Padres e clássicosSão Justino Mártir, Escritos de São Justino Mártir, VIII, 5

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Obra patrística

Escritos de São Justino Mártir

São Justino Mártir · c. 100–165

VIII, 5–IX, 18

Capítulo V.—A ressurreição da carne não é impossível.

Mas, novamente, daqueles que sustentam que a carne não tem ressurreição, alguns afirmam que é impossível; outros que, considerando quão vil e desprezível é a carne, não é digno que Deus a ressuscite; e outros, que ela não recebeu a promessa desde o princípio. Primeiro, pois, quanto àqueles que dizem que é impossível a Deus ressuscitá-la, parece-me que devo mostrar que são ignorantes, professando embora de palavra que são crentes, mas por suas obras mostrando-se incrédulos, ainda mais incrédulos do que os incrédulos. Pois, vendo que todos os gentios creem nos seus ídolos, e estão persuadidos de que a eles todas as coisas são possíveis (como até o seu poeta Homero diz: “Os deuses podem todas as coisas, e isso facilmente”; e acrescentou a palavra “facilmente” para evidenciar a grandeza do poder dos deuses), muitos parecem ser mais incrédulos do que eles. Porque, se os gentios creem nos seus deuses, que são ídolos (“que têm ouvidos e não ouvem; têm olhos e não veem”), que podem todas as coisas, ainda que sejam demônios, como diz a Escritura: “Os deuses das nações são demônios”, muito mais nós, que professamos a fé reta, excelente e verdadeira, devemos crer no nosso Deus, visto que também temos provas [do Seu poder], primeiro na criação do primeiro homem, pois foi feito da terra por Deus; e isto é suficiente evidência do poder de Deus; e então os que observam as coisas podem ver como os homens são gerados uns pelos outros, e podem admirar-se ainda mais que de uma pequena gota de umidade tão grande criatura vivente seja formada. E certamente, se isto fosse apenas registrado numa promessa, e não visto cumprido, também isto seria muito mais incrível do que aquilo; mas torna-se mais crível pelo cumprimento. Mas mesmo no caso da ressurreição, o Salvador nos mostrou cumprimentos, dos quais falaremos em breve. Agora, porém, demonstramos que é possível a ressurreição da carne, pedindo perdão aos filhos da Igreja se aduzimos argumentos que parecem seculares e físicos: primeiro, porque para Deus nada é secular, nem mesmo o mundo, pois é obra Sua; e segundo, porque conduzimos nosso argumento de modo a enfrentar os incrédulos. Pois, se argumentássemos com crentes, bastaria dizer que cremos; mas agora devemos proceder por demonstrações. As provas anteriores são de fato bastante suficientes para evidenciar a possibilidade da ressurreição da carne; mas, visto que estes homens são excessivamente incrédulos, aduziremos ainda um argumento mais convincente — um argumento tirado não da fé, pois eles estão fora do seu âmbito, mas da sua própria mãe, a incredulidade — quero dizer, naturalmente, das razões físicas. Porque, se por tais argumentos lhes provarmos que a ressurreição da carne é possível, certamente são dignos de grande desprezo se não podem ser persuadidos nem pelos testemunhos da fé nem pelos argumentos do mundo.

Capítulo VI.—A ressurreição consistente com as opiniões dos filósofos.

Aqueles, pois, que são chamados filósofos naturais, dizem, alguns deles, como Platão, que o universo é matéria e Deus; outros, como Epicuro, que são átomos e o vazio; outros, como os Estoicos, que são estes quatro — fogo, água, ar, terra. Pois basta mencionar as opiniões mais prevalecentes. E Platão diz que todas as coisas são feitas da matéria por Deus, e segundo o Seu desígnio; mas Epicuro e seus seguidores dizem que todas as coisas são feitas do átomo e do vazio por uma espécie de ação autorreguladora do movimento natural dos corpos; e os Estoicos, que todas são feitas dos quatro elementos, Deus os penetrando. Ora, havendo tal discrepância entre eles, há algumas doutrinas reconhecidas por todos em comum, uma das quais é que nem pode algo ser produzido do que não está em ser, nem pode algo ser destruído ou dissolvido no que não tem nenhum ser, e que os elementos existem indestrutíveis, dos quais todas as coisas são geradas. E sendo isto assim, a regeneração da carne parecerá possível segundo todos esses filósofos. Pois, se, segundo Platão, são matéria e Deus, ambos são indestrutíveis e Deus; e Deus ocupa na verdade a posição de um artífice, a saber, um oleiro; e a matéria ocupa o lugar de barro ou cera, ou algo semelhante. Aquilo, pois, que é formado da matéria, seja uma imagem ou uma estátua, é destrutível; mas a matéria em si é indestrutível, como barro ou cera, ou qualquer outra espécie de matéria. Assim, o artista modela no barro ou na cera e faz a forma de um animal vivo; e, novamente, se a sua obra for destruída, não lhe é impossível fazer a mesma forma, trabalhando o mesmo material e moldando-o de novo. De modo que, segundo Platão, nem será impossível a Deus, que é Ele próprio indestrutível e tem também material indestrutível, mesmo depois que aquilo que foi primeiramente formado dele foi destruído, refazê-lo de novo e fazer a mesma forma exatamente como era antes. Mas, segundo os Estoicos, o corpo sendo produzido pela mistura das quatro substâncias elementares, quando este corpo é dissolvido nos quatro elementos, permanecendo estes indestrutíveis, é possível que recebam segunda vez a mesma fusão e composição, por meio de Deus que os penetra, e assim refaçam o corpo que outrora fizeram. Como se um homem fizer uma composição de ouro e prata, e bronze e estanho, e depois quiser dissolvê-la novamente, de modo que cada elemento exista separadamente, tendo-os misturado outra vez, poderá, se quiser, fazer a mesma composição que outrora fizera. Novamente, segundo Epicuro, os átomos e o vazio sendo indestrutíveis, é por uma disposição e ajuste definidos dos átomos ao se juntarem que se produzem tanto todas as outras formações como o próprio corpo; e, sendo com o tempo dissolvido, é dissolvido novamente naqueles átomos dos quais também foi produzido. E como estes permanecem indestrutíveis, não é de todo impossível que, juntando-se novamente e recebendo a mesma disposição e posição, façam um corpo de natureza semelhante ao que outrora foi produzido por eles; como se um joalheiro fizesse em mosaico a forma de um animal, e as pedras fossem dispersadas pelo tempo ou pelo próprio homem que as fez, tendo ele ainda em sua posse as pedras dispersas, pode reuni-las novamente e, tendo-as reunido, dispô-las do mesmo modo e fazer a mesma forma de animal. E não poderá Deus recolher novamente os membros decompostos da carne e fazer o mesmo corpo que outrora foi por Ele produzido?

Capítulo VII.—O corpo é precioso aos olhos de Deus.

Mas a prova da possibilidade da ressurreição da carne demonstrei suficientemente, em resposta aos homens do mundo. E se a ressurreição da carne não se acha impossível até mesmo segundo os princípios dos incrédulos, quanto mais se achará conforme à mente dos crentes! Mas, seguindo a nossa ordem, devemos agora falar com respeito àqueles que pensam mal da carne e dizem que ela não é digna da ressurreição nem da economia celestial, porque, primeiro, a sua substância é terra; e além disso, porque está cheia de toda a maldade, de modo que obriga a alma a pecar juntamente com ela. Mas estas pessoas parecem ignorar toda a obra de Deus, tanto a gênese e formação do homem no princípio, como por que as coisas no mundo foram feitas. Pois não diz a palavra: “Façamos o homem à Nossa imagem e conforme a Nossa semelhança?” Que homem? Manifestamente, o homem carnal. Pois a palavra diz: “E Deus tomou o pó da terra e fez o homem.” É evidente, portanto, que o homem feito à imagem de Deus era de carne. Não é, pois, absurdo dizer que a carne, feita por Deus à Sua própria imagem, é desprezível e de nenhum valor? Mas que a carne é para Deus uma possessão preciosa é manifesto, primeiro, por ser formada por Ele, se ao menos a imagem é valiosa para o formador e artífice; e além disso, o seu valor pode ser coligido da criação do resto do mundo. Pois aquilo por causa do qual o resto é feito é o mais precioso de tudo para o fazedor.

Capítulo VIII.—O corpo faz a alma pecar?

Muito verdadeiro, dizem eles; contudo, a carne é pecadora, tanto que obriga a alma a pecar juntamente com ela. E assim vãmente a acusam e lançam sobre ela sozinha os pecados de ambos. Mas em que instância pode a carne pecar por si mesma, se não tiver a alma precedendo-a e incitando-a? Pois como no caso de uma junta de bois, se um ou outro for solto do jugo, nenhum deles pode arar sozinho; assim nem a alma nem o corpo podem efetuar nada sozinhos, se forem soltos da sua comunhão. E se é a carne que é a pecadora, então por causa dela somente veio o Salvador, como diz: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência.” Visto, pois, que a carne foi provada ser valiosa aos olhos de Deus e gloriosa acima de todas as Suas obras, mui justamente seria por Ele salva.

Devemos enfrentar, portanto, aqueles que dizem que, ainda que seja a especial obra de Deus e acima de tudo mais valorizada por Ele, não se seguiria imediatamente que ela tenha a promessa da ressurreição. Contudo, não é absurdo que aquilo que foi produzido com tais circunstâncias e que é acima de tudo mais valioso seja tão negligenciado pelo seu Criador, a ponto de passar à não-entidade? Então, o escultor e o pintor, se desejam que as obras que fizeram perdurem, para obterem glória por elas, renovam-nas quando começam a deteriorar-se; mas Deus negligenciaria tanto a Sua própria possessão e obra, que ela se aniquilasse e não mais existisse? Não deveríamos chamar a isto trabalho em vão? Como se um homem que construiu uma casa a destruísse imediatamente, ou a negligenciasse, embora a veja cair em ruínas e seja capaz de repará-la: culpá-lo-íamos por trabalhar em vão; e não culparíamos assim a Deus? Mas não é tal o Incorruptível — não é insensata a Inteligência do universo. Calem-se os incrédulos, ainda que eles mesmos não creiam.

Mas, na verdade, Ele até chamou a carne à ressurreição e promete-lhe a vida eterna. Pois onde promete salvar o homem, aí dá a promessa à carne. Porque, que é o homem senão o animal racional composto de corpo e alma? A alma por si só é o homem? Não; mas a alma do homem. Seria o corpo chamado homem? Não, mas é chamado corpo do homem. Se, pois, nenhum destes é por si só homem, mas aquilo que é feito da união de ambos é chamado homem, e Deus chamou o homem à vida e ressurreição, chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo. Porque não seria incontestavelmente absurdo, se, estando estes dois no mesmo ser e segundo a mesma lei, um fosse salvo e o outro não? E se não é impossível, como já se provou, que a carne seja regenerada, qual é a distinção com base na qual a alma é salva e o corpo não? Fazem de Deus um Deus mesquinho? Mas Ele é bom e deseja que todos sejam salvos. E por Deus e pela Sua proclamação, não só a vossa alma ouviu e creu em Jesus Cristo, e com ela a carne, mas ambos foram lavados, e ambos praticaram a justiça. Fazem, pois, a Deus ingrato e injusto, se, crendo ambos nEle, deseja salvar um e não o outro. Ora, dizem eles, mas a alma é incorruptível, sendo uma parte de Deus e inspirada por Ele, e por isso Ele deseja salvar o que é peculiarmente Seu e aparentado a Si mesmo; mas a carne é corruptível e não dEle, como a alma é. Então, que graças Lhe são devidas, e que manifestação do Seu poder e bondade é esta, se Ele propôs salvar o que por natureza é salvo e existe como uma parte de Si mesmo? Pois tinha a sua salvação de si mesma; de modo que, ao salvar a alma, Deus não faz grande coisa. Porque ser salvo é o seu destino natural, visto que é uma parte de Si mesmo, sendo a Sua inspiração. Mas não se devem graças a quem salva o que é seu; pois isto é salvar-se a si mesmo. Porque quem salva uma parte de si mesmo, salva-se a si mesmo por seus próprios meios, para não se tornar defeituoso nessa parte; e isto não é ato de um homem bom. Porque nem mesmo quando um homem faz o bem a seus filhos e descendência, alguém o chama de homem bom; pois até as mais selvagens das feras fazem o mesmo, e na verdade sofrem a morte de boa vontade, se necessário, por causa de seus filhotes. Mas se um homem realizasse os mesmos atos em favor de seus servos, esse homem seria justamente chamado bom. Por isso o Salvador também nos ensinou a amar os nossos inimigos, pois, diz Ele: “que graça tereis?” De modo que nos mostrou que é boa obra não só amar os que são gerados por Ele, mas também os que estão de fora. E o que nos ordena, Ele mesmo o faz em primeiro lugar.

II.

Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor desta idade? Não fez Deus louca a sabedoria do mundo? Porque, visto como o mundo, pela sua sabedoria, não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar aos crentes pela loucura da pregação. Porque os Judeus pedem sinais, e os Gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os Judeus, e loucura para os Gregos; mas para os que são chamados, assim Judeus como Gregos, pregamos a Cristo, virtude de Deus, e sabedoria de Deus.

III.

Bem disse Justino: Antes do advento do Senhor, Satanás jamais ousou blasfemar contra Deus, porquanto não estava ainda certo de sua própria condenação, visto que isso fora anunciado a seu respeito pelos profetas somente em parábolas e alegorias. Mas, depois do advento do Senhor, aprendendo claramente pelos discursos de Cristo e de seus apóstolos que o fogo eterno fora preparado para aquele que voluntariamente se apartou de Deus, e para todos os que, sem arrependimento, perseveram na apostasia, então, por meio de um homem dessa sorte, ele, como já condenado, blasfema contra aquele Deus que lhe inflige o juízo, e imputa o pecado de sua apostasia ao seu Criador, em vez de à sua própria vontade e predileção. — Irineu: Heresias, v. 26.

IV.

Expondo a razão da incessante maquinação do diabo contra nós, declara: Antes do advento do Senhor, o diabo não conhecia tão claramente a medida do seu próprio castigo, porquanto os divinos profetas o haviam anunciado apenas enigmaticamente; como, por exemplo, Isaías, que na pessoa do Assírio tragicamente revelou o procedimento a ser seguido contra o diabo. Mas quando o Senhor apareceu, e o diabo entendeu claramente que o fogo eterno estava reservado e preparado para ele e para os seus anjos, então começou a maquinar sem cessar contra os fiéis, desejando ter muitos companheiros na sua apostasia, a fim de não suportar sozinho a vergonha da condenação, consolando-se com esta fria e maliciosa consolação. — Dos escritos de João de Antioquia.

V.

E Justino de Neápolis, homem que não se afastou muito dos apóstolos nem em idade nem em excelência, diz que aquilo que é mortal é herdado, mas aquilo que é imortal herda; e que a carne, na verdade, morre, mas o reino dos céus vive. — Do livro de Metódio Sobre a Ressurreição, em Fócio.

VI.

Nem há estreiteza alguma em Deus, nem coisa alguma que não seja absolutamente perfeita.

VII.

Não injuriaremos a Deus permanecendo ignorantes Dele, mas nos privaremos de Sua amizade.

VIII.

A falta de habilidade do mestre prova-se destrutiva para seus discípulos, e a negligência dos discípulos acarreta perigo ao mestre, e especialmente quando lhe devem tal negligência à sua falta de conhecimento.

IX.

A alma pode com dificuldade ser chamada de volta àqueles bens dos quais caiu, e com dificuldade é arrancada daqueles males aos quais se acostumou. Se alguma vez mostrares disposição de culpar-te, então talvez, pelo remédio da penitência, eu alimente boas esperanças a teu respeito. Mas quando desprezas inteiramente o temor e rejeitas com escárnio a própria fé de Cristo, melhor te fora nunca haveres nascido do ventre.—Dos escritos de João Damasceno.

X.

Pelos dois pássaros é denotado Cristo, morto como homem, e vivo como Deus. É comparado a um pássaro, porque é entendido e declarado ser do alto e do céu. E o pássaro vivo, tendo sido mergulhado no sangue do morto, foi depois solto. Porque o Verbo vivo e divino estava no crucificado e morto templo [do corpo], como sendo participante da paixão, e contudo impassível para com Deus.

Por aquilo que sucedeu na água corrente, na qual foram mergulhados a madeira, o hissopo e a escarlata, é figurada a paixão sanguinolenta de Cristo na cruz para a salvação daqueles que são aspergidos com o Espírito, a água e o sangue. Por isso, a matéria para a purificação não foi provida principalmente com referência à lepra, mas com respeito à remissão dos pecados, para que tanto a lepra fosse entendida como emblema do pecado, como as coisas sacrificadas como emblema d'Aquele que havia de ser sacrificado pelos pecados.

Por esta razão, consequentemente, ordenou que a escarlata fosse mergulhada ao mesmo tempo na água, predizendo assim que a carne já não possuiria as suas propriedades naturais [más]. Por esta razão, também, houve os dois pássaros, um sendo sacrificado na água, e o outro mergulhado tanto no sangue como na água e depois enviado, assim como também se narra acerca dos bodes.

O bode que foi enviado apresentava um tipo d'Aquele que tira os pecados dos homens. Mas os dois continham uma representação da única economia de Deus encarnado. Porque Ele foi ferido pelas nossas transgressões, e Ele carregou os pecados de muitos, e foi entregue pelas nossas iniquidades.

XI.

Quando Deus formou o homem no princípio, suspendeu as coisas da natureza na sua vontade e fez uma experiência por meio de um só mandamento. Pois ordenou que, se este guardasse, participaria da existência imortal; mas se o transgredisse, o contrário seria a sua sorte. Tendo sido assim feito o homem, e logo olhando para a transgressão, tornou-se naturalmente sujeito à corrupção. Tornando-se então a corrupção inerente à natureza, necessário era que Aquele que desejava salvar fosse quem destruísse a causa eficiente da corrupção. E isto não podia fazer-se de outro modo senão pela vida que é segundo a natureza ser unida àquilo que recebera a corrupção, e assim destruir a corrupção, ao mesmo tempo que preservava como imortal para o futuro aquilo que a recebera. Era, portanto, necessário que o Verbo se tornasse possuidor de um corpo, para que nos livrasse da morte da corrupção natural. Pois se, como vós dizeis, Ele tivesse simplesmente por um aceno afastado de nós a morte, a morte, na verdade, não se nos teria aproximado por causa da expressão da Sua vontade; mas nem por isso deixaríamos de tornar-nos corruptíveis, visto que trazíamos em nós mesmos aquela corrupção natural.—Leôncio contra os eutiquianos, etc., livro ii.

XII.

Assim como é inerente a todos os corpos formados por Deus terem uma sombra, assim também é conveniente que Deus, que é justo, retribua àqueles que escolhem o bem, e àqueles que preferem o mal, a cada um segundo seus méritos.—Dos escritos de João de Damasco.

XIV.

Nem nunca a luz será trevas enquanto a luz existir, nem será a verdade das coisas que nos pertencem controvertida. Pois a verdade é aquilo do que nada é mais poderoso. Todo aquele que pudesse falar a verdade e não a fala será julgado por Deus.—Manuscrito e obras de João de Damasco.

XV.

E o fato de que não foi dito do sétimo dia, como dos outros dias, “E houve tarde e houve manhã”, é uma indicação distinta da consumação que há de ter lugar nele antes que seja terminado, como declaram os Padres, especialmente São Clemente, e Ireneu, e Justino, mártir e filósofo, o qual, comentando com suma sabedoria o número seis do sexto dia, afirma que a alma inteligente do homem e seus cinco sentidos suscetíveis foram as seis obras do sexto dia. Donde também, tendo discorrido longamente sobre o número seis, declara que todas as coisas que foram formadas por Deus se dividem em seis classes: a saber, em coisas inteligentes e imortais, como são os anjos; em coisas racionais e mortais, como a humanidade; em coisas sensitivas e irracionais, como os animais, as aves e os peixes; em coisas que podem avançar e mover-se e são insensíveis, como os ventos, as nuvens, as águas e os astros; em coisas que crescem e são imóveis, como as árvores; e em coisas que são insensíveis e imóveis, como os montes, a terra e semelhantes. Pois todas as criaturas de Deus, no céu e na terra, caem sob uma ou outra destas divisões e são por elas circunscritas.—Dos escritos de Anastácio.

XVI.

A sã doutrina não entra no coração endurecido e desobediente; mas, como que rechaçada, volta sobre si mesma.

XVII.

Como a saúde é o bem do corpo, assim o conhecimento é o bem da alma, que é verdadeiramente uma espécie de saúde da alma, pela qual se alcança a semelhança com Deus.—Dos escritos de João de Damasco.

XVIII.

Ceder e dar vazão às nossas paixões é a mais baixa escravidão, assim como dominá-las é a única liberdade.

O maior de todos os bens é estar livre do pecado; o segundo é ser justificado; mas deve ser tido por o mais infeliz dos homens aquele que, vivendo injustamente, permanece por longo tempo impune.

Os animais presos à canga não podem deixar de ser levados a um precipício pela inexperiência e maldade do seu condutor, assim como pela sua habilidade e excelência serão salvos.

O fim que contempla o filósofo é a semelhança com Deus, na medida em que isto é possível.—Dos escritos de Antônio Melissa.

Referência atual: São Justino Mártir, Escritos de São Justino Mártir, VIII, 5