Doutrina da Igreja

Catecismo Maior de São Pio X

São Pio X

Q701 – Q750

Q701

P. Quando há matéria grave? R. Há matéria grave quando se trata de algo notavelmente contrário à lei de Deus e da Igreja.

Q702

P. Quando é que há pleno conhecimento ao pecar? R. Há pleno conhecimento ao pecar quando se conhece perfeitamente que se está cometendo um grave mal.

Q703

P. Quando é que, no pecado, há o perfeito consentimento da vontade? R. Há, no pecado, o perfeito consentimento da vontade quando se quer fazer deliberadamente uma coisa, ainda que se reconheça ser pecaminosa.

Q704

P. Que diligência se deve empregar no exame de consciência? R. No exame de consciência deve-se empregar aquela diligência que se empregaria num negócio de grande importância.

Q705

P. Quanto tempo se deve empregar no exame? R. Deve-se empregar no exame de consciência mais ou menos tempo, conforme a necessidade, isto é, conforme o número e a qualidade dos pecados que gravam a consciência e conforme o tempo decorrido desde a última confissão bem feita.

Q706

P. Como se pode facilitar o exame para a confissão? R. Facilita-se o exame para a confissão fazendo-se cada noite o exame de consciência sobre as ações do dia.

Q707

P. O que é a dor dos pecados? R. A dor dos pecados consiste num desgosto e numa sincera detestação da ofensa feita a Deus.

Q708

P. De quantas espécies é a dor? R. A dor é de duas espécies: perfeita, ou seja, de contrição; e imperfeita, ou seja, de atrição.

Q709

P. Qual é a dor perfeita, ou de contrição? R. A dor perfeita é o desgosto de ter ofendido a Deus, por ser Ele infinitamente bom e digno, por Si mesmo, de ser amado.

Q710

P. Por que chamais perfeita a dor de contrição? R. Chamo perfeita a dor de contrição por duas razões: 1.º porque diz respeito exclusivamente à bondade de Deus, e não à nossa vantagem ou dano; 2.º porque nos faz obter imediatamente o perdão dos pecados, permanecendo, porém, a obrigação de nos confessarmos.

Q711

P. Logo, a contrição perfeita nos obtém o perdão dos pecados independentemente da confissão? R. A contrição perfeita não nos obtém o perdão dos pecados independentemente da confissão, porque sempre inclui a vontade de confessar-se.

Q712

P. Por que a dor perfeita, ou contrição, produz este efeito de nos restituir à graça de Deus? R. A dor perfeita, ou contrição, produz este efeito porque nasce da caridade, a qual não pode encontrar-se na alma juntamente com o pecado mortal.

Q713

P. Qual é a dor imperfeita ou atrição? R. A dor imperfeita ou atrição é aquela pela qual nos arrependemos de ter ofendido a Deus como sumo Juiz, isto é, pelo temor dos castigos merecidos nesta ou na outra vida, ou pela própria torpeza do pecado.

Q714

P. Que condições deve ter a dor para ser boa? R. A dor, para ser boa, deve ter quatro condições: deve ser interna, sobrenatural, suma e universal.

Q715

P. O que quer dizer que a dor deve ser interior? R. Quer dizer que deve estar no coração e na vontade, e não somente nas palavras.

Q716

P. Por que a dor deve ser interior? R. A dor deve ser interior porque a vontade, que se afastou de Deus pelo pecado, deve retornar a Deus detestando o pecado cometido.

Q717

P. O que quer dizer que a dor deve ser sobrenatural? R. Quer dizer que deve ser suscitada em nós pela graça do Senhor e concebida por motivos de fé.

Q718

P. Por que a dor deve ser sobrenatural? R. A dor deve ser sobrenatural porque sobrenatural é o fim a que se dirige, isto é, o perdão de Deus, a aquisição da graça santificante e o direito à glória eterna.

Q719

P. Explicai melhor a diferença entre a dor sobrenatural e a natural. R. Quem se arrepende por haver ofendido a Deus infinitamente bom e digno por Si mesmo de ser amado, por haver perdido o paraíso e merecido o inferno, ou ainda pela malícia intrínseca do pecado, tem uma dor sobrenatural, porque estes são motivos de fé: quem, ao contrário, se arrependesse somente pela desonra ou pelo castigo que lhe vem dos homens, ou por algum dano puramente temporal, teria uma dor natural, porque se arrependeria apenas por motivos humanos.

Q720

P. Por que deve a dor ser suma? R. A dor deve ser suma porque devemos considerar e odiar o pecado como o maior de todos os males, sendo ele ofensa de Deus, sumo Bem.

Q721

P. Para a dor dos pecados é talvez necessário chorar, como às vezes se chora pelas desgraças desta vida? R. Não é necessário que materialmente se chore pela dor dos pecados; basta que no coração se faça maior caso de ter ofendido a Deus do que de qualquer outra desgraça.

Q722

P. O que quer dizer que a dor deve ser universal? R. Quer dizer que deve estender-se a todos os pecados mortais cometidos.

Q723

P. Por que a dor deve estender-se a todos os pecados mortais cometidos? R. Porque quem não se arrepende nem sequer de um único pecado mortal permanece inimigo de Deus.

Q724

P. O que devemos fazer para ter a dor dos nossos pecados? R. Para ter a dor dos nossos pecados, devemos pedi-la de coração a Deus e suscitá-la em nós pela consideração do grande mal que fizemos ao pecar.

Q725

P. Como fareis para vos excitar a detestar os pecados? R. Para me excitar a detestar os pecados: 1.º considerarei o rigor da infinita justiça de Deus e a deformidade do pecado, que desfigurou minha alma e me tornou merecedor das penas eternas do inferno; 2.º considerarei que perdi a graça, a amizade, a filiação divina e a herança do paraíso; 3.º que ofendi meu Redentor, que morreu por mim, e que os meus pecados foram a causa de sua morte; 4.º que desprezei meu Criador, meu Deus; que lhe voltei as costas a Ele, meu sumo bem, digno de ser amado acima de todas as coisas e fielmente servido.

Q726

P. Devemos nós ser grandemente solícitos, quando vamos confessar-nos, de ter uma verdadeira dor dos nossos pecados? R. Quando vamos confessar-nos, devemos certamente ser muito solícitos de ter uma verdadeira dor dos nossos pecados, porque esta é a coisa mais importante de todas: e se falta a dor, a confissão não tem valor.

Q727

P. Quem se confessa apenas de pecados veniais deve ter o arrependimento de todos eles? R. Quem se confessa apenas de pecados veniais, para se confessar validamente basta que esteja arrependido de algum deles; mas para obter o perdão de todos é necessário que se arrependa de todos aqueles que reconhece ter cometido.

Q728

P. Quem se confessa somente de pecados veniais e não está arrependido nem de um só, faz uma boa confissão? R. Quem se confessa somente de pecados veniais e não está arrependido nem de um só, faz uma confissão de nenhum valor; a qual é, além disso, sacrílega, se a falta de dor é advertida.

Q729

P. O que convém fazer para tornar mais segura a confissão de só pecados veniais? R. Para tornar mais segura a confissão de só pecados veniais, é coisa prudente acusar, com verdadeira dor, também algum pecado mais grave da vida passada, ainda que já confessado outras vezes.

Q730

P. É boa coisa fazer com frequência o ato de contrição? R. É coisa boa e utilíssima fazer com frequência o ato de contrição, sobretudo antes de ir dormir e quando alguém percebe ou duvida ter caído em pecado mortal, para se recolocar o mais depressa possível em estado de graça; e aproveita acima de tudo para obter mais facilmente de Deus a graça de fazer semelhante ato no maior momento de necessidade, isto é, no perigo de morte.

Q731

P. Em que consiste o propósito? R. O propósito consiste numa vontade resoluta de nunca mais cometer o pecado e de usar todos os meios necessários para evitá-lo.

Q732

P. Quais condições deve ter o propósito para ser bom? R. O propósito, para que seja bom, deve ter principalmente três condições: deve ser absoluto, universal e eficaz.

Q733

P. O que quer dizer: propósito absoluto? R. Quer dizer que o propósito deve ser sem nenhuma condição de tempo, de lugar ou de pessoa.

Q734

P. O que significa: o propósito deve ser universal? R. O propósito deve ser universal quer dizer que devemos querer fugir de todos os pecados mortais, tanto os já cometidos outras vezes quanto outros que poderíamos cometer.

Q735

P. Que quer dizer: o propósito deve ser eficaz? R. O propósito deve ser eficaz quer dizer que é preciso ter uma vontade resoluta de perder antes tudo do que cometer um novo pecado, de fugir das ocasiões perigosas de pecar, de destruir os maus hábitos e de cumprir as obrigações contraídas em consequência dos nossos pecados.

Q736

P. O que se entende por hábito mau? R. Por hábito mau entende-se a disposição adquirida de cair com facilidade nos pecados aos quais nos habituamos.

Q737

P. O que se deve fazer para corrigir os maus hábitos? R. Para corrigir os maus hábitos, devemos estar vigilantes sobre nós mesmos, fazer muita oração, frequentar a confissão, ter um bom diretor espiritual estável e pôr em prática os conselhos e os remédios que ele nos propõe.

Q738

P. O que se entende por ocasiões perigosas de pecar? R. Por ocasiões perigosas de pecar entendem-se todas aquelas circunstâncias de tempo, de lugar, de pessoas ou de coisas que, por sua própria natureza ou pela nossa fragilidade, nos induzem a cometer o pecado.

Q739

P. Somos gravemente obrigados a evitar todas as ocasiões perigosas? R. Somos gravemente obrigados a evitar aquelas ocasiões perigosas que ordinariamente nos induzem a cometer pecado mortal, as quais se chamam ocasiões próximas do pecado.

Q740

P. O que deve fazer quem não pode fugir de alguma ocasião de pecado? R. Quem não pode fugir de alguma ocasião de pecado, deve dizê-lo ao confessor e seguir os conselhos dele.

Q741

P. Que considerações servem para fazer o propósito? R. Para fazer o propósito servem as mesmas considerações que valem para excitar a dor; isto é, a consideração dos motivos que temos para temer a justiça de Deus e para amar a sua bondade infinita.

Q742

P. Depois de vos terdes bem disposto à confissão pelo exame, pela dor e pelo propósito, que fareis? R. Depois de me ter bem disposto pelo exame, pela dor e pelo propósito, irei fazer ao confessor a acusação dos meus pecados para obter a absolvição.

Q743

P. De quais pecados somos obrigados a nos confessar? R. Somos obrigados a nos confessar de todos os pecados mortais; é bom, porém, confessar também os veniais.

Q744

P. Quais são as condições que deve ter a acusação dos pecados ou confissão? R. As condições principais que deve ter a acusação dos pecados são cinco: deve ser humilde, íntegra, sincera, prudente e breve.

Q745

P. Que quer dizer: a acusação deve ser humilde? R. A acusação deve ser humilde quer dizer que o penitente deve acusar-se diante do seu confessor, sem altivez de ânimo ou de palavras, mas com os sentimentos de um réu que reconhece a sua culpa e comparece diante do juiz.

Q746

P. O que significa: a acusação deve ser íntegra? R. A acusação deve ser íntegra significa que se devem manifestar, com suas circunstâncias e em seu número, todos os pecados mortais cometidos depois da última confissão bem feita e dos quais se tem consciência.

Q747

P. Quais circunstâncias se devem manifestar para que a acusação seja íntegra? R. Para que a acusação seja íntegra, devem-se manifestar as circunstâncias que mudam a espécie do pecado.

Q748

P. Quais são as circunstâncias que mudam a espécie do pecado? R. As circunstâncias que mudam a espécie do pecado são: 1.º aquelas pelas quais uma ação pecaminosa passa de venial a mortal; 2.º aquelas pelas quais uma ação pecaminosa contém a malícia de dois ou mais pecados mortais.

Q749

P. Dai-me um exemplo de uma circunstância que faça tornar mortal um pecado venial. R. Quem, para se desculpar, dissesse uma mentira da qual viesse grave dano ao próximo, deveria manifestar essa circunstância que transforma a mentira de oficiosa em gravemente prejudicial.

Q750

P. Dai-me agora o exemplo de uma circunstância pela qual uma mesma ação pecaminosa contém a malícia de dois ou mais pecados. R. Quem tivesse roubado uma coisa sagrada deveria acusar esta circunstância, que acrescenta ao furto a malícia do sacrilégio.

Referência atual: Q701