O Senhor teu Deus é um só Deus?»
Mas, visto que as Escrituras de Moisés são as palavras de Cristo, Ele mesmo declara aos judeus, como João registrou no Evangelho: «Se vós crêsseis em Moisés, creríeis em Mim: porque ele escreveu de Mim. Mas se não credes nos seus escritos, não crereis nas Minhas palavras.» Ele assim indica da maneira mais clara que os escritos de Moisés são Suas palavras. Se, pois, [isto é o caso] com respeito a Moisés, assim também, sem dúvida, as palavras dos outros profetas são Suas [palavras], como apontei. E ainda, o próprio Senhor apresenta Abraão como tendo dito ao rico, com referência a todos os que ainda estavam vivos: «Se eles não ouvem a Moisés e aos profetas, nem mesmo, se alguém dentre os mortos ressuscitar e for ter com eles, crerão.»
Ora, Ele não nos relatou meramente uma história a respeito de um pobre e de um rico; mas ensinou-nos, em primeiro lugar, que ninguém deve levar uma vida luxuosa, nem, vivendo em prazeres mundanos e banquetes perpétuos, ser escravo de suas concupiscências e esquecer-se de Deus. «Porque havia,» diz Ele, «um homem rico, que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e se regalava com esplêndidos banquetes.»
Dessas pessoas também o Espírito falou por Isaías: «Bebem vinho com [o acompanhamento de] harpas, e tímpanos, e saltérios, e flautas; mas não atentam para as obras de Deus, nem consideram a obra de Suas mãos.» Para que, pois, não incorramos na mesma punição que estes homens, o Senhor revela [a nós] o seu fim; mostrando ao mesmo tempo que, se obedecessem a Moisés e aos profetas, creriam Naquele que estes haviam pregado, o Filho de Deus, que ressuscitou dentre os mortos e nos concede a vida; e mostra que todos são de uma só essência, isto é, Abraão, e Moisés, e os profetas, e também o próprio Senhor, que ressuscitou dentre os mortos, em quem muitos creem que são da circuncisão, os quais também ouvem Moisés e os profetas anunciando a vinda do Filho de Deus. Mas aqueles que zombam [da verdade] afirmam que estes homens eram de outra essência, e não conhecem o primogênito dentre os mortos; entendendo Cristo como um ser distinto, que continuou como se fosse impassível, e Jesus, que padeceu, como sendo totalmente separado [dele].
Pois eles não recebem do Pai o conhecimento do Filho; nem aprendem quem é o Pai do Filho, que ensina clara e sem parábolas Aquele que verdadeiramente é Deus. Ele diz: «Não jureis de modo algum; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de Seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei.» Pois estas palavras são evidentemente ditas com referência ao Criador, como também Isaías diz: «O céu é o meu trono, a terra o estrado dos meus pés.» E além deste Ser não há outro Deus; do contrário, Ele não seria chamado pelo Senhor nem «Deus» nem «o grande Rei»; pois um Ser que pode ser assim descrito não admite nenhum outro ser comparado a Ele nem posto acima Dele. Porque aquele que tem algum superior sobre si, e está sob o poder de outro, este ser jamais pode ser chamado nem «Deus» nem «o grande Rei».
Mas nem estes homens poderão sustentar que tais palavras foram proferidas de modo irônico, pois lhes é provado pelas próprias palavras que foram ditas a sério. Porque Aquele que as proferiu era a Verdade, e verdadeiramente vindicou a Sua própria casa, expulsando dela os cambistas, que compravam e vendiam, dizendo-lhes: «Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a fizestes covil de ladrões.» E que razão tinha Ele para assim fazer e dizer, e vindicar a Sua casa, se pregava um outro Deus? Mas [Ele o fez] para que pudesse apontar os transgressores da lei de Seu Pai; porque nem trouxe acusação alguma contra a casa, nem culpou a lei, que viera cumprir; mas repreendeu aqueles que estavam usando a Sua casa impropriamente, e aqueles que estavam transgredindo a lei. E por isso também os escribas e fariseus, que desde os tempos da lei haviam começado a desprezar a Deus, não receberam a Sua Palavra, isto é, não creram em Cristo. Destes diz Isaías: «Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões, amando presentes, seguindo após recompensas, não julgando o órfão, e negligentes na causa das viúvas.» E Jeremias, de modo semelhante: «Aqueles,» diz ele, «que governam o meu povo não me conheceram; são filhos insensatos e imprudentes; são sábios para fazer o mal, mas para fazer o bem não têm conhecimento.»
Mas todos quantos temiam a Deus e se preocupavam com a Sua lei, estes correram a Cristo, e todos foram salvos. Pois Ele disse aos Seus discípulos: «Ide às ovelhas da casa de Israel, que pereceram.» E muitos mais samaritanos, segundo se diz, quando o Senhor permanecera entre eles dois dias, «creram por causa das Suas palavras, e disseram à mulher: Já não cremos por causa do teu dizer, porque nós mesmos ouvimos [Ele] e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo.» E Paulo igualmente declara: «E assim todo o Israel será salvo;» mas ele também disse que a lei foi nosso pedagogo [para nos conduzir] a Cristo Jesus. Não atribuam, pois, à lei a incredulidade de alguns [entre eles]. Porque a lei nunca os impediu de crer no Filho de Deus; antes, até os exortava a fazê-lo, dizendo que os homens não podem ser salvos de outro modo da antiga ferida da serpente senão crendo Naquele que, na semelhança da carne do pecado, é levantado da terra sobre a árvore do martírio, e atrai todas as coisas a Si, e vivifica os mortos.
Capítulo III.—Resposta às cavilações dos gnósticos. Não devemos supor que o verdadeiro Deus possa ser mudado ou deixar de existir, porque os céus, que são o seu trono, e a terra,…
1. Demais, quanto a afirmarem maliciosamente que, se o céu é verdadeiramente o trono de Deus, e a terra o seu escabelo, e se está declarado que o céu e a terra hão de passar, então, passando estas coisas, também o Deus que está sentado acima deve passar, e portanto Ele não pode ser o Deus que é sobre todos; em primeiro lugar, ignoram o que significa esta expressão, que o céu é [seu] trono e a terra [seu] escabelo. Porque não sabem o que é Deus, mas imaginam que Ele se assenta à maneira de um homem, e que está contido dentro de limites, mas não contém. E também desconhecem [o significado] da passagem do céu e da terra; mas Paulo não o ignorava quando declarou: “Porque a figura deste mundo passa.” Em segundo lugar, Davi explica a sua questão, pois diz que, quando a figura deste mundo passar, não só Deus permanecerá, mas também os seus servos, expressando-se assim no Salmo centésimo primeiro: “No princípio, ó Senhor, fundaste a terra, e os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; e todos eles envelhecerão como um vestido; e como uma veste os mudarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, e os teus anos não terão fim. Os filhos de teus servos continuarão, e a sua descendência será estabelecida para sempre”; apontando claramente quais são as coisas que passam, e quem é aquele que permanece para sempre — Deus, juntamente com os seus servos. E de igual modo Isaías diz: “Levantai os olhos para os céus, e olhai para a terra debaixo; porque o céu se desfará como fumo, e a terra envelhecerá como um vestido, e os seus moradores igualmente morrerão. Mas a minha salvação será para sempre, e a minha justiça não passará.”
Capítulo IV.—Resposta a outra objeção, mostrando que a destruição de Jerusalém, que era a cidade do grande Rei, em nada diminuiu a suprema majestade e o poder de Deus, pois essa…
1. Além disso, também acerca de Jerusalém e do Senhor, ousam afirmar que, se ela fosse “a cidade do grande Rei”, não teria sido desamparada. Isto é como se alguém dissesse que, se a palha fosse criatura de Deus, nunca se separaria do trigo; e que os sarmentos da videira, se feitos por Deus, nunca seriam podados e privados dos cachos. Mas, assim como estes [sarmentos] não foram originalmente feitos por si mesmos, mas por causa do fruto que neles cresce, o qual, tendo chegado à maturidade e sido colhido, eles são deixados para trás, e aqueles que não contribuem para a frutificação são podados completamente; assim também [foi com] Jerusalém, que em si mesma havia suportado o jugo da servidão (sob o qual o homem foi reduzido, que outrora não estava sujeito a Deus quando reinava a morte, e, sendo subjugado, tornou-se apto para a liberdade), quando o fruto da liberdade tinha chegado, e atingido a maturidade, e sido ceifado e armazenado no celeiro, e quando aqueles que tinham o poder de produzir fruto foram levados dela [i.e., de Jerusalém], e espalhados por todo o mundo. Como diz Isaías: “Os filhos de Jacó lançarão raiz, e Israel florescerá, e todo o mundo se encherá do seu fruto.” Tendo, pois, o fruto sido semeado por todo o mundo, ela (Jerusalém) foi merecidamente abandonada, e aquelas coisas que anteriormente haviam produzido fruto abundantemente foram tiradas; porque a partir delas, segundo a carne, Cristo e os apóstolos puderam produzir fruto. Mas agora estas já não são úteis para produzir fruto. Pois todas as coisas que têm um início no tempo devem, naturalmente, ter um fim no tempo também.
2. Visto, pois, que a Lei se originou com Moisés, terminou com João como consequência necessária. Cristo viera para cumprir a Lei; por isso “a Lei e os Profetas” estiveram com eles “até João”. E, portanto, Jerusalém, tendo seu começo com Davi e cumprindo os seus tempos, deve ter um fim de legislação quando a nova aliança foi revelada. Porque Deus faz todas as coisas com medida e ordem; nada é desmedido para Ele, porque nada está fora de ordem. Bem falou aquele que disse que o Pai imensurável estava Ele mesmo sujeito à medida no Filho; pois o Filho é a medida do Pai, visto que também O compreende. Mas que a administração deles (dos judeus) era temporária, diz Isaías: “E a filha de Sião será deixada como uma cabana na vinha, e como uma choupana no pepinal.” E quando serão estas coisas abandonadas? Não será quando o fruto for tirado, e somente as folhas ficarem, as quais agora não têm poder de produzir fruto?
3. Mas por que falamos de Jerusalém, visto que, na verdade, a figura de todo o mundo também deve passar, quando vier o tempo do seu desaparecimento, para que o fruto seja recolhido no celeiro, mas a palha, deixada para trás, seja consumida pelo fogo? “Porque eis que vem o dia do Senhor, ardente como fornalha, e todos os pecadores serão palha, os que praticam o mal, e o dia os queimará.” Ora, quem é este Senhor que traz tal dia, João Batista o indica, quando diz de Cristo: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo, tendo a sua pá na mão para limpar a sua eira; e recolherá o seu fruto no celeiro, mas a palha queimará com fogo inextinguível.” Pois não são pessoas diferentes aquele que faz a palha e aquele que faz o trigo, mas um e o mesmo, que os julga, isto é, os separa. Mas o trigo e a palha, sendo inanimados e irracionais, foram feitos tais por natureza. Porém o homem, dotado de razão e nisto semelhante a Deus, tendo sido livre em sua vontade e com poder sobre si mesmo, é para si mesmo a causa de que às vezes se torne trigo, às vezes palha. Por isso também será justamente condenado, porque, tendo sido criado ser racional, perdeu a verdadeira racionalidade e, vivendo irracionalmente, opôs-se à justiça de Deus, entregando-se a todo espírito terreno e servindo a todas as concupiscências; como diz o profeta: “O homem, posto em honra, não o entendeu; foi assimilado aos animais insensatos e fez-se semelhante a eles.”