Padres e clássicosSão Justino Mártir, Escritos de São Justino Mártir, VI, 15

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Obra patrística

Escritos de São Justino Mártir

São Justino Mártir · c. 100–165

VI, 15–VIII, 3

Capítulo XV.—Testemunho de Orfeu ao monoteísmo.

De qualquer modo, é necessário que vos lembremos o que Orfeu, que foi, por assim dizer, vosso primeiro mestre da politeísmo, posteriormente dirigiu a seu filho Museu e aos outros audidores legítimos, concernente ao Deus único e só. E assim falou:— E novamente, em algum outro lugar diz:— E quando jura diz:— Que quer ele dizer por "Eu te conjuro pela voz do Pai, que primeiramente Ele proferiu?" É o Verbo de Deus que aqui ele denomina "a voz," por meio do qual o céu e a terra e toda a criação foram feitos, como nos ensinam as divinas profecias dos santos homens; e a estes também ele mesmo prestou alguma atenção no Egito, e compreendeu que toda a criação foi feita pelo Verbo de Deus; e portanto, depois que diz, "Eu te conjuro pela voz do Pai, que primeiramente Ele proferiu," acrescenta ainda isto, "quando por Seu conselho Ele estabeleceu todo o mundo." Aqui ele chama o Verbo "voz," por causa da métrica poética. E que assim seja, é manifesto pelo fato de que, um pouco mais adiante, onde a métrica o permite, ele o nomeia "Verbo." Pois disse:—

Capítulo XVI.—Testemunho da Sibila.

Devemos também fazer menção daquilo que a antiga e extremamente remota Sibila, a quem Platão e Aristófanes, e outros além deles, mencionam como profetisa, vos ensinou em seus versos oraculares a respeito de um único Deus. E ela fala assim:

Depois noutro lugar assim:

E novamente em outro lugar:

Estas são as palavras da Sibila.

Capítulo XVIII.—Testemunho de Sófocles.

E se é necessário que adicionemos testemunhos a respeito de um único Deus, mesmo dos dramaturgos, ouvi ainda Sófocles falando assim:

Assim, pois, Sófocles.

Capítulo XXI.—A ausência de nome de Deus.

Pois Deus não pode ser chamado por nenhum nome próprio, porque os nomes são dados para marcar e distinguir os seus sujeitos, por serem estes muitos e diversos; mas nem existia alguém antes de Deus que pudesse dar-Lhe um nome, nem Ele mesmo achou justo nomear-Se a Si mesmo, visto que é uno e único, como também Ele mesmo por Seus próprios profetas testifica, quando diz: “Eu sou o primeiro Deus”, e depois disto: “E fora de Mim não há outro Deus.” Por esta razão, pois, como antes disse, Deus não mencionou nenhum nome quando enviou Moisés aos hebreus, mas por um particípio lhes ensina misticamente que Ele é o único e só Deus. “Pois”, diz Ele, “Eu sou o Ser”; manifestamente contrastando a Si mesmo, “o Ser”, com aqueles que não são, para que os que até então tinham sido enganados vissem que se apegavam, não a seres, mas àqueles que não tinham ser. Visto, portanto, que Deus sabia que os primeiros homens se lembravam da velha ilusão de seus antepassados, pela qual o demônio misantropo maquinou enganá-los quando lhes disse: “Se vós Me obedecerdes, transgredindo o mandamento de Deus, sereis como deuses”, chamando deuses aqueles que não tinham ser, a fim de que os homens, supondo que existiam outros deuses, acreditassem que eles mesmos podiam tornar-se deuses. Por esta razão, disse a Moisés: “Eu sou o Ser”, para que pelo particípio “ser” ensinasse a diferença entre Deus, que é, e aqueles que não são. Os homens, portanto, tendo sido iludidos pelo demônio enganador, e tendo ousado desobedecer a Deus, foram lançados fora do Paraíso, lembrando-se do nome de deuses, mas não sendo mais ensinados por Deus de que não há outros deuses. Pois não era justo que aqueles que não guardaram o primeiro mandamento, que era fácil de guardar, fossem ainda ensinados, mas antes fossem levados ao justo castigo. Sendo, pois, banidos do Paraíso, e pensando que foram expulsos somente por causa de sua desobediência, não sabendo que era também porque haviam acreditado na existência de deuses que não existiam, deram o nome de deuses até mesmo aos homens que depois nasceram deles mesmos. Esta primeira falsa fantasia, portanto, acerca de deuses, teve a sua origem no pai da mentira. Deus, portanto, sabendo que a falsa opinião sobre a pluralidade de deuses oprimia a alma do homem como uma doença, e desejando removê-la e extirpá-la, apareceu primeiro a Moisés, e disse-lhe: “Eu sou Aquele que é.” Pois era necessário, julgo eu, que aquele que havia de ser o príncipe e guia do povo hebreu soubesse antes de tudo o Deus vivo. Por isso, tendo-Lhe aparecido primeiro, como era possível a Deus aparecer a um homem, disse-lhe: “Eu sou Aquele que é”; depois, estando prestes a enviá-lo aos hebreus, ordena-lhe ainda que diga: “Aquele que é Me enviou a vós.”

Capítulo XXII.—A estudada ambiguidade de Platão.

Platão, tendo aprendido isto no Egito e tomado grandemente pelo que se dizia acerca de um só Deus, julgou, na verdade, perigoso mencionar o nome de Moisés, por causa do seu ensinamento sobre o único Deus, pois temia o Areópago; porém, o que se acha mui bem expresso por ele no seu elaborado tratado, o Timeu, escreveu em exata correspondência com o que Moisés disse acerca de Deus, embora o tenha feito não como se o tivesse aprendido dele, mas como se estivesse expressando sua própria opinião. Pois disse: “Na minha opinião, então, devemos primeiro definir o que é aquilo que existe eternamente e não tem geração, e o que é aquilo que está sempre sendo gerado, mas nunca realmente é.” Isto, ó homens da Grécia, não parece aos que são capazes de entender o assunto ser uma e a mesma coisa, salva apenas a diferença do artigo? Porque Moisés disse: “Aquele que é”, e Platão: “Aquilo que é”. Mas qualquer das expressões parece aplicar-se ao Deus que existe eternamente. Porque Ele é o único que existe eternamente e não tem geração. O que é, então, aquela outra coisa que se contrasta com o eternamente existente, e da qual ele disse: “E o que é aquilo que está sempre sendo gerado, mas nunca realmente é”, devemos considerar atentamente. Pois encontraremo-lo dizendo clara e evidentemente que Aquele que é ingênito é eterno, mas que aqueles que são gerados e feitos são engendrados e perecem — como ele disse acerca da mesma classe: “deuses de deuses, dos quais sou o artífice” — porque ele fala nas seguintes palavras: “Na minha opinião, então, devemos primeiro definir o que é aquilo que é sempre existente e não tem nascimento, e o que é aquilo que está sempre sendo gerado, mas nunca realmente é. O primeiro, de fato, que é apreendido pela reflexão combinada com a razão, existe sempre da mesma maneira; enquanto o último, por outro lado, é conjecturado pela opinião formada pela percepção dos sentidos sem o auxílio da razão, visto que nunca realmente é, mas está vindo a ser e perecendo.” Estas expressões declaram, para aqueles que podem entendê-las corretamente, a morte e destruição dos deuses que foram trazidos à existência. E julgo necessário atentar também a isto, que Platão nunca o chama de criador, mas de artífice dos deuses, embora, na opinião de Platão, haja considerável diferença entre esses dois. Porque o criador cria a criatura pela sua própria capacidade e poder, não necessitando de nada mais; mas o artífice molda sua produção quando recebeu da matéria a capacidade para sua obra.

Capítulo XXIII.—A contradição de Platão consigo mesmo.

Mas, talvez, alguns que não querem abandonar as doutrinas do politeísmo dirão que a esses deuses formados disse o artífice: “Visto que fostes produzidos, não sois imortais, nem de todo incorruptíveis; todavia, não perecereis nem sucumbireis ao fado da morte, porque alcançastes a minha vontade, que é um vínculo ainda maior e mais poderoso.” Aqui Platão, por temor dos sectários do politeísmo, introduz o seu “artífice” a proferir palavras que contradizem a si mesmo. Pois, tendo dito anteriormente que afirmara que tudo o que é produzido é perecível, agora o introduz a dizer o contrário; e não vê que assim lhe é absolutamente impossível escapar da acusação de falsidade. Porque, ou ele primeiro proferiu o que é falso ao dizer que tudo o que é produzido é perecível, ou agora, quando propõe o oposto exato do que antes dissera. Pois se, segundo a sua definição anterior, é absolutamente necessário que toda coisa criada seja perecível, como pode ele fazer consistente o que é absolutamente impossível? De modo que Platão parece conceder uma prerrogativa vazia e impossível ao seu “artífice”, quando propõe que aqueles que outrora eram perecíveis por serem feitos da matéria, outra vez, por sua intervenção, se tornem incorruptíveis e duradouros. Porque é bem natural que o poder da matéria, que, segundo a opinião de Platão, é incriada, e contemporânea e coetânea com o artífice, resista à sua vontade. Pois quem não criou não tem poder, no que respeita ao que é incriado, de modo que não é possível que ela (a matéria), sendo livre, seja controlada por qualquer necessidade externa. Por isso o próprio Platão, em consideração a isto, escreveu assim: “É necessário afirmar que Deus não pode sofrer violência.”

Capítulo XXIV.—Concordância de Platão e Homero.

Como, então, Platão expulsa Homero da sua república, se, na embaixada a Aquiles, ele representa Fênix dizendo a Aquiles: “Nem os próprios deuses são inflexíveis”, embora Homero isto dissesse não do rei e demiurgo platônico dos deuses, mas de alguns da multidão que os Gregos têm por deuses, como se pode depreender da expressão de Platão, “deuses dos deuses”? Porque Homero, por aquela cadeia de ouro, refere todo o poder e a potência ao único sumo Deus. E dos restantes deuses, disse ele, estavam tão distantes da sua divindade, que julgou conveniente nomeá-los até juntamente com os homens. Ao menos introduz Ulisses dizendo a Aquiles acerca de Heitor: “Ele está furioso terrivelmente, confiando em Zeus, e não faz caso nem de homens nem de deuses.” Nesta passagem, Homero me parece sem dúvida ter aprendido no Egito, como Platão, acerca do único Deus, e clara e abertamente declarar isto, que quem confia no Deus verdadeiramente existente não faz caso daqueles que não existem. Pois assim o poeta, noutra passagem, e empregando outra palavra equivalente, a saber, um pronome, fez uso do mesmo particípio empregado por Platão para designar o Deus verdadeiramente existente, a respeito do qual Platão disse: “Aquilo que sempre existe, e não tem nascimento.” Porque não sem duplo sentido parece ter sido usada esta expressão de Fênix: “Nem ainda que o próprio Deus me prometesse, que, tendo polido a minha velhice, me apresentaria na flor da juventude.” Pois o pronome “próprio” significa o Deus verdadeiramente existente. Pois assim também significa o oráculo que vos foi dado acerca dos Caldeus e dos Hebreus. Porque, quando alguém perguntou que homens tinham vivido piamente, dizeis que a resposta foi:—

Capítulo XXV.—O conhecimento de Platão acerca da eternidade de Deus.

Como repreende, pois, Platão a Homero por dizer que os deuses não são inflexíveis, se, como é manifesto pelas palavras usadas, Homero o disse com um fim útil? Pois é próprio daqueles que esperam alcançar misericórdia pela oração e pelos sacrifícios cessar e arrepender-se dos seus pecados. Porque os que pensam que a Divindade é inflexível de modo algum são movidos a abandonar os seus pecados, supondo que nenhum benefício tirarão do arrependimento. Como, pois, Platão, o filósofo, condena o poeta Homero por dizer: "Nem os próprios deuses são inflexíveis", e todavia representa o fazedor dos deuses como tão facilmente volúvel, que umas vezes declara os deuses mortais, e outras vezes os declara imortais? E não só acerca deles, mas também acerca da matéria, da qual, segundo ele, é necessário que os deuses criados tenham sido produzidos, umas vezes diz que é incriada, e outras vezes que é criada; e contudo não vê que ele mesmo, ao dizer que o fazedor dos deuses é tão facilmente volúvel, é convencido de ter caído nos mesmos erros pelos quais censura Homero, ainda que Homero dissesse o contrário acerca do fazedor dos deuses. Pois disse que ele falou assim de si mesmo:

Mas Platão, ao que parece, entrou contra vontade nestas estranhas dissertações acerca dos deuses, porque temia aqueles que eram afeiçoados ao politeísmo. E tudo quanto julga conveniente contar do que aprendera de Moisés e dos profetas acerca de um só Deus, preferiu transmiti-lo de modo místico, para que aqueles que desejassem ser adoradores de Deus tivessem um indício da sua própria opinião. Porque, encantado com aquela palavra de Deus a Moisés: "Eu sou o que realmente existe", e aceitando com muita consideração a breve expressão participial, entendeu que Deus desejava significar a Moisés a Sua eternidade, e por isso disse: "Eu sou o que realmente existe"; pois esta palavra "existente" não exprime um só tempo, mas os três—o passado, o presente e o futuro. Porque quando Platão diz: "e que nunca realmente é", usa o verbo "é" de tempo indefinido. Pois a palavra "nunca" não é dita, como alguns supõem, do passado, mas do tempo futuro. E isto foi acuradamente compreendido até por escritores profanos. E portanto, quando Platão quis, por assim dizer, interpretar aos não iniciados o que fora misticamente expresso pelo particípio acerca da eternidade de Deus, empregou a seguinte linguagem: "Deus, na verdade, como diz a tradição antiga, abrange o princípio, e o fim, e o meio de todas as coisas." Nesta sentença ele nomina clara e obviamente a lei de Moisés "a tradição antiga", temendo, pelo medo da taça de cicuta, mencionar o nome de Moisés; pois entendia que o ensinamento do homem era odioso aos Gregos; e indica Moisés bastantemente pela antiguidade da tradição. E provámos suficientemente de Diodoro e dos restantes historiadores, nos capítulos anteriores, que a lei de Moisés não só é antiga, mas até a primeira. Pois Diodoro diz que ele foi o primeiro de todos os legisladores; as letras que pertencem aos Gregos, e que eles empregavam na escritura das suas histórias, não tendo sido ainda descobertas.

Capítulo XXVI.—Platão em dívida com os profetas.

E ninguém se admire de que Platão acreditasse em Moisés acerca da eternidade de Deus. Pois achá-lo-eis referindo misticamente o verdadeiro conhecimento das realidades aos profetas, logo após o Deus verdadeiramente existente. Porque, discorrendo no Timeu acerca de certos primeiros princípios, escreveu assim: "Isto estabelecemos como primeiro princípio do fogo e dos outros corpos, procedendo segundo a probabilidade e a necessidade. Mas os primeiros princípios destes, Deus acima sabe, e quem quer que entre os homens seja amado d'Ele." E que homens julga Ele amados de Deus, senão Moisés e os restantes profetas? Porque leu as suas profecias e, tendo aprendido deles a doutrina do juízo, assim a proclama no primeiro livro da República: "Quando um homem começa a pensar que vai morrer em breve, o medo invade-o, e a preocupação acerca de coisas que nunca antes lhe tinham entrado na cabeça. E aquelas histórias acerca do que se passa no Hades, que nos dizem que o homem que aqui foi injusto ali deve ser punido, ainda que outrora ridicularizadas, agora atormentam a sua alma com receios de que possam ser verdadeiras. E ele, ou pela fraqueza da idade, ou porque está agora mais próximo das coisas do outro mundo, vê-as mais atentamente. Torna-se, portanto, cheio de apreensão e de temor, e começa a chamar-se a contas, e a considerar se fez alguma injúria a alguém. E aquele homem que encontra na sua vida muitas iniquidades, e que continuamente salta do sono como as crianças, vive em terror, e com uma perspetiva desolada. Mas para aquele que está consciente de não ter feito mal, a doce esperança é a companheira constante e a boa ama da velhice, como diz Píndaro. Porque isto, Sócrates, ele exprimiu elegantemente, que 'quem quer que leve uma vida de santidade e justiça, a doce esperança, a ama da idade, o acompanha, alegrando-lhe o coração, pois ela governa poderosamente a mente mutável dos mortais.'" Isto escreveu Platão no primeiro livro da República.

Capítulo XXVIII.—As obrigações de Homero para com os escritores sagrados.

E não só Platão, mas também Homero, tendo recebido semelhante esclarecimento no Egito, disse que Tício era de igual modo castigado. Pois Ulisses fala assim a Alcínoo quando está a relatar a sua adivinhação pelas sombras dos mortos:

Porque é manifesto que não é a alma, mas o corpo, que tem um fígado. E da mesma maneira descreveu tanto Sísifo como Tântalo sofrendo castigo com o corpo. E que Homero estivera no Egito, e introduzira no seu próprio poema muito do que ali aprendera, Diodoro, o mais estimado dos historiadores, no-lo ensina claramente. Pois disse que, quando estava no Egito, aprendera que Helena, tendo recebido da esposa de Teão, Polidamna, uma droga, "que a tudo serena a dor e a melancolia, e causa o esquecimento de todos os males," a levou para Esparta. E Homero disse que, fazendo uso daquela droga, Helena pôs fim ao lamento de Menelau, causado pela presença de Telémaco. E chamou também a Vénus "dourada," pelo que vira no Egito. Pois vira o templo que no Egito se chama "o templo da Vénus dourada," e a planície que se chama "a planície da Vénus dourada." E por que faço agora menção disto? Para mostrar que o poeta transferiu para o seu próprio poema muito do que está contido nas divinas escrituras dos profetas. E primeiro transferiu o que Moisés relatara como o princípio da criação do mundo. Pois Moisés escreveu assim: "No princípio criou Deus o céu e a terra," depois o sol, e a lua, e as estrelas. Porque, tendo aprendido isto no Egito, e tendo sido muito tomado pelo que Moisés escrevera no Génesis do mundo, fabulou que Vulcano fizera no escudo de Aquiles uma espécie de representação da criação do mundo. Pois escreveu assim:

E urdiu também que o jardim de Alcínoo preservasse a semelhança do Paraíso, e por esta semelhança o representou como sempre florescente e cheio de todos os frutos. Pois assim escreveu:

Não apresentam estas palavras uma imitação manifesta e clara do que o primeiro profeta Moisés disse acerca do Paraíso? E se alguém quiser saber algo da edificação da torre pela qual os homens daquele tempo fantasiavam que obteriam acesso ao céu, encontrará uma imitação alegórica suficientemente exata disto no que o poeta atribuiu a Oto e a Efialtes. Pois deles escreveu assim:

E o mesmo se diga acerca do inimigo do género humano que foi expulso do céu, a quem as Sagradas Escrituras chamam Diabo, nome que obteve da sua primeira diabrura contra o homem; e se alguém considerar atentamente a matéria, acharia que o poeta, embora certamente nunca mencione o nome "do diabo," lhe dá contudo um nome derivado da sua ação mais perversa. Pois o poeta, chamando-lhe Ate, diz que foi arremessado do céu pelo seu deus, como se tivesse uma lembrança distinta das expressões que o profeta Isaías proferira acerca dele. Escreveu assim no seu próprio poema:

Capítulo XXX.—O conhecimento de Homero sobre a origem do homem.

E ele foi obviamente enganado do mesmo modo acerca da terra e do céu e do homem; pois supõe que há «ideias» destes. Porque, como Moisés escreveu assim: «No princípio criou Deus o céu e a terra», e depois acrescenta esta sentença: «E a terra era invisível e informe», ele pensou que era a terra preexistente de que se falava nas palavras: «A terra era», porque Moisés disse: «E a terra era invisível e informe»; e pensou que a terra, acerca da qual ele diz: «Deus criou o céu e a terra», era aquela terra que percebemos pelos sentidos, e que Deus fez segundo a forma preexistente. E assim também, acerca do céu que foi criado, pensou que o céu que foi criado — e que ele também chamou firmamento — era aquela criação que os sentidos percebem; e que o céu que o intelecto percebe é aquele outro de que o profeta disse: «O céu dos céus é do Senhor, mas a terra deu-a Ele aos filhos dos homens.» E assim também acerca do homem: Moisés primeiro menciona o nome do homem, e depois de muitas outras criações faz menção da formação do homem, dizendo: «E Deus fez o homem, tomando pó da terra.» Ele pensou, portanto, que o homem assim primeiro nomeado existia antes do homem que foi feito, e que aquele que foi formado da terra foi depois feito segundo a forma preexistente. E que o homem foi formado da terra, também Homero, tendo descoberto a partir da antiga e divina história que diz: «És pó, e em pó te hás de tornar», chama ao corpo sem vida de Heitor barro mudo. Pois em condenação de Aquiles que arrastava o cadáver de Heitor após a morte, diz algures:— E ainda, noutro lugar, introduz Menelau, assim dirigindo-se àqueles que não aceitavam o desafio de Heitor para combate singular com a alacridade devida,— resolvendo-os na sua violenta ira na sua formação original e primitiva da terra. Estas coisas Homero e Platão, tendo aprendido no Egito das antigas histórias, escreveram nas suas próprias palavras.

Capítulo XXXII.—A doutrina de Platão sobre o dom celestial.

E se alguém considerar atentamente o dom que desce de Deus sobre os homens santos — dom que os sagrados profetas chamam Espírito Santo — achará que este foi anunciado sob outro nome por Platão no diálogo com Mênon. Pois, temendo nomear o dom de Deus “Espírito Santo”, para não parecer, seguindo o ensinamento dos profetas, ser inimigo dos Gregos, reconhece, na verdade, que desce de Deus, mas não julga conveniente nomeá-lo Espírito Santo, e sim virtude. Pois assim no diálogo com Mênon, acerca da reminiscência, depois de ter feito muitas perguntas sobre a virtude, se podia ser ensinada ou se não podia ser ensinada, mas devia ser adquirida pela prática, ou se podia ser alcançada nem pela prática nem pelo aprendizado, mas era um dom natural nos homens, ou se vem de outra maneira, faz esta declaração nestas mesmas palavras: “Mas se agora, através de todo este diálogo, conduzimos a nossa investigação e discussão corretamente, a virtude não deve ser nem um dom natural, nem algo que se possa receber pelo ensino, mas vem àqueles a quem vem por destino divino.” Estas coisas, creio eu, tendo Platão aprendido dos profetas acerca do Espírito Santo, transferiu manifestamente para o que chama virtude. Pois, assim como os sagrados profetas dizem que um mesmo espírito se divide em sete espíritos, assim também ele, nomeando-a uma mesma virtude, diz que esta se divide em quatro virtudes; querendo por todos os meios evitar a menção do Espírito Santo, mas declarando claramente com uma espécie de alegoria o que os profetas disseram do Espírito Santo. Pois com este efeito falou no diálogo com Mênon perto do fim: “Deste raciocínio, Mênon, parece que a virtude vem àqueles a quem vem por um destino divino. Mas saberemos claramente acerca disto, de que modo a virtude vem aos homens, quando, como primeiro passo, nos tivermos proposto investigar, como uma indagação independente, o que é a virtude em si mesma.” Vedes como ele chama somente com o nome de virtude o dom que desce do alto; e contudo julga digno de investigação se é correto que este [dom] se chame virtude ou alguma outra coisa, temendo nomeá-lo abertamente Espírito Santo, para não parecer estar seguindo o ensinamento dos profetas.

Capítulo XXXIII.—A ideia de Platão sobre o começo do tempo extraída de Moisés.

E de que fonte tirou Platão a informação de que o tempo foi criado juntamente com os céus? Pois escreveu assim: "O tempo, portanto, foi criado juntamente com os céus; a fim de que, vindo a ser simultaneamente, também juntamente se dissolvessem, se porventura sua dissolução devesse ocorrer." Não havia ele aprendido isto da história divina de Moisés? Pois conhecia que a criação do tempo havia recebido sua constituição original dos dias e dos meses e dos anos. Sendo, pois, que o primeiro dia que foi criado juntamente com os céus constituiu o princípio de todo o tempo (porque assim escreveu Moisés: "No princípio criou Deus os céus e a terra," e logo em seguida acrescenta: "E um dia foi feito," como se quisesse designar toda a extensão do tempo por uma parte dele), Platão nomeia o dia "tempo," para que, se mencionasse o "dia," não parecesse expor-se à acusação dos atenienses, de que estava completamente adotando as expressões de Moisés. E de que fonte derivou aquilo que escreveu acerca da dissolução dos céus? Não havia aprendido isto também dos sagrados profetas, e não pensava que esta era a doutrina deles?

Capítulo XXXVIII.—Apelo final.

Mas, uma vez que, ó homens da Grécia, as coisas da verdadeira religião não consistem nos números métricos da poesia, nem ainda naquela cultura que entre vós é tão estimada, doravante dedicai menos devoção à exatidão dos metros e da linguagem; e, dando ouvidos sem espírito de contenda às palavras da Sibila, reconhecei quão grandes são os benefícios que ela vos conferirá, predizendo, como o faz de maneira clara e patente, o advento do nosso Salvador Jesus Cristo; o qual, sendo o Verbo de Deus, inseparável dEle em poder, tendo assumido o homem, que fora feito à imagem e semelhança de Deus, nos restituiu o conhecimento da religião dos nossos antigos pais, que os homens que viveram depois deles abandonaram pelo enganoso conselho do invejoso diabo, e se voltaram para o culto daqueles que não eram deuses. E se ainda hesitais e sois impedidos de crer no tocante à formação do homem, crede naqueles a quem até agora julgastes dignos de dar ouvidos, e sabei que o vosso próprio oráculo, interrogado por alguém para proferir um hino de louvor ao Deus Todo-Poderoso, no meio do hino falou assim: “Que formou o primeiro dos homens e o chamou Adão.” E este hino é preservado por muitos que conhecemos, para convicção daqueles que não querem crer na verdade que todos testemunham. Se, portanto, ó homens da Grécia, não estimais a falsa fantasia acerca daqueles que não são deuses a um preço mais alto do que a vossa própria salvação, crede, como disse, na mais antiga e venerável Sibila, cujos livros são preservados em todo o mundo, e que por uma espécie de poderosa inspiração tanto nos ensina nas suas profecias acerca daqueles que são chamados deuses, que não existem; como também profetiza clara e manifestamente acerca do predito advento do nosso Salvador Jesus Cristo, e acerca de todas aquelas coisas que haviam de ser feitas por Ele. Porque o conhecimento destas coisas constituirá a vossa necessária preparação preliminar para o estudo das profecias dos escritores sagrados. E se alguém supõe ter aprendido a doutrina acerca de Deus dos mais antigos daqueles a quem chamais filósofos, ouça Amão e Hermes: a Amão, que no seu discurso acerca de Deus O chama inteiramente oculto; e a Hermes, que diz clara e distintamente “que é difícil compreender a Deus, e que é impossível até ao homem que O pode compreender declará-lO a outros.” De todo o ponto, portanto, deve ver-se que de nenhuma outra maneira senão unicamente dos profetas que nos ensinam por inspiração divina, é de todo possível aprender alguma coisa acerca de Deus e da verdadeira religião.

Capítulo II.—Testemunhos da unidade de Deus.

Primeiramente, pois, Ésquilo, ao expor a disposição da sua obra, expressou-se também como segue acerca do único Deus:— Mas não foi ele o único homem iniciado no conhecimento de Deus; pois Sófocles também descreve assim a natureza do único Criador de todas as coisas, o único Deus:— E Filemom também, que publicou muitas explicações de costumes antigos, participa do conhecimento da verdade; e assim escreve:— Também Orfeu, que introduz trezentos e sessenta deuses, dará testemunho a meu favor a partir do tratado chamado Diathecas, no qual parece arrepender-se do seu erro escrevendo o seguinte:— Fala, na verdade, como se tivesse sido testemunha ocular da grandeza de Deus. E Pitágoras concorda com ele quando escreve:—

Capítulo III.—Testemunhos sobre um juízo futuro.

Além disso, sobre Ele, que só Ele é poderoso para instituir juízo sobre as obras praticadas na vida e sobre a ignorância da Divindade [demonstrada pelos homens], posso aduzir testemunhas das vossas próprias fileiras; e primeiro Sófocles, que fala assim:— E Filemom novamente:— E Eurípides:—

Capítulo IV.—Deus não deseja sacrifícios, mas a justiça.

E que Deus não se aplaca com as libações e incenso dos malfeitores, mas concede vingança em justiça a cada um, Filemom novamente dará testemunho a meu favor:— Novamente, Platão, no Timeu, diz: “Mas se alguém, por consideração, instituísse na verdade um rigoroso exame, seria ignorante da distinção entre a natureza humana e a divina; porque Deus mistura muitas coisas numa só, [e novamente é capaz de dissolver uma em muitas coisas, visto que é dotado de conhecimento e poder; mas nenhum homem é, nem jamais será, capaz de realizar qualquer destas coisas].”

Capítulo V.—As vãs pretensões dos falsos deuses.

Mas acerca daqueles que pensam que hão de partilhar o santo e perfeito nome, que alguns receberam por uma vã tradição como se fossem deuses, Menandro no Auriga diz:— O mesmo Menandro, no Sacerdos, diz:— Novamente, o mesmo Menandro, expondo a sua opinião acerca daqueles que são recebidos como deuses, provando antes que não o são, diz:— E no Depósito:— E Eurípides, o tragediógrafo, em Orestes, diz:— O mesmo também em Hipólito:— E em Íon:— E em Arquelau:— E em Belerofonte:— E novamente no mesmo:— E Menandro em Dífilo:— O mesmo também nos Pescadores:— O mesmo nos Irmãos:— E nas Tocadoras de Flauta:— E o tragediógrafo em Frixo:— Em Filoctetes:— Em Hécuba:— e,—

Capítulo I.—O poder auto-evidente da verdade.

O poder auto-evidente da verdade.

A palavra da verdade é livre, e carrega sua própria autoridade, desdenhando cair sob qualquer argumento engenhoso, ou de suportar o escrutínio lógico de seus ouvintes. Mas seria acreditada por sua própria nobreza, e pela confiança devida Àquele que a envia. Ora, a palavra da verdade é enviada de Deus; portanto a liberdade reivindicada pela verdade não é arrogante. Pois sendo enviada com autoridade, não seria conveniente que fosse requerido que produzisse prova do que é dito; já que não há qualquer prova além de si mesma, que é Deus. Pois toda prova é mais poderosa e digna de confiança do que aquilo que prova; já que o que não é acreditado, até que prova seja produzida, ganha crédito quando tal prova é produzida, e é reconhecido como sendo o que foi dito ser. Mas nada é nem mais poderoso nem mais digno de confiança do que a verdade; de sorte que aquele que requer prova disto é como alguém que deseja que seja demonstrado por que as coisas que aparecem aos sentidos aparecem. Pois o teste daquelas coisas que são recebidas através da razão, é o sentido; mas do sentido mesmo não há teste além de si mesmo. Como, então, trazemos aquelas coisas que a razão busca, ao sentido, e por ele julgamos que tipo de coisas são, se as coisas ditas sejam verdadeiras ou falsas, e então nos assentamos em julgamento não mais, dando pleno crédito à sua decisão; assim também referimos tudo o que é dito a respeito dos homens e do mundo à verdade, e por ela julgamos se seja sem valor ou não. Mas as locuções da verdade julgamos por nenhum teste separado, dando pleno crédito a si mesma. E Deus, o Pai do universo, que é a inteligência perfeita, é a verdade. E o Verbo, sendo Seu Filho, veio a nós, tendo revestido carne, revelando tanto a Si mesmo quanto ao Pai, dando-nos em Si próprio a ressurreição dos mortos, e a vida eterna depois. E este é Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor. Ele, portanto, é em Si mesmo tanto a fé como a prova de Si mesmo e de todas as coisas. Portanto, aqueles que O seguem, e O conhecem, tendo fé nEle como sua prova, hão de descansar nEle. Mas visto que o adversário não cessa de resistir a muitos, e usa muitas e diversas artes para ensnará-los, para que possa seduzir os fiéis de sua fé, e para que possa impedir os infiéis de crer, parece-me necessário que também nós, armados das doutrinas invulneráveis da fé, combatamos contra ele em favor dos fracos.

Capítulo III.—Se os membros ressuscitam, devem eles desempenhar as mesmas funções que agora?

Dizem, então, que se o corpo ressuscitar inteiro e possuído de todos os seus membros, segue-se necessariamente que também as funções dos membros existirão; que o ventre engravidará, e o varão também exercerá sua função de geração, e os demais membros de igual modo. Ora, fique este argumento em pé ou caia por esta única afirmação. Pois, provada esta como falsa, toda a objeção deles será removida. Ora, é evidente que os membros que exercem funções exercem aquelas funções que na presente vida vemos, mas não se segue que necessariamente exerçam as mesmas funções desde o princípio. E para que isto se veja mais claramente, consideremo-lo assim. A função do ventre é engravidar; e a do membro do varão, fecundar. Mas, embora estes membros estejam destinados a exercer tais funções, não é portanto necessário que desde o princípio as exerçam (pois vemos muitas mulheres que não engravidam, como as estéreis, ainda que tenham ventre), assim a gravidez não é consequência imediata e necessária de ter ventre; mas até aquelas que não são estéreis se abstêm da relação sexual, umas virgens desde o princípio, e outras desde certo tempo. E vemos também varões que se conservam virgens, uns desde o princípio, e outros desde certo tempo; de modo que por meio deles se destrói o matrimônio, tornado ilícito pela concupiscência. E achamos que alguns até dos animais inferiores, embora possuam ventre, não geram, como a mula; e os mulos machos não geram a sua espécie. De modo que tanto no caso dos homens como dos animais irracionais podemos ver abolida a relação sexual; e isto também antes do mundo futuro. E nosso Senhor Jesus Cristo nasceu de uma virgem, por nenhuma outra razão senão para destruir a geração pelo desejo ilícito, e para mostrar ao soberano que a formação do homem era possível a Deus sem intervenção humana. E tendo nascido, e tendo-Se submetido às outras condições da carne — quero dizer, comida, bebida e vestimenta —, só esta condição de exercer a função sexual não sofreu; pois, quanto aos desejos da carne, aceitou alguns como necessários, enquanto outros, que eram desnecessários, a eles não Se submeteu. Porque, se a carne fosse privada de comida, bebida e vestimenta, pereceria; mas, privada do desejo ilícito, não sofre dano algum. E ao mesmo tempo predisse que, no mundo futuro, a relação sexual seria abolida; como diz: “Os filhos deste mundo casam-se e são dados em casamento; mas os filhos do mundo vindouro nem se casam nem são dados em casamento, mas serão como os anjos no céu.” Não se maravilhem, pois, os incrédulos se, no mundo vindouro, Ele abolir aqueles atos de nossos membros carnais que até na presente vida são abolidos.

Referência atual: São Justino Mártir, Escritos de São Justino Mártir, VI, 15