Obra patrística
Escritos de São Justino Mártir
São Justino Mártir · c. 100–165
III, 12–IV, 20
Capítulo XII.—Os cristãos provados inocentes pelo seu desprezo pela morte.
Porque eu mesmo, também, quando me deleitava nas doutrinas de Platão, e ouvia os cristãos serem caluniados, e os via intrépidos diante da morte, e de todas as outras coisas que se consideram temíveis, percebi que era impossível que eles vivessem na maldade e no prazer. Pois que homem sensual ou intemperante, ou que considere bom banquetear-se com carne humana, acolheria a morte para ser privado dos seus gozos, e não preferiria antes continuar sempre a vida presente, e tentar escapar à observação dos governantes; e muito menos se denunciaria a si mesmo quando a consequência fosse a morte? Isto também os demônios malignos têm agora feito realizar por meio de homens maus. Pois, havendo matado alguns por causa das acusações falsamente levantadas contra nós, arrastaram também à tortura os nossos servos, quer crianças, quer mulheres fracas, e por medonhos tormentos os forçaram a admitir aquelas ações fabulosas que eles mesmos abertamente praticam; acerca das quais tanto menos nos preocupamos, porque nenhuma dessas ações é realmente nossa, e temos o Deus ingênito e inefável por testemunha tanto dos nossos pensamentos como das nossas ações. Pois por que não professaríamos também publicamente que estas eram as coisas que considerávamos boas, e não provaríamos que estas são a filosofia divina, dizendo que os mistérios de Saturno se celebram quando matamos um homem, e que, quando nos saciamos de sangue, como se diz que fazemos, estamos fazendo o que vós fazeis diante daquele ídolo que honrais, e sobre o qual aspergis o sangue não só de animais irracionais, mas também de homens, libando o sangue dos mortos pela mão do mais ilustre e nobre homem entre vós? E, imitando Júpiter e os outros deuses na sodomia e no comércio desavergonhado com mulheres, não poderíamos alegar como nossa apologia os escritos de Epicuro e dos poetas? Mas, porque persuadimos os homens a evitarem tal instrução, e a todos os que as praticam e imitam tais exemplos, como agora neste discurso nos esforçamos por vos persuadir, somos assaltados de toda a maneira. Mas não nos preocupamos, pois sabemos que Deus é um justo observador de tudo. Mas oxalá que agora mesmo alguém subisse a uma alta tribuna, e gritasse em voz alta: «Envergonhai-vos, envergonhai-vos, vós que acusais os inocentes daquelas ações que vós mesmos abertamente cometeis, e atribuís coisas que a vós mesmos e aos vossos deuses dizem respeito àqueles que nem sequer a mais ligeira simpatia têm por elas. Convertei-vos; tornai-vos sábios.»
Capítulo XIV.—Justino ora para que este apelo seja publicado.
E portanto vos rogamos que publiqueis este livrinho, acrescentando o que vos pareça justo, para que nossas opiniões se tornem conhecidas aos outros, e para que estas pessoas tenham oportunidade justa de serem livres das noções erradas e da ignorância do bem, as quais por sua própria culpa se tornaram sujeitas ao castigo; para que assim estas coisas se publiquem aos homens, porque é da natureza do homem conhecer o bem e o mal; e condenando-nos eles, que não nos entendem, por ações que dizem ser ímpias, e deleitando-se nos deuses que fizeram tais coisas, e ainda agora exigem ações semelhantes dos homens, e infligindo-nos morte ou cadeias ou algum outro castigo desta natureza, como se fôssemos culpados destas coisas, condenam a si mesmos, de modo que não há necessidade de outros juízes.
Capítulo I.—Introdução.
Certa manhã, enquanto passeava pelos átrios do Xisto, um certo homem, com outros na sua companhia, encontrando-me, disse: «Salve, ó filósofo!» E, imediatamente após dizer isto, voltou-se e caminhou comigo; os seus amigos também o seguiram. E eu, por minha vez, havendo-lhe dirigido a palavra, disse: «Que há de importante?»
E ele respondeu: «Fui instruído», diz ele, «por Corinto, o Socrático, em Argos, que não deveria desprezar ou tratar com indiferença aqueles que se vestem com este hábito, mas mostrar-lhes toda a bondade, e associar-me com eles, pois talvez algum proveito advenha do convívio, quer para algum tal homem, quer para mim mesmo. É bom, além disso, para ambos, se um ou outro for beneficiado. Por esta razão, portanto, sempre que vejo alguém com tal traje, aproximo-me dele de bom grado, e agora, pela mesma razão, vos abordei de boa vontade; e estes me acompanham, na expectativa de ouvirem por si mesmos algo de proveitoso de vós.»
«Mas quem sois vós, ó homem excelentíssimo?» Assim lhe respondi em tom de gracejo.
Então ele me disse francamente tanto o seu nome como a sua família. «Trifão», diz ele, «me chamo; e sou hebreu da circuncisão, e, tendo escapado da guerra ultimamente travada ali, passo os meus dias na Grécia, e principalmente em Corinto.»
«E em que», disse eu, «seríeis beneficiado pela filosofia tanto quanto pelo vosso próprio legislador e pelos profetas?»
«Por que não?» respondeu ele. «Não voltam os filósofos todo o discurso sobre Deus? e não surgem continuamente questões entre eles acerca da Sua unidade e providência? Não é este verdadeiramente o dever da filosofia, investigar a Divindade?»
«Certamente», disse eu, «assim também nós temos crido. Mas a maioria não tem refletido sobre isto: se há um ou mais deuses, e se eles têm cuidado de cada um de nós ou não, como se este conhecimento nada contribuísse para a nossa felicidade; antes, eles ainda tentam persuadir-nos de que Deus cuida do universo com os seus géneros e espécies, mas não de mim e de vós, e de cada um individualmente, pois de outro modo certamente não precisaríamos de Lhe orar noite e dia. Mas não é difícil entender o resultado disto; porque a intrepidez e a licença no falar resultam para tais que sustentam estas opiniões, fazendo e dizendo o que lhes apraz, não temendo castigo nem esperando qualquer benefício de Deus. Pois como poderiam? Eles afirmam que as mesmas coisas sempre hão de acontecer; e, além disso, que eu e vós de novo viveremos de modo semelhante, tendo-nos tornado nem melhores nem piores. Mas há alguns outros, que, havendo suposto a alma imortal e imaterial, creem que, embora tenham cometido o mal, não sofrerão castigo (pois o que é imaterial é insensível), e que a alma, em consequência da sua imortalidade, nada necessita de Deus.»
E ele, sorrindo brandamente, disse: «Dizei-nos a vossa opinião sobre estas matérias, e que ideia tendes acerca de Deus, e qual é a vossa filosofia.»
Capítulo II.—Justino descreve seus estudos de filosofia.
"Dir-vos-ei", disse eu, "o que me parece; pois a filosofia é, de facto, a maior possessão, e a mais honrosa diante de Deus, a quem ela nos conduz e só nos recomenda; e estes são verdadeiramente homens santos que dedicaram atenção à filosofia. O que a filosofia é, contudo, e a razão pela qual foi enviada aos homens, escapou à observação da maioria; pois não haveria nem Platónicos, nem Estoicos, nem Peripatéticos, nem Teoréticos, nem Pitagóricos, sendo este conhecimento um só. Desejo dizer-vos por que se tornou de muitas cabeças. Aconteceu que aqueles que primeiro a trataram [i.e., a filosofia], e que por isso foram considerados homens ilustres, foram sucedidos por aqueles que não fizeram investigações sobre a verdade, mas apenas admiraram a perseverança e a autodisciplina dos primeiros, bem como a novidade das doutrinas; e cada um pensou que era verdadeiro o que aprendeu do seu mestre: depois, além disso, estes últimos transmitiram aos seus sucessores tais coisas, e outras semelhantes a elas; e este sistema foi chamado pelo nome daquele que era intitulado o pai da doutrina. Desejando eu, a princípio, conversar pessoalmente com um destes homens, entreguei-me a um certo Estoico; e tendo passado um tempo considerável com ele, quando não adquiri nenhum conhecimento adicional de Deus (pois ele não se conhecia a si mesmo, e disse que tal instrução era desnecessária), deixei-o e dirigi-me a outro, que era chamado Peripatético, e, como ele julgava, astuto. E este homem, depois de me ter entretido nos primeiros dias, pediu-me que estabelecesse o honorário, para que a nossa convivência não fosse infrutífera. A este também, por esta razão, abandonei, acreditando que ele não era filósofo de modo algum. Mas quando a minha alma ansiava ardentemente por ouvir a filosofia peculiar e escolhida, fui ter com um Pitagórico, muito célebre — um homem que pensava muito da sua própria sabedoria. E então, quando tive uma entrevista com ele, disposto a tornar-me seu ouvinte e discípulo, ele disse: 'Que então? Conheceis a música, a astronomia e a geometria? Esperais perceber alguma daquelas coisas que conduzem a uma vida feliz, se não tiverdes sido primeiro informados sobre aqueles pontos que desviam a alma dos objetos sensíveis, e a tornam apta para os objetos que pertencem à mente, de modo que possa contemplar o que é honroso na sua essência e o que é bom na sua essência?' Tendo elogiado muitos destes ramos do saber, e dizendo-me que eram necessários, despediu-me quando lhe confessei a minha ignorância. Por conseguinte, tomei isto com bastante impaciência, como era de esperar quando falhei na minha esperança, tanto mais que julgava que o homem tinha algum conhecimento; mas refletindo novamente no espaço de tempo durante o qual teria de demorar-me sobre aqueles ramos do saber, não pude suportar mais procrastinação. Na minha condição de desamparo, ocorreu-me ter um encontro com os Platónicos, pois a sua fama era grande. Passei então o máximo de tempo possível com um que recentemente se estabelecera na nossa cidade — um homem sagaz, ocupando uma posição elevada entre os Platónicos — e progredi, e fiz os maiores aperfeiçoamentos diariamente. E a perceção das coisas imateriais subjugou-me completamente, e a contemplação das ideias dotou a minha mente de asas, de modo que em pouco tempo suponho que me tornei sábio; e tal era a minha estupidez, esperava imediatamente contemplar a Deus, pois este é o fim da filosofia de Platão.
Capítulo III.—Justino narra o modo de sua conversão.
«E, estando eu assim disposto, quando em certa época desejava encher-me de grande quietude e fugir do caminho dos homens, costumava ir a um certo campo não longe do mar. E, quando estava perto daquele lugar um dia, ao qual tendo chegado propunha estar a sós, um certo velho, de aparência de modo algum desprezível, exibindo modos mansos e veneráveis, seguiu-me a pequena distância. E, quando me voltei para ele, tendo parado, fixei os olhos nele bastante atentamente.
«E ele disse: ‘Conheceis-me?’
«Respondi que não.
« ‘Pois então’, disse-me ele, ‘por que me olhais assim?’
« ‘Estou maravilhado’, disse eu, ‘porque aconteceu de estardes na minha companhia no mesmo lugar; pois não esperava ver aqui homem algum.’
«E ele me diz: ‘Estou preocupado com alguns da minha casa. Estes se ausentaram de mim; e por isso vim fazer pessoalmente busca deles, se, porventura, aparecerem em algum lugar. Mas por que estais vós aqui?’ disse-me ele.
« ‘Deleito-me’, disse eu, ‘em tais passeios, onde a minha atenção não é distraída, pois a conversa comigo mesmo é ininterrupta; e tais lugares são muito próprios para a filologia.’
« ‘Sois vós, então, um filólogo’, disse ele, ‘mas não amante das obras ou da verdade? e não visais a ser um homem prático tanto quanto a ser um sofista?’
« ‘Que maior obra’, disse eu, ‘poderia alguém realizar do que esta: mostrar a razão que governa todas as coisas, e, havendo-a apreendido e montado sobre ela, olhar de cima para os erros dos outros e para os seus intentos? Mas, sem a filosofia e a reta razão, a prudência não estaria presente a homem algum. Por isso é necessário que todo homem filosofe, e tenha isto por a maior e mais honrosa obra; mas as outras coisas apenas de importância secundária ou terciária, embora, na verdade, se forem feitas dependentes da filosofia, sejam de valor moderado e dignas de aceitação; mas, privadas dela e não a acompanhando, são vulgares e grosseiras para aqueles que as seguem.’
« ‘Produz, então, a filosofia a felicidade?’ disse ele, interrompendo.
« ‘Certamente’, disse eu, ‘e ela somente.’
« ‘Que é, então, a filosofia?’ diz ele; ‘e que é a felicidade? Dizei-mo, peço-vos, a menos que algo vos impeça de dizer.’
« ‘A filosofia, então’, disse eu, ‘é o conhecimento daquilo que realmente existe, e uma clara percepção da verdade; e a felicidade é a recompensa de tal conhecimento e sabedoria.’
« ‘Mas a que chamais vós Deus?’ disse ele.
« ‘Aquilo que sempre conserva a mesma natureza, e do mesmo modo, e é a causa de todas as outras coisas — isso, na verdade, é Deus.’ Assim lhe respondi; e ele me escutou com prazer, e assim de novo me interrogou:— « ‘Não é o conhecimento um termo comum a diferentes matérias? Pois em artes de toda a espécie, aquele que conhece alguma delas é chamado perito na arte da estratégia, ou do governo, ou da cura igualmente. Mas nas coisas divinas e humanas não é assim. Há um conhecimento que dá entendimento das coisas humanas e divinas, e depois um profundo conhecimento da divindade e da retidão delas?’
« ‘Certamente’, respondi.
« ‘Que, então? É do mesmo modo que conhecemos o homem e Deus, como conhecemos a música, e a aritmética, e a astronomia, ou qualquer outro ramo semelhante?’
« ‘De modo nenhum’, respondi.
« ‘Não me respondestes corretamente, então’, disse ele; ‘porque alguns [ramos do conhecimento] nos vêm pelo aprendizado, ou por alguma ocupação, enquanto de outros temos conhecimento pela vista. Ora, se alguém vos dissesse que existe na Índia um animal de natureza diferente de todos os outros, mas de tal e tal espécie, multiforme e variado, não o conheceríeis antes de o ver; mas também não seríeis competente para dar qualquer descrição dele, a menos que ouvisse de alguém que o tivesse visto.’
‘Certamente que não’, disse eu.’
‘ ‘Como então’, disse ele, ‘poderiam os filósofos julgar corretamente acerca de Deus, ou dizer alguma verdade, não tendo conhecimento d’Ele, nunca O tendo visto nem ouvido?’
‘ ‘Mas, pai’, disse eu, ‘a Divindade não pode ser vista apenas pelos olhos, como os outros seres vivos, mas é discernível somente pela mente, como diz Platão; e eu creio nele.’»
Capítulo IV.—A alma por si mesma não pode ver a Deus.
«Há então», disse ele, «tal e tão grande poder em nosso espírito? Ou não pode o homem perceber pelas vias sensíveis antes? Verá a mente do homem a Deus em algum tempo, se não for instruída pelo Espírito Santo?»
«Platão decerto diz», respondi eu, «que o olho da mente é de tal natureza, e foi dado para este fim, para que vejamos aquele mesmo Ser quando a mente está pura, quem é a causa de tudo quanto é discernido pela mente, não tendo cor, não tendo forma, não tendo grandeza—nada, por certo, que o olho corporal contempla; mas é algo desta sorte, continua ele a dizer, que está além de toda essência, inefável e inexplicável, mas unicamente honrável e bom, vindo subitamente às almas bem dispostas, por causa da sua afinidade e desejo de vê-Lo.»
«Que afinidade então», replicou ele, «há entre nós e Deus? É a alma também divina e imortal, e parte daquela mesma mente régia? E assim como aquela vê Deus, assim também nos é possível a nós conceber a Divindade em nossa mente, e daqui tornarmo-nos felizes?»
«Seguramente», disse eu.
«E compreendem todas as almas de todos os seres viventes a Deus?» perguntou ele; «ou são as almas dos homens de uma espécie e as almas dos cavalos e dos asnos de outra espécie?»
«Não; mas as almas que estão em todos são semelhantes», respondi.
«Então», diz ele, «verão os cavalos e os asnos, ou viram eles em algum tempo, a Deus?»
«Não», disse eu; «pois a maioria dos homens não verá, senão aqueles que viveram justamente, purificados pela justiça e por toda outra virtude.»
«Não é portanto», disse ele, «por causa da sua afinidade que o homem vê Deus, nem porque tem uma mente, mas porque é temperante e justo?»
«Sim», disse eu; «e porque tem aquilo por meio do qual percebe Deus.»
«Que é então? Danificam os bodes ou as ovelhas a alguém?»
«Ninguém em espécie alguma», disse eu.
«Portanto estes animais verão [a Deus] conforme vossa conta», diz ele.
«Não; pois seu corpo sendo de tal natureza, é um obstáculo para eles.»
Replicou ele: «Se estes animais pudessem assumir a fala, ficai bem certo de que ridicularizariam com maior razão nosso corpo; mas deixemos agora este assunto, e conceda-se a vós como dizeis. Dizei-me, porém, isto: Vê a alma [a Deus] enquanto está no corpo, ou depois que dele foi removida?»
«Enquanto está na forma de um homem», continuei eu, «é-lhe possível atingir a isto por meio da mente; mas especialmente quando foi liberta do corpo, e estando apartada em si mesma, obtém posse daquilo que era costumeiro amar continuamente e totalmente.»
«Recorda-se disto então [da visão de Deus], quando está de novo no homem?»
«Não me parece assim», disse eu.
«Que é então a vantagem para aqueles que viram [a Deus]? Ou que tem aquele que viu mais do que aquele que não viu, a não ser que se recorde deste fato, que viu?»
«Não posso dizer», respondi.
«E que sofrem aqueles que são julgados indignos deste espetáculo?» disse ele.
«São encarcerados nos corpos de certas bestas selvagens, e isto é seu castigo.»
«Sabem eles então que é por esta razão que estão em tais formas, e que cometeram algum pecado?»
«Não creio assim.»
«Então estes não colhem vantagem alguma de seu castigo, conforme parece: mais ainda, eu diria que não são castigados a menos que sejam conscientes do castigo.»
«Não com efeito.»
«Portanto as almas nem veem Deus nem transmigram para outros corpos; pois saberiam que assim são castigadas, e teriam medo de cometer mesmo o pecado mais trivial depois. Mas que podem perceber que Deus existe, e que a justiça e a piedade são honráveis, também disso concordo plenamente convosco», disse ele.
«Tendes razão», respondi eu.
Capítulo V.—A alma não é imortal por sua própria natureza.
“Esses filósofos nada sabem, pois, acerca destas coisas; porque não podem dizer o que é a alma.”
“Assim me não parece.”
“Nem deve ser chamada imortal; porque, se é imortal, é manifestamente ingênita.”
“É ingênita e imortal, segundo alguns que se chamam platónicos.”
“Dizeis vós que o mundo também é ingênito?”
“Alguns o dizem. Eu, porém, não concordo com eles.”
“Bem fazeis; pois que razão há para supor que um corpo tão sólido, possuindo resistência, composto, mutável, corruptível e renovado cada dia, não tenha surgido de alguma causa? Mas, se o mundo é gerado, também as almas são necessariamente geradas; e talvez houve um tempo em que não existiam, porque foram feitas por causa dos homens e de outros seres vivos, se quereis dizer que foram geradas totalmente à parte, e não juntamente com os seus respectivos corpos.”
“Isso parece correcto.”
“Não são, pois, imortais?”
“Não; visto que o mundo nos pareceu ser gerado.”
“Mas não digo, na verdade, que todas as almas morrem; porque isso seria verdadeiramente uma boa fortuna para os maus. Que então? As almas dos piedosos permanecem em lugar melhor, enquanto as dos injustos e ímpios estão em lugar pior, aguardando o tempo do juízo. Assim, algumas que se mostraram dignas de Deus nunca morrem; mas outras são punidas enquanto Deus quiser que existam e sejam punidas.”
“É, então, o que dizeis de natureza semelhante ao que Platão, no Timeu, insinua acerca do mundo, quando diz que ele é, na verdade, sujeito à corrupção, porquanto foi criado, mas que não será dissolvido nem sofrerá a sorte da morte por causa da vontade de Deus? Parece-vos que o mesmo se pode dizer da alma e, geralmente, de todas as coisas? Pois aquelas coisas que existem depois de Deus, ou que em algum tempo existirão, têm a natureza da corrupção e são tais que podem ser apagadas e deixar de existir; porque só Deus é ingênito e incorruptível, e por isso é Deus; mas todas as outras coisas depois d’Ele são criadas e corruptíveis. Por esta razão, as almas tanto morrem como são punidas; visto que, se fossem ingênitas, não pecariam, nem se encheriam de loucura, nem seriam covardes, e outra vez feroces; nem se transformariam voluntariamente em porcos, e serpentes, e cães; e não seria justo, na verdade, obrigá-las, se são ingênitas. Porquanto aquilo que é ingênito é semelhante, igual e idêntico àquilo que é ingênito; e nem em poder nem em honra deveria um ser preferido ao outro; e, portanto, não há muitas coisas que sejam ingênitas; porque, se houvesse alguma diferença entre elas, não descobriríeis a causa da diferença, ainda que a buscásseis; mas, deixando o espírito vaguear sempre até ao infinito, por fim, fatigados, vos firmaríeis num só Ingênito, e diríeis que este é a Causa de tudo. Isto escapou à observação de Platão e de Pitágoras, esses sábios” – disse eu – “que têm sido como um muro e uma fortaleza de filosofia para nós?”
Capítulo VI.—Estas coisas eram desconhecidas de Platão e de outros filósofos.
«Nenhuma importância tem para mim», disse ele, «se Platão ou Pitágoras, ou, em suma, qualquer outro homem tenha sustentado tais opiniões. Porque a verdade é assim; e vós o perceberíeis disto. A alma certamente é ou tem vida. Se, portanto, é vida, causaria algo outro, e não a si mesma, viver; assim como o movimento moveria algo outro que a si mesmo. Ora, que a alma vive, ninguém o negaria. Mas se vive, não vive como sendo vida, mas como participante da vida; mas aquilo que participa de qualquer coisa, é diverso daquilo de que participa. Ora a alma participa da vida, porquanto Deus quer que viva. Assim, pois, nem sequer participará [da vida] quando Deus não quer que viva. Porque viver não é seu atributo, como o é de Deus; mas como o homem não vive sempre, e a alma não está para sempre unida ao corpo, visto que, sempre que esta harmonia deva ser desfeita, a alma deixa o corpo, e o homem já não existe; assim também, sempre que a alma deva cessar de existir, o espírito de vida é removido dela, e já não há alma, mas volta ao lugar de onde foi tomada.»
Capítulo VII.—O conhecimento da verdade deve ser buscado somente nos profetas.
Disse-lhe alguém: Deve-se, pois, procurar um mestre? Donde pode ser ajudado alguém, se nem sequer neles se encontra a verdade? Responde: Existiram, muito antes deste tempo, certos homens mais antigos que todos aqueles que são reputados filósofos, homens justos e amados de Deus, que falaram pelo Espírito divino, e predisseram eventos que aconteceriam, e que agora estão acontecendo. Chamam-se profetas. Estes somente viram e anunciaram a verdade aos homens, nem reverenciando nem temendo pessoa alguma, não influenciados pelo desejo de glória, mas falando somente aquelas coisas que viram e ouviram, cheios do Espírito Santo. Seus escritos ainda existem, e quem os leu é muito ajudado no seu conhecimento do princípio e fim das coisas, e daquelas matérias que o filósofo deve conhecer, contanto que tenha acreditado neles. Pois não usavam demonstração em seus tratados, vendo que eram testemunhas da verdade acima de toda demonstração, e dignos de crédito; e os eventos que aconteceram e que estão acontecendo vos obrigam a consentir nas afirmações feitas por eles, ainda que, deveras, fossem dignos de confiança por causa dos milagres que realizaram, pois glorificaram o Criador, Deus e Pai de todas as coisas, e proclamaram seu Filho, Cristo, enviado por Ele: o que, verdadeiramente, os falsos profetas, cheios do espírito imundo e mentiroso, nem fizeram nem fazem, mas ousam realizar certas obras maravilhosas para assombrar os homens e glorificam os espíritos e demônios do erro. Mas rogai que, sobretudo, vos sejam abertas as portas da luz; pois estas coisas não podem ser percebidas nem compreendidas por todos, mas somente por aquele a quem Deus e seu Cristo comunicaram sabedoria.
Capítulo VIII.—Justino, por seu colóquio, é inflamado de amor por Cristo.
“Quando ele disse estas e muitas outras coisas, que não há tempo para mencionar agora, retirou-se, mandando-me atender a elas; e não o vi mais desde então. Mas logo uma chama se acendeu na minha alma; e um amor dos profetas e daqueles homens que são amigos de Cristo me possuiu; e, revolvendo as suas palavras na minha mente, achei que somente esta filosofia é segura e proveitosa. Assim, e por esta razão, sou filósofo. Além disso, desejaria que todos, fazendo uma resolução semelhante à minha, não se afastassem das palavras do Salvador. Porque elas possuem em si mesmas um terrível poder, e são suficientes para inspirar temor àqueles que se desviam do caminho da rectidão; enquanto o mais doce repouso é concedido àqueles que as praticam diligentemente. Se, pois, tendes alguma preocupação por vós mesmos, e se ansiosamente buscais a salvação, e se acreditais em Deus, podeis – visto que não sois indiferente à matéria – tornar-vos conhecedor do Cristo de Deus e, depois de iniciado, viver uma vida feliz.”
Quando eu disse isto, os meus amados amigos, os que estavam com Trifão, riram-se; mas ele, sorrindo, diz: “Aprovo as vossas outras observações e admiro o ardente zelo com que estudais as coisas divinas; mas seria melhor para vós permanecer ainda na filosofia de Platão, ou de algum outro homem, cultivando a paciência, o domínio próprio e a moderação, do que ser enganado por palavras falsas e seguir as opiniões de homens de má reputação. Porque, se permanecerdes nesse modo de filosofia e viverdes irrepreensivelmente, ainda vos restaria uma esperança de melhor destino; mas, quando abandonastes a Deus e repousastes a confiança no homem, que segurança ainda vos espera? Se, pois, quiserdes ouvir-me (pois já vos considerei amigo), primeiro sede circuncidados; depois observai as ordenanças que foram estabelecidas acerca do sábado, e das festas, e das luas novas de Deus; e, numa palavra, fazei todas as coisas que estão escritas na lei; e então talvez alcanceis misericórdia de Deus. Mas Cristo – se é que Ele nasceu e existe em algum lugar – é desconhecido, e nem sequer se conhece a Si mesmo, e não tem poder até que Elias venha ungi-Lo e manifestá-Lo a todos. E vós, tendo aceitado um relatório infundado, inventais um Cristo para vós mesmos e, por causa d’Ele, estais inconsideradamente a perecer.”
Capítulo IX.—Os cristãos não acreditaram em histórias infundadas.
“Eu vos desculpo e perdoo, meu amigo”, disse eu. “Porque não sabeis o que dizeis, mas fostes persuadido por mestres que não entendem as Escrituras; e falais, como um adivinho, tudo o que vos vem à mente. Mas, se quiserdes ouvir um relato acerca d’Ele, como não fomos enganados e não cessaremos de confessá-Lo – ainda que sobre nós se amontoem os vitupérios dos homens, ainda que o mais terrível tirano nos force a negá-Lo – provar-vos-ei, aqui mesmo, que não acreditámos em fábulas vãs ou palavras sem qualquer fundamento, mas em palavras cheias do Espírito de Deus, e grandes de poder, e florescentes de graça.”
Então, novamente, os que estavam com ele riram-se e gritaram de modo indecoroso. Levantei-me então e ia sair; mas ele, pegando na minha veste, disse que eu não deveria fazer isso até ter cumprido o que prometera. “Não permitais, pois, que os vossos companheiros sejam tão tumultuosos, nem se comportem tão desonrosamente”, disse eu. “Mas, se quiserem, ouçam em silêncio; ou, se alguma ocupação melhor os impedir, que se retirem; enquanto nós, tendo-nos retirado para algum lugar e ali descansando, podemos terminar o discurso.” Pareceu bem a Trifão que assim fizéssemos; e, tendo concordado, retirámo-nos para o espaço central do Xisto. Dois dos seus amigos, depois de terem ridicularizado e zombado do nosso zelo, retiraram-se. E, quando chegámos àquele lugar, onde há assentos de pedra de ambos os lados, os que estavam com Trifão, tendo-se sentado de um lado, conversaram entre si, tendo um deles lançado uma observação acerca da guerra que se travava na Judeia.
Capítulo X.—Trifão censura os cristãos por isto apenas—a inobservância da lei.
E quando cessaram, eu novamente lhes dirigi a palavra deste modo:
"Há porventura alguma outra matéria, meus amigos, pela qual somos censurados, senão esta, que não vivemos conforme a Lei, e não somos circuncidados na carne como eram vossos antepassados, e não observamos os sábados como vós fazeis? Também são nossas vidas e costumes caluniados entre vós? E pergunto isto: cuidastes também a nosso respeito que comemos carne humana; e que, após o festim, extintas as luzes, nos entregamos à concubinagem promíscua? Ou nos condenais tão-somente nisto, que abraçamos tais doutrinas, e cremos numa opinião, falsa segundo pensais?"
"É isto que nos causa espanto," respondeu Trifão, "mas aquelas coisas de que fala a multidão não são dignas de crença; pois são sumamente repugnantes à natureza humana. Além disto, bem sei que vossos preceitos no chamado Evangelho são tão admiráveis e tão grandes, que suspeito ninguém poder observá-los; pois com cuidado os li. Mas isto é aquilo de que mais nos achamos perplexos: que vós, professando-vos piedosos, e julgando-vos superiores aos demais, em nada vos separais deles, e não alterais o vosso modo de viver dos gentios, em que não observais festas nem sábados, e não tendes o rito da circuncisão; e ainda mais, apoiando vossas esperanças num homem que foi crucificado, todavia esperais obter algum bem de Deus, enquanto não obedeceis aos Seus mandamentos. Não lestes que aquela alma será cortada de seu povo a qual não tiver sido circuncidada no oitavo dia? E isto foi ordenado igualmente para os estrangeiros e para os escravos. Mas vós, desprezando esta aliança temerariamente, rejeitais os deveres que dela decorrem, e tentais persuadir-vos a vós mesmos de que conheceis a Deus, quando, todavia, nenhuma daquelas coisas praticais que praticam os que temem a Deus. Se, portanto, podeis vos defender nestes pontos, e manifestar de que modo esperais alguma coisa, ainda que não observeis a Lei, isto muito de bom grado ouviríamos de vós, e faremos outras investigações semelhantes."
Capítulo XI.—A lei revogada; o Novo Testamento prometido e dado por Deus.
“Não haverá outro Deus, ó Trifão, nem desde a eternidade houve qualquer outro existente” (assim lhe falei), “senão Aquele que fez e dispôs todo este universo. Nem pensamos que há um Deus para nós e outro para vós, mas que só Ele é Deus, que tirou vossos pais do Egito com mão forte e braço estendido. Nem confiámos em nenhum outro (pois não há outro), senão n’Aquele em quem também vós confiastes, o Deus de Abraão, e de Isaac, e de Jacob. Mas não confiamos por meio de Moisés ou por meio da lei; pois então faríamos o mesmo que vós. Mas agora – (porque li que haverá uma lei final e uma aliança, a principal de todas, a qual agora é necessário que todos os homens observem, tantos quantos buscam a herança de Deus. Porque a lei promulgada em Horebe é agora velha e pertence somente a vós; mas esta é para todos universalmente. Ora, lei posta contra lei ab-rogou a que a precede; e uma aliança que vem depois, de igual modo, pôs fim à anterior; e uma lei eterna e final – a saber, Cristo – nos foi dada, e a aliança é fiel, depois da qual não haverá lei, nem mandamento, nem ordenança. Não lestes o que Isaías diz: “Ouvi-Me, ouvi-Me, povo Meu; e vós, reis, dai ouvidos a Mim: porque uma lei sairá de Mim, e o Meu juízo será para luz dos gentios. A Minha justiça se aproxima rapidamente, e a Minha salvação sairá, e as nações confiarão no Meu braço”? E por Jeremias, acerca desta mesma nova aliança, assim fala: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá; não segundo a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito”.) Se, portanto, Deus proclamou uma nova aliança que haveria de ser instituída, e isto para luz dos gentios, vemos e estamos persuadidos de que os homens se aproximam de Deus, deixando os seus ídolos e outras injustiças, pelo nome d’Aquele que foi crucificado, Jesus Cristo, e permanecem na sua confissão até à morte, e mantêm a piedade. Além disso, pelas obras e pelos milagres que as acompanham, é possível a todos entender que Ele é a nova lei e a nova aliança, e a expectativa daqueles que, de todos os povos, esperam os bens de Deus. Porque o verdadeiro Israel espiritual, e os descendentes de Judá, Jacó, Isaac e Abraão (que, na incircuncisão, foi aprovado e abençoado por Deus por causa da sua fé, e chamado pai de muitas nações), somos nós, que fomos conduzidos a Deus por meio deste Cristo crucificado, como será demonstrado enquanto prosseguirmos.
Capítulo XII.—Os judeus violam a lei eterna e interpretam mal a de Moisés.
Aduzi ainda outra passagem em que Isaías exclama: «Ouvi as Minhas palavras, e a vossa alma viverá; e farei convosco uma aliança eterna, as misericórdias firmes de Davi. Povos que Te não conhecem invocarão a Ti; gentes que Te não conhecem fugirão para Ti, por causa do teu Deus, o Santo de Israel; porque Ele Te glorificou.» Esta mesma lei desprezastes, e a Sua nova e santa aliança desprezastes; e agora nem a recebeis, nem vos arrependeis das vossas más obras. «Porque os vossos ouvidos estão fechados, os vossos olhos estão cegados, e o coração está endurecido», clamou Jeremias; e contudo nem então ouvis. O Legislador está presente, e não O vedes; aos pobres é pregado o Evangelho, os cegos veem, e vós não entendeis. Tendes agora necessidade de uma segunda circuncisão, embora vos glorieis grandemente na carne. A nova lei exige que guardeis perpétuo sábado, e vós, porque estais ociosos por um dia, supondes ser piedosos, não discernindo por que isto vos foi mandado; e se comeis pães ázimos, dizeis que a vontade de Deus foi cumprida. O Senhor nosso Deus não Se compraz em tais observâncias; se há entre vós algum perjuro ou ladrão, cesse de o ser; se algum adúltero, arrependa-se; então terá guardado os doces e verdadeiros sábados de Deus. Se alguém tem mãos impuras, lave-se e fique puro.
Capítulo XIII.—Isaías ensina que os pecados são perdoados pelo sangue de Cristo.
Porquanto Isaías não vos enviou a um banho, para aí lavar o homicídio e os outros pecados, os quais nem toda a água do mar bastaria para purificar; mas, como era de esperar, este era aquele banho salvífico do antigo tempo, que seguia os que se arrependiam, e que já não eram purificados pelo sangue de bodes e de carneiros, nem pela cinza duma novilha, nem pelas oferendas de flor de farinha, mas pela fé por meio do sangue de Cristo, e por meio da sua morte, que por isso mesmo morreu, como o mesmo Isaías disse, falando assim: «O Senhor descobrirá o seu santo braço aos olhos de todas as nações, e todas as nações e as extremidades da terra verão a salvação de Deus. Retirai-vos, retirai-vos, retirai-vos, saí daí, e não toqueis coisa imunda; saí do meio dela, purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor, porque não saireis com pressa. Porque o Senhor irá diante de vós; e o Senhor, o Deus de Israel, vos reunirá. Eis que o meu servo prosperará; e será exaltado e glorificado grandemente. Como pasmaram muitos de ti, assim a tua forma e a tua glória serão desfiguradas mais do que os homens. Assim muitas nações pasmarão dele, e os reis fecharão a sua boca; porque aquilo que não lhes foi anunciado acerca dele verão, e aquilo que nunca ouviram considerarão. Senhor, quem creu na nossa pregação? e a quem se manifestou o braço do Senhor? Anunciamo-lo como um renovo diante dele, como uma raiz em terra seca. Não tem forma nem formosura; e, quando o vimos, não tinha forma nem beleza; mas a sua forma é desonrada, e desfalece mais do que os filhos dos homens. É um homem de aflição, e experimentado em sofrer enfermidades, porque o seu rosto foi desviado; foi desprezado, e não fizemos caso dele. Ele leva os nossos pecados, e está angustiado por nós; e nós o reputamos como estando em trabalho e em aflição, e em mau tratamento. Mas foi ferido pelas nossas transgressões, foi moído pelas nossas iniquidades; o castigo da nossa paz estava sobre ele. Pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós, como ovelhas, andámos desgarrados. Cada um se desviou para o seu caminho; e o Senhor fez cair sobre ele as nossas iniquidades, e por causa da sua opressão não abre a sua boca. Foi levado como a ovelha ao matadouro; e como o cordeiro está mudo diante do seu tosquiador, assim não abre a sua boca. Na sua humilhação o seu juízo foi tirado. E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra. Pelas transgressões do meu povo veio até à morte. E eu porei os ímpios pela sua sepultura, e os ricos pela sua morte, porque não cometeu iniquidade, nem se achou engano na sua boca. E o Senhor quer purificá-lo da aflição. Se tiver sido entregue pelo pecado, a tua alma verá uma posteridade de longos dias. E o Senhor quer tirar a sua alma do trabalho, mostrar-lhe a luz, e formá-lo no entendimento, para justificar o Justo que bem serve a muitos. E ele levará os nossos pecados; portanto herdará muitos, e repartirá o despojo dos fortes, porque a sua alma foi entregue à morte; e foi contado com os transgressores, e levou os pecados de muitos, e foi entregue pela transgressão deles. Canta, ó estéril, que não dás à luz; rompe e clama em voz alta, tu que não tens dores de parto; porque mais são os filhos da desolada do que os filhos da casada. Porque o Senhor disse: Alarga o lugar da tua tenda e das tuas cortinas; fixa-as, não impeças, alonga as tuas cordas, e fortalece as tuas estacas; estende-te para a tua direita e para a tua esquerda; e a tua posteridade herdará os gentios, e farás com que as cidades desertas sejam herdadas. Não temas porque estás envergonhada, nem te confundas porque foste ultrajada; porque te esquecerás da vergonha eterna, e não te lembrarás do opróbrio da tua viuvez, porque o Senhor fez para si um nome, e aquele que te redimiu será chamado por toda a terra o Deus de Israel. O Senhor te chamou como a mulher desamparada e aflita de espírito, como a mulher odiada desde a sua mocidade.»
Capítulo XVI.—A circuncisão dada como sinal, para que os judeus fossem afastados por suas más ações feitas a Cristo e aos cristãos.
“E o próprio Deus proclamou por meio de Moisés, falando assim: ‘Circuncidai a dureza do vosso coração, e não mais endureçais a cerviz. Porque o Senhor vosso Deus é o Senhor dos senhores, Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas.’ E em Levítico: ‘Porque transgrediram contra Mim, e Me desprezaram, e porque andaram contrariamente a Mim, também Eu andei contrariamente a eles, e os exterminarei na terra dos seus inimigos. Então o seu coração incircunciso se converterá. Porque a circuncisão segundo a carne, que vem de Abraão, foi dada por sinal; para que sejais separados das outras nações, e de nós; e para que vós somente sofrais o que agora justamente sofreis; e para que a vossa terra seja desolada, e as vossas cidades queimadas a fogo; e para que estranhos comam o vosso fruto na vossa presença, e nenhum de vós suba a Jerusalém.’ Porque não sois reconhecidos entre os demais homens por nenhuma outra marca senão pela vossa circuncisão carnal. Pois nenhum de vós, suponho, ousará dizer que Deus não previu nem prevê os eventos futuros, nem predestinou os merecimentos a cada um. Portanto, estas coisas vos sucederam com equidade e justiça, porque matastes o Justo, e os Seus profetas antes d’Ele; e agora rejeitais os que n’Ele esperam, e n’Aquele que O enviou — Deus Todo-Poderoso e Criador de todas as coisas —, amaldiçoando nas vossas sinagogas os que creem em Cristo. Porque não tendes poder para lançar mão de nós, por causa daqueles que agora dominam. Mas, sempre que pudestes, o fizestes. Pelo que Deus, por Isaías, vos chama, dizendo: ‘Eis como o justo perece, e ninguém o considera. Pois o justo é arrebatado diante da iniquidade. A sua sepultura estará em paz; ele é tirado do meio. Aproximai-vos, vós, filhos sem lei, descendência de adúlteros, e filhos da prostituta. Contra quem vos divertistes, e contra quem abristes a boca, e contra quem soltastes a língua?’”
Capítulo XVII.—Os judeus enviaram pessoas por toda a terra para espalhar calúnias contra os cristãos.
Porquanto as outras nações não nos têm infligido a nós e a Cristo este mal em tal medida como vós, que de verdade sois os autores do ímpio preconceito contra o Justo e contra nós, os que por Ele nos achegamos. Porque depois que crucificastes a Ele, o único Homem inocente e justo — por cujas chagas são sarados os que por Ele se achegam ao Pai —, quando soubestes que Ele ressuscitara dos mortos e subira ao céu, como os profetas predisseram que faria, não só não vos arrependestes da iniquidade que havíeis cometido, mas naquele tempo escolhestes e enviastes de Jerusalém homens escolhidos por toda a terra para contar que a ímpia heresia dos cristãos havia surgido, e para publicar aquelas coisas que todos os que não nos conhecem dizem contra nós. De modo que sois a causa não somente da vossa própria iniquidade, mas também, na verdade, da de todos os outros homens. E Isaías clama justamente: «Por causa de vós, o Meu nome é blasfemado entre os gentios.» E: «Ai da sua alma! porque contra si mesmos maquinaram um mau desígnio, dizendo: Atemos o justo, porque nos é desagradável. Portanto, comerão do fruto das suas obras. Ai do ímpio! o mal lhe será retribuído segundo as obras das suas mãos.» E ainda, em outras palavras: «Ai daqueles que arrastam a sua iniquidade como com uma corda comprida, e as suas transgressões como com o arreio do jugo de uma novilha; que dizem: Aproxime-se a sua pressa; e venha o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos. Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que põem as trevas por luz, e a luz por trevas; que põem o amargo por doce, e o doce por amargo!» Por conseguinte, mostrastes grande zelo em publicar por toda a terra coisas amargas, tenebrosas e injustas contra a única Luz inocente e justa enviada por Deus. Porque Ele vos foi desagradável quando clamou no meio de vós: «Está escrito: A Minha casa é casa de oração; mas vós a fizestes covil de ladrões!» Derrubou também as mesas dos cambistas no templo, e exclamou: «Ai de vós, Escribas e Fariseus, hipócritas! porque pagais o dízimo da hortelã e da arruda, e não observais o amor de Deus e a justiça. Sepulcros caiados! que por fora pareceis belos, mas por dentro estais cheios de ossos de mortos.» E aos Escribas: «Ai de vós, Escribas! porque possuís as chaves, e não entrais vós mesmos, e impedis os que entram; guias cegos!»
Capítulo XVIII.—Os cristãos observariam a lei, se não soubessem por que foi instituída.
Porque, sendo que vós lestes, ó Trifão, como vós mesmos confessastes, as doutrinas ensinadas por nosso Salvador, não me pareço haver agido temerariamente em acrescentar alguns breves ditos Seus aos enunciados proféticos. Lavai-vos portanto, e sonde agora limpos, e afastai a iniquidade de vossas almas, como Deus vos manda serdes lavados nesta pia, e circuncidai-vos com a verdadeira circuncisão. Porque nós também observaríamos a circuncisão carnal, e os Sábados, e em suma todas as festividades, se não soubéssemos por que razão vos foram mandadas,—a saber, por causa de vossas transgressões e da dureza de vossos corações. Porque se pacientemente suportamos todas as coisas maquinadas contra nós pelos homens perversos e pelos demônios, de modo que ainda em meio a crueldades inefáveis, morte e tormentos, oramos por misericórdia àqueles que tais coisas nos infligem, e não desejamos retribuir o mínimo a ninguém, assim como o novo Legislador nos mandou: como é, Trifão, que não observaríamos aqueles ritos que não nos prejudicam,—falo da circuncisão carnal, e dos Sábados, e das festividades?
Capítulo XIX.—A circuncisão era desconhecida antes de Abraão. A lei foi dada por Moisés por causa da dureza dos seus corações.
"É disto que estamos perplexos, e com razão, porque, enquanto suportais tais coisas, não observais todos os outros costumes que agora discutimos."
"Esta circuncisão, porém, não é necessária para todos os homens, mas somente para vós, a fim de que, como já disse, sofrais estas coisas que agora justamente sofreis. Nem recebemos aquele batismo inútil de cisternas, pois nada tem a ver com este batismo de vida. Por isso também Deus anunciou que vós O abandonastes, a fonte viva, e cavastes para vós cisternas rotas que não podem reter água. Vós, que sois circuncidados segundo a carne, tendes necessidade da nossa circuncisão; mas nós, tendo esta, não necessitamos daquela. Porque, se fosse necessária, como vós supondes, Deus não teria feito Adão incircunciso; não teria olhado para as ofertas de Abel quando, sendo incircunciso, ofereceu sacrifício, e não se teria agradado da incircuncisão de Enoque, que não foi encontrado, porque Deus o trasladou. Ló, sendo incircunciso, foi salvo de Sodoma, enviando-o os próprios anjos e o Senhor. Noé foi o princípio da nossa raça; contudo, incircunciso, entrou com seus filhos na arca. Melquisedeque, sacerdote do Altíssimo, era incircunciso; a quem também Abraão, o primeiro que recebeu a circuncisão segundo a carne, deu o dízimo, e ele o abençoou; segundo cuja ordem Deus declarou, por boca de Davi, que estabeleceria o sacerdote eterno. Portanto, a vós somente foi necessária esta circuncisão, para que o povo não seja povo, e a nação não seja nação; como também declara Oseias, um dos doze profetas. Além disso, todos aqueles homens justos já mencionados, embora não guardassem sábados, agradavam a Deus; e depois deles, Abraão com todos os seus descendentes até Moisés, sob o qual a vossa nação apareceu injusta e ingrata para com Deus, fazendo um bezerro no deserto; por isso Deus, acomodando-Se a essa nação, ordenou-lhes também que oferecessem sacrifícios, como ao Seu nome, para que não servísseis a ídolos. Ordenança esta, porém, que não observastes; antes, sacrificastes vossos filhos aos demônios. E fostes mandados a guardar sábados, para que retivésseis a memória de Deus. Porque a Sua palavra assim o anuncia, dizendo: 'Para que saibais que Eu sou Deus, que vos redimo.'"
Capítulo XX.—Por que foi prescrita a escolha dos alimentos.
"Além disso, fostes mandados a abster-vos de certas espécies de alimentos, a fim de que tivésseis Deus diante dos olhos enquanto comíeis e bebíeis, visto que éreis inclinados e muito prontos a apartar-vos do Seu conhecimento, como também Moisés afirma: 'O povo comeu e bebeu, e levantou-se para folgar.' E ainda: 'Jacob comeu, e fartou-se, e engordou; e o amado refugou; engordou, engrossou, dilatou-se, e deixou a Deus que o fizera.' Porque vos foi dito por Moisés no livro do Gênesis, que Deus concedeu a Noé, sendo homem justo, que comesse de todo animal, mas não da carne com o sangue, que é a vida." E, como ele estivesse prestes a dizer: "como as ervas verdes", eu o antecipei: "Por que não recebeis esta declaração, 'como as ervas verdes', no sentido em que foi dada por Deus, a saber, que assim como Deus concedeu as ervas para sustento do homem, assim também deu os animais para a dieta da carne? Mas, dizeis, uma distinção foi imposta depois a Noé, porque não comemos certas ervas. Como vós interpretais, a coisa é incrível. E primeiro não me ocuparei disto, embora possa dizer e sustentar que toda erva é alimento e própria para ser comida. Mas, embora discriminemos entre as ervas verdes, não comendo todas, abstemo-nos de comer algumas, não porque sejam comuns ou imundas, mas porque são amargas, ou mortais, ou espinhosas. Mas lançamos mão e tomamos de todas as ervas que são doces, muito nutritivas e boas, quer sejam plantas marinhas ou terrestres. Assim também Deus, pela boca de Moisés, vos mandou abster-vos de animais imundos, impróprios e violentos; quando, além disso, embora comêsseis maná no deserto e vísseis todos aqueles atos maravilhosos operados por Deus a vosso favor, fizestes e adorastes o bezerro de ouro. Por isso clama continuamente, e com justiça: 'São filhos insensatos, em quem não há fé.'"