Padres e clássicosSanto Ireneu de Lião, Contra as Heresias, III.

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Obra patrística

Contra as Heresias

Santo Ireneu de Lião · c. 130–202

III.

III.

Pois a controvérsia não é apenas acerca do dia, mas também acerca da própria forma do jejum. Porque uns se consideram obrigados a jejuar um dia, outros dois dias, outros ainda mais, enquanto outros [jejuam durante] quarenta: as horas diurnas e noturnas medem juntas como seu [dia de] jejum. E esta variedade entre os observadores [dos jejuns] não teve origem em nosso tempo, mas muito antes no tempo de nossos predecessores, alguns dos quais, provavelmente, não sendo muito exatos na sua observância, transmitiram à posteridade o costume como havia sido, por simplicidade ou fantasia particular, [introduzido entre eles]. E, no entanto, todos estes viveram em paz uns com os outros, e nós também mantemos a paz juntos. Assim, de fato, a diferença [na observância] do jejum estabelece a harmonia da [nossa comum] fé. E os presbíteros que precederam Sóter no governo da Igreja que agora reges — refiro-me a Aniceto e Pio, Higino e Telésforo, e Sixto — nem eles mesmos a observavam [dessa maneira], nem permitiam que os que estavam com eles o fizessem. Não obstante isso, aqueles que não guardavam [a festa deste modo] estavam pacificamente dispostos para com os que vinham até eles de outras dioceses nas quais era [assim] observada, embora tal observância fosse [sentida] em contrariedade mais decidida [como apresentada] àqueles que não a adotavam; e nunca ninguém foi excluído [da Igreja] por esta matéria. Pelo contrário, aqueles presbíteros que te precederam, e que não observavam [este costume], enviavam a Eucaristia aos de outras dioceses que a observavam. E quando o bem-aventurado Policarpo esteve em Roma no tempo de Aniceto, embora uma ligeira controvérsia tivesse surgido entre eles acerca de certos outros pontos, logo estavam bem inclinados um para o outro [com respeito à questão em mãos], não querendo que surgisse entre eles qualquer disputa sobre este assunto. Pois nem Aniceto pôde persuadir Policarpo a abandonar a observância [à sua maneira], porquanto estas coisas sempre haviam sido [assim] observadas por João, o discípulo de nosso Senhor, e pelos outros apóstolos com quem ele convivera; nem, por outro lado, pôde Policarpo conseguir persuadir Aniceto a guardar [a observância à sua maneira], pois ele mantinha que estava obrigado a aderir ao uso dos presbíteros que o precederam. E neste estado de coisas, mantiveram comunhão um com o outro; e Aniceto concedeu a Policarpo na Igreja a celebração da Eucaristia, a título de lhe mostrar respeito; de modo que se separaram em paz um do outro, mantendo a paz com toda a Igreja, tanto os que observavam [este costume] como os que não observavam.

IV.

Enquanto alguém dispõe dos meios de fazer o bem a seus próximos e não o faz, será reputado estranho ao amor do Senhor.

V.

A vontade e a energia de Deus é a causa eficaz e previdente de todo tempo, lugar e idade, e de toda natureza. A vontade é a razão (λόγος) da alma intelectual, a qual [razão] está dentro de nós, porquanto é a faculdade que lhe pertence dotada de liberdade de ação. A vontade é a mente desejando [algum objeto], e um apetite possuído de inteligência, anelando por aquela coisa que é desejada.

VI.

Visto que Deus é vasto, e o Arquiteto do mundo, e onipotente, criou coisas que atingem a imensidão tanto pelo Arquiteto do mundo como por uma vontade onipotente, e com um novo efeito, potente e eficazmente, a fim de que a plenitude inteira daquelas coisas que foram produzidas viesse a existir, embora não tivessem existência prévia — isto é, tudo o que não cai sob [a nossa] observação, e também o que está diante dos nossos olhos. E assim Ele contém todas as coisas em particular, e as conduz ao seu próprio fim apropriado, por causa do qual foram chamadas à existência e produzidas, de modo nenhum mudadas para outra coisa senão aquilo que (o fim) originalmente era por natureza. Pois esta é a propriedade da obra de Deus, não apenas proceder ao infinito do entendimento, ou mesmo ultrapassar [as nossas] faculdades da mente, razão e linguagem, tempo e lugar, e toda a idade; mas também ir além da substância, e da plenitude ou perfeição.

VII.

Este [costume], de não dobrar o joelho ao domingo, é um símbolo da ressurreição, pela qual fomos libertados, pela graça de Cristo, dos pecados e da morte, que foi morta sob Ele. Ora, este costume teve origem nos tempos apostólicos, como declara o bem-aventurado Ireneu, mártir e bispo de Lião, no seu tratado Sobre a Páscoa, no qual também faz menção do Pentecostes; no qual [festa] não dobramos o joelho, porque é de igual significado com o dia do Senhor, pela razão já alegada acerca dele.

VIII.

Porque, assim como a arca [da aliança] foi dourada por dentro e por fora com ouro puro, assim também o corpo de Cristo foi puro e resplandecente; pois foi adornado interiormente pelo Verbo, e protegido exteriormente pelo Espírito, para que de ambos [os materiais] o esplendor das naturezas fosse claramente manifestado.

IX.

Sempre, na verdade, falando bem dos dignos, mas nunca mal dos indignos, também nós alcançaremos a glória e o reino de Deus.

XI.

O negócio do cristão não é outra coisa senão estar sempre se preparando para a morte.

XII.

Nós, portanto, formámos a crença de que também os nossos corpos ressurgem. Porque, embora vão à corrupção, contudo não perecem; pois a terra, recebendo os restos, os preserva, como semente fértil misturada com terra mais fértil. De novo, como um grão nu é semeado, e, germinando pelo mandamento de Deus seu Criador, ressurgir, vestido e glorioso, mas não antes de ter morrido e sofrido decomposição, e se ter misturado com a terra; assim (disto se vê que) não tivemos uma vã crença na ressurreição do corpo. Mas, embora seja dissolvido no tempo determinado, por causa da desobediência primordial, é colocado, por assim dizer, no crisol da terra, para ser refundido; não então como este corruptível, mas puro, e já não sujeito à decadência: de modo que a cada corpo a sua própria alma será restituída; e, quando for vestido com ela, não experimentará tristeza, mas se alegrará, permanecendo permanentemente num estado de pureza, tendo por companheiro um justo consorte, não um insidioso, possuindo em toda a medida as coisas que lhe pertencem, recebê-las-á com perfeita exatidão; não receberá corpos diversos do que eram, nem libertados do sofrimento ou da doença, nem como glorificados, mas como partiram desta vida, em pecados ou em ações justas; e tais como foram, tais serão vestidos ao retomar a vida; e tais como foram na incredulidade, tais serão fielmente julgados.

XIII.

Porque, quando os gregos, tendo prendido os escravos de catecúmenos cristãos, usaram então de força contra eles, a fim de aprender deles alguma coisa secreta [praticada] entre os cristãos, estes escravos, não tendo nada que dizer que satisfizesse os desejos dos seus atormentadores, senão que tinham ouvido dos seus senhores que a divina comunhão era o corpo e o sangue de Cristo, e imaginando que era realmente carne e sangue, deram aos seus inquisidores resposta nesse sentido. Então estes últimos, supondo que tal fosse o caso quanto às práticas dos cristãos, deram informação acerca disso a outros gregos e procuraram compelir os mártires Sancto e Blandina a confessar, sob a influência da tortura, [que a alegação era correta]. A estes homens Blandina respondeu mui admiravelmente com estas palavras: «Como suportariam tais [acusações] aqueles que, por amor da prática [da piedade], nem sequer usavam da carne que lhes era permitida [comer]?»

XIV.

Como é possível dizer que a serpente, criada por Deus muda e irracional, foi dotada de razão e fala? Porque, se tivesse poder de si mesma para falar, discernir, entender e responder ao que era dito pela mulher, nada impediria que toda serpente fizesse também isto. Se, porém, dizem novamente que foi segundo a vontade e a dispensa divinas que esta [serpente] falou com voz humana a Eva, tornam Deus autor do pecado. Nem era possível ao demónio maligno comunicar fala a uma natureza muda, e assim do que não é produzir o que é; porque, se assim fosse, nunca teria cessado (com o intuito de desviar os homens) de conferir e de os enganar por meio de serpentes, e de bestas, e de aves. De que fonte, também, ela, sendo uma besta, obteve informação acerca da injunção de Deus ao homem, que lhe foi dada a ele somente, e em segredo, não estando a própria mulher ciente dela? Por que também não preferiu fazer o seu ataque ao homem em vez da mulher? E se tu dizes que a atacou por ser a mais fraca das duas, [respondo que], pelo contrário, ela era a mais forte, pois parece ter sido a ajudadora do homem na transgressão do mandamento. Porque ela resistiu sozinha à serpente, e foi depois de resistir por algum tempo e fazer oposição que comeu da árvore, sendo circunscrita pelo engano; ao passo que Adão, sem fazer combate algum nem recusa, participou do fruto que lhe foi dado pela mulher, o que é uma indicação da máxima imbecilidade e efeminação de espírito. E a mulher, na verdade, tendo sido vencida no combate por um demónio, é digna de perdão; mas Adão não merecerá nenhum, pois foi vencido por uma mulher — ele que, em sua própria pessoa, recebera o mandamento de Deus. Mas a mulher, tendo ouvido o mandamento de Adão, tratou-o com desprezo, ou porque o julgou indigno de que Deus falasse por meio dele, ou porque tinha as suas dúvidas, talvez até sustentasse a opinião de que o mandamento lhe fora dado por Adão por sua própria vontade. A serpente encontrou-a a trabalhar sozinha, de modo que pôde conferir com ela em particular. Observando-a, pois, ou a comer ou a não comer das árvores, pôs diante dela o fruto da árvore [proibida]. E, se a viu comer, é manifesto que ela era participante de um corpo sujeito à corrupção. «Porque tudo o que entra pela boca é lançado na latrina.» Se, portanto, corruptível, é óbvio que ela era também mortal. Mas, se mortal, então certamente não havia maldição; nem foi aquela uma sentença [condenatória], quando a voz de Deus falou ao homem: «Porque és terra, e em terra te hás de tornar», como o verdadeiro curso das coisas procede [agora e sempre]. Então, também, se a serpente observou a mulher não comendo, como a induziu a comer ela que nunca comera? E quem indicou a esta maldita serpente homicida que a sentença de morte proferida contra eles por Deus não teria efeito [imediato], quando Ele disse: «Porque no dia em que dela comerdes, certamente morrereis»? E não só isto, mas que, juntamente com a impunidade [que acompanhava o seu pecado], os olhos daqueles se abririam, que não tinham visto até então? Mas com a abertura [dos olhos] referida, eles deram entrada no caminho da morte.

XVI.

Expondo novamente a Lei àquela geração que se seguiu aos que foram mortos no deserto, ele publicou o Deuteronômio; não como dando-lhes uma Lei diferente daquela que havia sido estabelecida para seus pais, mas como recapitulando-a, a fim de que eles, ouvindo o que havia acontecido a seus pais, temessem a Deus com todo seu coração.

XVII.

Por estas coisas Cristo foi prefigurado, e reconhecido, e trazido ao mundo; pois foi prefigurado em José; depois, de Levi e de Judá descendeu segundo a carne, como Rei e Sacerdote; e foi reconhecido por Simeão no templo; por meio de Zebulão foi crido entre os gentios, como diz o profeta: “a terra de Zabulom”; e por meio de Benjamim [isto é, Paulo] foi glorificado, sendo pregado por todo o mundo.

XVIII.

E isto não foi sem significado; mas que, por meio do número dos dez homens, ele (Gideão) pudesse aparecer como tendo Jesus por auxiliador, conforme [é indicado] pelo pacto feito com eles. E quando não quis compartilhar com eles na sua idolatria, lançaram sobre ele a culpa: pois “Jerubbaal” significa o tribunal de Baal.

XIX.

“Toma para ti a Josué (᾽Ιησοῦν), filho de Num.” Porquanto convinha que Moisés tirasse o povo do Egito, mas que Jesus (Josué) o introduzisse na herança. E também que Moisés, como sucedeu com a lei, cessasse de ser, mas que Josué (᾽Ιησοῦν), como a palavra, e figura não falsa do Verbo feito carne (ἐνυποστάτου), fosse pregador ao povo. Além disso, [convinha] que Moisés desse maná por alimento aos pais, mas Josué desse trigo, como primícias da vida, figura do corpo de Cristo, como também a Escritura declara que o maná do Senhor cessou quando o povo comeu trigo da terra.

XXI.

Mas ele não dá, como Cristo fez, por meio do sopro, porque não é a fonte do Espírito Santo.

XXII.

«Não irás com eles, nem amaldiçoarás o povo.» Ele não insinua nada a respeito do povo, pois todos estavam diante da sua vista, mas [refere-se] ao mistério de Cristo previamente indicado. Pois, como Ele havia de nascer dos pais segundo a carne, o Espírito dá instruções ao homem (Balaão) de antemão, para que, saindo na ignorância, não pronunciasse uma maldição sobre o povo. Não, com efeito, que [a sua maldição] pudesse ter algum efeito contrário à vontade de Deus; mas [isto foi feito] como uma demonstração da providência de Deus que Ele exercia para com eles por causa de seus antepassados.

XXIII.

«E montou na sua jumenta.» A jumenta era o tipo do corpo de Cristo, sobre o qual todos os homens, descansando dos seus trabalhos, são levados como num carro. Porque o Salvador assumiu o peso dos nossos pecados. Ora, o anjo que apareceu a Balaão era o próprio Verbo; e na Sua mão segurava uma espada, para indicar o poder que Ele tinha do alto.

XXIX.

O Evangelho segundo Mateus foi escrito para os judeus. Porque eles davam particular ênfase ao fato de que Cristo [deveria ser] da semente de Davi; e o evangelista, desejando [estabelecer este ponto], tomou especial cuidado para lhes dar prova convincente de que Cristo é da semente de Davi; e por isso começa com [um relato de] Sua genealogia.

XXX.

"O machado está posto à raiz", diz ele, exortando-nos ao conhecimento da verdade, e purificando-nos por meio do temor, bem como preparando-nos para dar fruto a seu tempo.

Referência atual: Santo Ireneu de Lião, Contra as Heresias, III.